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"A ocasião não faz o ladrão, a ocasião revela-o"


Vou falar do aspecto patológico do caráter psicopático e do narcísico, já que de algum modo, temos um pouco de cada um deles. Por exemplo: quem nunca burlou algumas regras, como sonegar impostos, estacionar num lugar proibido, ou contar alguma mentira? Isso seria considerado um certo grau de psicopatia se essas ações forem realizadas sem culpa. No entanto, o que prevalece na personalidade de pessoas "normais" é o senso ético, a moral e a culpa real quando causamos um dano a alguém. Quanto ao narcisismo, de forma resumida, quer dizer uma forte admiração e idealização de si mesmo. Um pouco de narcisismo faz bem ao indivíduo, mas em excesso o faz arrogante e intragável.
 
Agora vou me ater ao aspecto patológico da doença. Comecemos pela psicopatia. Convivemos com pessoas que para conseguir o que querem apresentam-se inicialmente suaves e agradáveis. Geralmente são impulsivas e passionais. Te enchem de elogios, demonstram um interesse assustador por você. Bom, infelizmente as vítimas são escolhidas de modo cuidadoso e premeditado, pois os psicopatas esperam o momento adequado para agir. Quando identificam uma fragilidade no alvo, encontram a oportunidade. Quando falo fragilidade, quero dizer uma falta de percepção momentânea na vida, período onde você pode estar desatento, com seu radar falhando, devido a uma grande frustração; um desejo muito grande de encontrar a felicidade a qualquer preço e de modo mágico. Observando de modo perspicaz essa circunstância, o oportunista - aproveitando-se do momento de cegueira da vítima -explora a situação para gozar - sozinho é claro - e, esse gozar é com o prazer próprio e de preferência com sadismo. O conflito do desgraçado repousa entre o sadismo e a destruição, ou seja, não sabe se mata devagar ou de uma vez. Isso traz dores violentas na alma, adoecendo por vezes até o corpo.
 
A personalidade psicopática tem características claras. Entretanto, os psicopatas enganam e representam situações de forma muito bem articulada, passando despercebidos aos olhos dos pares e da sociedade. Os oportunistas que desenvolvem esse comportamento são desprovidos de culpa, remorso, sensibilidade e senso de responsabilidade ética; são pessoas de todos os extratos culturais e sociais, homens e mulheres que estão infiltrados nos mais diversos contextos. Mentem de forma descarada e desmedida. São lixos humanos. Se tem algo que não tem jeito, são esses sanguessugas, que funcionam como parasitas incapazes de dar qualquer coisa, apenas sugam, como vampiros, a vida e energia de suas vítimas.
 
Os psicopatas possuem níveis de gravidade: leve, moderado e grave. Podem praticar desde atos menos danosos, pequenos golpes ou roubos, até terem um perfil que utiliza métodos mais brutais e violentos, podendo cometer crimes hediondos de alta complexidade. São no fundo criminosos.
 
No âmbito amoroso, são vendedores de ilusões, fazem promessas interessantíssimas. Como se fosse a oportunidade de sua vida. No entanto, obviamente jamais serão cumpridas. Promessas que sempre vão se alongando no prazo. Enquanto o prometido não é cumprido, o psicopata vai se aproveitando do iludido. E acredite, meticulosamente o sujeito vai distribuindo migalhas que alimentam a esperança. Fuja desse tipo de gente! Jamais acredite em palavras, mas em atitudes. Nem tente "dar o nó no diabo", assim como no mito de Mefisto e Fausto na obra de Marlowe e Goethe. Fausto, seduzido pelos prazeres ilusórios oferecidos por Mefisto, o diabo, faz um pacto complexo e maligno, imaginando que convenceria Mefisto ao final. Perdeu tudo, até a alma. Você pode, como Fausto, perder tudo de "valor" que tem em sua vida. Com um sujeito como esse, você vai perder, pois este não possui senso moral, irá ludibriá-lo com facilidade. Estou cansada de ouvir: "Por que ele me fez isso? Eu não entendo. Eu sempre dei meu melhor e ele me parecia tão sincero!". Tudo foi apenas manipulação, balela, oportunismo com intuito de usufruir de algumas vantagens sem grandes esforços. E quanto mais fácil e barato, melhor.
 
Sujeitos com tendência psicopática possuem uma deficiência significante na capacidade de empatia, isto é, não têm capacidade de se colocar no lugar do outro; são indiferentes aos sentimentos e sofrimentos de outrem, não se sentem constrangidos ao mentir e não sentem nenhum remorso ao serem desmascarados. Quando me perguntam: Tem cura? Respondo, com certeza: Não tem cura!
 
Outro transtorno interessante para comentarmos é o de personalidade narcisista. São indivíduos que superestimam suas qualidades em detrimento dos demais. Claro que exageram suas realizações; os narcisistas são arrogantes, presunçosos. Eles supervalorizam seus feitos e se surpreendem quando não recebem o louvor que esperam e julgam merecer. Uma pessoa com transtorno narcísico de personalidade julga-se especial e acima dos demais, de modo que, exige ser tratado de modo especial. Geralmente exige admiração excessiva; solicita constante atenção. Sua autoestima é quase invariavelmente muito frágil. Ou seja, se não for o melhor, vai para o outro extremo, deprime-se porque sua autoestima habitualmente megalomaníaca vai a zero. Tenta, deste modo, chamar a atenção sobre si, e, se o "pavão" não se sobressair, fica decepcionado.
 
Esses sentimentos de supervalorização, somados com a falta de empatia, podem resultar na exploração consciente ou inconsciente dos outros. São pessoas concretas com falta de capacidade subjetiva. Possuem frieza emocional e falta de interesse no outro. Imaginam que são invejados.
 
A diferença entre o transtorno de personalidade antissocial - psicopatia - e a narcísica são as seguintes: no primeiro podem não necessitar tanto de admiração e inveja dos outros, já o segundo (narcísico) não inclui impulsividade, agressividade e engodo.
 
Na psicopatia não há culpa, apenas desculpas. De modo que não haverá mudanças na personalidade do indivíduo.
 
Coincidem as duas patologias na insensibilidade, superficialidade, ambos são exploradores e não empáticos. A dica é: fuja de gente assim!
 
O oportunista espera a ocasião como um lobo à espreita. O sujeito íntegro não usa como critério para suas atitudes as situações externas, mas as internas. Bom, agora podemos voltar ao título - como diz a releitura de um antigo ditado: "A ocasião não faz o ladrão, revela-o!"
 
 
Angela Gebara é psicóloga e professora-doutora de pós graduação na Universidade Paulista - Unip
 



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