ARTIGOS

Tolerol - A Pílula


Não havia sequer uma poltrona vazia. Entre os que lotavam o auditório estavam em grande número repórteres, alguns vindos de outros países. Câmeras apontavam para o palco, burburinho geral e um certo frenesi girava no ar. Era o aguardado lançamento de um revolucionário medicamento: Tolerol. O pessoal do marketing da empresa se esmerara e a diretoria não poupara recursos para o grande evento.
 
A música tema do filme Piratas do Caribe ecoou forte e trouxe mais densidade ao momento. Luzes piscaram e pareciam hipnotizar a todos. Surge então ao centro do palco o presidente da companhia envolto em nuvens de fumaça. A música parou e o holofote deu vivacidade ao grande homem, que em voz impostada começou:
 
-- Há alguns anos iniciamos este mega projeto. Naquela época tentávamos prever quais seriam as principais doenças que afligiriam a humanidade. Nossos centros de pesquisas apontaram para algo surpreendente: não seria uma doença endógena, ou seja, relativa ao corpo, mas sim do comportamento humano - o presidente discursava num tom cerimonial e pausadamente.
 
E continuou:
 
-- Muito se falava na época que o individualismo, o imediatismo e o consumo exacerbado seriam cruéis para o futuro, mas descobrimos algo inusitado: o grande mal seria outro. Então investimos pesado para desenvolver este medicamento.
 
O holofote e todas as luzes do auditório se apagam. Suspense.
 
-- Vivemos a era da intolerância! - brada o presidente, ao mesmo instante que pisca no grande telão a foto de uma pílula em forma de um coraçãozinho verde estilizado, e ele declara em tom de confiança:
 
-- Eis a solução definitiva: O Tolerol - ouviram-se infinitos "ohs!" pela plateia.
 
-- Basta uma drágea pela manhã, o indivíduo irá suportar toda e qualquer frustração, esta fonte inesgotável de infelicidade, e jamais reagirá com ódio frente às infinitas situações cotidianas em que as coisas acontecem ao contrário do que se deseja ou se imagina ser a melhor ou mais correta - "ohs!" e assobios por todos os lados.
 
-- Presidente! - uma ousada voz vinda do fundo do salão interrompe a apresentação - Isto não seria perigoso, pois não estaríamos transferindo a responsabilidade de nossos atos a uma droga?
 
-- Em nosso portfólio temos pílulas para tristezas, ansiedades, medos entre outras e reconhecidas como benéficas - respondeu o presidente resoluto.
 
-- E a razão? - novamente a mesma voz.
 
-- A razão? A razão foi pro saco, ou melhor... me desculpem..., a razão falhou, não deu conta! - respondeu o presidente, agora com semblante contrariado, e continua - e para nós da indústria pouco importa os motivos quais a razão não consegue controlar as emoções. Mais importante é que Tolerol o fará! - comoção geral, gritos e assobios.
 
-- E como vocês chegaram à conclusão desta eficácia? - perguntou, ressabiado um senhor de colete cinza.
 
O presidente tentando se controlar responde:
 
-- Ora meu caro, testando! Eu mesmo venho tomando diariamente uma dose do Tolerol e posso lhe afiançar que ela funciona mesmo!
 
-- Mas não é que parece - agora era uma desafiadora voz feminina - o senhor está visivelmente irritado.
 
O momento torna-se tenso.
 
-- Não seria o caso de tanto dinheiro ser gasto em educação e conscientização, pois a base de tudo, a essência, é o saber - e não deu para identificar quem fez tal pergunta, mas ela teve um efeito inimaginável, pois o presidente pegou uma cadeira que estava ao seu lado, e num ato impensado a atirou sobre a plateia. Os seguranças tiveram que rebolar para conter a ira de todos. O estrago foi grande.
 
Bem, nem é preciso dizer que o Tolerol nunca foi lançado.
 
Mas preciso é clarear ideias túrbidas e perversas, onde consentir a existência do outro diferentemente do que se idealiza, refere-se, imageticamente, à própria morte e, para que isto não ocorra, tais diferenças devem ser anuladas. Assim seguimos nos atracando, destruindo... nos matando! Nada mais tosco!
 
Suportar a frustração das diferenças é caminho seguro para a felicidade. É ato maior da civilidade, e por enquanto, ainda nos enquadramos na classe de humanos e civilizados.
 
José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br
 



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