ARTIGOS

Mirinho


José Milton Castan Jr.
 
-- Fechado! Então nos encontramos amanhã cedo - e foi assim que Mirinho, por telefone concretizou a compra.
 
Mirinho, há de se anotar, não era muito afeito às convencionalidades, pouco se pautava pelas normas ou como se diz, pelas convenções sociais. Dito assim pode parecer num primeiro olhar uma pessoa desprendida, que não se deixa afetar e tem grandeza de caráter. Não! E quero aqui, desde pronto, consignar que Mirinho não apenas é considerado um deslocado social (para não usar a palavra marginal em respeito à sua mãe - D. Zezé e amiga de minha mãe), mas também reconhecido com enorme qualidade: é bom de papo!
 
Faço essa introdução para que o leitor amigo tenha em mente que Mirinho é o típico malandro, aquele estereotipo do bom malandro carioca que não trabalha, aliás, até onde sei ele é carioca mesmo, e vive arranjando meios para se dar bem. Há tempos venho com a ideia fixa de trazer aqui para este espaço quinzenal o meu "amigo" Mirinho (não prossiga sem registrar as aspas - por favor!), e ah... como tenho histórias desse velhaco que nunca me enganou - ou quase nunca, mas essa fica pra outro dia.
 
Mirinho olhou para a tela toda rachada do seu celular e deu aquela risadinha costumeira. Sabia que amanhã pela manhã iria aposentar seu celular meia boca, e finalmente entraria no seleto grupo dos possuidores de um iPhone, usado sim, mas iPhone. Negociara bem, e do valor inicial que era mil reais conseguiu fechar por seiscentos.
 
E no outro dia cedo, depois das formalidades já estava com seu iPhone, e com garantias de procedência. Sei lá!
 
Não demorou muito para Mirinho perceber que seu quase novo iPhone não segurava carga, e de hora em hora tinha que conectar o carregador. Ficou, digamos, elegantemente enraivecido. Tentou contato com o vendedor, e óbvio sem chance, pois encontrara o camarada pela internet. Mas malandro que é malandro não se deixa abater, pois suas habilidades superam as dificuldades. Mirinho deu um google, e já sabia como resolver.
 
Três dias fora, e recebeu pelo correio uma caixinha com a bateria nova (claro, não original), uma chave de fenda especial e as instruções para trocar a danada. Operação realizada. E como nada está tão ruim que não possa piorar, ao tentar ligar o iPhone um ponto de exclamação amarelo e preto estancou no meio da tela. Tentou de tudo: desligou, religou; tirou a bateria e montou novamente; recolocou a bateria velha...
 
Levou o celular numa assistência tipo "consertamos todos os tipos de celulares - com ou sem fio", contou uma estória bem diferente: falou que sem motivos apareceu o ponto de exclamação. Voltou no outro dia. O veredito foi morte súbita - verdade foi assim mesmo que o atendente falou.
 
Mirinho não se deu por vencido. Outra assistência de igual qualidade. O veredito agora era a placa mãe queimada sem conserto, e foi orientado vender as peças do celular, assim minimizaria o "preju".
 
Se tem algo imperdoável na vida de um malandro é ele mesmo ser vítima de uma malandragem, e por isso mesmo Mirinho ficou umas duas semanas remoendo. Como não tinha o que fazer reativou o velho celular da tela rachada e esqueceu o iPhone no fundo de sua mochila. Passam-se mais uns dias e Mirinho dá-se por vencido: pega o moribundo iPhone da mochila, aponta-o para a parede e quando ia raivosamente acabando de vez com a pendenga, eis que resolve espetá-lo pela última vez na tomada. Coisa inexplicável. E inexplicável foi sua surpresa quando não apareceu o ponto de interrogação, e voltou a tela normal. Ele tocava na tela que mudava, mas agora era o botão do meio que não funcionava. Mirinho resolve fazer a coisa direito (se é que isso é possível em se tratando de Mirinho) e leva o iPhone numa autorizada. Explica como se nada houvesse acontecido e que apenas o botão repentinamente parara de funcionar.
 
No outro dia volta à loja meio ressabiado, e a atendente fala:
 
-- Seu Altamirando (Mirinho é apelido, claro) seu celular não tem conserto!
 
Eu deveria aqui, caro leitor, ficar feliz e dar um "bem feito", mas em se tratando de Mirinho...
 
E a atendente finaliza toda serelepe:
 
-- Eis aqui seu novo iPhone, a empresa trocou o defeituoso.
 
José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br
 



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