ARTIGOS

Bolinha de pingue-pongue vermelha


José Milton Castan Jr.
Olhei para a tela do celular que piscava: era meu amigo Seu Malaquias. Imediatamente lembrei-me que havia prometido ir visitá-lo, pois desde que ele voltara de suas férias ainda não tínhamos nos encontrado. Atendi. Justificativas cá, desculpas lá e Seu Malaquias me brinda com um puxão de costeleta (que dói mais do que puxão de orelhas):
-- Não estou te cobrando a visita prometida não, é coisa outra.
-- O que acontece Seu Malaquias? - perguntei um tanto receoso.
-- São suas últimas crônicas.
-- E o que tem?
-- Estão um tanto pesarosas! - falou meio "pesaroso"
Prometi pensar. Desliguei o telefone emburrado. Passei pela memória as mais recentes, e de fato Seu Malaquias (mais uma vez) tinha razão. Reflexos da atualidade, justifiquei aliviando minha barra.
Atendendo meu amigo (e claro, ao amigo leitor) segue uma crônica desprovida de peso, pelo menos pra vocês. No final dá para entender:
Domingo, almoço de aniversário do Rafinha, filho de casal de amigos muito queridos. Sabe como é que é: aniversário de criança (Rafinha completava oito anos) tem criança e bagunça. A molecada corria em volta da piscina, e passava gritando pelas mesas delicadamente decoradas. Espetei um rondelli de queijo e no exato momento que ia dar a primeira abocanhada, recebi um golpe pelas costas! Nossos olhares já haviam se cruzado antes, e eu de pronto havia botado reparo naquele piolhinho: devia ser amigo de escola do Rafinha, pois o atentado também devia ter uns oito anos, magrinho, descalço só de bermuda, topete tipo moicano e olhos afiados que pareciam ter alcance acima do normal.
Parou bem à minha frente, e nem tive tempo de engolir o rondelli que tentava mastigar, pois o piolhinho me atirou uma bola vermelha. Adoro festa de criança. Resolvi me vingar:
-- Você conhece a história da bolinha de pingue-pongue vermelha? - perguntei com um leve sorriso. Por sorte não saiu correndo:
-- "Num" conheço não! - e cruzou os braços. Então caprichei:
Era festa de aniversário de três anos de um garotinho. Seu pai havia comprado um carrinho elétrico, e quando o garotinho desembrulhou o presente, começou a chorar dizendo que queria ganhar uma bolinha de pingue-pongue vermelha. O pai teve que sair e comprar a tal bolinha. Passa-se um ano e nova festa de aniversário, o garotinho ganha um tico tico, mas novamente recusa o presente, queria mesmo outra bolinha de pingue-pongue vermelha. Era agora festa de aniversário de cinco anos, o garotinho se adianta e pede ao pai, não outro presente, senão a bolinha de pingue-pongue vermelha.
(Reparei que o piolhinho tava meio desconfiado, me esmerei na teatralização. Empostei a voz e continuei):
Festa de aniversário de seis anos. O que ele queria ganhar? Certo, bolinha de pingue-pongue vermelha. Sete..., oito anos: bolinha de pingue-pongue vermelha.
Bem, não quero aqui cansar o amigo leitor, pois a ideia da brincadeira é ir contando bem detalhadamente aniversário por aniversário e todos terminam numa bolinha de pingue-pongue vermelha. Continuei: Na festa de aniversário de dezoito anos o garotinho, ou melhor, garotão, ganha de presente um carro, e claro, em cima do painel havia uma bolinha de pingue-pongue vermelha. Mas eis que no final da festa o garotão sai com seu carro novo à milhão, e se acidenta feio. O pai vai correndo ao hospital e encontra seu filho moribundo (quando cheguei neste ponto o piolhinho estava totalmente tomado pela minha história). O pai desesperado percebe que seu filho ia morrer e pergunta: meu filho me responda, por favor, nunca entendi pra que tantas bolinhas de pingue-pongue vermelhas, (o final vem agora e, é o melhor) e num último suspiro o garoto fala: papai queria... queria as bolinhas de pingue-pongue vermelhas pra...., (então falo num tom de revide ao soco nas costas) o garoto morre!
Faço uma cara irônica e o piolhinho de topete fica me encarando... encarando. Saiu correndo, e eu me vinguei. Mas ele voltou rapidinho com um amiguinho:
-- Ô tio conta pra ele!
E lá se foram mais uns dez minutos.
Daqui a pouco com outro amiguinho: - Conta pra ele também! Contei.
Apareceu com mais um..., foi aí que entendi: o piolhinho tava é me sacaneando!
José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br



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