ARTIGOS

Será que vai chover?


Cinco e quinze da manhã toca o despertador. Tales que já estava acordado, apenas tem o trabalho de desligá-lo. Aliás, não precisava de despertador, pois ou pela rotina, ou por sua constante preocupação, a esta hora sempre estava desperto. Sua esposa dormia. Levantou-se e foi logo até janela da sala, afastou a cortina e olhou para o céu, não que realmente precisasse procurar nuvens para saber sobre o tempo, pois essa era a sua profissão e dali a hora e pouco estaria em sua mesa na estação meteorológica, mas naquele dia sua previsão não poderia falhar.
Preparou o café, se arrumou e quando Tales escutou a buzina em frente de casa, já estava pela porta de saída. Entrou na van com usual bom dia, e seguiu para a estação. Não dava atenção ao trajeto, pois seus pensamentos seguiam à frente. A estação meteorológica ficava ao alto de uma série de montanhas, tendo uma paisagem excepcionalmente bonita. Mas suas preocupações forçavam pensar no trabalho daquele dia, e havia motivos, vez que os dados do dia anterior não eram precisos, sendo que a previsão estava bem comprometida e mais, não demoraria seu telefone iria tocar com uma cobrança. Cabe aqui uma explicação:
Duas semanas antes um importante assessor do governador, aliás, um sujeito viscoso, o havia procurado querendo saber sobre previsão de chuvas para próxima semana. Tales havia imaginado que a preocupação do assessor e do governador era com a longa estiagem. Descobriu que não exatamente.
Estava tão absorto nestes pensamentos, e nem se deu conta que havia chegado à estação. Desceu da van, seguiu diretamente para sua sala. Ligou o computador e suas preocupações se tornaram realidade: nenhum dado disponível, sem imagens dos satélites, os dados das outras estações chegavam aos poucos e pior, o programa que integrava todas as informações havia travado. Chamou seu assistente que fuçou... fuçou e nada. Tentou ligar para outra estação, sem chance. Pensou no assessor do governador e sentiu uma agulhada no coração, que acelerou mais um tanto quando tocou o telefone:
-- Tales bom dia, é Erivaldo.
O tal assessor. Tales preocupado responde:
-- Senhor Erivaldo não tenho boas notícias.
-- Não vai chover? - pergunta Erivaldo irritado.
-- É o que não consigo responder! - e Tales escuta um palavrão do outro lado da linha.
-- Tales eu te falei: o governador fará uma coletiva hoje à tarde sobre as represas, e a estratégia do nosso pessoal foi fazer o governador falar num dia que estivesse chovendo, e isso amenizaria o impacto das más notícias. Você me garantiu que hoje iria chover!
-- Não garanti, apenas previ... - Tales não pode terminar, pois outro palavrão e um silêncio perturbador.
Ventos impetuosos começaram a soprar, mas não lá fora, e sim na cabeça de Tales. E aqui cabe uma segunda explicação:
Tales por sua própria natureza era um cara preocupado, e o que bem fazia era procurar antecipar problemas, assim imaginava ter mais chance de superá-los, se bem que nos últimos tempos suas preocupações e antecipações tornaram-se um tanto compulsivas. Essa coisa de "carpe diem", ou seja, viva o momento, aproveite o aqui agora não era para ele. Levantava, almoçava, dormia e vivia prevendo problemas e mais problemas.
E de tão bom em prever, que ao tocar novamente o telefone já sabia: era o governador.
Tentou dar algumas explicações. Não teve tempo, pois a voz do governador soava como um trovão, e assim num instante, foi transportado para um passado e aquela voz grave o fez lembrar-se de sua infância, num dia que tentava mais uma vez, explicar algo ao seu intolerante pai. Começou a transpirar, respiração ofegante e coração a mil. Desmaiou!
Voltou a si escutando alguém falar em levá-lo para o hospital. Agradeceu dizendo que iria para casa. Saiu andando e já na estrada pode apreciar a beleza do lugar. Uma brisa suave ajudava a caminhar. Voltou os olhos para trás e viu a estação: prever o tempo tinha sido sua vida. Iria agora viver o tempo.
José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br



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