ARTIGOS

Ah... essas doces mulheres!


O dia corria tenso.
 
Em seu departamento Almeida era responsável pela contabilidade, e os doze colaboradores não falavam de outra coisa, pois certo que o facão faria novas vítimas, ou seja, os cortes de custos não haviam terminado, e novas demissões eram esperadas. A empresa passava por muitas dificuldades: mercado retraído, contratos perdidos, filiais dando prejuízos e falavam da tal amante do Dr. Guimarães, o patrão.
 
Carece falar aqui sobre o Almeida: Seu nome quase que decreta sua pessoa: magro, meio careca, sempre alinhado e óculos redondos. Em sete anos faltou apenas uma vez ao trabalho, e mesmo que a gastrite insistisse, ele religiosamente batia, ou melhor, passava o cartão, agora eletrônico. Guardava todos os comprovantes. Era chefe querido, pois há muito tempo, bem antes dessas neo teorias de relacionamentos corporativos humanizados, ele já exercitava uma liderança afetiva.
 
Sexta-feira quatro da tarde. Todos pararam de trabalhar e esperavam o telefone do Almeida tocar. Quando ele desligasse, pois havia sido assim nas últimas semanas, precisaria de nenhuma palavra, apenas olhar em direção a um deles, e a sentença estaria dada. Mas aquela seria uma sexta-feira diferente.
 
Passava das quatro e meia, e o telefone não tocou. Porém o próprio Dr. Guimarães adentrou pela sala, o olhar agora era em direção ao próprio Almeida. Dr. Guimarães solicitou que o acompanhasse.
 
Havia se passado quase três meses e Almeida ainda martela esta cena do Dr. Guimarães entrando em sua sala, como se tivesse acontecido agora mesmo. Sentado no sofá em casa relembra os bons tempos de empresa, mas acha que sua demissão não havia sido justa, pois o Dr. Guimarães insinuou algo sobre sua maneira de liderar.
 
E de lá para cá a coisa não ia bem:
 
Bateu o carro no dia da rescisão, andava muito desatento. Ligou para seus contatos, enviou currículo e nenhuma entrevista, achava que sua idade era problema. Dona Neizinha, sua esposa, sempre dando força: "calma, vai passar e logo você encontra outro emprego".
 
Para melhorar o seu estado de humor e passar o tempo, começou caminhar todo dia cedo, até que no terceiro dia um cachorro invocou com ele, e se não fosse aquele muro teria uma bela dentada na perna, porém o pior foi escutar seu vizinho gritar: "Almeida desce daí!". Almeida interpretou como um "vai trabalhar vagabundo".
 
Bastava o telefone tocar e seu coração mostrava força. Talvez fosse resultado de tantas ligações problemas que recebia na empresa. Domingo à noite Almeida era um borocoxô só. Dona Neizinha então prediz:
 
- Estou certa que amanhã você vai arrumar emprego!
 
- E eu certo que preciso de algo mais real do que apenas presunções - fala o desacreditado Almeida.
 
Desolado vai tomar banho. Dona Neizinha invade o banheiro com um pote de plástico. Entrega ao Almeida e pede que encha de água. Almeida pergunta o que tem dentro. Ela responde com uma orientação: espere o sal grosso se dissolver. Dá instruções de como fazer, e enfatiza para não jogar na cabeça. Almeida cético tripudia:
 
- Qué isso mulher! Não acredito nestas crendices, você tem cada uma!
 
Especial amigo leitor: ah! essas doces mulheres, como duvidar de suas intuições? Penso que além do fantástico dom de conceber a vida, têm algo de divino, transcendental e metafísico. Como se explica, por exemplo, que distinguem se seu bebê chora de fome ou de dor de barriga? Valem da sua intuição. Não há o que questionar, apenas aceitar.
 
Almeida continua:
 
- Neizinha me fala uma coisa: como que um punhado de sal grosso pode me arranjar um emprego?
 
Candidamente ela responde:
 
- Basta você acreditar!
 
E Almeida acreditou. No dia seguinte levantou, não foi caminhar, mas saiu cheio de esperanças.
 
Voltou à tarde. Já não era mais um desempregado.
 
Ah... essas doces mulheres e suas intuições.
 
Podem acreditar!
 
José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br
 



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