ARTIGOS

A presidenta nota dez


Era meu segundo ano da faculdade. Dia de prova. O professor, bem me lembro seu nome: Agarb. Baixinho, gordinho, e quando escrevia na lousa, ao se virar para a sala, rodava sobre um dos calcanhares, e daí fica fácil entender seu apelido: disco voador. Era uma figura.
 
Uma vez um colega chegou com essa na sala de aula:
 
-- Vocês sabem qual o significado de Agarb?
 
Claro ninguém sabia.
 
-- Braga, ao contrário!
 
E como nós demos risadas.
 
Prof. Agarb ao mesmo tempo em que ditava, de cabeça, as perguntas da prova, ia anotando-as numa folha avulsa de prova. E enquanto fritávamos os miolos, ele preparava o gabarito.
 
Semana fora, e prof. Agarb entra na sala com o calhamaço de provas corrigidas. As coloca sobre uma carteira, e avançamos febrilmente para encontrarmos a nossa prova e a nota. Eis que de repente entre as provas surge uma, e no lugar do nome do aluno aparecia "Gabarito". Aquele mesmo que ele havia preparado durante a prova, e para nossa surpresa a nota do gabarito dele era oito! Foi uma gozação. Ainda dou risadas quando me lembro disso. E estava a rir enquanto contava essa história ao seu Malaquias, sentados num banco da pista de caminhada do Campolim. Mas com meu amigo por perto não dá para ficar sentado confortavelmente, e ele me pergunta:
 
-- E que nota você... Daria à nossa presidenta Dilma?
 
E isso me desconcertou, pois pensei que ele iria perguntar que nota havia tirado na prova. Iniciei a responder:
 
-- Bem... Eu daria... Sabe, eu acho... Mas não consegui continuar, pois seu Malaquias, que até então olhava para o vazio à sua frente, lentamente foi girando sua cabeça e olhos, buscando os meus, e naquele momento em que se encontram, ah... Vocês já sabem: lá vem bordoada.
 
-- Percebe que esse é o problema? -- me pergunta resoluto. E eu meio desajeitado respondo:
 
-- Não, acho que não!
 
-- O problema são os seus "achos" e agora os olhos de seu Malaquias me cravejam de incertezas, mas ele continua seguro:
 
-- Você, meu caro, não tem um gabarito. E para o seu professor lhe dar a sua nota, bastava comparar a sua prova com o gabarito dele.
 
Enchi-me de esperança, e em minha defesa falei:
 
-- Mas seu Malaquias, o gabarito dele tinha nota oito. Gabaritos deveriam ter nota dez!
 
Mas seu Malaquias não se abala frente minhas suposições:
 
-- A verdade é que não temos o gabarito da presidenta nota dez, pois se o tivéssemos, ou seja, se não ficássemos na base do "eu acho" ou "penso que", bastaria comparar o gabarito nota dez com a gestão da nossa atual presidenta, e assim poderíamos falar em ótimo, bom, ruim ou péssimo.
 
-- E qual seria o gabarito da presidenta nota dez? -- arrisquei perguntar, com um sentimentozinho de deixar seu Malaquias em apuros, mas ele...:
 
-- Aquele que nos possibilite o bem viver!
 
-- Mas aí cada um teria o seu gabarito -- falei um tanto imperioso.
 
-- Engano seu. Eu disse "que nos possibilite", e não "que me possibilite".
 
Fui vencido, e querendo melhorar minha situação, assenti:
 
-- Mas a Constituição Federal é para isso.
 
-- Sim, e ela foi elaborada a partir de uma ampla discussão, mas ainda assim falta algo.
 
-- O gabarito! -- falei, agora com a recém-formada convicção.
 
E seu Malaquias completa:
 
-- Não há dúvidas, o que fazemos é pela intuição, e a intuição é algo muito precioso, pois ela sempre poderá nos oferecer um atalho para chegarmos aos mesmos lugares que a razão nos levaria, à custa de muito pensar. Porém também constitui um perigo, pois a intuição pode ser conduzida e manipulada pela emoção, e neste caso a razão, ou melhor, o gabarito seria o salvo- conduto para uma avaliação lógica e insensível ao espírito desta época.
 
E finaliza:
 
-- Não tenho o gabarito nota dez, portanto não posso dar nota, ou como queira, julgar a gestão dela. Mas se há algo nefasto, medonho mesmo, e que se agrilhoa ao atual poder, é encontrarmos a cruel realidade que existam pessoas que abriram mão do gabarito da honestidade e idoneidade, que pularam e se afundam no lamaçal fétido da inescrupulosidade e imoralidade, e apenas por um punhado de dinheiro, o qual pode comprar quase que infinitas coisas, inclusive uma alça dourada de caixão.
 
Nossa..., pensei, seu Malaquias tava atacado hoje. Achei melhor encerrar o assunto.
 
José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br
 

OCULTAR COMENTÁRIOS

comments powered by Disqus