ARTIGOS

Um causo fantasmagórico!


Domingo passado estávamos em casa almoçando, e tínhamos como visita seu Malaquias e sua esposa d. Maria Helena. Muito bonitinho de ver como eles se dão bem, e seu Malaquias nem de longe aparenta ser seu Malaquias com d. Maria Helena. Sabe aquelas famosas biscoitadas que ele sempre me arranja em nossas conversas? Pois é, nem de longe!
 
Tradicional lasanha quatro queijos da d. Ana à mesa, conversa descontraída, e seu Malaquias animadamente nos conta a seguinte história:
 
Seu Lito, alfaiate da interiorana cidade de Suturna, recebe encomenda nada comum. Paçoca, Bilu, Zóinho e o Teo da Lu estão parados em pé, enquanto Seu Lito, meio ressabiado, ia tirando as medidas de cada um.
 
-- Olha aqui ô molecada, não quero confusão pro meu lado, ou vocês me falam pra que estas vestes de fantasmas, ou não vou cerzir nem uma prega!
 
-- Sabe o que é, seu Lito -- ia falando Zóinho, quando Paçoca interrompe e fala:
 
-- É pro baile de fantasias!
 
-- Aqui em Suturna?
 
-- Isso... Seu Lito, mas ainda faltam uns dias... -- completava o matreiro Paçoca.
 
Medidas anotadas, preço acertado, e lá se foram os meninos cheios de risadinhas.
 
Seu Lito, mais experto do que boca de tocador de gaita, ficou com aquilo a lhe roçar os cornos. Sabia que os moleques estavam aprontando. Dias depois manda chamar Zóinho, com a desculpa de ajustar a fantasia, e encosta o moleque na parede:
 
-- Ô ô... Zóinho, ou você dá com a língua nos dente ou já sabe! Fale logo: pra que as roupas de fantasma?
 
E Zóinho entregou a rapadura:
 
-- Seu Lito, eu falo, mas pelo amor aos santos das cerzideiras, num conta nada pros moleque -- falava Zóinho com aquele olho torto mirando a porta de entrada; -- a ideia foi do Paçoca: é que o Bentinho, sabe o Bentinho filho do seu Dirceu da mercearia, pois é, ele tá namorando a Zoraide, aquela que mora lá no bairro do Tucura, logo depois do cemitério, e sábado à noite quando o Bentinho estiver voltando da corte com Zoraide, vamos lhe pregar uma boa. "Taremo" escondido atrás do muro do cemitério, e quando ele passar, vai tomar um susto com quatro fantasmas correndo atrás dele gritando... huhuhuuu...
 
Seu Lito dispensou Zóinho, jurando nada contar aos outros piolhos.
 
Mas seu Lito não fez quatro fantasias. Fez cinco. E presenteou Bentinho com a quinta fantasia, juntamente com o plano dos moleques, e ainda, deu umas sugestões para Bentinho.
 
É chegado o dia, ou melhor, a noite: Paçoca, Bilu, Zóinho e o Teo da Lu, devidamente enfantasmados, aguardavam de tocaia atrás do muro do cemitério o retorno de Bentinho.
 
-- Mas cadê o almofadinha do Bentinho, já era pra ter voltado -- falou o Bilu.
 
Quase meia-noite, noite sem luar, e os moleques começaram a se incomodar, nada do Bentinho e uns zunidos estranhos vindos sabe lá de onde.
 
Até que Zóinho pergunta:
 
-- Ô Paçoca... Em quantos fantasmas nós somos?
 
E Paçoca responde:
 
-- Ô inútil, quatro, ora!!!
 
Zóinho com a voz trêmula:
 
-- Então "vamo contá junto"?
 
-- Um, dois, três, quatro... Cinco!!!!
 
E lá se foram quatro assustados fantasmas correndo mais que amante de mulher casada em dia de azar, e um quinto fantasma quase morrendo a dar risadas!
 
Seu Malaquias arrancou muitas gargalhadas de todos durante o almoço. Mas eu, conhecedor daqueles famosos petelecos malaquianos, fiquei ali meio sem jeito dando uma risadinha um tanto preocupada, olhando para seu Malaquias. E para não passar perrengue frente à minha família, preferi desta vez nada falar. E quando me dei conta todo mundo, em silêncio, olhando para mim. Resisti bravamente, nada falei! Falou minha filha:
 
-- Que cara, paiê!
 
Resistia heroicamente. Foi quando seu Malaquias perguntou:
 
-- Tá esperando o quê? Relaxa homem, é só uma "estorinha"!
 
Mais tarde, enquanto escrevia esta crônica, ainda pensava no que seu Malaquias havia me falado no almoço: "Relaxa homem..."
 
Pensando bem, tá certo! Para que levar tudo tão a sério, não é?
 
Relaxa!
 
José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br
 

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