ARTIGOS

Radares...Seu Malaquias...Indignações



José Milton Castan Jr.

Segunda-feira de Carnaval estava entrando na Padaria Real, vi sentado numa mesinha Seu Malaquias. O meu querido amigo, Seu Malaquias, não possui nenhum atributo físico que o distinga, ao menos por sua brilhante careca e seus setenta e poucos anos. Mas Seu Malaquias tem algo de especial, e quando conversamos, ele sempre desperta em mim sentimentos que nem sempre consigo explicar, mas sei que, de alguma forma, nossas conversas me fazem refletir. Porém, Seu Malaquias tem um jeito especial de fazer isso, pois basta um segundinho de desatenção e ele dá cada peteleco na minha orelha...

Estava me aproximando para cumprimentá-lo, porém ele de costas, e tenho certeza não havia visto minha chegada, e mesmo sem me olhar disparou:

-- Castan, você notou o número de radares na cidade?

Fiquei sem saber se respondia ou o cumprimentava, mas seu olhar, e ele tem uma maneira desafiadora de me olhar, pois primeiro vai virando os olhos vagarosamente em minha direção, e logo em seguida a sua cabeça acompanha seus olhos, e quando ambos me encontram, sinto um friozinho na barriga, portanto não perdi tempo e respondi:

-- Claro que sim, e estes novos radares estão dando o que falar!

Seu Malaquias pegou a coxinha que estava à sua frente, deu uma mordida e sem pressa alguma me falou:

-- Estou indignado!

E completei:

-- Eu também Seu Malaquias.

Seu Malaquias ficou me olhando, e o silêncio de dois ou três segundos me forçou falar: discorri, quase que mecanicamente, sobre a tal ""indústria das multas"", pois apesar difícil ser contestar o direito legal do poder público em implantar os radares, e bem mais ainda, a sua eficácia educativa, não há como negar existir motivação adicional sobre as arrecadações.

-- Estou indignado! - repetiu Seu Malaquias.

Então continuei: como pode, para uma mesma infração, haver duas punições: os pontos na carteira e a multa? Não sou advogado, mas acho que fere o princípio geral do direito ""non bis in idem"", (é com os senhores, excelentíssimos juristas...).

-- Estou indignado! - falou novamente Seu Malaquias, monocórdico.

-- E eu revoltado! - prossegui: pois no final do ano fui visitar meu pai em Peruíbe, e resolvi fazer uma viagem bucólica descendo por Tapiraí, mas fui multado na cidade de Juquiá por excesso de velocidade, pois a regulamentada era 40 Km/h e um saltimbanco radar me ""flagrou"" com a impressionante velocidade de 43 Km/h. Creio ser a metrópole Juquiá (sem desmerecer seus amáveis moradores), uma cidade de trânsito caótico e a regulamentação por radares diminuiu substancialmente os altíssimos indicadores de acidentes, por lá existentes.

-- Estou indignado! - disse novamente Seu Malaquias, sem mover um músculo da face.

-- Ora, Seu Malaquias, e não é para menos - continuei meus argumentos: houve um tempo que placas antecediam os prestidigitadores radares anunciando suas maliciosas intenções, e se bem me lembro, por aqui havia também algo como pintar os postes dos radares de amarelo (agora é com os senhores excelentíssimos edis...).

-- Estou indignado! - repetiu Seu Malaquias dando outra mordida em sua coxinha com catupiri.

Foi então que arrisquei toda minha integridade e perguntei ao Seu Malaquias:

-- Mas, com que exatamente o senhor está indignado, Seu Malaquias?

E ele me respondeu:

-- Se todas as padarias, lanchonetes e bares fizessem coxinhas como esta (ele parou de falar e engoliu o último pedaço da coxinha), não haveria coxinha ruim.

E sem cerimônia se levantou, deu uma piscadela para mim e se foi.

Confesso amigo leitor e leitora, que fiquei ali com cara de bobo e sem entender nada. Puxa, pensei, foi ele que começou o assunto! Desapontado me levantei e fui embora.

Já dentro do meu carro na avenida, não demorou muito e lá estava ele a me espreitar: o radar! Pisei rápido no freio, e foi então que uma faísca, aquele momento mágico, transpassou os meus pensamentos, e então tudo fez sentido:

Se todos nós trafegássemos, dentro da velocidade permitida, em poucos meses não haveria sequer um único radar a nos vigiar, e então seríamos nós mesmos os senhores, e não os servos!

José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br


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