SOROCABA E REGIÃO

Totem religioso é alvo de mais um protesto

Mariela Almeida
mariela.almeida@jcruzeiro.com.br


O totem com a inscrição "Sorocaba é do Senhor Jesus Cristo" foi novamente alvo de protesto, o primeiro de 2015. Desta vez, a placa existente na alça de acesso à rodovia Castelinho amanheceu ontem com um corte em cima da palavra Jesus. A estrutura já havia sido alvo de diversas manifestações como pichações e até chegou a ser encoberta. No último dia 16, o Tribunal de Justiça de São Paulo reformou a sentença do juiz da Vara da Fazenda Pública de Sorocaba, José Eduardo Marcondes Machado, que determinava à Prefeitura que retirasse o totem. Da decisão cabe recurso ao Superior Tribunal de Justiça.

Para Eduardo Bortolossi, presidente do Conselho de Pastores, o ato pode ser classificado como intolerância religiosa. "Nós entendemos que isso não é sinal de protesto e sim de vandalismo. Estamos vivendo um tempo de intolerância religiosa, visto o que aconteceu ontem (anteontem) na França. É inaceitável ver uma coisa dessa acontecendo, pessoas morrendo por isso. Esse totem não é de propriedade do povo evangélico ou católico, mas é como se os cristãos saíssem depredando tudo o que for de outra crença".
Bortolossi acredita que o ato é, sem dúvida, em repúdio a permanência da placa, após ação ganha na Justiça em dezembro passado. "Vamos fazer uma notificação oficial na Prefeitura para que haja pelo menos uma vigilância no local, porque acima de tudo é um patrimônio que está sendo depredado. Não é possível que não haja uma fiscalização e que nunca se encontre quem faz isso. Resta lamentar". A manutenção do totem, de responsabilidade do Conselho dos Pastores, será realizada ainda hoje, por uma empresa contratada.

Histórico

A instalação do totem na alça de acesso à Castelinho ocorreu em dezembro de 2006, por iniciativa de lideranças ligadas à igreja evangélica. Desde então, o assunto tem sido debatido, gerado controvérsia e polêmica entre religiosos e a própria população. No dia 21 de janeiro de 2008, houve a primeira manifestação no local. Um grupo de pessoas cobriu o marco com a frase "Sorocaba respeita e acolhe todas as religiões".

Três dias depois o totem foi sujo de tinta, que encobriu parte da frase. A placa foi recuperada por funcionários da Secretaria de Obras e Infra-estrutura Urbana da Prefeitura. No dia 26 de janeiro de 2013, o marco novamente amanheceu pichado, desta vez com um símbolo de proibido e o termo "Estado Laico". No mesmo dia, evangélicos limparam a placa e aproveitaram a oportunidade para realizar uma manifestação na avenida Dom Aguirre. Eles carregavam uma faixa com os dizeres "Sorocaba é e sempre será do Senhor Jesus".
No dia 12 de agosto de 2013 o marco foi pichado, tendo as letras S transformadas em cifrões. No mesmo dia, jovens evangélicos se reuniram para limpar a pichação, que foi encoberta com retoques de tinta amarela.

No dia 25 de março de 2014, foi decidido que a Prefeitura teria de remover o totem e evitar que outros monumentos com a mesma finalidade - vinculados a quaisquer denominações religiosas - fossem instalados em espaços públicos da cidade. O pedido para a retirada do marco foi feito pelo Ministério Público, representado pelo promotor Jorge Alberto de Oliveira Marum, com decisão favorável do juiz José Eduardo Marcondes Machado. Na ocasião, até mesmo jornais de outras cidades como O Globo divulgaram o fato. Em seguida a Prefeitura ingressou com recurso e conseguiu o efeito suspensivo por parte do Poder Judiciário.

No dia 08 de abril de 2014, a placa amanheceu manchada de tinta branca e no mesmo dia foi restaurada por um grupo de jovens. Dois dias depois, foi a vez de um palavrão ser pichado com tinta spray. Ainda no mesmo mês, a placa teve algumas letras retiradas, motivando a realização de uma vigília no dia 27 de abril, que atraiu cerca de 200 evangélicos.
No dia 16 de dezembro do ano passado, o Tribunal de Justiça de São Paulo reformou a sentença do juiz da Vara da Fazenda Pública de Sorocaba, que determinava à Prefeitura que retirasse o totem. Em nota divulgada na época pelo Serviço de Comunicação do Paço, o secretário de Negócios Jurídicos, Maurício Jorge de Freitas, interpretou que o TJ entendeu a ideia defendida pela Administração Municipal de que aquele símbolo "é uma representação da cultura do povo sorocabano". Em seu voto, o relator designado desembargador Ricardo Dip, diz que "seria a mesma coisa, justificada em razões similares, que pedir a demolição da deusa pagã da Justiça, que ornamenta o prédio do Supremo Tribunal Federal ou, ainda, mandar apagar a frase de Protágoras inscrita no mural do Supremo Tribunal de Justiça (STJ)".
contratada.



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