ARTIGOS

Nativos e imigrantes digitais: convivência no espaço educacional

Denise Lemos Gomes
Márcia Regina Munhoz


Tradicionalmente usávamos o conceito de geração para marcar a passagem de tempo que separava pais de filhos. Ou seja, geração era o tempo necessário para uma criança crescer e entrar na vida adulta. Segundo o professor Mário Sergio Cortella, esse conceito sofreu um forte abalo com a chegada das novas tecnologias de informação e comunicação. A introdução dessas tecnologias teria modificado o mundo de tal maneira e tão rapidamente - que, a cada dez anos, considera-se que estamos diante de uma nova geração.
A escola tem recebido levas e levas desses alunos que nasceram em um mundo de mudanças aceleradas. São jovens que possuem uma percepção e aprendizado diferente de outras épocas, os chamados nativos digitais.

As expressões "nativos" e "imigrantes digitais" foram cunhadas por Mark Prensky, educador americano, que define nativos digitais como "aqueles que cresceram cercados por tecnologias educacionais e usaram isso brincando, por isso não tem medo dela", em contrapartida, os imigrantes digitais são "os que chegaram à tecnologia digital mais tarde na vida, e, por isso, precisaram e precisam se adaptar a elas".

Assim, na escola, esses dois universos se encontram. Esse movimento que poderia ser rico para ambas as partes acaba, muitas vezes, por criar mais conflitos do que oportunidades de crescimento pessoal e cognitivo.
Esses conflitos se acerbam diante de duas situações que vivemos na escola dos dias atuais:
Primeiro: A escola, como instituição, muda muito lentamente. Isto fica mais evidente dentro deste contexto de transformações aceleradas. Segundo: os professores encontram-se muitas vezes sem poder usar como referências as memórias dos seus tempos escolares. Hoje, a distância que nos separa dos nossos alunos é muito maior do que aquela que nos separava dos nossos professores.

Entretanto, a escola ainda se mantém como espaço de encontro, troca e vivência mútua entre educandos. Diante disso, seu papel precisa ser alterado em um momento em que não detém mais a exclusividade do acesso à informação.
O que precisa ser valorizado é o caminho para transformar a informação em conhecimento.
A dinâmica da aprendizagem, em função dessa situação, precisa ser repensada e, com ela, a concepção das relações professor-aluno, das pedagogias, metodologias, do processo de construção do conhecimento - que não é mais linear -, das organizações internas da escola, da tecnologia que dá suporte, bem como do currículo.

Os docentes ainda são, em sua maioria, oriundos de uma geração "analógica" e preferem as aulas expositivas, enquanto que os alunos, de uma geração digital, não se contentam mais com lousa e giz, apenas. Os discentes são capazes de estudar com fone no ouvido e com o computador ligado, comportamentos e atitudes difíceis de serem entendidas pelos educadores. O que muitas vezes é considerado, de antemão, desatenção ou irresponsabilidade, é apenas uma nova forma de aprender que o adulto não tem, porque não a exercitou.

É fundamental que a escola proponha situações educativas para desafiar os alunos com a intenção de provocar nele o pensar e planejar para suas próprias tomadas de decisões e consequentemente aquisição de autonomia.
O processo de ensino-aprendizagem precisa ser encarado como um momento de partilha, que tanto docente quanto discente aprendem e trocam o que sabem, sem censuras ou medo de errar, afinal, a ideia é aprender junto, reforçar relações de confiança e respeito mútuo.
No entanto, não é uma situação confortável, pois não estamos acostumados a ter nossas fragilidades apontadas. Por outro lado, precisamos entender que isso é parte da trajetória em um universo onde todo dia aparece algo novo para se aprender. Segundo Prensky, "a maioria dos professores parece estar em algum lugar no meio".
Evidentemente o problema não é apenas o estranhamento do professor diante de um mundo cercado por tecnologias. Estas tecnologias, em muitos casos, apenas rodeiam as escolas.

Não existe receita para o professor se transformar em imigrado digital, mas ele precisa estar atualizado, utilizar as novas tecnologias em sua prática pedagógica. Estudar para descobrir novos conhecimentos e aplicá-los.
A escola não pode perder de vista suas funções sociais quais sejam: a formação acadêmica consistente, crítica e voltada para o bem comum.

A convivência no espaço educacional dos imigrantes digitais e nativos digitais garante ganhos para ambos, pois os dois possuem sabedorias que podem ser desconhecidas para a outra geração. No embate e conflitos das ideias, concepções, princípios e valores, os indivíduos se desconstroem e reconstroem-se reciprocamente.

Prof.ª Denise Lemos Gomes, licenciada em Letras Português e Inglês e em Pedagogia, Mestra em Educação e Doutoranda em Educação, Coordenadora de Letras: Português/Inglês da Uniso. (denise.gomes@prof.uniso.br)

Prof.ª Márcia Regina Munhoz, licenciada em História e Pedagogia e Especialista em Informática Aplicada à Educação.



OCULTAR COMENTÁRIOS
comments powered by Disqus