SOROCABA E REGIÃO

Mãe inventou sequestro após doar bebê


Larissa Pessoa
larissa.pessoa@jcruzeiro.com.br
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Em menos de 24h, a Delegacia de Investigações Gerais de Sorocaba (DIG), concluiu que a criança de 1 ano e 8 meses, dada como desaparecida desde a noite de quarta-feira (15), foi doada por livre e espontânea vontade pela própria mãe a um casal de Bragança Paulista. Em entrevista coletiva na manhã de ontem (17), delegados que trabalharam no caso esclareceram que a jovem de 19 anos será indiciada por denúncia de falso crime, por ter dito à polícia que foi sequestrada, dopada e estuprada após ter o filho levado.

Segundo a Polícia Civil, tanto o casal quanto a moça negam que o bebê tenha sido vendido, porém um inquérito policial foi instaurado e deve apurar se realmente não houve compensação em dinheiro para a entrega da criança. "Ao que tudo indica, o casal realmente acreditou na doação, mas as contas bancárias de ambas as partes serão investigadas e se for constatado uma negociação financeira caracteriza-se crime com base no Artigo 238 do Estatuto da Criança e da Juventude".

O delegado Acácio Aparecido Leite informou que a jovem encontrou o casal em um fórum que acontecia na internet há três meses, onde mulheres que não podem ou têm dificuldades em gerar filhos manifestam o desejo de engravidar ou adotar crianças. "Ela percebeu o interesse dessa mulher e ofereceu o próprio filho. As duas passaram a trocar mensagens e emails e neste fórum o casal foi orientado por outros participantes que precisariam elaborar um documento oficializando a doação para que posteriormente fosse feita a adoção legal", conta. As partes envolvidas assinaram um termo de anuência, no qual constava a autorização da jovem para que o casal ficasse com a criança. "Eles materializaram a entrega do garoto". Em depoimento, a mulher que estava com a criança contou que ainda tinha os email trocados com a jovem e garantiu que por diversas vezes perguntou se ela tinha certeza que queria entregar a criança. "Essa moça tinha resposta para tudo, quando a mulher perguntou o porque ela queria entregar a criança, ela respondeu que não tinha condições de manter o filho e que havia arrumado um emprego em Brasília e por isso não podia permanecer com a criança," conta Leite.

Segundo José Humberto Urban Filho, delegado da DIG, a criminosa confessou que planejou tudo sem o conhecimento de nenhum familiar. "Ela nos contou que depois que eles foram embora com o menino é que ela percebeu que não poderia voltar para a casa sem a criança e por isso inventou toda essa história". Durante o depoimento da mãe da criança a polícia trabalhava com a hipótese de homicídio e por muito tempo o interrogatório seguiu por esta linha, até que a jovem confessou a doação feita ao casal. "Ela não sabia exatamente o endereço deles, apenas a cidade. Depois disso nós acionamos o setor de Inteligência da Polícia Civil de Bragança Paulista, que com muita eficiência localizou a residência da dupla", relata Urban.

O menino foi encontrado muito calmo e bem cuidado, segundo Leite. "O casal já havia comprado roupas, fraldas. Nós também constatamos que essa mulher estava na fila de adoção em Bragança Paulista".

Depois de resgatada, a criança foi encaminhada ao Conselho Tutelar e cabe ao juiz decidir qual será o destino do menino. A mãe responderá pelo crime em liberdade, pois o delito é considerado de baixo potencial ofensivo.

Contradições e frieza

Segundo a Polícia Civil, durante o interrogatório, a mãe da criança, por diversas vezes, entrou em contradição em relação ao boletim de ocorrência, alegando que ainda estava sob efeito de uma bebida alucinógena que havia ingerido durante o suposto sequestro do filho. "Em alguns momentos ela começava a falar mole e alegou que estava dopada. Imediatamente ligamos para o médico legista que havia feito o exame na moça após ela alegar o estupro, e o mesmo informou que não havia mais resíduos de nenhuma substância ingerida há mais de 12 horas". Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi o fato de a jovem não apresentar nenhum ferimento aparente. "Ela contou que foi jogada do carro do casal e depois jogada para dentro do carro do estuprador, mas ela não apresentava nenhum ferimento nas mãos e nos braços. Quando a questionamos ela não soube explicar e apenas falou que não tinha se machucado".

Leite lembra que o telefone da moça também foi rastreado e no horário que ela alegava estar com o suposto estuprador foram encontradas mensagens de texto que ela trocou com o com a mulher de Bragança Paulista, que chegou em Sorocaba acompanhada do marido no fim da tarde de quarta-feira. As mensagens tratavam de um desencontro por parte do casal, que por engano acabou em um hipermercado diferente ao que a moça estava aguardando, localizado no bairro Sônia Maria. "Nesse momento o teatro dela foi se desmanchando", conclui.

Em paralelo ao interrogatório, policiais civis se dirigiram até a casa da jovem, onde encontraram materiais que evidenciavam o plano da moça. "Encontramos o diário dela e lá estava escrito que o nascimento do bebê era um entrave na vida dela", conta Leite.

O caso

Na manhã de quinta-feira (16), por volta das 5h, a mãe da criança chegou a um hospital particular da cidade e comunicou aos enfermeiros e funcionários que havia sido estuprada e que seu filho havia sido sequestrado por um casal. Imediatamente a equipe médica acionou a Polícia Militar e a moça foi encaminhada ao D.P.P. Norte, onde registrou boletim de ocorrência de sequestro/cárcere privado e estupro.

Ela relatou aos policiais que na noite anterior saiu com o filho para ir até um supermercado e comprar fraldas para a criança. No caminho a jovem contou que foi abordada por um casal desconhecido que ofereceu carona a ela. Ao entrar no carro, ela teria sido dopada e em seguida deixada próximo ao viaduto Jânio Quadros, na Hermelino Matarazzo, porém seu filho e sua bolsa haviam ficado com o casal.

A moça contou que depois de ser jogada para fora do carro dos supostos sequestradores ela seguiu andando até a Praça do Canhão, no Centro e lá foi abordada por um homem que a empurrou para dentro de seu carro e a conduziu até um motel, onde a estuprou. Depois disso a moça contou que foi deixada próximo ao hospital.

Depois de prestar depoimento ela foi encaminhada ao Hospital Regional, onde foi atendida e medicada. Depois um exame de conjunção carnal foi solicitado pelo hospital. O laudo do exame ainda não está pronto, porém depois do esclarecimento do caso foi descartado o estupro alegado pela jovem.



Confira o registro da entrevista transmitida ao vivo pelo site do jornal Cruzeiro do Sul:




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