ARTIGOS

A revolta dos semáforos



José Milton Castan Jr.

O comecinho da noite corre tenso, como sempre. O trânsito desafia a paciência de todos - ou quase todos. Seu Gonçalvez (com ""z"" mesmo) é um que não se importa com a desordem e o caos urbano, ao contrário, é seu ganha-pão. Apesar de aposentado continua trabalhando, e, para muitos e para ele mesmo, insubstituível no trabalho de controlar o trânsito. Pontualmente cinco da tarde senta-se à frente dos monitores, e acompanha o funcionamento de semáforos às centenas. Apenas deixa a Central de Operações quando tudo se acalma, e isto corresponde, por vezes, onze horas da noite. Ninguém sabe ao certo os motivos da longevidade no posto, vez que o sistema é todo controlado por computadores, mas fato é que Seu Gonçalvez aferra-se ao cargo de CCS (Controlador Chefe dos Semáforos). Uma possível explicação são suas ligações políticas.

Seu Gonçalvez tem um, diríamos, intransitável temperamento. Aborrece-se quase sempre com quase todos. Porém nada o incomoda mais que repórteres e reportagens sobre trânsito. E logo terá que dar as mesmas explicações sobre os motivos do caótico trânsito. Para agravar, tênue garoa começa amarrar mais ainda o trânsito na cidade. Nada está tão ruim que não possa piorar; entra pela sala de controle a mesma repórter qual teve ligeiro desentendimento na semana anterior.

Começa a entrevista ao vivo. Mesmas perguntas, até que a repórter questiona:

-- Semáforo é mal necessário?

Um calor faz enrubescer seu rosto. Leve e imperceptível sopro vagou em seu interior: ""ela me acha mal necessário, ou desnecessário?"" Precisa de tempo, menos para encontrar explicações, mais para não avançar sobre a repórter:

-- Como assim?

A repórter faz alguns comentários como o tempo morto dos amarelos e a ausência de um sistema que ""enxergasse"" uma via sem nenhum carro, enquanto seu cruzamento estivesse carregado de carros parados aguardando farol verde. É o suficiente, ele agora fala alterado:

-- Veremos na prática o que acontece se um destes semáforos deixar de funcionar.

Pluft! Do seu computador desliga o semáforo que aparecia na tela. A repórter tentando contornar diz não ser necessário. Ele percebe que a encurralou:

-- E agora este. E mais este...

De repente arranca todos os fios do computador e pane geral no sistema. Nenhum semáforo funcionando.

O trânsito vai rapidamente piorando.

Já fora do ar (em ambos sentidos) Seu Gonçalvez com os olhos esbugalhados e voz acelerada interpela a repórter:

-- E agora? Desnecessários?

A moça sem entender, justifica-se.

O índice de congestionamento em poucos minutos atinge picos elevados. O caos se instala na cidade. Telefone da central não para de tocar. O secretário dos transportes, prefeito e até a governadora querem saber o que aconteceu. Uma reunião de emergência com os controladores, menos Seu Gonçalvez, agora estático num canto. Pessoal da tecnologia tenta reestabelecer o sistema. Sem chances. A cidade travou.

Porém, meu caro amigo leitor, você há de concordar comigo, a capacidade do ser humano em superar as dificuldades nos garantiu mil sobrevidas. E assim aconteceu:

A cidade era um estacionamento a céu aberto. Nenhum carro se movia. Até as motos estavam paradas. Motoristas do lado de fora esbravejando.

Começa então a pipocar nos celulares a seguinte mensagem:

Um por vez!

Quase instantaneamente todas as mídias sociais replicavam:

Um por vez!

Deu-se a mágica.

Nos cruzamentos os semáforos continuavam inertes, mas aos poucos todos entenderam que bastava um aguardar a passagem do outro para então seguir. Não demorou muito e o trânsito foi se normalizando.

Tudo voltou ao normal: Seu Gonçalvez foi afastado do cargo de CCS e, claro, os semáforos voltaram e continuaram a funcionar!

E talvez não precisássemos de tantos ""semáforos"" nos controlando: olharmos ao outro com os olhos dele, é enxergamos mais longe.

José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br


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