ARTIGOS

O pacote



José Milton Castan Jr.

Seus olhos teimavam querer fechar. Árvores, postes e placas passavam pela janela do carro sem conseguir subir à consciência. O calor daquele início de tarde, a estrada retificada e vazia tornavam a viagem ainda mais monótona. Dizia seu pai chamar de modorra, o soninho da tarde após o almoço. Mas não poderia parar. Checou o velocímetro, mesma velocidade.

Alguns pontos coloridos no céu chamaram sua atenção. Eram paraquedistas. Havia passado há pouco por um campo de aviação. Desejou estar lá em cima: a liberdade e poder enxergar o mundo sob outro vértice. Voltou atenção para a estrada, teria que seguir.

Ondas de calor se levantavam pelo asfalto refletindo imagens sem nitidez, e por isso mal conseguiu distinguir uma forma mais concreta, que rapidamente foi crescendo à sua frente. Seus pensamentos também ainda estavam rondando os mesmos pensamentos: seu velho pai, a separação e um dessentido viver.

Logo aquela imagem transformou-se numa caixa dourada. Num rápido golpe virou a direção do carro para a direita desviando-se dela. Quase conseguiu escutar o zunido da caixa passando. Viu pelo retrovisor o que parecia ser uma caixa de sapato envolto num papel celofane amarelo ou dourado e firmemente amarrada por uma fita vermelha.

Pensou em parar. Ia pisando no breque, porém talvez pela inércia do carro, desistiu. Era sua gênese: havia desistido do casamento, de mudar de emprego, e do recente desejo em saltar de paraquedas.

Ainda podia ver, pelo retrovisor, um ponto vermelho cada vez menor sobre o asfalto.

Mudou de ideia. E se tivesse algo de valor dentro da caixa? Uma caixa dourada! Pisou no breque. Mas, pensou, ninguém deixaria cair na estrada um pacote bem embrulhado, apertou novamente o acelerador. Tinha horários a cumprir.

Uma fita vermelha. Talvez antigas cartas de um perdido amor, um documento importante ou título de valor. Valeria a pena voltar, perderia menos de dois minutos. Sem chances, pensou.

Ela era brilhante. Sem dúvidas tinha sido perdida há pouco. Tinha cruzado com alguns carros, não muitos, nos últimos minutos. Lembrou-se especialmente de um Ford Mustang que havia passado rugindo. Resolveu voltar e pegar a caixa. Ia mecanicamente acionando a seta para direita, quando viu surgir à sua frente um carro que vinha em sentido contrário. Estava ainda diminuindo velocidade, e o carro passou sem muita pressa. Dentro ia, o que lhe pareceu, um jovem casal. Apertou de vez o freio, entrou no acostamento e retornou. Alguém agora ia à sua frente. Tivesse voltado antes. Apertava o acelerador, mas o outro carro ia bem à frente.

Habituais sentimentos invadiram seu corpo.

Ainda que longe, viu acenderem duas luzes do freio, indicando que paravam. O carro do casal apontou para o acostamento e parou. Um rapaz de bermuda desceu, voltou alguns metros, apanhou o pacote e voltou.

Parou então a poucos metros atrás do carro do casal, e ficou sem saber que fazer. Viu voar pela janela, primeiro a fita vermelha e em seguida o papel celofane dourado, que lentamente dançou até chegar ao chão. Levou um susto quando os dois começaram a pular, e se abraçar tão freneticamente que o carro todo sacolejava. Resolveu descer e ir ter com eles. Desistiu.

Sem ação viu partir o carro do jovem casal, levantando poeira. Pensou que novamente estava literalmente "comendo poeira".

Meu estimado leitor, desculpas pela breve interrupção, mas preciso lhe falar: sabe daquelas horas que algo precisa ser feito e mudado, aqueles momentos que precisamos tomar para nós mesmos as rédeas da vida, assumirmos responsabilidades e deixarmos de crer que nossa felicidade é algo que o mundo nos deve? Assim seguiu:

Continuava ali parado no acostamento. O carro do casal já havia desaparecido.

Frustrado, sentiu raiva: primeiro do casal, e depois de si mesmo. Deu um murro no volante. Sentiu-se apequenado, culpou-se. Seus olhos marejaram, e quanto tempo não sentia lágrimas escorrerem em seu rosto. Passaram-se preciosos minutos.

Olhou para o céu como se procurasse algo, e encontrou. Novos paraquedas coloriam o horizonte.

Ligou o carro e não retornou. Iria saltar de paraquedas.

José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br


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