ARTIGOS

Língua formal ou informal? Eis a questão



Denise Lemos Gomes e Bianca Nóbrega

A discussão é antiga, no entanto os pesquisadores e até os atores do processo de ensino da língua materna parecem que ainda não chegaram a um denominador comum quanto à questão.

Alguns desejam ser formadores/formados para ensinar a língua real, que se usa cotidianamente na maioria das situações de comunicação; outros entendem que precisam ensinar/aprender a gramática normativa para poder ensinar, afirmam estes que, para se ter domínio da linguagem, há que conhecê-la profundamente.

Ao se trabalhar com a Língua Portuguesa, é preciso ter em vista os dois lados da moeda, ou seja, compreender o lugar tanto da língua informal quanto da formal. Na escola, começando obviamente pela primeira, isto é, por meio de gêneros textuais próprios do mundo em que vivem os adolescentes, examinando a construtibilidade do discurso, isto é, o emprego adequado do conhecimento e da experiência técnica da comunicação, bem como a necessidade da estrutura gramatical para ser compreendido, até chegar à língua formal, com a suas regras e imposições.

Tem-se a sensação de que a primeira parece estar mais próxima do cotidiano e fazer parte de nossas vidas; porém a outra, embora mais distante do senso comum, também está, basta atentarmos à imprensa, aos livros, aos documentos, à exigência dos concursos e em tantas outras situações a que todos estamos expostos.

Para essa questão, há de se pensar em mudar a concepção do que seja a língua e o ensino dela na escola. Isso significa fazer com que se proponha a reflexão acerca da língua, reflexão a respeito das construções possíveis dentro de um processo real de comunicação. No entanto, o que não se pode fazer no processo ensino aprendizagem é deixar de mostrar as estruturas que compõem a língua oficial e suas variações formais.

Sirio Possenti, importante linguista e professor da Unicamp, afirma que: "saber uma gramática não significa saber de cor algumas regras que se aprendam na escola, ou saber fazer algumas análises morfológicas e sintáticas. Mais profundo do que esse conhecimento é o conhecimento (intuitivo ou inconsciente) necessário para falar efetivamente a língua." (p.21). E conclui seu raciocínio afirmando que: "gramática é saber dizer e saber entender as frases" (p. 21). "É perfeitamente possível aprender uma língua sem conhecer os termos técnicos com os quais ela é analisada" (p. 39).

Muitos gramáticos e estudiosos da língua questionam esse posicionamento de Possenti, afirmando que as regras gramaticais são parte da formação cultural do cidadão e o aluno perde muito se não souber dizer se uma determinada oração é subordinada adjetiva restritiva ou se é subordinada adjetiva explicativa.

Nesse sentido, os defensores da gramática normativa usam como argumento o ensino de Língua Portuguesa projetando sua função pragmática e as propostas dos processos seletivos, vestibulares, concursos públicos que priorizam a gramática.

Diante do impasse, é preciso equilíbrio. E compreender, antes de tudo, que aqueles que se opõem ao estudo da língua como imposição de regras, não se opõem, porém, ao estudo da gramática contextualizada, ou seja, dentro de situações reais de comunicação. Dessa forma, o estudo da gramática proporciona ao aluno uma melhor produção e interpretação de texto, pois ele terá em suas mãos ferramentas para construir suas ideias e perceber os efeitos de sentido de um texto que lê.

A função do estudo de gramática é conhecer os recursos da língua, por isso esse estudo só é válido se proporcionar ao aluno reflexão acerca do funcionamento da língua, e isso dificilmente acontece quando estudamos orações soltas ou fazemos análises sintáticas de termos desconectados de textos.

Para que tais reflexões em relação à língua aconteçam em sala de aula, é possível, por exemplo, propor aos alunos a leitura de diversos gêneros textuais, sempre textos autênticos, que de fato circulam na sociedade, tanto aqueles que exijam uma linguagem formal quanto outros que exijam a informal. Diante de tal riqueza de linguagem, é possível comparar textos, fazer generalizações de regras, observar como os termos se organizam e que efeitos produzem no texto.

É preciso reconhecer que chegar a isso não é fácil e não passa apenas pela formação do professor, mas por toda uma reorganização do currículo e revisão das concepções de aprendizagem dominantes.

Prof.ª Denise Lemos Gomes é licenciada em Letras Português e Inglês e em Pedagogia, mestra em Educação e doutoranda em Educação, Coordenadora de Letras: Português/Inglês da Uniso (denise.gomes@prof.uniso.br)

Prof.ª Bianca Nóbrega é Mestra em Literatura pela USP, professora da Uniso e autora de livros didáticos e de artigos na área de Língua Portuguesa e Literatura (bianca.nobrega@hotmail.com)


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