ELA

Querido Nelson



Fal Vitiello de Azevedo
fal.drops@gmail.com

Querido Nelson.

Você me pergunta da Dor.

Se eu ainda sofro muito. Se eu me conformei.

Se.

Quase nunca me perguntam sobre a Dor.

Meu irmão, às vezes.

Às vezes ele me pergunta "E aí, bela?", daquele jeito absolutamente invasivo e completamente respeitador da intimidade que só os irmãos têm.

"E aí? Dói? Ainda dói? Como é que você está?"

Nunca aconteceu dele perguntar sem que eu tivesse uma crise de choro bem ali, na frente dele. Para isso, também, servem os irmãos. Para testemunhar nossa vida, da nossa dor. Um irmão, em última (e em primeira) instância é uma testemunha. Ele testemunha seu nascimento (ainda que tenha nascido depois de você, você me entende, não?), seu crescimento, a forma como você aprende (no meu caso, não muito). Seu irmão estava lá quando você vestiu as calças pela primeira vez, quando você finalmente aprendeu a dar o laço no cadarço nas congas ("Primeiro uma orelha do coelho, depois..."), ele é testemunha da primeira volta sem as rodinhas de apoio na bicicleta, dos primeiros pelos, do primeiro cigarro. Um irmão é uma testemunha, ainda que ele não se lembre de tudo. É o único cara nesse mundo que, mesmo reagindo de formas diferentes, passou por tudo, tudo junto de você, do mesmo lado da mesa.

Quando meu irmão pergunta da Dor, é a Dor dele também. Porque ele também perdeu e porque a Dor, a minha Dor, dói nele como em ninguém mais. Ele sabe o que viu, o que eu disse e o que omiti. Ele sabe das crises de vômito, dos ataques de choro, das latas de leite moça mamadas de madrugada. Ele sabe das manchas e das cicatrizes, das garrafas que chegam sem nenhuma mensagem. Só ele tem o mapa dos atalhos, a combinação do cofre e infinita paciência para metáforas ruins. Ele se lembra.

De qualquer forma, Nelson, falo pouco da minha dor. Colocá-la em palavras é quase impossível e veja bem, gosto das palavras. Mas às vezes, querido Nelson, nem todos os verbos do mundo são suficientes. Minha dor afasta as pessoas, mesmo quando não mencionada, imagine se eu saísse por aí dando detalhes e corando pitangas. Falo pouco da minha Dor. Falo muito da minha Dor. Não toco no assunto. Falo nela o tempo todo.

Que bom que você perguntou, não é todo mundo que pergunta. Quase ninguém pergunta. Quase nunca. Nossa velha certeza de que não falar é fazer não existir. (Tenho uma amiga chamada Ângela que costumava dizer sobre meu ateísmo e, acho que também sobre o dela "Fal, você acha que se não acreditar no Mal ele não vai alcançar você, né?").

A Dor, Nelson, está aqui. Todos os dias. Às vezes barulhenta e histérica, às vezes usando terninho de tom sóbrio e cabelos presos. Ela está aqui todos os dias porque eu estou aqui todos os dias. Existir com Dor é como andar dentro da piscina, você já fez isso? Custa mais para chegar à outra margem, mas você chega. Chego, todos os dias, à outra beirada.

Sim, já me conformei. Não, nunca vou me acostumar. Sim, dá pra levar. Não, tem dias que não consigo sair da cama. Sim, tenho bons amigos e rio e saio e vejo filmes e canto e batizo bebezinhos e vou a casamentos e tento lembrar todas as capitais do mundo na cama com Bernardo, o sobrinho de 10 anos, e deixo Victor, o sobrinho de 5, subir em cima de mim e ser o Homem de Ferro que destrói sei-lá-eu-quem e salva o mundo, não para a democracia, mas para o Barney (só sei que tomo porrada pra burro). Sim, os dias são adoráveis. Nãos, os dias são a coisa mais monstruosa que já enfrentei na vida. Sim, tudo vai ficar bem. Não, não há esperança, esquema, salvação ou plano B.

A Dor, Nelson. Você entende?

Beijos, carinho

eu

Fal Vitiello de Azevedo é tradutora e escritora, autora do livro "Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite" (Editora Rocco). Ela também escreve no www.drops
dafal.blogbrasil.com



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