CULTURA

Pecadilhos nossos de cada dia



José Milton Castan Jr.

Ela era linda! Pela segunda vez sua beleza chamava minha atenção. A primeira foi no corredor das massas e molhos de tomate, e agora no estacionamento do mercado. Já estava dentro do meu carro, pronto para dar ré, quando a vi pelo retrovisor tirando suas compras e colocando no porta-malas de uma Cherokee vermelha, cor do pecado. Calça branca, blusinha de voil estampada, saltíssimos sob os pés e suaves cabelos presos por óculos sobre a cabeça. Mas aquele ideal de mulher estava prestes a esfarelar, e num único movimento pluft..., quando vi seus braços se esticando, empurrando e soltando o carrinho do mercado vazio, que rolou dolorosamente alguns centímetros até parar atrás de um fusquinha, até então invisível naquela paisagem.

Pensei primeiramente no carrinho, enxotado para longe e abandonado. É sina dos carrinhos de supermercado, e mais pouco será encalacrado no meio de tantos outros, levado para o mesmo lugar de onde saiu. Mas diferentemente do grego Sísifo e o seu eterno rolar da mesma pedra montanha acima para vê-la despencar abaixo sem nada poder fazer, o carrinho do mercado cumpriu bravamente sua missão, o que dá sentido às suas idas e vindas.

Logo pensei no fusquinha, que nada tinha com a história, por não ser ocupar hora errada, o lugar errado - hora e lugar de quem? E que humilhação ao sexagenário fusca, não poder sair do lugar por conta de um abandonado carrinho de mercado. Tinha brios apesar..., sei lá qual era o pesar do fusquinha. Creio iria paciente aguardar seu dono, que dignamente iria afastar o carrinho e..., onde ele então pousaria o carrinho? Quis ver o fim da história.

Desliguei meu carro e fiquei ali esperando. A Cherokee vermelha saiu rangendo, demonstrando pela arrancada, talvez certa indignação. Voltei meus pensamentos para a linda mulher, que agora apenas existia em minha imaginação: repassei os últimos movimentos dos seus braços se desvencilhando do carrinho e lembrei que, pelo retrovisor pude perceber um quê de raiva em seu rosto. Eu poderia condescender suas atitudes e arbitrar habeas corpus, dando-lhe uma explicação simples, como um ato falho. Mas não, tinha que ser do meu jeito. Belicoso! Então vamos a ele:

Se não foi um ato falho, algo impensado, sem pretensão o que seria? Por qual motivo ela largou o carrinho bem atrás do fusquinha?. Claro!.., não foi consciente, mas um comportamento desprovido de pensar - ""despensado"" , talvez havia ali um desejo secreto de desprezo pelo fusquinha, ou quem sabe, uma inveja, não exatamente do fusquinha, mas da vida dura e simples de seu dono, porém verdadeira, digna e feliz, o que a minha ex-deusa denotava por fim, não ser.

E o pior e mais dolorido estava por vir:

Sozinho dentro do carro envolto com meus pensamentos: alguns destes e que por algum motivo estavam de escanteio, seguiram por caminhos trepidantes: Pensei em mim mesmo e em quantos pecadilhos eu havia praticado e continuo praticando, e o quanto eles escancararam minha ignóbil maneira de ser:

Não apenas meus desleixados carrinhos de supermercado, mas, sobretudo a minha intolerância.

Touchê! Entendi o motivo dos meus rasos sentimentos pela linda mulher, que agora me parecia mais linda do que nunca. Não era a raiva dela, mas de mim mesmo e todos os meus pecadilhos diários. Com uma lágrima, veio-me à mente um velho ditado:

""Se todos limpassem a calçada à frente de sua casa, a cidade estaria limpa""

Procurei pelo retrovisor o fusquinha... e se foi! Perdi o final?

Não!! Nenhum carrinho atravancando a saída de ninguém.

Que droga, nem mais poderia malhar o velhote (acho que era velhote) do fusca.

Sobrou prá mim mesmo!!!

José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor www.psicastan.com.br


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