ARTIGOS

Sobre genes e destino: Il buono, Il brutto, Il cattivo



Ana Claudia Lessinger


O título faz referência ao filme de faroeste com um dos temas musicais mais sonoros e populares do cinema: The good, the bad and the ugly de Ennio Morricone. A expressão tem sido adotada para estruturar uma ideia considerando seus aspectos positivos (good), negativos (bad) e mesmo suas contradições mais embaraçosas (ugly). A ciência abriga exemplos abundantes para cada categoria, com ampla margem de vantagem para a primeira.

The good: há 20 anos foi publicado o estudo que identificou o gene BRCA1, responsável pela predisposição hereditária ao câncer de mama e de ovário. Historicamente, o isolamento do gene BRCA1 foi resultado de uma acirrada corrida entre grupos de pesquisa para reconhecer a condição genética responsável pelo alto risco de desenvolvimento de câncer. A identificação deste e de outros genes (incluindo o gene BRCA2), provocou uma transformação significativa nas práticas de diagnóstico, prevenção e tratamento de câncer de mama. Prova da relevância do tema, a revista Science publicou um número especial (http://www.sciencemag.org/content/343/6178.toc#SpecialIssue) sobre a contribuição do gene BRCA1 para o avanço do conhecimento sobre câncer de mama.

Mas, o que há de especial no gene BRCA1? Os genes BRCA1 e 2 carregam mensagens que orientam a produção de proteínas funcionalmente diversificadas, mas cuja função mais evidente é promover o reparo de danos que atingem a molécula de DNA. Danos ao DNA são comprovadamente implicados com o desenvolvimento de câncer, por gerar mutações que afetam a programação da "vida" da célula e descontrolam o ciclo celular. E quando uma mutação ocorre justamente no gene BRCA1? A sequência de DNA que carrega a mensagem original (genótipo) é modificada e a célula perde um componente importante do seu sistema de reparo de DNA, acumulando erros que podem desencadear um crescimento celular descontrolado levando à formação de tumores.

A identificação de mutações no gene BRCA1 promoveu o estabelecimento de uma relação de causa-efeito, associando um risco de desenvolvimento de câncer a cada genótipo mutante. Mas o diagnóstico positivo para uma mutação no gene BRCA1 determina a manifestação da doença? A frequência com que um gene mutante se expressa numa população, resultando em indivíduos que manifestam a doença, depende da penetrância do gene.

A arquitetura genética do risco de câncer mostra que os mutantes de BRCA1 são variantes genéticas raras de alta penetrância, resultando em um alto risco de desenvolvimento de câncer para o portador do gene mutante. Atualmente há intenso debate sobre os aspectos éticos relacionados aos testes genéticos e a tomada de decisão frente a um diagnóstico baseado em variantes genéticas. A ideia de que genes podem definir do nosso destino ignora que sua expressão depende de interações complexas com o ambiente e sempre suscita controvérsias. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

The bad: a revista Nature publicou recentemente dois artigos provocadores: um editorial intitulado "Dangerous work" (http://www.nat ure.com/news/dangerous-work-1.13861) sobre o uso indevido dos resultados de pesquisa e uma nota sobre aspectos éticos envolvendo estudos que buscam identificar a base genética de comportamentos complexos (http://www.na ture.com/news/ethics-taboo-genetics-1.13858).

Constata-se que a genética enfrenta tabus intensos ao investigar a diversidade relacionada à inteligência, raça, sexualidade e violência. Aqui o determinismo genético assume papel de herói ou vilão a depender do contexto ideológico. Evidências de que a orientação sexual possui alguma base genética foram listadas numa campanha bem sucedida para derrubar um abaixo-assinado de 2008 contra o casamento homossexual na Califórnia, entretanto estudos genéticos sobre esta questão ainda enfrentam muita resistência.

Pesquisadores devem evitar estudos nestas áreas? Um sonoro NÃO ecoou em mais de 85% dos votos registrados pela Nature. Evidentemente que esta questão deve ser interpretada com cautela, mas o fantasma da eugenia só será combatido com mais ciência, não com menos.

A provocação é no sentido de estimular e ampliar o debate sobre a importância da ciência e seu papel como instrumento gerador de conhecimento e transformação social. É preciso estar atento a discursos pautados na ignorância ou na desonestidade intelectual, que recrutam conhecimento genético para justificar a segregação de pessoas ou ideias que não se encaixam no mundo "natural" ou "normal" do dogma de alguns.

A genética tem uma contribuição para dar neste contexto. Parafraseando o editor da Nature: "não é a pesquisa que é problemática, é o uso mal-intencionado dos seus resultados" - e aí se esconde the ugly.


Professora Dra. Ana Claudia Lessinger integra o Departamento de Biologia (DBio) do Centro de Ciências Humanas e Biológicas (CCHB) da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar - campus Sorocaba



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