SOROCABA E REGIÃO

Mudanças nas regras da Língua Portuguesa serão reavaliadas




Daniela Jacinto
daniela.jacinto@jcruzeiro.com.br

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa ganhou novo prazo para a implantação definitiva: foi ampliado até 2016, para que haja mais discussão em torno do tema. Professores e estudantes do Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, que têm o português como língua oficial, têm até julho para debater mudanças e fazer sugestões. As melhores propostas serão selecionadas em setembro, no Seminário Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, que será realizado em Brasília. Após os debates, os governos dos países de Língua Portuguesa terão aproximadamente um ano para determinar o que deve ser simplificado.
Assinado em 1990 e promulgado em 2008, o novo acordo deveria estar vigorando de forma plena em 2012, sem que as regras antigas fossem aceitas. Por conta de reivindicações de especialistas da área, o prazo de vigência foi ampliado para possibilitar mais discussões. Para isso, a Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado criou em 2013 o Grupo de Trabalho Técnico (GTT) para simplificar e aperfeiçoar a ortografia, reduzindo a quantidade de regras e exceções. A intenção é definir, em conjunto, um idioma claro e acessível a todos. O GTT agrupa o Centro de Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa (Cellp), a Academia de Letras de Brasília (ALB) e o movimento Simplificando a Ortografia, que visa facilitar o ensino e a aprendizagem da escrita.
De acordo com o professor Carlos André Pereira Nunes, vice-presidente do Centro de Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa (Cellp), o prazo para a implantação definitiva das novas regras ortográficas foi ampliado após a detecção de algumas falhas em relação ao acordo. "A Academia Brasileira de Letras fez o vocabulário, porém este entrava em descompasso com o acordo ortográfico. Havia uma necessidade de fazer uma revisão desse acordo e uma ampliação dos temas que ele traria, por isso a Comissão de Educação do Senado formou um grupo de trabalho", conta. Esse grupo é formado por Carlos e pelos professores Pasquale Cipro Neto e Ernani Pimentel.
Conforme a Agência Senado, o acordo, que tem sido muito discutido e alvo de críticas, já motivou a realização de duas audiências públicas, em 2009 e 2012, organizadas pela Comissão de Educação do Senado. Em comum, os debatedores apontaram a necessidade de uma língua mais democrática, que promova a inclusão social.

Regras complicadas

O professor Carlos André Pereira Nunes lembra que a iniciativa do acordo ortográfico é brasileira. "Começou com o professor Antonio Houaiss e continua com outros linguistas", diz.
Essa discussão, afirma, está mais acirrada no Brasil por uma questão política. "O país quer essa mudança como forma de demonstrar que está crescendo, que quer melhorar, mas é bom lembrar que a Língua Portuguesa é originária de Portugal e que uma mudança em Portugal é muito mais difícil porque foram eles que criaram a língua e nós estamos reinventando."
A dificuldade para Portugal é tamanha, que o país chegou a rejeitar o acordo. "O acordo estava tão ruim tecnicamente que Portugal iria se abster. Os escritores portugueses disseram que não iriam usar, mas agora que serão promovidas mais discussões, eles verificaram ser possível haver um diálogo maior sobre essas mudanças, por isso acabaram por decidir que irão manter o acordo", afirma Carlos.
O professor lembra que quem usa a língua é o povo, por isso é importante que todos participem. "O povo que vai conseguir passar pra gente algumas orientações, afinal os especialistas olham com uma visão técnica, científica."
Carlos acredita que se as substituições de algumas regras forem feitas, as aulas de alfabetização diminuiriam de 450 horas para 150 horas. "É por causa da ortografia que muitos brasileiros não gostam de português, porque acham complexa."

Palavras que confundem

O acordo ortográfico tem palavras que confundem, por terem perdido o acento, regras que são de difícil assimilação e outras tantas normas que ninguém consegue explicar como é que foram estabelecidas. Como exemplo, podem ser citadas as palavras "paraquedas" e "para-choque". Qual é a explicação para que uma tenha perdido o hífen e outra não? O professor Carlos esclarece que o "para" de paraquedas é o mesmo "para" de para-choque. "Estamos lutando contra esse tipo de regra, que não tem explicação. Na cabeça de quem a criou, ninguém consegue perceber que o "para" do paraquedas, vem do verbo parar a queda, já o "para" do para-choque, o criador dessa regra acredita que todo mundo consegue entender, que é para parar o choque. Essa regra se chama de perder a noção de composição", esclarece Carlos, que acha que quem perdeu a noção nesse caso foi o criador dessa regra.
Por falar na palavra "para", o fato de ter perdido o acento tem dificultado a comunicação textual, principalmente com relação aos títulos de matérias jornalísticas. O jornalismo preza por passar de forma sintetizada para o leitor a notícia logo no título. A ideia é que a pessoa, lendo apenas os títulos das reportagens, já esteja informada sobre tudo o que está ocorrendo. Agora, se depender da palavra "para", o leitor terá de ler mais, para descobrir se ela vem do verbo parar ou é preposição.
Se o título for "protesto para o centro da cidade", o leitor pode se questionar se a notícia quer informar sobre parar o centro da cidade ou ir para o centro da cidade. "Tem uma corrente que defende que o acento só pode ocorrer quando realmente for necessário. As paroxítonas terminadas em "a", "e", "o", "em", "ens", devem perder o acento porque a lógica é que tenhamos a menor quantidade possível de palavras acentuadas, como "casa", por exemplo, que se encaixa nessa regra e não tem acento. Temos de acabar com as exceções", defende Carlos.
Nesses casos, ele afirma que o contexto é que vai dizer. "Agora se isso prejudica o jornalismo, é preciso que os jornalistas façam essas observações no congresso", ressalta Carlos, frisando a necessidade da participação da sociedade civil nas discussões. "Temos de facilitar as regras ortográficas para que não percamos tempo com ortografia, deixando de lado a produção textual, a análise sintática, regência e concordância, que são importantes para a composição do texto", diz o professor.
Interessados em colaborar podem enviar suas sugestões para o site http://simplificandoaortografia.com.


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