SOROCABA E REGIÃO

Evasão escolar salta de 7,2% para 16,2% em 12 anos





Daniela Jacinto
daniela.jacinto@jcruzeiro.com.br
No Brasil, apenas metade dos jovens com idade entre 15 anos e 17 anos está matriculada no ensino médio. Entre 1999 e 2011, a taxa de evasão nesta faixa mais que dobrou, saltando de 7,2% para 16,2%, conforme divulgou a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), com base em informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A reportagem não conseguiu dados das mesmas fontes para o Estado de São Paulo e Sorocaba.
O estudo da Fundação Seade, publicado em agosto deste ano, tem como título "Os jovens e o gargalo do ensino médio brasileiro". Assinado por Maria Helena Guimarães de Castro, diretora executiva da Fundação Seade; Haroldo da Gama Torres, diretor de Análise e Disseminação da Fundação Seade; e Danilo França, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), o texto pode ser encontrado no site www.seade.gov.br. Conforme a análise, muitas das mudanças introduzidas na Educação nos últimos anos não chegaram à sala de aula. O equacionamento da questão, de acordo com os responsáveis pelo estudo, passaria pela revisão do currículo, pela integração com a educação profissional e por uma política de diversificação do ensino médio.
A análise sugere que a estrutura organizacional das escolas deveria ser mais flexível, podendo ser criados programas de educação profissional com planejamento e logística municipal ou com parcerias público-privadas, como prevê o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e algumas experiências estaduais. "É fundamental estimular um debate sério sobre a flexibilização do currículo, com ênfases ou graus de dificuldade diferenciados nas áreas de preferência dos estudantes, desde que assegurada a aprendizagem dos conteúdos e competências básicas para todos", aponta o estudo, que ainda questiona o modelo único de ensino médio. "É necessário discutir alternativas organizacionais diversificadas que permitam combinar a formação básica geral para todos com áreas de interesse dos alunos, tanto nos cursos de preparação acadêmica ao ensino superior quanto nas opções de educação profissional. Qualquer que seja o rumo da reforma, é fundamental ouvir a sociedade organizada e, sobretudo, os jovens, em geral ausentes desse debate que lhes afeta diretamente."
Por falar em ouvir os jovens, os pesquisadores Tufi Machado e Mariana Calife, da Universidade Federal de Juiz de Fora, fizeram um trabalho a respeito entre 2009 e 2010. Nesse período, ouviram estudantes do ensino médio de escolas públicas mineiras sobre os motivos para frequentarem a escola. Entre as principais respostas, os alunos disseram que eram forçados pelos pais ou viam os estudos como obrigação. Parte dos entrevistados comentou que não gostava do ensino médio porque acreditava que nem a metade do que estudava serviria para alguma coisa no restante da vida, além da grande quantidade de disciplinas. Para melhorar essa etapa, os estudantes sugeriram mais inovação dentro da sala de aula, conteúdo mais atraente e menos matérias.


Abandono diminui no Estado e em Sorocaba

Quando se fala em Educação, esclarecer os termos e definições se faz necessário para entender o que está sendo discutido. Geralmente quando se menciona a evasão escolar, rapidamente o que vem à cabeça são estudantes fora da escola, mas existe uma outra palavra que também leva à mesma interpretação, o abandono escolar. No entanto, as duas definições têm significados diferentes. A evasão ocorre quando o aluno matriculado em determinada série, em determinado ano letivo, não se matricula na escola no ano seguinte, independentemente de ter sido aprovado ou reprovado. Caso ele se matricule em outra cidade, as estatísticas não irão contabilizá-lo como matriculado pois não há um cruzamento de dados entre os sistemas de informática. Já o abandono ocorre quando o estudante deixa de frequentar a escola durante o andamento de determinado ano letivo. Nesse caso o aluno pode voltar no ano seguinte, mas para as estatísticas, naquele ano ele abandonou a escola.
Conforme dados da Fundação Seade, no Estado de São Paulo o abandono escolar diminuiu de 9,5% para 4,5%, de 1999 a 2011. O mesmo ocorreu em Sorocaba, onde o abandono passou de 7,92% para 1,6% no mesmo período. São alunos que abandonaram a escola antes da avaliação final ou que não preencheram os requisitos mínimos em frequência previstos em legislação, em relação ao total de alunos matriculados no fim do ano letivo.
Abandono ou evasão, o fato é que quando um adolescente entre 15 e 17 anos está fora da escola, algo está acontecendo. O professor da Unesp de Araraquara, Cláudio Benedito Gomide de Souza, doutor em Educação pela USP e consultor e avaliador externo de cursos, programas e projetos educacionais, afirma que uma questão evidente em relação a isso é que o ensino médio não está atendendo às expectativas dessa nova geração. "Se você for pensar um pouco na característica dessa "geração y", eles são mais imediatistas, querem coisas mais a curto prazo e a escola não atende suas necessidades, ela não aponta para um futuro muito interessante, pelo menos a curto e médio prazo. A prática da escola também não atende a forma de pensar, a maneira que essas pessoas agem, enfim, é um choque de gerações", observa, acrescentando que a escola, por sua vez, não se prepara para atender essas novas demandas. "Podemos dizer que hoje temos uma escola para um aluno que não existe mais", diz.
Para o consultor, é preciso uma mudança da cultura escolar, o que significa mudança profunda na carreira e formação do corpo docente, dos gestores, dos funcionários. "Uma mudança nos chamados atores escolares, e isso só ocorre se você tiver um plano de carreira adequado, formação continuada adequada. Se você não tiver isso, não vai mudar a cultura escolar. A Coreia fez uma reforma no Estado começando pela educação e atingiu alto índice de desenvolvimento", ressalta.
Entre os motivos que podem levar o estudante a deixar de frequentar a escola, além do desinteresse pelo currículo escolar, estão a necessidade de conseguir um trabalho, as dificuldades de aprendizado e até mesmo problemas de saúde, entre outros. A maior parte desses problemas pode ser resolvida com ações do poder público. "As iniciativas dos educadores mudam pouca coisa, não muito, porque os fatores são sistêmicos, algumas escolas conseguem ter mais sucesso, mas são casos esporádicos, quando você pensa em sistema, isso implica em um conjunto, em destinar mais recursos para a Educação, ter políticas públicas para essa área", alerta o professor. Conforme ele, se o governo quiser melhorar o país, vai ter de investir na Educação.



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