SOROCABA E REGIÃO

Gilberto Dimenstein defende o aprendizado além dos muros escolares


Daniela Jacinto
daniela.jacinto@jcruzeiro.com.br

Incomodado com a desvinculação dos conteúdos escolares do cotidiano dos estudantes, o jornalista Gilberto Dimenstein, que há anos tem desenvolvido projetos de destaque na área da Educação, defende a derrubada dos muros escolares para que a cidade toda se transforme em sala de aula. Para ele, o grande papel da educação é formar pessoas criativas e com imaginação, e não se faz isso entuchando de testes.

Dimenstein esteve em Sorocaba na semana passada para participar do projeto "Redes de Conversas", realizado pelo colégio Objetivo. O bate-papo, que contou com participação de Rodrigo Bandeira, idealizador do projeto Cidade Democrática, teve como tema "A cidade como sala de aula - Os muros das escolas podem cair e a cidade adquirir potencial educativo". Na ocasião, concedeu entrevista exclusiva ao Educare.

O jornalista tem uma trajetória bem sucedida. É colunista da Folha de S.Paulo e da rádio CBN. Já foi diretor da Folha de S.Paulo na sucursal de Brasília e correspondente internacional em Nova York daquele periódico. Trabalhou também no Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Última Hora e revista Veja. Por suas reportagens sobre temas sociais e suas experiências em projetos educacionais, Dimenstein foi apontado pela revista Época em 2007 como umas das cem figuras mais influentes do país. O jornalista ganhou o Prêmio Nacional de Direitos Humanos junto com D. Paulo de Evaristo Arns, e o Prêmio Criança e Paz, do Unicef. Também ganhou os prêmios Esso (categoria principal) e Prêmio Jabuti, em 1993, de melhor livro de não-ficção, com a obra Cidadão de Papel.

Na área da Educação, é fundador da Associação Cidade Escola Aprendiz, que trabalha o conceito de Bairro-Escola, e ainda desenvolve o Catraca Livre, site que divulga a programação cultural gratuita dos municípios participantes, eleito o melhor blog de cidadania em língua portuguesa pela Deutsche Welle. Durante a entrevista, Dimenstein falou sobre seus projetos, o que pensa sobre o atual momento da educação brasileira e revelou que ajudou a elaborar em Sorocaba o conceito de Cidade Educadora. Confira:

P - A ideia de aproveitar os espaços da cidade como sala de aula é interessante, mas qual é o caminho para que isso ocorra? De que forma os estudantes podem aprender com a cidade?

Gilberto Dimenstein -
Há algum tempo eu desenvolvo uma experiência que levou o nome de Bairro-Escola, que é baseado numa ideia que o aprendizado ocorre em vários espaços, na sala de aula, fora da sala de aula, no nível da família e em espaços espalhados pela cidade, em teatros, cinema, casas de espetáculos, e o ideal é que isso tudo se relacione e tenha pontos de comunicação. A ideia do Bairro Escola é semelhante à da Cidade Educadora, é uma ideia que você pode aprender ciências em um parque, pode usar um filme para aprender geografia, português, o ideal é que a cidade toda se comporte como um processo de aprendizagem, mas para isso é necessário ter um trabalho permanente com os museus, teatros, cinemas e as empresas também, que podem servir como ponto de recepção de alunos para ensinar as suas práticas.

Vi que existe um projeto interessante de um professor da USP, que lançou uma plataforma digital, a Estação Curiosidade, em que várias questões do Enem são associadas a visitas a museus. A pessoa clica no museu (Masp ou Museu da Língua Portuguesa, por exemplo) e surgem as questões, e ainda como a exposição pode ajudar a respondê-las. A ideia do professor é justamente fazer com que as escolas saibam transformar a cidade numa sala de aula. Iniciativas como a sua e a dele mostram que é possível, mas exige o envolvimento de todos, né?

GD - Então, a gente que ajudou a criar a Estação Curiosidade. A dificuldade em se transformar a cidade numa sala de aula é grande, mas o conceito de Bairro-Escola surgiu inicialmente em um bairro de São Paulo, a Vila Madalena, e já estamos em 500 cidades pois esse projeto acabou de virar política pública, que é o Mais Educação. É possível ter uma educação em tempo integral usando não apenas o espaço da escola mas os espaços alternativos próximos às escolas. Esse processo demanda criar mecanismos de comunicação entre esses lugares e para isso é preciso ter um professor comunitário, um diretor envolvido, mães envolvidas, tem de ter plataformas digitais envolvidas, mas acredito que essas coisas estão em processo de encaminhamento.

P - Como Sorocaba pode se tornar uma cidade-escola?

GD -
Esse é um processo de difícil implementação, mas Sorocaba já é uma Cidade Educadora. A primeira coisa que é mais complicada quando se fala em Cidade Educadora é que as pessoas pensam que se trata apenas de um assunto da área da Secretaria da Educação, quando na verdade é preciso ter uma integração entre as secretarias de forma que Esporte, Saúde, Cultura, Educação e Assistência Social dialoguem entre si e possam criar elementos comunicativos. Uma das ideias que tenho desenvolvido há algum tempo é uma plataforma digital que já está hoje em 12 cidades, que é o site Catraca Livre (http://catracalivre.com.br), que divulga tudo o que você pode fazer de graça ou a preço popular em uma cidade e isso tudo pode ser incorporado ao currículo escolar, por exemplo quando você tem uma exposição, um filme, que o educador possa complementar essa ida à exposição ou ao concerto dentro da sala de aula. Eu sei que é complicado, mas assim como foram criados itens no Enem que todo mundo segue, o educador também pode criar itens baseados em coisas que a cidade te ensina, então se o estudante tiver de aprender fotossíntese, será que não é interessante ir a um parque? Quantas indústrias não têm em Sorocaba que você pode levar os alunos para visitarem e tirar lições? Outro exemplo é o jornal, que pode desenvolver um trabalho com estudantes como ajudar na montagem de blog, de site, ensinar fotografia, então esse é um processo que exige um desprendimento, um pedaço do que eu sei eu vou compartilhar. Sorocaba tem projetos interessantes, tem muitas coisas que acompanhei e Sorocaba está no caminho certo. Há muito tempo a entidade que a gente criou, a Cidade Escola Aprendiz, trabalha com Sorocaba. Nós ajudamos a montar o conceito de Cidade Educadora no município.

P - Em suas colocações, você defende uma escola onde o professor seja quase um tutor, que trabalhe com as dúvidas dos alunos, sempre com a ideia de projetos. Hoje, no entanto, estamos inseridos em um sistema que necessita da padronização, precisamos alfabetizar na idade certa, precisamos que até determinada idade as pessoas saibam determinados conteúdos para que assim possam concorrer a exames como o Enem, o vestibular... Como seria uma escola em que o aprendizado se dá a partir do interesse dos alunos? E como seria um vestibular, já que os estudantes estariam com diferentes níveis de aprendizado?

GD -
Eu acho que tem de ter conteúdos, é óbvio, senão você não aprende a escrever, não aprende o básico da matemática, ciências... O que me incomoda é a desvinculação grande dos conteúdos escolares do cotidiano dos estudantes, as pessoas aprendem coisas que não sabem pra que vão usar, então podem até servir para entrar na faculdade mas não servem para formar um trabalhador. Quando você vai trabalhar, o que as pessoas exigem do trabalhador é que ele seja criativo, que saiba trabalhar em equipe, lidar com a velocidade do conhecimento, uma série de atitudes que sem elas você dificilmente consegue ser inovador, empreendedor, se manter em um mundo cada vez mais competitivo. A questão central é que o conhecimento é cada vez mais veloz, então hoje não é tão importante adquirir conteúdo mas como fazer a gestão desse conhecimento. O grande papel da educação é formar pessoas criativas e com imaginação e você não faz isso entuchando de testes. Isso não quer dizer que não acho importante ir para as melhores faculdades, mas é importante também ter habilidades que te ajudem a ser um bom empresário, um bom trabalhador, capaz de ser inventivo.

P - E o professor consegue dar conta de tudo isso?

GD -
Esse trabalho também é da família, da comunidade como um todo, além da escola. Veja quantos recursos digitais tem hoje capazes de ajudar o jovem a aprender por conta própria, então obrigar o menino a decorar coisas numa sala de aula quando esse conhecimento está na internet, e o professor repete o que está lá, eu acho um escândalo. Outra coisa: por que a criança tem de ir todos os dias na escola, se ela pode ficar em casa nos outros dias e passar o tempo compartilhando coisas? Essa é a geração que mais compartilha coisas na história da humanidade, a geração criada com redes sociais. Não estou falando contra a escola. Já tem várias escolas que funcionam assim, durante três meses você fica fora da escola. Outra coisa, as boas escolas integrais são aquelas te oferecem conhecimentos diferentes, teatro, dança, tecnologia... Isso também não quer dizer que eu não ache importante ter um espaço chamado escola, acho que a escola vai mudar, pode não ter mais sala de aula, mas enquanto existir informação vai ser preciso ter pessoas que ajudem a pegar essa informação, que é o papel do professor.

P - Como está o projeto Bairro-Escola hoje? Está sendo realizado da forma que planejou?

GD -
O começo é que é sempre muito difícil, você trabalha com a ideia de que a escola tem de derrubar os muros, se integrar ao cotidiano, que a aprendizagem acontece em diferentes espaços, mas aí você vê que nem o básico a escola consegue fazer: os alunos não aprendem português direito, matemática direito, as salas estão superlotadas, os professores estão desmotivados, são mal remunerados, os diretores estão despreparados, mas tem um grupo de pessoas que tem de lidar com o presente para projetar soluções para o futuro, né? O Bairro-Escola é um projeto que você faz um mapeamento em cima de uma cidade, verifica quais os recursos disponíveis e tenta estabelecer ligação entre os estudantes e esses conteúdos, como cinema, teatro, espaços culturais e também os recursos digitais, né? Se você pegar as pessoas que têm alto desempenho no trabalho, quem são essas pessoas? São aquelas que em geral estudam o tempo todo, estão sempre se atualizando. Você não tem uma pessoa de alto desempenho no seu trabalho que não aprenda, pelo contrário, são pessoas que fazem cursos, vão a palestras, fazem mestrado, doutorado, assinam newsletteres, vão a concertos, enfim, têm um repertório cultural razoável. Você consegue imaginar alguém que é um executivo bem sucedido que não está aprendendo o tempo todo, se informando, indo a congressos, seminários? O que a gente quer é que todas as pessoas possam ter um alto desempenho, nas mais variadas áreas.

P - Para finalizarmos, o que você tem a dizer sobre o atual momento da educação brasileira?

GD -
Tivemos grandes evoluções nos sistemas de avaliações, também estamos tendo uma preocupação cada vez maior com a educação, as pessoas estão buscando soluções mais variadas, mas o grau de deficiência que ainda tem é terrível, né? Considero importante as pessoas estarem na escola, mas acho que têm de ser criados mecanismos mais profundos que acompanhem o processo de aprendizagem. Fiz da minha vida um trabalho dentro da comunicação a favor da educação e agora atuo desenvolvendo soluções e disseminando elas. Me interessei pela educação porque é uma questão essencial para o desenvolvimento da sociedade, para a melhoria da sociedade, e é também o que eu gosto de fazer. O jornalista, o comunicador, também é um educador, mas eu acabei por radicalizar a profissão e acabei entrando em um processo que pudesse interferir na sala de aula.


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