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Quando o vilão é o ácido úrico


* Tatiana Camargo Pereira Abrão

O ácido úrico é uma substância produzida normalmente pelo nosso corpo. Ele resulta do metabolismo da purina (uma proteína que existe em muitos alimentos e no nosso organismo). Sua eliminação é feita em maior parte pela urina. Quando em excesso, pelo aumento da sua produção, podemos apresentar alguns sintomas, e sinais, devido ao depósito de cristais em vários locais do organismo. O cristal mais comum é o de monourato de sódio, que, quando se junta a outros formam pequenas agulhas, gerando inflamação e dor.

Nas articulações, causam uma artrite dolorosa que predomina mais em membros inferiores, mas podendo acometer todas as articulações (gota). Ela é mais frequente em homens acima dos 40 anos de idade, mas pode ocorrer em mulheres, e em qualquer idade. A manifestação mais comum da gota é a podagra, inflamação da articulação do hálux, vulgo dedão do pé. Pode acontecer como primeira manifestação de 75 a 90% dos casos.

Outra manifestação do excesso de ácido úrico é a formação de cálculos renais (litíase renal) , ou até mesmo a nefropatia úrica, com insuficiência renal aguda ou crônica. Podemos ainda ter depósitos dos cristais sob a pele e outros órgãos. Os níveis de ácido úrico podem estar elevados em outras doenças, como insuficiência renal, anorexia, leucemia, infecções agudas, eclâmpsia, choque, cetoacidose diabética, intoxicação por chumbo, acidose metabólica, estresse, alcoolismo, exercícios físicos vigorosos, policitemia e psoríase.

A medida da concentração de ácido úrico pode ser feita no sangue e na urina e só deve ser realizada após um jejum prévio de 8 horas. Os valores normais da concentração de ácido úrico no sangue humano variam entre 2,4 e 6 mg/dl, nas mulheres; e entre 3,4 e 7,0 mg/dl, nos homens. Na urina, entre 0,24 e 0,75 g/dia. Esses valores podem estar mais baixos nos vegetarianos, que ingerem menos proteína animal. As pessoas possuem muitas dúvidas da dieta para abaixar, ou pelo menos controlar os níveis do ácido úrico.

Dos alimentos que devem ser evitados, temos os seguintes: miúdos em geral (rins, coração, moela, fígado e miolo); grãos e sementes (nozes, castanha, amêndoa, pistache, amendoim, avelã) em geral; alimentos provenientes do mar, cujo metabólito principal de excreção é o ácido úrico (salmão, sardinha, mexilhão, anchova, truta, atum, arenque, camarão, ostra ); algumas aves (ganso, peru, galinha, galeto); caldo de carne e molhos prontos; embutidos (toucinho, bacon, presunto) e defumados em geral; alguns vegetais (alho poró, espinafre, aspargos, brócolis e couve-flor); algumas carnes (cabrito, vitela, porco, coelho e carneiro); leguminosas (feijão, lentilha, grão de bico, ervilha); algumas frutas: (cereja, abacaxi, côco e nêspera); bebidas alcoólicas em geral, principalmente cervejas; trigo e cereais integrais em geral; cogumelos.

Dos alimentos a serem consumidos com moderação (no máximo duas pequenas porções diárias), temos: carnes vermelhas magras (patinho, coxão duro); peito de frango; peixes (pescada, carapau, pargo, cachucho, faneca e corvine); chocolate e café; crustáceos como caranquejo e lagosta; pão de centeio; soja.

Os seguintes alimentos são permitidos: leite, queijo branco e iogurtes desnatados (melhoram a eliminação do ácido úrico), vegetais e hortaliças (couve, repolho, alface, acelga, agrião, alho, feijão verde, abóbora, cenoura, nabo); pães brancos, biscoitos de água e sal, bolos secos; frutas (maçã, laranja, pêra, morango, melancia, tangerina); ovos; arroz branco, massas, fubá, batata, milho, mandioca, sagu; frutos secos; chás; óleos vegetais (girasol, canola) em quantidade moderada.

As seguintes recomendações são válidas, como não reaproveitar a água de cozimentos; não tostar carnes assadas; não usar alimentos ou preparações ricas em gorduras, e, sempre, hidratar-se, tomando de dois a três litros de água por dia (ajudando o organismo a eliminar o ácido úrico). Fora isso, evitar muito estresse físico, consumo de bebidas alcoólicas, evitar alimentos industrializados, feitos fora de casa, optando pelo preparo caseiro dos alimentos.

Se, mesmo com a dieta, seu ácido úrico continuar elevado, seu médico pode prescrever medicamentos que podem inibir a produção do ácido úrico (alopurinol, febuxostato) , ou aumentar a excreção do mesmo (probenecida). Para o tratamento da crise de dor, podemos usar colchicina (medicamento anti-gotoso); antiinflamatórios específicos (Aines), como o ibuprofeno, naproxeno e diclofenaco, ou até mesmo corticóides, em casos de dor muito intensa. Vale ressaltar que não devemos usar aspirina, pois ela pode piorar a crise de gota. E jamais praticar a automedicação, pois, como descrito, pode piorar o quadro.

* Tatiana Camargo Pereira Abrão é endocrinologista, pós-graduada em Nutrologia e em Medicina do Esporte


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