ARTIGOS

Descaso e injustiça não podem corroer a História de uma comunidade


Vanderlei Polizeli

O mundo contemporâneo, do capitalismo consolidado, muitas vezes nos traz situações lamentáveis provocadas pelas atitudes de homens ou grandes grupos que ocupam posições econômicas e sociais de destaque, atitudes estas que simplesmente ignoram os direitos dos cidadãos e trabalhadores que constituem o corpo real da sociedade. Ao poder público, de toda esfera, cabe agir em nome das pessoas, para fazer valer seus direitos quando estas atitudes as agridem em sua cidadania, o ambiente e, sobretudo, a História. A história da ferrovia em São Paulo e no Brasil foi um capítulo memorável escrito no tempo.
Gerações viveram a partir da economia trazida pelo advento do trem como meio de transporte e carga; famílias, bairros e cidades se construíram em função do leito ferroviário, das muitas atividades que ele trouxe consigo, num panorama que envolvia o vai-vém de pessoas, o transporte de inúmeros produtos, a expansão do negócio do café. Em Iperó, esta saga foi o grande marco de seu nascimento.
"A estação era um grande centro de convivência, a gente descia lá para namorar, conversar, se divertir, trabalhar e ver os trens passar". Depoimentos, como este, são prova da riqueza preservada na memória dos iperoenses que viveram e contribuíram com o crescimento da cidade. Hoje porém, toda essa rica história reduziu-se a um quadro físico de abandono e destruição de uma memória e de um passado importante na vida econômica e social de um povo. O que foi um pátio efervescente, alegre e ativo, hoje é, como batizado, um cemitério habitado pelo crime e pela sujeira.
Nós nunca compactuamos com isso, sempre estivemos do lado do povo, porque também viemos de lá, de família ferroviária que dali sustentou seus filhos. Mesmo sem gente influente morando à volta, não deixamos de brigar para que a história do pátio ferroviário de Iperó fosse reconstruída. Mas, infelizmente, não podemos, só por nossa conta, mudar alguns fatos, apesar de boa vontade.
Negociamos com uma empresa que pouco ou nada importou-se com as pessoas, os acordos tentados não avançaram. Acreditamos que conseguimos provar à Justiça os muitos problemas trazidos pela atitude da ALL em abandonar não 200, mas 330 vagões a céu aberto: abrigo de criminosos, focos de dengue, impactos ambientais. Temos fé que a Justiça continuará a enxergar o absurdo que representa o descaso de uma empresa, e as consequências reais que ele vem provocando para muita gente.
Os acordos, que tentamos sim, muitas vezes, não sob a batuta de personagens influentes, mas a partir de nossa própria consciência e parceria com o povo, não resultaram em nada. Por isso buscamos o apoio no Poder Judiciário.
Queremos o que os cidadãos querem, porque também somos parte deles. Queremos ter os direitos garantidos, um ambiente saudável, um espaço bonito de ver e vivenciar. Não queremos sofrer pelo descaso capitalista injusto e insensível de grandes grupos ou homens poderosos. Queremos a história de um povo, no lugar de honra que ela merece. Preservada e protegida.
Vanderlei Polizeli é prefeito de Iperó


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