EDITORIAL

Faltou um vizinho ilustre


Só uma coisa explica o cemitério de vagões mantido pela América Latina Logística (ALL) no antigo pátio de manobras da estrada de ferro, em Iperó: a localização. Houvesse nas proximidades um condomínio de luxo, a casa de campo de algum figurão da República ou mesmo o sítio da tia-avó de um desembargador, a situação não persistiria por tanto tempo. Na vizinhança de casas simples, os cerca de 200 vagões enferrujados, transformados em esconderijo por bandidos e, por isso mesmo, em fonte permanente de temor para os moradores, são um desafio à capacidade dos homens públicos de sentirem compaixão pela população humilde.

Consta que o caso foi parar na Justiça. A ALL e a Prefeitura de Iperó esgrimem argumentos para decidir nos tribunais se os vagões devem sair ou ficar. É um litígio estúpido e desnecessário. Ninguém discute se a ALL tem o direito de utilizar, da forma que julgar adequada, as áreas postas sob seu domínio ou o patrimônio rodante que a alquimia trôpega dos homens públicos transformou em ferrugem. Mas a forma como os vagões foram largados para apodrecer ao ar livre, numa área devassada e tomada por matagais, representa um grave risco à saúde e à segurança da comunidade, diante dos quais os direitos da concessão são secundários.

Seriam desnecessárias as ações judiciais movidas pela Prefeitura -- uma para a retirada dos vagões e outra, mais recente, para a limpeza da área -- se houvesse entre os homens públicos e os executivos da concessionária a típica boa vontade que emana sem grande esforço, quando o assunto resvala em cabeças coroadas do meio político e econômico, ou mesmo de celebridades duvidosas do cenário nacional. Talvez algumas rodadas de negociações, em que cada uma das partes apresentasse suas dificuldades e informasse em que pode ajudar ou ser ajudada, fossem suficientes para que se constituísse uma força-tarefa para dar fim àquela situação absurda.

A boa vontade remove montanhas. No Rio de Janeiro, o governador Sérgio Cabral (PMDB) mudou por decreto as leis do Estado, permitindo que a mansão dos apresentadores Luciano Huck e Angélica, em Angra dos Reis -- construída em desacordo com a legislação ambiental --, pudesse ser liberada. A medida ficou conhecida pejorativamente como Lei Luciano Huck. Os moradores dos bairros Novo Horizonte e Vila Santo Antônio, em Iperó, não pedem tanto: eles querem apenas que os homens com poder de decisão façam alguma coisa para lhes assegurar alguns direitos elementares, como o direito de andar na rua sem ser assaltado, por exemplo.

"É comum alguém ser assaltado aqui neste caminho, mesmo de dia. Semana passada, um dos meus vizinhos, aposentado, chegou chorando em casa, pois retirou todo o pagamento do mês no banco e quando passou na ponte, no período da tarde, foi roubado. Quem tem que passar pelo local, não importa o horário, tem medo" -- relatou o operador de máquinas Severiano Ferreira de Lima, de 42 anos. Ele e outros moradores sonham acordados com o dia em que uma promessa já bastante antiga possa vir a se concretizar: a transferência da área em que se localiza o cemitério de vagões para o município, a fim de que nela seja instalado um centro cultural.

Enquanto o bom senso não prevalecer (ou nenhuma figura influente se interessar em residir ou montar um negócio naquelas paragens), crianças, mulheres e idosos continuarão expostos aos perigos, que já perduram por duas décadas. As ações judiciais correrão até o fim, e as eventuais sentenças ainda poderão ser alvo de recursos e agravos, enquanto os vagões continuarão caindo de podres e acolhendo viciados, ladrões e estupradores, ou servindo de criadouros para o mosquito da dengue. É uma situação vergonhosa, em todos os sentidos. E o mais vergonhoso de tudo é que se dá menos valor às pessoas do que às coisas sem nenhum valor.


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