ARTIGOS

Conhecendo o seu genoma


Profa. dra. Ana Claudia Lessinger

A genética sempre me surpreendeu e eu a utilizo agora para surpreender o outro sempre que posso. Imagine, por exemplo, o genoma humano - mas não o de um Homo sapiensqualquer que vive apenas em livros didáticos - imagine o genoma de cada uma das suas células. O humano desta história é você e seu genoma de 3 bilhões de pares de bases (As, Ts, Gs e Cs que formam a dupla-hélice do DNA imaginada pelos cientistas James Watson e Francis Crick há 60 anos atrás). Este genoma guarda histórias de vidas passadas, literalmente, pois é uma herança. Este genoma será a herança destinada a seus descendentes ainda em vida.

Há tempos debatemos o quanto nossa herança genética nos representa, variando de extremos deterministas (somos fruto da nossa condição genética) a escolhas extremas (somos o que queremos ser). Independente de um extremo ou outro, lá está o seu genoma e seus mistérios indeterminados, por enquanto. O DNA, diz a ciência, é composto de bases que têm origem extraterrestre. As evidências científicas registram a presença de bases raras em alguns tipos de meteoritos e sugerem um papel fundamental destes elementos na origem da vida na Terra (http://1.usa.gov/10d5Haz). Surpreendente.

Outro fenômeno indiscreto refere-se à presença de sequências de DNA que se comportam de maneira autônoma, independente do controle da célula, elementos que produzem cópias de si mesmos e contaminam o genoma com sua presença cada vez mais abundante. Como resultado deste processo ao longo da evolução humana, quase 50% do nosso genoma constitui-se de sequências de DNA repetitivo, muitas vezes sem função conhecida, chamados de "elementos genéticos móveis". Se estiver tentando evitar uma crise de identidade despertada por esta revelação, talvez saber que a grande maioria destes elementos encontra-se "domesticada" ajude a superar eventuais angústias. Surpreendente também.

Parece familiar a ideia de que quanto maior o genoma, mais genes, mais funções, maior a complexidade metabólica do organismo? Então como explicar que o genoma da salamandra é 35 vezes maior que o genoma humano? Surpresa? Além de menor que o genoma de um anfíbio, apenas uma pequena parte do genoma humano (~2%) é composta por genes codificadores de proteínas, que seriam os principais responsáveis pela expressão de nossas características (fenótipo), conforme preconiza o Dogma Central da Biologia Molecular (DNA > RNA > Proteína).

Considerando-se que a natureza opera economizando energia, como explicar tanto DNA não-codificador no genoma humano? Uma rede de pesquisa (ENCODE: www.nature.com/encode) respondeu esta pergunta recentemente, revelando que 80,4% do genoma possui função, não apenas 2%. Ao reclassificar regiões não-codificadoras como elementos funcionais, descarta-se definitivamente a ideia de "DNA-lixo" e novas classes de elementos regulatórios vingam na figura do RNA não-codificador (ncRNA).

Ao ampliar nossa compreensão sobre a diversidade funcional dos ncRNAs, o cientista é provocado a rever seus paradigmas e reconstruir a definição de conceitos fundamentais da genética, como gene e genoma; a rever a ideia de função associada às sequências nucleotídicas para além do universo dos genes codificadores de proteínas e a reinterpretar o mundo das relações genéticas num cenário onde moléculas de RNA transcritas a partir de trechos de DNA não-codificador assumem o papel de protagonistas na determinação do fenótipo. Muitos se surpreenderam.

Há alguns anos entramos na era da genômica individual, que traz promessas associadas à medicina personalizada e debates éticos sobre o uso destas informações por terceiros ou nós mesmos. Um cientista brasileiro tornou seu genoma públicopara provocar o debate sobre como proteger "o cidadão de qualquer tipo de discriminação genética". Saímos da escala molecular para o universo social, que surpresas nos aguardam aqui?

Profa. dra. Ana Claudia Lessinger é docente da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), câmpus Sorocaba (lessinger@ufscar.br)


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