CULTURA

Um encontro musical entre Peru e Brasil

Maíra Fernandes
maira.fernandes@jcruzeiro.com.br

Pode chamar de banda, já que a música é o mote da junção dos integrantes do grupo Caracunde, que tocam canções afro-peruanas. Mas é mais que isso. Além da leitura de poemas e de números de danças típicas, os jovens vindo de diferentes países da América Latina têm uma proposta maior: divulgar a cultura do Peru, país de origem do músico que deu início ao projeto, Álvaro Ponce de León, que há oito anos mora em Tatuí. Ele, como os demais integrantes - Lúcia Spikav (Argentina), Paola Guimaraez (Peru), Gonzalo Resquín Varela (Paraguai), Pedro Manoel Martínez Pino (Paraguai), Juan Humberto Manrique Silva (Peru) e Estefano Lovato (Equador) - chegaram ao Brasil para estudar música no Conservatório de Tatuí, onde permanecem até hoje, seja estudando ou mesmo dando aulas, no caso daqueles que já concluíram a formação.

E o trabalho dos músicos já vem dando frutos, tanto que foram selecionados entre 450 grupos para se apresentarem em um dos mais importantes festivais culturais do Brasil, o Festival Latinoamericano e Africano de Arte e Cultura (Flaac), onde mostram seu trabalho em junho, na cidade de Brasília. O festival retorna após 25 anos desde a última edição.

Álvaro, que chegou em Tatuí para fazer aulas de bateria, desde pequeno já estudava os instrumentos típicos da cultura peruana, como o cajón, uma caixa de madeira que é utilizada como percussão. Para ele, além de divulgar a cultura de seu país, o trabalho ajuda a matar saudades e mantê-lo ligado à sua pátria. "A proposta é matar as saudades e difundir nossa música e cultura", posiciona-se, reforçando que as músicas apresentadas são canções tradicionais da cultura afro-peruana, como os festejos.

Para manter a tradição, dividir um pouco da sua cultura e trocar experiência, resolveu então, há quatro anos, montar uma oficina para ensinar, a brasileiros e estrangeiros, a percussão afro-peruana. "Mas os brasileiros desistiram", conta ele. E para quem pensa que a desistência dos brasileiros tenha sido por desinteresse, Paola conta que foi o grau de dificuldade que acabou espantando-os. "São ritmos bastante diferentes e eles tinham dificuldade de pegar o ritmo", conta, lembrando que mesmo para os não peruanos, a musicalidade era mais familiar, reforçando a distância não apenas da língua mas também da cultura do Brasil em relação aos demais países sul-americanos.

Aliás, para os músicos, há muitas diferenças entre os países, mas principalmente entre o Brasil e os demais sul-americanos. Começando pela cultura híbrida de um país tão grande, "quase um continente", na visão de Lúcia, e por características que derivam dessa extensão e multiculturas.

Resistência africana

Entre os países da América do Sul, não é privilégio apenas do Brasil ter forte influência africana na cultura musical. Por mais que pouco divulgado, países como o Peru também repudiam o processo escravocrata que foram submetidos os negros em seu país, mas, como o Brasil, gozam da herança cultural disseminada por eles, principalmente na música. E é isso que os músicos do Caracunde (que é o nome de um festejo popular no Peru) pretendem contar e cantar no palco. E o que não faltam são curiosidades para o público pouco acostumado com a história dos países do continente, principalmente ligadas à música e aos instrumentos, que os africanos acabaram adequando ao novo modo restrito de vida.

O Cajón, por exemplo, o principal instrumento percussivo da música peruana, substitui os tambores dos africanos, que foram retirados de suas posses, assim que chegaram na costa peruana. Primeiramente, o instrumento era feito de caixa de frutas. "É de madeira e é para o peruano assim como o pandeiro é para o Brasil", ensina Álvaro. Outro exemplo bastante curioso, trata-se do cajita, um instrumento que parece uma caixa com tampa e é pendurada no pescoço, para ficar rente ao corpo. O modo de tocá-la é batendo a parte da tampa na borda da caixa, também um elemento de percussão. De acordo com os músicos, era um tipo de objeto que os africanos utilizavam para pedir esmola e em troca tiravam um som do instrumento.

O que mais chama a atenção entre os instrumentos utilizados pelo grupo (que se apresenta com trajes típicos) é a queixada, feita de uma parte do queixo de um burro. O osso foi transformado em instrumento através da necessidade dos escravos africanos em dar continuidade à sua cultura. "Como nasceu a feijoada, também foram criando uma cultura no Peru", defende o músico. No momento, o grupo se preparara para as 24 apresentações e os workshops que ministrarão na Flaac, em Brasília. Porém, não descartam os anseios em gravar um álbum e expandir o projeto para além do Brasil. Porém, o foco agora é afinar as culturas e os instrumentos. Mais sobre o grupo no sitewww.caracunde.com.



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