ELA

Labirinto da Fal


Fal Vitiello de Azevedo
       fal.drops@gmail.com 
 
* Há um certo conforto em saber que, quando você não gosta de alguém, quase que certamente esse alguém também não gostará de você.
 
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Minha santa mãe, com quem voltei a viver depois que fiquei viúva, dentre outras maravilhas naturais é craque em arrumar armários. Arrumou o meu. Meus paninhos velhos de costureira ficam parecendo o closet da Bioncétis. Num guento.
 
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Telefonemas enumerados. "Outra coisa importante que tenho para falar", "outra coisa que eu queria dizer"... são muito fofos. Apesar da vontade de chorar, são fofos.
 
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O péssimo de arrumar armário é que é uma atividade que tira suas ilusões. Antes de arrumar, você fica na pilha do "tenho muito, muito mesmo, o que vestir, só não uso porque tá tudo entuchado lá no meio daquela zona e tal."
 
Quando tá tudo arrumadim, separadim por cor nos cabides e você tem que ir selecionando "não cabe, manchado, desbeiçado, manchado, não cabe, não cabe, não cabe, véio, véio, carcomido, onde eu tava com a cabeça, sem barra, véio, sem elástico, horroroso, terno do Didi, desbotado, véio, xangai, demodê, cafona, horrívis, não cabe, manchado", é que você se dá conta que, Jisuis, você usa sempre as mesmas roupas porque só dá pra usar aquilo mesmo.
 
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Não curto Natal. E não, não estou declarando que odeio Natal, só não curto. Não fico triste também. Não choro, não bebo, não fico perambulando pela casa e nem dando com o chifre na parede. Como a grande maioria das coisas nessa vida, o Natal não me toca. Não me diz nada. Não me mobiliza nem para o mal, nem para o bem. Não frequento comemorações e quejandos por conta da logística (família minha, família alheia, abraços, maquiagem escorrendo com o calor, oba oba, "querida, você está ótima". Disso eu não gosto).
 
As decorações não me comovem, as comidas são gostosas mas posso fazer aquilo em qualquer dia do ano, não ganho presentes e dou poucos, pra poucos e queridos amigos, só pela ternura. Não faço árvore.
 
Enfim, Natal não é a minha. Quase nada é a minha.
 
De modos que, alguém me explica como uma pessoa que não dá a mínima pro Natal, ama tanto músicas de Natal. T. teoriza que deve ser porque as músicas foram o que ficou dos Natais da minha infância. Deve ser. Sei lá. Amo músicas de Natal.
 
Fal Vitiello de Azevedo é tradutora e escritora, autora do livro "Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite" (Editora Rocco). Ela também escreve no www.dropsdafal.blogbrasil.com
 



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