ELA

Suplemento Ela faz parte da história de Dalva e Edmilson



Ela sempre respondia que, quando estivesse namorando, publicaria em jornal, com foto e tudo. Isso para que assim os amigos parassem de questioná-la quanto à relação que mantinha com o amigo Edmilson Ribeiro. Era só amizade. E não uma amizade qualquer, mas daquelas de cúmplices, de ele ligar para ela contando dos encantos e desencantos do relacionamento com outra pessoa, e a ponto até de ela tê-lo ajudado a escolher a roupa que usaria em seu noivado.
Amigos desde a adolescência, tanto Dalva de Almeida Lopes Ribeiro, 48, quanto Ribeiro cresceram próximos, com amigos em comum e uma sensação que ambos definem como "estranha". Isso porque tinham, um pelo outro, um sentimento fraternal. E foi essa sensação que os tornou cúmplices. E cada vez mais chegados.
Mesmo quando, por opções distintas, acabavam por se distanciar, o sentimento fraternal e de carinho era mantido. "Rolava confiança, de irmão, sempre estávamos juntos", conta Ribeiro, hoje, com 47 anos e professor universitário.
Para contextualizar é importante contar que a época era 1987, há 24 anos. "Fomos ficando próximos. Ou a gente namorava ou a gente namorava".
Mas assumir um namoro poderia acarretar mudanças. Sim, uma das maiores preocupações era o fato de serem sempre tão amigos, de já terem o carinho e a confiança das famílias.
Para Dalva, o temor era de que, caso não desse certo, como ficaria a amizade?. Nessa dúvida entre namorar ou não, e a cada dia ficando mais próximos, foi de Ribeiro a iniciativa do ultimato.
Discretamente, continuaram a rotina que já mantinham de estarem juntos, passear. "Saíamos no sábado, domingo, e íamos passear pela região de moto, tomar sorvete, nesse dia já era namoro, só não era oficializado", entrega ele.
Esse dia, a qual Ribeiro se refere, foi em junho de 1987, provavelmente um dia de semana, ele não tem certeza. O que sabe é que esse dia foi um divisor de águas tanto em sua vida quanto na de Dalva. Isso por culpa ou ajuda do caderno Ela, do jornal Cruzeiro do Sul.
Uma matéria sobre o Dia dos Namorados seria publicada pelo jornal e precisava de uma imagem para contextualizar. E ficou a cargo do fotógrafo Adival B. Pinto, capturar na cidade um casal de namorados.
Entre talvez tantas que trouxe, a imagem escolhida para ilustrar a matéria foi uma feita sorrateiramente, na Praça Frei Baraúna, onde o casal estava para conferir uma exposição de fotografia na chamada "Casa da Cultura".
Entre a paisagem cercada de verde, a cena do casal em provável conversa e de mãos dadas foi aquela que mereceu destaque, e foi publicada no dia 7 de junho, ilustrando a matéria sobre o Dia dos Namorados.
Eles até viram o fotógrafo no local, chegaram até comentar o perigo que seria para quem estivesse ali "pulando o muro", mas nem perceberam que haviam sido flagrados.
No fechamento da edição, um funcionário que era primo de Dalva foi quem deu a notícia, antecipando o que estaria nas bancas no outro dia.
Ele ligou e elogiou a foto, contando que estariam no jornal no outro dia. Sem entender muito o que estava acontecendo e surpresa com a notícia, na mesma hora Dalva ligou para Ribeiro que a orientou: "Então oficializa a notícia na sua casa".
Para Ribeiro, tratava-se apenas de uma formalidade e que tanto os pais quanto os amigos imaginavam o que estava acontecendo ou previam que uma hora ou outra isso aconteceria. Mesmo assim, procuraram adiantar a surpresa, e contaram aos familiares sobre o namoro. Nem pais e nem amigos esboçaram reação contrária ao namoro, que já se anunciava há longa data. "A família gostou, na época nos víamos bastante, havia uma certa torcida. O fato foi bastante comentado, mas foi positivo, teve boa aceitação e em 1990 casamos e hoje temos uma filha linda, de 18 anos", comemora Ribeiro.

Amor sólido

O jornal foi guardado como lembrança, e hoje ajuda a rememorar os ciclos da vida, conhecido também como passar do tempo. "Eu tinha o jornal impresso mas procurei no site do jornal, dentro do Projeto Memória, e fiquei olhando. Então me dei conta que hoje (na terça, dia da entrevista), faz 24 anos que isso ocorreu. Eu fiquei olhando a jaqueta que eu vestia, o tempo... Valeu a pena! Nesses 24 anos trouxemos muito dessa coisa de amizade. Ela me conhece pelo modo que abro a porta, se estou bem ou não, e conseguimos passar essa questão de amizade para nossa filha", relata.
Para ambos, a amizade, pelo menos na história deles, foi e é o grande alicerce. Tanto que, em meio a entrevista, Ribeiro se atenta: "Já poderíamos estar comemorando Bodas de Prata, pois nos conhecemos desde os 15 anos".
Dalva reforça a posição do marido. Quando questionada sobre os atuais relacionamentos, não se prende em comparações: "Cada um tem sua história, mas a nossa sempre foi focada em uma grande amizade".
Para ela, essa afirmação de eternos namorados não tem valia. Pela sua própria história, sentencia que é preciso viver cada fase da vida. E o casamento não é namoro, pelo contrario: "É melhor que namoro".
Sobre a tal modernidade e os relacionamentos, Ribeiro lembra que tem uma filha jovem, que trabalha diariamente com eles e respeita também a geração de "namoridos". Não é contrário ao modo de relacionamento, mas prioriza: "Acho que as coisas têm que acontecer com marcos. Não é o casamento, é o que antecede o casamento: a reforma da casa, a compra dos móveis, o relacionamento com a família, entre tantas outras coisas".
Ribeiro ainda traz para o embate a teoria "líquida" do sociólogo Zygmunt Bauman, sobre modernidade líquida, amor líquido...."Baumam liquidifica tudo, fala que o amor é líquido. Mas tem coisas que você não pode liquidificar, que são sólidas, como essa fotografia (do jornal). Então o amor não é líquido, é aquilo que não dá para não ser sólido. É essa lembrança", teoriza ele, vagando nas lembranças, uma das poucas coisas que o tempo não tira.



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