CADERNO DE DOMINGO

Cemitérios municipais precisam de manutenção

Lápides depredadas, mato alto, falta de pintura, sepulturas em ruínas, vidros quebrados, puxadores e peças de metal furtados e até túmulos violados. A situação dos cemitérios municipais de Sorocaba tem causado descontentamento e revolta na população, que pede uma melhor manutenção, fiscalização, segurança e até mais respeito aos mortos da cidade. Nenhum dos quatro cemitérios públicos da cidade foi encontrado em perfeito estado de conservação. Confirmando denúncias sobre falta de manutenção e abandono, a reportagem verificou situações de danos e depredação em todos eles.
Questionada sobre a conservação dos cemitérios municipais, a Secretaria de Obras e Infraestrutura Urbana (Seobe) afirmou que os setores administrativos das quatro unidades realizam serviços gerais de manutenção periodicamente, como pinturas de muros e guias, reparos em ruas internas e calçadas e podas de árvores e que a manutenção das sepulturas é de responsabilidade das famílias concessionárias. Para evitar furtos, a Secretaria recomenda ainda às famílias que não utilizem peças de bronze nos túmulos. A manutenção é concentrada na última semana de outubro, devido ao Dia de Finados, lembrado no dia 2 de novembro.
"Anualmente, os cemitérios municipais são vistoriados próximos ao Dia de Finados, para a realização de eventuais serviços que sejam necessários", afirma a nota da assessoria de imprensa. Em relação à segurança dos cemitérios, a Secretaria de Segurança Comunitária (Sesco), afirmou que se operacionaliza por meio de rondas da Guarda Civil Municipal e, quando necessário, apoio da Polícia Militar.

Problema antigo

Os problemas com os cemitérios municipais não são apenas recentes. Há tempos, os túmulos são profanados, inclusive com ações criminosas, como o caso de violação de sepultura, considerado crime previsto no artigo 210 do Código Penal. Nesse caso, o cemitério Consolação, na Vila Haro, é o que tem maior histórico de ocorrências. Em março de 2007, um grupo de crianças e adolescentes, entre 10 e 15 anos, moradores da Vila Haro, violou pelo menos três túmulos do cemitério e mexeu nos corpos. Em um dos túmulos que abriram, o morto tinha sido enterrado um dia antes.
Já em outubro de 2009, um túmulo foi violado no mesmo cemitério Consolação. Um crânio de um homem sepultado em setembro de 1996 foi colocado sobre outra sepultura. Em setembro do ano passado, um skinhead violou um túmulo de um vocalista de uma banda punk, também na Vila Haro. Ele arrebentou a sepultura com os pés, durante horário de visitação no cemitério e retirou os ossos do túmulo.
Além de "vítimas" de crimes, os cemitérios também são utilizados para praticá-los. Eles são utilizados muitas vezes para facilitar o tráfico de drogas. Em fevereiro de 2009, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida sobre um túmulo do cemitério Consolação era utilizada para guardar pedras de crack. Já em dezembro do ano passado, a Guarda Civil Municipal apreendeu 45 porções de crack, que estavam sendo vendidas dentro do cemitério da Vila Haro, por um adolescente de 17 anos.

Cemitério Santo Antônio tem até cavalos pastando

Enquanto vândalos e ladrões conseguem pular os muros de alguns cemitérios com facilidade, no Santo Antonio, zona oeste de Sorocaba, eles nem precisam se preocupar com esse tipo de barreira física. O cemitério que fica no bairro Wanel Ville sequer tem muros, o que facilita a invasão de pessoas mal intencionadas.
Devido à falta de proteção, o lugar está em constante estado de abandono e é o que tem constantes casos de danos às sepulturas. Além do roubo das peças de metal, muitas lápides do cemitério Santo Antônio são depredadas e encontram-se em estado lastimável. Algumas ainda são retiradas do lugar, confundindo a identificação do jazigo.
O ambiente do cemitério Santo Antônio não é marcado apenas pelos sepultamentos ali. Há muitos túmulos violados, ossos desenterrados e até a utilização de alguns deles para rituais de magia negra.
Cansada de esperar pela construção do muro no cemitério, a costureira Benedita Anecides Monteiro, de 56 anos, resolveu levar para casa a lápide do túmulo do seu único filho morto num assalto aos 19 anos, em 1992. Inconformada, ela já relatou as depredações e roubo de parte da lápide ao jornal <BF>Cruzeiro do Sul<XB>, no começo de fevereiro. "Além de roubarem a cruz, quebraram a foto dele, ao tentarem levar a moldura. Nem depois de morto meu filho pode ter paz", afirma.
Na época, a Prefeitura garantiu a construção de um muro ao redor do cemitério, pois havia concluído o processo licitatório e publicado a contratação da empresa Imprej Engenharia Ltda, na edição do dia 28 de janeiro do jornal Município de Sorocaba. O muro é uma das exigências da Lei Municipal nº 5.271/96, mas até agora, as obras sequer começaram, e o cemitério continua contando apenas com um alambrado. "Eles falaram que ia começar no dia seguinte e pensam que a gente acredita. Faz tempo que está assim e só piora", conta.
Com fotos nas mãos, ela mostra ainda que o cemitério está sendo utilizado por proprietários de animais de grande porte. "O cemitério está virando um pasto de cavalos", mostra. Benedita afirma que o conselho de levar a lápide para casa surgiu dos próprios funcionários do cemitério. "Eles falaram para eu levar embora antes que alguém levasse. Agora estou só esperando o dia em que eu vou chegar lá e o túmulo também estiver violado", diz. Para Benedita, a questão é de educação, respeito e zelo, tanto por parte dos vândalos, quanto da Prefeitura. "Já vieram falar que, se eu não estiver contente, é para eu tirar meu filho de lá. Isso não é coisa que se diga para uma mãe que perdeu um filho", afirma.
Questionada novamente, a Secretaria de Obras e Infraestrutura Urbana (Seobe) ainda não estipulou nenhuma previsão para construção do muro no cemitério Santo Antônio e afirma desta vez que a documentação entregue pela empresa contratada encontra-se em fase de análise, para que então seja assinada a ordem de serviço visando à execução dos trabalhos.

Vulnerabilidade

A vulnerabilidade do cemitério Santo Antônio é confirmada por fatos há anos. Em setembro de 2008, um cadela retirou sem grande dificuldade uma perna humana que havia sido sepultada no aterro do local e foi comê-la no jardim de uma residência próxima, seguida por outros cachorros de rua. O caso recebeu investigação policial, mas foram encerradas rapidamente porque o delegado titular do 9º Distrito Policial, Abel Leopoldo, comprovou que não houve negligência no endereçamento nem na deposição do membro amputado. A história da perna exumada também chamou atenção para a construção de um muro para cercar o cemitério. Neste caso, para evitar a invasão dos animais.

Detalhes depredados no Consolação

Praticamente todos os túmulos que apresentam detalhes em vidro, no cemitério Consolação, estão depredados. Muitos puxadores de gavetas das sepulturas foram arrancados, provavelmente objetos de furtos. Em alguns túmulos ainda foram encontradas coroas de flores, que ainda não haviam sido recolhidas após o enterro. E, embora indicassem um sepultamento recente, as flores já dormiam secas sobre as sepulturas e indicavam uma espécie de esquecimento instantâneo a que todos estão sujeitos após morrer.
Além da falta de conservação, o Consolação negligencia ainda a área de saúde pública. Entre os túmulos, havia latas de tintas - utilizadas em alguma reparação ou reforma - cheias de água parada. Os latões, esquecidos em meio aos mortos, formavam um ambiente propício para a proliferação do mosquito transmissor da dengue.
Diante dos problemas, o contador Gilberto Tonucci, 45, reclama também da falta de segurança nos cemitérios da cidade. "Uma simples cerca elétrica de certa forma iria inibir os vândalos e ladrões que invadem o cemitério ao cair da noite", afirma. O jazigo da família de Tonucci está no cemitério Consolação, mas ele tem o costume de visitar os demais cemitérios para verificar a situação deles. "O estado de abandono só tende a piorar com a inércia dos responsáveis", destaca.
Em agosto do ano passado, Tonucci enviou um ofício à Prefeitura cobrando explicações sobre a situação dos cemitérios. E, segundo ele, embora previsto na Lei Municipal 5271/96, a Prefeitura não faz retomada das sepulturas abandonadas ou em ruínas sob alegação de não possuir um ossário na cidade. "Em resposta ao meu questionamento, afirmaram que aguardam novo local para depósito dos ossos", conta.
O jazigo da família de Tonucci também estava danificado por ações de vândalos e ele afirma perder as contas de quanto gasta para deixar o túmulo em ordem. "Agora mesmo estou indo para o vidraceiro, para consertar o vidro que quebraram. É sempre assim", lamenta. Ele afirma estar cansado de reparar os estragos, consequências das invasões noturnas. "Rondas esporádicas da GM nos arredores dos cemitérios, não adianta", enfatiza.
O contador afirma estar indignado com o descaso à questão e cobra atitude das autoridades. "Nosso poder público gasta uma fortuna para construir um banheiro público na praça central, milhões em jardinagem, por que não gastar - e com certeza nenhuma cifra milionária - para manter nossos cemitérios arrumados, limpos e com segurança?", questiona e finaliza: "Os mortos não votam, mas as famílias deles sim."

Aparecidinha é o cemitério menos vandalizado

No Cemitério Municipal de Aparecida, no bairro de Aparecidinha, túmulos quebrados denunciam a passagem de vândalos. A maioria das sepulturas está sem os puxadores de metal, que provavelmente foram furtados. Em muitas delas, faltavam pedaços de cerâmica ou de pedras de revestimento.
Com bastante espaço entre os mais de 3 mil túmulos, o cemitério está com mato alto em muitas sepulturas de uso comum, chegando a cobrir a lápide da maioria delas. Uma grande quantidade de entulho também chama atenção logo no fundo do corredor de entrada do cemitério.
Com 110 anos, o menor cemitério público da cidade é o que tem menos registros de vandalismo. Apesar de alguns problemas de falta de conservação, foi o único que apresentou sinais de reformas nos túmulos, com os próprios funcionários encarregados de realizar as melhorias. Aproveitando o espaço livre do cemitério, os funcionários confeccionavam novas placas de cimento, para substituir as quebradas, em diversas sepulturas violadas.
A preocupação com a dengue também foi registrada no local, com a pintura de frases nas paredes da capela, aconselhando as famílias a evitarem colocar vasos com flores sobre os túmulos.

Metais são levados no cemitério Consolação

O mais antigo cemitério público de Sorocaba em funcionamento não é o mais depredado. O cemitério da Saudade, embora com o mesmo número de pessoas sepultadas no Consolação - 57 mil - possui menos registros de invasões e violações de túmulos. Apesar disso, muitas sepulturas são esquecidas com seus mortos e ficam sem manutenção.
Considerado um museu a céu aberto, muitas peças históricas estão danificadas ou foram furtadas. Como no Consolação e Aparecida, os puxadores de metal e as molduras das fotos são os principais alvos dos ladrões.
Entretanto, não são somente os objetos que já foram furtados do cemitério da Saudade. Lá está o túmulo do místico João de Camargo, alvo de várias violações, sempre às vésperas de seu aniversário de falecimento - 28 de setembro. Na última violação registrada, em 1995, os vândalos estouraram os cadeados do túmulo, que é uma réplica da igreja localizada na avenida Barão de Tatuí, mas nada levaram. Em uma delas, na década de 70, os depredadores arrebentaram o piso do túmulo e acabaram levando os restos mortais do seu guarda-livros, que está enterrado na mesma capela. A história conta que a intenção era furtar os ossos do místico, para usá-los em algum ritual, mas nunca foi confirmada.
Em relação à segurança dos cemitérios, a Secretaria de Administração afirmou que ainda estão em andamento os processos licitatórios referentes à compra de cercas de segurança a serem instaladas nos cemitérios da Saudade e da Consolação.

Saudade é omais antigo

O cemitério mais antigo de Sorocaba em funcionamento é o da Saudade, fundado em 1863, na praça Pedro de Toledo, na região do Além-Linha. Antes dele, as igrejas e o entorno dela eram utilizados para sepultamentos. O cemitério da Saudade foi construído devido ao aumento da população e o perigo de doenças que assombrava a cidade, na época. O primeiro sepultamento ocorreu em 18 de maio de 1863. O terreno do cemitério naquela época era a metade do que ocupa hoje e foi ampliado no ano de 1942. Antes da construção do cemitério, ali funcionava uma forca, onde sete escravos condenados por crimes foram mortos. Administrado pela Prefeitura, o cemitério da Saudade tem hoje 7.840 sepulturas perpétuas. Cerca de 57 mil pessoas estão sepultadas no cemitério, numa área 45 mil metros quadrados.
Em 1901, no bairro de Aparecidinha, Sorocaba ganhou o segundo cemitério, que hoje abriga 2.447 túmulos perpétuos e 900 de uso comum: são 12.447 m2 e mais de dez mil pessoas enterradas. O cemitério da Consolação, na Vila Haro, data de 1938, onde já foram realizados mais de 57 mil sepultamentos em 10.993 mausoléus perpétuos e 140 de uso comum.
O maior cemitério público do município foi inaugurado em 1990, o Santo Antônio, no Wanel Ville, com 215 mil m2, 675 sepulturas de concessão e 13.248 de uso comum, das quais 1.364 para crianças menores de seis anos. Ainda tem área livre de 8 mil m2 para construção de 1,5 mil conjuntos, com três gavetas cada.



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