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Santuário de mulheres




Carlos Araújo
carlos.araujo@jcruzeiro.com.br

No mês de homenagens às mulheres, agora que todos já falaram e escreveram quase tudo sobre o tema, ainda é tempo de dizer que há um campo em que a mulher rivaliza em pé de igualdade com o homem e em muitos casos até o supera: a infinita e generosa galeria de personagens femininas na literatura.

O universo das grandes escritoras é vasto, da brasileira Clarice Lispector à bielorrussa Svetlana Alexievich, mas é sobretudo nas personagens que a mulher se reinventa e surpreende o mundo. De Sherazade a Capitu, de Dulcineia del Toboso a Gabriela, Cravo e Canela, a ficção é o espaço onde a mulher habitualmente se impõe como protagonista, dita os rumos dos destinos humanos e dá razão e sentido à existência.

E não poderia ser diferente. As mulheres criadas pela imaginação dos grandes escritores, de Cervantes a Machado de Assis, refletem Martas e Marias que podem ser encontradas nas ruas, no trabalho, nas festas, na praia, na casa vizinha.

Sherazade é a mulher que desafiou o poder de um monarca. Um rei da Pérsia, que amargara a angústia de viver com uma mulher infiel, passou a se casar todo dia e a matar a nova esposa no dia seguinte para evitar a repetição da traição. Sherazade se casou com ele e o seu plano, que significava colocar a vida em risco, era barrar o massacre de mulheres. Ela usou como método a contação de histórias de aventuras. Suspendia a narrativa sempre na parte mais empolgante (recursos do folhetim, adaptados pela telenovela brasileira), e prometia contar o desfecho só no dia seguinte. Isto é, se o rei lhe desse mais um dia de vida. E foi assim durante as mil e uma noites. Se ela escapou da morte na milésima segunda noite, pois bem, não é de bom tom contar o fim da história.

O que se sabe é que a astúcia de Sherazade não é um produto só da imaginação. Ela existe também na mulher real e pode ser traduzida como criatividade, coragem, persistência e confiança na sua força como forma de inspirar, fascinar e seduzir o mundo ao redor.

Capitu, a musa dos "olhos de cigana oblíqua e dissimulada", é o centro do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, embora a narrativa seja conduzida por Bentinho. Capitu é a vida com todo o seu potencial de transgressão, imprevisibilidade e mistério, enquanto Bentinho cumpre o papel comparado ao de uma sombra dela, um mero coadjuvante. E, como em Sherazade, há sempre uma Capitu na esquina, no ponto de ônibus, no balcão da loja de celular.

Dulcineia del Toboso, ao mesmo tempo em que é o delírio de Dom Quixote (a clássica criação de Miguel de Cervantes), é também a sua razão de viver. Por ela ele luta contra gigantes e moinhos de vento. Por ela ele avança em viagens insondáveis. Por ela ele vive e está disposto a correr todos os riscos. Dulcineia, mais do que um encantamento, é a sua loucura mais apaixonante e só o fato de tê-la na imaginação faz dele um cavaleiro vencedor.

E Gabriela, Cravo e Canela, a obra de arte em forma de mulher criada pelo baiano Jorge Amado, é a representação da beleza e da sensualidade feminina. Difícil não pensar em Sônia Braga, a atriz que interpretou a personagem no cinema. Jorge Amado precisou elevar à condição de protagonista uma única mulher para ela ser todas as mulheres da Bahia e do Brasil.

Escritoras também criaram mulheres inesquecíveis para a literatura. A narradora de A paixão segundo GH, de Clarice Lispector, é apaixonante nos seus conflitos, na batalha com os seus fantasmas, e a voz narrativa é tão poderosa que é como se ela falasse diretamente ao leitor. Ana Terra e Bibiana, na obra de Érico Veríssimo, e Sinha Vitória, criação de Graciliano Ramos, também entram nessa categoria de mulheres fortes.

Resta saber, amiga leitora (como diria Machado), se você acorda de manhã como Capitu, se no almoço você é Sherazade, se à tarde você é Gabriela e, quando chega a noite, se você incorpora os encantos de Dulcineia e é a culpada pelos os delírios de um louco qualquer. Aposto que você é todas essas mulheres (e muitas mais) e guarda isso com a preocupação e a adrenalina de quem curte a aventura de esconder um valioso segredo.

Espionado pela CIA




Carlos Araújo
carlos.araujo@jcruzeiro.com.br
Quando Santelmo Santayana viu a notícia de que a CIA está monitorando milhões de pessoas em todo o mundo, a primeira reação foi de surpresa total. "Como assim?", pensou.

Para começo de conversa, sentiu estranheza na constatação de que podia estar entre os milhões de alvos da agência norte-americana de espionagem. "Será que uma organização como essa não tem mais o que fazer?", perguntou.

Ele, um cidadão comum, tendo os seus "zaps" interceptados antes mesmo de serem criptografados. Suas mensagens eram na linha de cumprimentos do tipo "como vai?", "beleza?", "pode me ligar?", enviadas para outras pessoas comuns.

"Ou será que a CIA suspeita também dos indivíduos que não têm perfil terrorista?", pensou Santelmo. Talvez seja uma espécie de suspeita preventiva. O que não seria surpresa. Recordou que o governo norte-americano não teve escrúpulos em praticar o modelo da guerra preventiva quando invadiu o Iraque em 2003.

Com a força de um rolo compressor, os EUA passaram por cima da oposição da ONU e dos apelos internacionais para evitar o massacre. Usaram o discurso mentiroso de que o país de Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa e podia usá-las a qualquer momento, e assim partiram para a invasão com tempestade de bombas seguida de varredura terrestre.

Agora, a espionagem da CIA mostra que o método de guerra dos EUA é tecnológico, eletrônico, sofisticado demais para a compreensão de mortais como Santelmo Santayana. A novidade comprova que os EUA, que exercem influência em todo o mundo, querem consolidar o domínio e o controle de tudo e de todos com o método da invasão de privacidade.

Santelmo acorda cedo, toma café, faz atividade física e começa a trabalhar, numa rotina sem grandes novidades, o que se estende até por volta das 23h. Nesse período, conversa com muita gente pelo celular, envia vários "zaps" e e-mails pessoais e de trabalho. Faz vários deslocamentos de carro, fala com pessoas de diferentes perfis e atividades.

Nada mais normal e sem riscos. E isso o leva a perguntar que interesse os espiões da CIA podem ter nesse tipo de rotina. "Será que a CIA não tem mais o que fazer?", pensa. "Identificar e investigar quem realmente oferece perigo, jamais um cara como eu." E ele ainda usa óculos, o que depõe a seu favor. Não existe terrorista de óculos.

O fim da picada é saber que a televisão (mesmo quando está desligada) também é usada pela CIA para espionar as pessoas. Os ruídos produzidos numa sala são captados por meio de equipamentos domésticos conectados à internet e examinados por espiões. Nada mais hilário, bizarro, sem graça. E se entre os ruídos de vozes aparecer gente contando piada? Imaginem a cara dos espiões nessa hora. "Tanta ciência, tanta tecnologia, tantos gastos, para isso?", espanta-se Santelmo.

Mais uma vez, ele pensa, os EUA, maior potência do planeta, demonstram a presunção de que podem tudo. E se esse poder fosse dominado pela Coreia do Norte ou Cuba? Já pensou a gritaria, o tamanho do escândalo? Um amigo de Santelmo tem uma resposta irônica para esse tipo de dois pesos e duas medidas: "É que a Coreia do Norte e Cuba são do mal, e os EUA são do bem." Ah bom. Então tá.

Nos últimos dias, Santelmo, sempre que vai enviar um "zap", pensa melhor na hora de escrever e no destinatário. Passou a avaliar melhor o que vai escrever, o sentido das palavras e a interpretação que cada mensagem pode inspirar. Vai que um simples cumprimento seja visto como suspeita de plano de ataque disfarçado em código. De repente agentes da CIA podem bater à porta do apartamento onde mora e ele não vai entender o motivo.

"Esse é um dos exemplos que surpreendem quando a gente pensa que já viu tudo", raciocina Santelmo. E acha que, desta vez, espiões como James Bond vão perder o emprego. Com custos menores e diminuição de riscos, a tecnologia demonstra que o uso de agentes em tramas internacionais tende a perder o sentido.

O método é digno das piores ditaduras da história, pensa Santelmo, comparando o processo utilizado pelos EUA aos mecanismos da Gestapo de Hitler e da KGB de Stálin na desenfreada corrida pela identificação e punição dos inimigos do Estado. Invasão de privacidade é o de menos, diz Santelmo, o que pega é o objetivo de controle e domínio dos indivíduos.

Não é à toa, pensa, que nos últimos tempos dois clássicos de George Orwell, A Revolução dos Bichos e 1984, voltaram a atrair os leitores. Os perigos anunciados por Orwell estão latentes, as pessoas sabem que o mundo passa por um grande retrocesso em todas as áreas do pensamento e querem compreender como sociedades rotuladas como democráticas de repente se convertem em ditaduras. E o pior, com o aval popular, das instituições e da indústria de massa.

Santelmo acha que as obras de Orwell descrevem mundos assustadores: "E são de arrepiar, porque a gente se identifica com as sociedades que ele cria. É como se não houvesse limite entre ficção e realidade."

Nesse instante, Santelmo se contém e procura desviar o foco para banalidades: uma folha que cai, o sopro do vento, o calor do verão que se despede.

Algo lhe diz que a CIA também deve estar lendo os seus pensamentos.

O caminho dos passos perdidos




Carlos Araújo

Entre os vários efeitos da crise brasileira, um dos principais é a política ter entrado de vez no cotidiano das pessoas comuns. Das postagens no Facebook às conversas em restaurantes, nas filas de bancos e órgãos públicos, nas viagens de ônibus e trens, no posto de gasolina, toda hora é hora de compartilhar preocupações e incertezas com os rumos que a política vai dar ao Brasil.

A política é o motor e as rodas (com perdão da metáfora) do grande carro alegórico chamado Brasil. Sem a política nada anda, nada funciona. Dirão que esse papel cabe à economia. Mas é engano, porque a política também é fruto de uma política para o setor. E assim vale para a educação, a saúde, a cultura, o esporte e todas as outras áreas. Cada setor avança ou retrocede como reflexo de uma política de ação ou omissão, de acerto e erro, de boa vontade ou intenção de levar vantagem.

A política faz parte do cotidiano como arroz e feijão no cardápio dos brasileiros. Discutir política não é mais atribuição restrita aos partidos, aos gabinetes, congressos e assembleias. As pessoas nas ruas, nas casas, nas clínicas, nos escritórios, nos ônibus e trens lotados, também tomam posição crítica (ou de adesão) nos debates. Os canais de informação são fartos, resultado da revolução tecnológica, e isso facilita o acesso ao conhecimento que forma opinião e estimula a batalha das ideias.

Claro que muitos, entre os que optam pela indiferença, adotam a prática do autoengano e dessa maneira conseguem fingir que não fazem parte da engrenagem social. Mas não podem fingir que não pagam impostos ou que não sofrem as consequências da política que está na raiz e na estrutura da crise.

Em meio a esse clima, um cliente entra numa banca de jornal e, apontando os desdobramentos da Lava Jato nas manchetes do dia, pergunta:

-- Aonde vamos parar?

-- Não sei -- responde o dono da banca. -- Não é possível saber mais nada.

-- Será que no fim de tudo há um abismo? -- provoca o cliente.

-- Estou tão desacorçoado que já estou desejando a monarquia -- confessa o dono da banca. -- Há um rei e uma rainha, os condutores do governo se sucedem e a tradição permanece, sem grandes solavancos.

O dono da banca se encaixa na categoria dos desiludidos. E esse é um viés de incerteza perigoso, que antecede a política de terra arrasada -- o que nada mais é do que a negação da política. Mas é um pensamento legítimo, procedente, porque o cenário político é de terra devastada.

Em diferente momento e lugar, no caixa de um açougue, outro cliente compartilha uma dúvida cruel:

-- De onde a corrupção tira tantos milhões? Há dinheiro de sobra para os corruptos, o que é uma situação inversa para os brasileiros que vivem de salários, de pequenas empresas ou que estão desempregados.

-- Tiram o dinheiro dos cofres públicos -- responde outro cliente que se aproxima do caixa. -- Superfaturam obras públicas e embolsam grandes porcentagens. Acreditam na impunidade e na condição de intocáveis.

-- E quem paga a conta? - pergunta o dono do açougue.

-- Nós, cara pálida -- responde o segundo cliente que se aproximou do caixa. -- Nós pagamos a conta na forma de aumentos de preços e tarifas, de impostos de todo tipo, de dívidas e juros extorsivos, de saúde e educação precárias, de homicídios em números comparáveis a países em guerra.

O dono do açougue, compreendendo a origem de tudo isso, filosofa:

-- A política é a nossa esperança, mas também é a nossa perdição. O que fazer?

Silêncio. Não há resposta. Dirão que é necessário votar em políticos bem intencionados, mas nem esse discurso cola mais. Exemplo desse descrédito é o volume de votos brancos e nulos, que superam o de muitos políticos eleitos. Descrença. Desconfiança. Desesperança.

Por natureza, essência e definição, a política brasileira ainda é coronelista, excludente, injusta com os desvalidos e benevolente com os privilegiados. Política maquiavélica, com o poder de sepultar todas as teorias ideológicas. De Maquiavel a Marx, nenhum teórico previu a Lava Jato, o tamanho da promiscuidade do Estado com as grandes empreiteiras, o total descontrole (e em todos os níveis) da arte de governar. E pensar que isso acontece desde Cabral, o das caravelas. Por que será que só agora destamparam a panela?

E ainda há quem pense positivo. "Toda crise é momento de mudança", disse um dia o generoso Dom Paulo Evaristo Arns. O problema é que a crise brasileira supera qualquer raciocínio, quebra todas as probabilidades, ganha contornos de realismo fantástico. Afinal, o que dizer da afronta de milhões de dólares canalizados para a corrupção num país que tem mendigos nas ruas, crianças desamparadas, doentes sem tratamento, estradas esburacadas e enlameadas?

Daí o espanto diante das delações premiadas, daí o sigilo imposto em muitos processos, daí as reações que desafiam e ameaçam instituições tidas antes como pilares de resistência, guardiãs da justiça, forças de amparo e segurança.

Talvez, se Shakespeare tivesse conhecido a realidade brasileira, reagiria com admiração diante da beleza das novas veredas da caatinga, da floresta amazônica, do cerrado, dos pampas, da mata atlântica. E, comparando essa paisagem tropical com as entranhas da política, ele talvez tivesse ilustrado o contraste entre o meio ambiente e a política com a sua clássica citação: "Há mais coisas entre o céus e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."

Shakespeare certamente seria solicitado a dizer aonde vamos parar, mas sua resposta, no estilo britânico de fazer suspense, seria dada na forma de um silêncio aterrador. O silêncio é o pior elemento de espera para quem está perdido e não sabe que rumo tomar.

Efeito amnésia




Carlos Araújo

Santelmo Santayana acordou feliz da vida no sábado de Carnaval. Nesse dia, recuperou a memória de toda a sua existência anterior a um apagão cerebral. Eram passados três anos e sete meses desde que sofreu uma amnésia profunda em agosto de 2013. Do período que durou o fenômeno do esquecimento não teve consciência de nada. O susto foi grande demais no instante em que despertou da inércia e se deparou com a realidade brasileira em tempos alucinantes.

Santelmo foi um entusiasta das manifestações populares de junho de 2013. Esteve nos grandes protestos contra o aumento da tarifa de ônibus de R$ 0,20. As multidões lotaram as ruas, avenidas, estradas. E agitaram as bandeiras contra a corrupção, contra os políticos e os partidos, contra tudo e contra todos que faziam o povo brasileiro padecer. Os gritos de indignação exigiam educação de qualidade, escolas e hospitais padrão Fifa, cadeia para os corruptos.

E Santelmo participou de toda essa movimentação. Acreditava no poder transformador do povo na rua. Se não estivesse fora de combate nos tempos da amnésia, teria engrossado as multidões que saíram às ruas para apoiar o impeachment de uma presidente e defender as investigações de uma grande operação criada com o objetivo de lavar toda a sujeira da corrupção.

Agora, encantado com a recuperação da memória, Santelmo conversa com o seu melhor amigo, Tobias Torres, lê jornais e revistas, faz pesquisas na internet e tem uma decepção cortante com as coisas que aconteceram nos últimos três anos e sete meses e que continuam a ditar os rumos do país.

Agora, Santelmo se reencontra com a vida e sabe que durante o tempo em que esteve fora do ar o país viveu a tragédia do 7 a 1, a lama de Minas matou pessoas e destruiu o rio Doce, a presidente caiu, o vice tomou o lugar dela, o novo governo é formado de vários integrantes citados na grande operação de investigação que deixa os políticos à beira de um ataque de nervos. A educação e a saúde permanecem precárias, adeus escolas e hospitais padrão Fifa. O povo continua a sofrer com desemprego, ilusões perdidas, falta de esperança. Políticos suspeitos de receber propinas ganham blindagem na forma de foro privilegiado e o submundo da política ameaça abafar as investigações contra os corruptos.

Desolado, Santelmo constata que as investigações contra muitos políticos simplesmente não andam, ficam paradas, como se forças alienígenas impedissem qualquer avanço. Os homicídios no país ganham dimensões de guerra civil silenciosa e os massacres em prisões são verdadeiros holocaustos. E as passagens de ônibus aumentam novamente, muito mais do que R$ 0,20. Os pobres, mais uma vez, vão pagar o pato da crise.

Santelmo, ainda impulsionado pelas energias e vibrações de junho de 2013, diz para o amigo Tobias:

-- Vamos pra rua. Vamos mudar a história desse país. Vamos agitar o gigante que existe em nós.

Tobias fica preocupado. Não quer chocar o parceiro com a descrição de uma frequência coletiva que vai frustrar as expectativas dele. E confessa:

-- Não há ninguém na rua. As ruas estão desertas. O povo não muda a história. O gigante que a gente achava que tinha acordado se levantou apenas pra tomar uma água e voltou a adormecer de novo. O gigante está paralisado, deitado em berço esplêndido.
Santelmo fica aflito:

-- Então as multidões nas ruas, os protestos, o entusiasmo cívico, os sonhos de mudança, nada disso adiantou? Está tudo muito pior do que em junho de 2013 e não acontece nada? Quem tem o poder continua a mandar e desmandar, ignorando os interesses do povo?

-- E ainda há os planos de mudanças para a aposentadoria, que vão comprometer o destino e o futuro dos brasileiros -- disse Tobias. -- E a crise se aprofunda. E nenhuma televisão convida ninguém para as ruas como em junho de 2013 e na campanha do impeachment.

-- E os líderes daquelas manifestações, por onde andam?

-- Muitos entraram para a política, se deram bem como candidatos e foram eleitos para vários cargos no ano passado -- informa Tobias.

-- Mas eles se diziam contra a política e os políticos. O que aconteceu?

-- Uma coisa é o discurso inflamado para a plateia, outra coisa é a ação prática em busca de vantagens pessoais -- filosofa Tobias. -- A realidade é cheia de enigmas, contradições e objetivos inexplicáveis.

Santelmo busca uma interpretação do Brasil atual e conclui que o passado devora o presente e ameaça o futuro. É como se a amnésia que o abateu tivesse contagiado todo o povo brasileiro. Tomado de angústia, como um coxinha arrependido, ele derrama uma lágrima. E lamenta:

-- Foi pra isso que a gente foi pras ruas, protestou, lutou por justiça e democracia?

Um imenso vazio toma conta de Santelmo. E, recordando as ilusões de junho de 2013, ele diz:

-- Tantos protestos inúteis. Tudo para nada. Nem panelaço as pessoas fazem mais. Não há mais indignação. Nada.

Nesse momento, lembra que é sábado de folia carnavalesca. A amnésia se traduz em cores, ritmos, alegorias. Há povo na rua, mas estão todos pulando Carnaval.

Raduan Nassar em território arcaico




Carlos Araújo

Raduan Nassar forma com Milton Hatoun, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan o grupo dos maiores escritores brasileiros vivos. Dos quatro, Nassar e Hatoun vivem conectados à realidade, enquanto Fonseca e Trevisan preferem a reclusão total. Os dois primeiros (o paulista e o manauara) vão além do campo de batalha literário, e os outros dois (o mineiro e o paranaense) optaram por se comunicar apenas por meio de suas obras.

Foi justamente a conexão com a realidade que levou Nassar a fazer críticas contundentes ao governo federal, no dia 17 de fevereiro, em São Paulo, durante cerimônia em que recebeu o Prêmio Camões, o maior de língua portuguesa, concedido pelo Brasil e Portugal.
E o que poderia ser um tradicional evento regado e restrito a elogios e agradecimentos se converteu em ação política de repercussão nacional. A íntegra do discurso de Nassar pode ser conferida na internet.

As críticas provocaram resposta também explosiva do representante do governo presente no local do evento. Ecoaram vaias da plateia, sintonizadas com o discurso do escritor. Os ânimos se acirraram e só o bom senso evitou sopapos. O episódio reflete as contradições de um país em transe.

Raduan Nassar é o autor do romance Lavoura arcaica, da novela Um copo de cólera e de alguns contos primorosos. Depois de criar essa obra enxuta e de grande qualidade e excelência de linguagem, deixou a literatura e se dedicou à atividade rural. A superioridade de sua obra o inseriu na galeria dos grandes autores brasileiros.

Tomando por base o pouco que escreveu e o impacto dos seus livros, Nassar pode ser comparado ao escritor mexicano Juan Rulfo. Com apenas dois livros, Pedero páramo e Planalto em chamas, Rulfo é um dos grandes nomes do boom latinoamericano ligado ao realismo mágico. Era admirado por mestres do romance como Gabriel Garcia Márquez e Mario Vargas Llosa.

Nassar sabe do seu prestígio como escritor, o que é uma conquista acentuada num país que despreza a literatura. O Prêmio Camões é um reconhecimento da importância de sua obra. E sabe também do seu envolvimento com o país, não só em discursos mas também em atitudes. Foi ele que doou para a União uma propriedade rural no município de Buri (SP) para abrigar um câmpus da Universidade de São Carlos (UFSCar).

Nassar não é dado a entrevistas. No segundo semestre do ano passado, ele publicou um artigo crítico ao governo. Agora, na entrega do Prêmio Camões, repetiu a dose. Sinal de que a realidade que o deixou indignado no ano passado continua a incomodá-lo até hoje. Desta vez, usou o microfone. Não podia ficar calado.

A fervura em torno do seu discurso tem relação com as sementes do ódio plantadas para causar divisão nos brasileiros quando a questão gira em torno de pensamento crítico, direito de se manifestar, autonomia e independência sobre feridas abertas e nunca cicatrizadas. O atrito acontece quando, contrariando as expectativas de conformismo, complacência, aplauso, alguém abre a boca para expressar uma visão crítica do poder e da sociedade brasileira.

Ao tomar essa iniciativa, Nassar revestiu-se de coragem. Mais fácil teria sido se limitar aos agradecimentos. O escritor rompeu essa tradição, dinamitou as expectativas de evento festivo e deu voz a muitos brasileiros que pensam como ele. Inútil tentar constrangê-lo, como fez o representante do governo. A munição verbal de Nassar já tinha sido disparada e atingiu o alvo.

Entre os indivíduos, ninguém gosta de ser criticado. No âmbito dos governos, isso é pior. Indivíduos e governos são ávidos por afagos, mesmo que os elogios sejam enganosos e tenham a capacidade de arrastar tudo ladeira abaixo como areia movediça. Não sabem (ou não querem) que tapinhas nas costas induzem aos delírios de grandeza que não se sustentam e acabam em desastres. Não reconhecem (nem querem) que a pior crítica habitualmente é superior ao melhor dos elogios.

Ao contrário, no Brasil, quem faz críticas recebe uma saraivada de tiroteios com o propósito de desqualificar o autor. O Facebook é exemplo disso, com amizades que se esfacelam por causa de ideias conflitantes. No caso de Nassar, nem a tentativa de desqualificá-lo teria qualquer fundamento. Ele não estava num evento partidário ou sindicalista. E a plateia, em sua maioria, era formada por escritores, editores e representantes do mercado editorial.

O Prêmio Camões, no valor de 100 mil euros, foi concedido a Nassar por um júri composto de intelectuais prestigiados no universo cultural: Sergio Alcides e Flora Sussekind, pelo Brasil; Paula Mourão e Pedro Mexia, por Portugal; e Inocência Mata e Lourenço de Rosário, pelos países africanos de língua portuguesa.

E pensar que, no seu discurso, Nassar não falou nada que não tenha procedência e sustentação nos fatos que fazem do Brasil algo que pode ser comparado a um filme eletrizante. O que ele disse é repetido diariamente por pessoas comuns nas filas de banco, nos restaurantes, nos locais de trabalho, nas universidades, e que não ganha a devida repercussão porque a bola da vez é a ópera dos elogios.

Nassar nadou contra a corrente do festival de mesmices que tomou conta do país. Demonstrou, em duas páginas de discurso, que ainda há lugar para o pensamento crítico no Brasil. E deixou claro que escritores não são seres extraterrestres, mas cidadãos com o direito de dar gritos de indignação e de enfrentar as armadilhas plantadas em território arcaico.