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Retratos de um país injusto e profundo




Carlos Araújo

Nos últimos meses, acontecimentos emblemáticos das desigualdades no Brasil têm causado grande indignação, embora as manifestações das pessoas nesse sentido tenham se limitado ao universo das redes sociais e conversas entre amigos, sem a imponderável repercussão nas ruas.

Enquanto um jovem chamado Rafael Braga é mantido como único preso no Rio por ocasião dos protestos de junho de 2013 no Brasil, um traficante flagrado com 120 quilos de cocaína ganha alvará de soltura concedido por um magistrado que é colega da mãe do acusado -- nada mais, nada menos, do que uma desembargadora.

Enquanto para o jovem Rafael Braga as provas de acusação esbarraram em dúvidas grosseiras e, mesmo assim, ele recebeu duas condenações, uma de cinco anos e outra de 11 anos, no caso do traficante a televisão mostra imagens com os pacotes da droga apreendida e munição calculada em uma centena de balas.

As dúvidas com as provas no primeiro caso (consubstanciadas em depoimentos de policiais) não são suficientes para favorecer o réu, que nega todas as acusações. E, no segundo caso, as imagens da droga apreendida são ignoradas como provas. Um detalhe faz toda a diferença: Rafael Braga é negro, pobre e mora em região periférica do Rio de Janeiro.

Quando a ex-primeira-dama do Rio, Adriana Ancelmo, foi autorizada a cumprir prisão em casa para poder cuidar dos filhos de 11 e 14 anos, a surpresa também foi enorme. E não era para menos. Apesar de a legislação brasileira prever que grávidas e mães com filhos de até 12 anos tenham a prisão provisória convertida em prisão domiciliar, muitas presas em condições semelhantes continuam encarceradas e esse procedimento é regra para a maioria delas.

Casos de distorções nessa categoria também se multiplicam em outras esferas, o que inclui a política e a economia. Na política, sobressaem-se as contradições de acusados de corrupção tratados com todo o rigor da lei, de um lado, e outros que, culpados pelo mesmo crime, são beneficiados com a leveza da lei. Há casos em que indícios e convicções são tomados como provas, enquanto que, em outros flagrantes, provas concretas são ignoradas ou desqualificadas por alegações técnicas discutíveis.

Na política, a população enfrenta elevação de impostos, é ameaçada com novos aumentos e aceita tudo como se isso fosse obra do destino. Milhões de pessoas são relegadas à condição de condenadas a existências precárias com argumentos de que isso é necessário para tapar os rombos das contas públicas.

Em contrapartida, grandes devedores de tributos são beneficiados com o perdão de suas dívidas. Muitos deles pertencem ao setor empresarial dos tentáculos da corrupção. Criminosos confessos de colarinho branco, premiados por delações, cumprem penas em mansões transformadas em clubes de lazer. Alguns garantem liberdade total e, como prêmio maior, fogem para o exterior.

E o que dizer de governos que compram apoios políticos com recursos públicos para depois pagarem as faturas nas formas de cargos e vantagens, num momento dramático da história em que faltam recursos para obras e serviços públicos e pessoas morrem em hospitais por falta de atendimento adequado? Quem se importa com essa brutalidade? Quem tem disposição, poder e capacidade para deter essa nova modalidade de corrupção?

Essas tragédias brasileiras rompem com as ideias que, desde a infância, os indivíduos fazem do que seja a justiça. O sujeito cresce, aprende que a democracia é o governo do povo para o povo, cultiva as utopias de liberdade, igualdade, fraternidade, cantadas desde a Revolução Francesa, e se encanta com palavras como esperança, solidariedade, amor ao próximo. E conclui que, confrontadas com a realidade brasileira, essas ideias não passam de discurso.

Também é assustador imaginar as consequências disso tudo. Qual será o legado para as gerações futuras de uma época em que valores como política e justiça se apresentam como fenômenos vinculados aos conceitos mais perversos de descrença, armadilha, nojo? Só o futuro pode dar conta de uma resposta. Terrível imaginar que tudo o que causa indignação nesse país pode piorar ainda mais.

E ainda querem nos convencer de que as instituições funcionam. Para quem? Para os mesmos de sempre, cara pálida.

Há quem diga que não é por acaso que a palavra "democracia", tão valorizada pelos anseios humanos, se destaque pelo capricho de rimar com a palavra "fantasia".

Você é o protagonista




Carlos Araújo

A vida é um tie-break.

As coisas mais importantes acontecem habitualmente no último instante do limite possível. E, como num jogo de vôlei, o clima de atuação nesse momento, seja qual for o cenário e o desafio, vem acompanhado de pura adrenalina, alta voltagem, risco máximo.
A vida é uma luta de boxe.

Nunca o imponderável está mais latente nessa reta final. É a fase da existência em que o risco de incerteza é iminente. A união da técnica e da vontade de vencer é a única saída, mas nem esse recurso é suficiente para garantir a superação tão sonhada. Um erro mínimo pode determinar o desastre. E um acerto garante a salvação do indivíduo.

A vida é um combate no octógono.

Quantas vezes você empurra com a barriga uma dívida que não consegue pagar. O valor se acumula e cresce a cada dia, a cada semana, a cada mês. Até que assume uma proporção impagável. Você entra em desespero e busca socorro. A sensação é de que está perdido. Você joga na loteria, reza, chora, perde o sono. E não sabe como será o amanhã.

A vida é uma corrente de esperança.

Você está diante do médico para receber o diagnóstico apurado em exames complexos. Absorvido pela tensão, você tenta manter o equilíbrio, o controle emocional. Estar sentado nessa hora é uma necessidade, pois você pode desmaiar com o choque quando o médico revelar o seu problema de saúde. Ou pode sentir um alívio indescritível, se as suspeitas não forem confirmadas.

A vida é uma competição desigual.

Você procura emprego há meses, há anos, e de repente há uma oportunidade daquelas que surgem uma vez na vida. Sem ter como ser diferente, você se transforma em um poço de ansiedade quando atende ao chamado para saber se foi aprovado ou não no processo seletivo da empresa. As vagas são limitadas e os concorrentes são muitos.

O saguão de espera está cheio. Cada candidato chamado à sala do chefe de recursos humanos carrega um caminhão de esperanças. E a cada pessoa que retorna da sala, o sorriso ou o semblante cabisbaixo diz mais do que qualquer palavra. A expectativa de ouvir o seu nome a qualquer instante o deixa à beira de uma encruzilhada: um caminho leva ao emprego, e outro, de volta às ruas. Qual será o seu rumo?
A vida é um labirinto de armadilhas.

De repente, numa rua escura, você depara com um assaltante e ele o ameaça com uma arma. Estranhamente, a relação de credibilidade entre criminoso e vítima se estabelecem imediatamente. Você não reage porque sabe que o cara vai apertar o gatilho se isso acontecer, e ele não atira porque sabe que você não é louco de colocar a sua vida em risco. Melhor deixar que o ladrão leve o relógio, a carteira e os documentos. Se o bandido desaparecer sem dar um tiro, você já pode se considerar um cara de sorte. E um sobrevivente.

A vida é uma batalha sem fim.

Você está diante da urna eletrônica e sabe que o seu voto é uma ação que vai determinar o que será feito do buraco da sua rua, do seu emprego, da sua aposentadoria. Você tem consciência de que escolher o seu representante na política é como entregar um cheque em branco nas mãos de alguém, sem garantia de nada. O voto é de confiança. E na maioria das vezes a decepção será devastadora.

Diante do quadro, você também não cansa de fazer autocrítica. E chega à conclusão de que, após a votação, você pode não ter o governo que quer, que merece e que o representa, mas tem o governo que aprova e que permite para o seu país. A angústia é cruel, grotesca. A dor é cortante. E você começa a duvidar das ideias de estado de direito e democracia. Você não entende como a democracia permite a política da corrupção, do balcão de negócios, da compra de votos com dinheiro público. E tudo feito às claras. Como se fosse normal. E nada acontece. Como se não existisse povo. Como se não houvesse justiça nesse mundo. E isso lhe faz um mal danado.

Você critica o governo, num redemoinho que tem sido o esporte preferido de grande parte dos brasileiros. Mas você não consegue negar ou rebater a constatação de que pesam sobre os seus ombros toda a responsabilidade por tudo o que acontece nos labirintos de Brasília. Foi você que povoou os palácios e os castelos da capital do país. Chega de fazer papel de vítima numa novela em que você é o protagonista.
A vida é uma grande ilusão.

Tenebrosa jornada de agosto




Carlos Araújo

A pobreza da rima no dito de que agosto é o mês do desgosto poderia ser o primeiro registro de mau agouro para o oitavo mês do calendário. Nenhum dos 12 meses do ano resistiria a uma cacofonia tão desagradável. Nenhuma poesia com um verso desse nível poderia valer a pena. Agosto tinha mesmo que se destacar como reflexo dos mitos criados pela mente humana.

Acontecimentos que mudaram a história do Brasil e do mundo completam aniversários neste mês. Das bombas de Hiroshima e Nagasaki ao suicídio de Getúlio Vargas, da morte de Marilyn Monroe ao desastre automobilístico que matou Juscelino Kubitscheck, da queda de Richard Nixon à renúncia de Jânio Quadros, muita coisa trágica contribuiu para fazer do mês do cachorro louco o mais agourento do ano.

Diz a história que o nome do mês tem origem em homenagem dos romanos ao imperador Augusto. Pesquisadores também contam que as mulheres portuguesas não se casavam nessa época. Era o tempo em que os navios portugueses se aventuravam no mar em busca de novos territórios. Casamentos nesse período podiam ser marcados por separações que levariam os indivíduos à solidão.

O escritor mineiro Rubem Fonseca, inspirado na luta pelo poder que marcou o suicídio de Getúlio Vargas, usou o nome do mês para dar o título a um dos seus melhores romances. Seguindo a mesma trilha, muito antes o norte-americano William Faulkner havia escrito Luz em agosto, uma história de luta pela sobrevivência no sul dos EUA na década de 1930. No cinema, Rapsódia em agosto, um grito de indignação contra a bomba atômica, é um dos clássicos do japonês Akira Kurosawa.

Por definição, agosto é um mês de múltiplas faces refletidas na história, no cinema, no folclore, na tradição dos contos fantásticos sobre pântanos e noites geladas, escuras, sacudidas por ventos cortantes. Mas são os acontecimentos históricos que dão forma e conteúdo aos mitos desse período deste mês carregado de impressões.

Nos registros de guerras, três grandes batalhas foram deflagradas em agosto: a de Gadalcanal em 1942, no Pacífico, das Termópilias, 480 a.C., e a de Crécy, na França, em 1346. Na primeira batalha, uma das mais importantes da Segunda Guerra Mundial, morreram 30 mil pessoas: 24 mil japoneses e 6 mil aliados.

Em Termópilas, 300 guerreiros espartanos se entregaram a uma resistência suicida contra o imenso exército persa, episódio que inspirou um filme de Zack Syder com participação do brasileiro Rodrigo Santoro. Um dos episódios da Guerra dos Cem Anos, a Batalha de Crécy, foi travada em 26 de agosto de 1346 com a vitória dos ingleses, liderados por Eduardo III, sobre os franceses, comandados por Felipe VI.

A construção do Muro de Berlim, que ficou conhecido como o Muro da Vergonha e foi símbolo da Guerra Fria, começou no dia 13 de agosto de 1961. Por falar em Guerra Fria, no dia 20 de agosto de 1968 tropas soviéticas (referência à antiga União Soviética) invadiram a Tchecoslováquiaa, numa das grandes demonstrações de força de uma ditadura sobre a vontade popular.

Elvis Presley morreu em 16 de agosto de 1977. Cleópatra se suicidou em 29 de agosto de 30 a.C.. Rodolfo Valentino, o astro mais idolatrado na década de 1920, morreu num dia de agosto aos 31 anos. Gêngis Khan, o fundador do Império Mongol, morreu em 18 de agosto de 1227.

E no dia 21 de agosto de 1934, Adolf Hitler assumiu a presidência do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemão (NSDAP na sigla germânica) e se audodefiniu Führer (principal chefe), iniciando sua escalada rumo a uma das maiores catástrofes humanas de todos os tempos. Em outro desastre, a cidade de Pompeia foi totalmente sepultada por uma erupção do Vesúvio no dia 24 de agosto do ano de 79.

Para completar esse quadro, uma nova batalha está sendo travada na capital do Brasil. Brasília dispensa as armas de fogo. Brigam os homens, brigam outras armas. Artilharias são substituídas por tropas que ignoram os limites da vergonha. A munição é constituída de muito dinheiro, cargos, vantagens. Como numa guerra pós-moderna, os corruptos (no papel de combatentes) se articulam em movimentos de proteção mútua. Corações pulsam num balcão de negócios de venda de consciências e compra de almas mortas. É mais uma tenebrosa jornada de agosto neste País tropical.

Um 'zap' para alguém distante




Carlos Araújo

No semáforo, enquanto estavam todos parados diante do sinal vermelho, o cara que dirigia um Fusca teclou uma mensagem no celular:
-- Estarei aí amanhã, às cinco da tarde.

Só ele sabia quem era o receptor da comunicação, qual seria a distância percorrida, o lugar de destino e o motivo do deslocamento. Veio o sinal verde e ele avançou.

No caminho, enquanto o carro se movimentava, ouviu o toque do celular. Devia ser o retorno do aviso. Difícil resistir. Com o carro em velocidade, consultou o "zap" para conferir a resposta. E leu:

-- Legal, te espero amanhã.

Em sentido contrário, um cara de boné, no volante de uma Saveiro, atendeu a uma chamada do smartphone também com o carro em movimento. Depois de ouvir a voz de uma garotinha, a filha única, respondeu:

-- Está bem, o papai leva o presente que você pediu.

Esse cara de boné parou no semáforo, atrás de um Audi, e não viu que o motorista do Audi lia um "zap" que acabava de receber:

-- Você vem ou não vem? Está uma hora atrasado.

O sinal abriu e o cara do Audi demorou um instante para sair com o carro. Tempo suficiente para digitar:

-- Estou a caminho. Tenha paciência. Chego em meia hora.

Ainda atrás, o cara de boné buzinou. Por um instante pensou que o Audi tivesse algum problema mecânico, mas viu que não era nada disso. Que bom que sou paciente, pensou o homem de boné.

Próximo dali, uma estudante em um Fiat ouvia ao mesmo tempo um som do U2 e, via "zap", discutia a relação com o namorado. O semblante dela era de satisfação. Acabavam de fazer as pazes depois de um desentendimento. Ela leu o "zap" do namorado:

-- Me perdoa por ter sido incompreensivo.

E ela digitou, enquanto acelerava o carro:

-- Só te perdoo se você me levar à praia nesse fim de semana.

Em outro lugar, numa esquina, um HB20 que seguia na preferencial parou para dar passagem a um Jeep. Era um lance de instantes. O condutor do Jeep não percebeu a generosidade do outro motorista porque, como os demais, também lia e digitava um "zap".

Quando o cara do HB20 percebeu que o do Jeep não se movia, então engatou a marcha e cruzou a rua. Nesse momento, o motorista do Jeep digitou para alguém:

-- Quero que você me diga se estudou para a prova de amanhã.

Não viu quando um homem com aparência de morador de rua se aproximou e lhe pediu dinheiro. Também não respondeu, porque a atenção ao "zap" não lhe permitia perceber qualquer outra movimentação ao redor.

Um carro de reportagem com motorista, repórter e fotógrafo passou pelo Jeep e disparou na direção de uma autoestrada próxima ao perímetro urbano da cidade. Lá, se surpreenderam com um Fusca destruído num acidente.

Consta que o motorista do Fusca foi achado morto entre as ferragens. A mão direita dele segurava um celular. No momento da colisão, ele acabava de posar para uma selfie tirada do interior do carro. A postagem da foto mostrava o cara com um sorrriso. O último "zap" dizia:

-- O trânsito está um inferno hoje.

O repórter saiu do local, sempre acompanhado do motorista e do fotógrafo, e se dirigiu ao outro lado da cidade. No trajeto, deparou com o capotamento de uma Saveiro. Equipes do Samu estavam no local para socorrer a vítima, um homem agarrado a um celular e a uma boneca.

Ninguém entendeu o apego desesperado à boneca. Ele ainda respirava e tentava dizer qualquer coisa. Nenhum dos socorristas conseguiu decifrar as frases ditas pela metade. Ouviram apenas a palavra "filha". Tiraram o celular e a boneca das mãos dele. Depois de ser estabilizado numa maca, foi conduzido ao hospital. Horas depois, não resistiu aos ferimentos.

-- Celulares no trânsito -- lamentou o repórter.

Por curiosidade, o repórter observou as ruas e avenidas por onde o carro do jornal passava e identificou todos os motoristas divididos nas atenções entre os "zaps" e o ato de dirigir.

-- Nenhum "zap" vale a vida - pensou o repórter.

Nesse instante, ele recebeu via celular a comunicação de mais um acidente de trânsito. Uma estudante, num Fiat, acabava de bater o carro em um poste e teve morte instantânea. No celular dela havia uma pergunta de alguém:

-- Para qual praia você quer que eu te leve?

Não houve tempo para a resposta.

A um passo do futuro




Carlos Araújo

Quem era criança e adolescente nas décadas de 1960 e 1970 habitualmente ouvia dizer que o Brasil era o país do futuro. A ingenuidade de quem vivia essa fase da vida limitava a compreensão do sentido de esperança. Não se sabia quanto tempo faltava para o País alcançar o futuro.

O ufanismo dominava as mentes e os corações em grande parte da sociedade. Havia slogans de propagandas oficiais como a do "Brasil grande". Obras faraônicas como a construção da usina hidrelétrica de Itaipu, a ponte Rio-Niterói e a rodovia Transamazônica eram exibidas como símbolos de tempos modernos. E a conquista do tricampeonato mundial de futebol coroava a felicidade de uma geração.

Em contrapartida havia um outro Brasil, endurecido pelo regime militar da época. Um Brasil marcado por censura, abuso de poder, arbitrariedade. Sobrevieram acontecimentos impactantes: a morte de Vladimir Herzog, o terror da tortura, a guerrilha do Araguaia, as greves no ABC paulista. Até que a década de 1980 começou com a explosão de uma bomba em um carro durante um show no Riocentro.

Naqueles anos, no plano internacional, as crises do petróleo contribuíram para dinamitar a economia baseada em promessa de milagre econômico. Os anos de 1980 continuaram tão difíceis ao ponto de serem rotulados como a década perdida. As perdas também se deram na política com a rejeição da emenda das Diretas Já, a eleição de Tancredo Neves em colégio eleitoral, seguida da sua agonia e morte. E logo depois foi eleito o primeiro presidente em eleições diretas desde a ditadura.

Até parecia que o futuro tinha chegado, que a volta dos ventos democráticos resolveria todos os problemas. E a marcha da história continuou a reservar sustos: queda de um presidente, sucedido por outros que ocuparam o lugar pelo voto popular. Veio o Plano Real e as melhoras na economia abriram a esperança de um futuro que parecia possível.

Vieram as décadas de 1990 e os anos 2000. Passaram novos presidentes. Outras ondas de crises sacudiram o país, a maior parte ligadas a escândalos de corrupção. Uma parcela dos brasileiros, ainda que pequena, atingiu tal ponto de desilusão que chegou a descrer da democracia. Houve quem passasse a achar que democracia era uma ilusão. A essa altura, ninguém falava mais em futuro. Era como se o tempo tivesse sido perdido.

Agora, quem viveu a infância e a adolescência nas décadas de 1960 e 1970 não resiste a fazer comparações, descontadas as formas de governo existentes entre as duas épocas. Enquanto naqueles tempos havia promessas de um "Brasil grande" como país do futuro, o que ofuscava crises mortais, agora os discursos oficiais também são de modernidade e sintonia com os novos tempos, num contraste frontal com a realidade.

Pois o futuro ainda não chegou e parece cada vez mais distante. Um exemplo (entre tantos) é a distância que separa a agitação política de Brasília do caos que castiga a vida de pessoas comuns. Governos cortam orçamentos de áreas essenciais, pesquisadores saem do País por falta de recursos em laboratórios, arrastões deixam motoristas acuados nas mãos de bandidos, a contagem dos mortos pela violência lembra saldos de guerra e suspeitos de corrupção são soltos ou nem chegam a ser presos.

Em meio ao choque desses dois mundos, surpreende o fato de o discurso do futuro voltar suas baterias para 2018. Chegaram até a criar um programa de ações com o título Uma ponte para o futuro. Se ter vivido essas décadas valeu alguma coisa, o aprendizado é o de que no Brasil não adianta procurar no calendário as soluções para crises profundas.

O que fazer?, pergunta o senso de inquietação. Esperar o futuro, talvez, mas isso os dirigentes políticos já disseram lá atrás e enganaram toda uma geração de brasileiros. Dirão também que, no país da casa-grande e da senzala, nada mudou.

Se vale uma ideia, a literatura, que é um campo de transposição da vida, pode indicar uma alternativa. Para esses casos, o dramaturgo irlandês Samuel Beckett aponta uma interpretação desses tempos sombrios com Esperando Godot, a sua peça mais célebre.

Na história, dois personagens esperam um Godot que eles não sabem quem é, quando vai chegar nem muito menos o que significará para suas vidas. Qualquer semelhança com os brasileiros nessa hora amargurada não é mera coincidência.