OUTRO OLHAR
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Não me faça perguntas




Carlos Araújo

-- Eu tenho uma dúvida: o recurso à delação premiada como forma de investigação não incorre no erro de cair no mecanismo da corrupção que se pretende combater? Ora, o princípio da delação premiada e da corrupção se baseia na troca: na primeira, o criminoso delata o que sabe em troca de abrandamento da pena; na segunda, uma parte oferece benefícios, favores e vantagens em troca de pagamentos milionários. Não é a mesma coisa?

-- Não. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. A delação premiada é um método legitimado pela lei.

-- Mas o correto não seria que as instituições oficiais tivessem a estrutura necessária para fazer as investigações sem a necessidade de recorrer às delações premiadas? Dessa maneira, ao mesmo tempo em que se tem acesso a um vasto leque de informações que geram inquéritos, o delator é beneficiado com redução da pena. E, tomando-se por base o grande número de delatores, imagine o amplo alcance desse tipo de benefício. Não é um resultado injusto? Pode ser uma saída legal, mas não é imoral?

-- Não vejo assim. De que outra forma o País teria conhecimento de detalhes tão abrangentes de crimes cometidos na esfera do poder, entre políticos e empresários, se não fosse o recurso da delação premiada? E veja com que rapidez as coisas andam.

-- Mesmo assim, prefiro a controvérsia à explicação. Em pouco tempo os criminosos do colarinho branco, que negociaram delações premiadas, obterão o benefício da prisão domiciliar com o uso de tornozeleiras. Isso é mais uma vantagem descabida para pessoas que causaram tanto mal ao País. E, se você pensar que os domicílios de cada um são verdadeiros clubes de luxo, isso não é prisão coisa nenhuma, isso é colônia de férias. Eles sabem disso e por essa razão aparentam tranquilidade nos depoimentos. Alguns riem, como se rissem da cara de espanto dos brasileiros.

-- Imagine o contrário: se não houvesse as delações premiadas, aí é que eles ficariam impunes de verdade. Nenhuma polícia do mundo teria condições de penetrar no sofisticado labirinto da corrupção comandado pelas grandes empreiteiras, partidos e políticos. E nenhum prazo seria suficiente para as investigações, que demorariam uma eternidade.

-- Então, tá. De qualquer forma, a justiça ficará incompleta se os bens desses caras, adquiridos com a corrupção, não forem resgatados para devolução aos cofres públicos.

-- Já estão fazendo isso. Alguns condenados já devolveram milhões de dólares. Certamente não se recuperará tudo, mas boa parte será retomada e incorporada ao patrimônio público.

-- Ainda bem que você é otimista. Gostaria de ter o seu bom senso. Mas não tenho. Pois não é só uma questão jurídica e financeira. O problema da corrupção atinge as raias do genocídio. Minha indignação vai ao ponto de imaginar quantas pessoas devem ter morrido por conta do dinheiro que deveria ir para os hospitais, para pesquisas de combate a doenças, para programas de prevenção a epidemias, e foram parar no bolso, na cueca, na meia, nas contas secretas desses delatores em paraísos fiscais. Muitos pagamentos eram em dinheiro vivo. Imagine mochilas, malas, sacolas, abarrotadas de pacotes de notas. Quando ficamos apavorados com os crimes dos radicais do Estado Islâmico, esquecemos que a quadrilha da corrupção, aqui no nosso País, tem um poder muito maior para causar estrago e destruição.

-- E como você acha que tudo isso vai terminar?

-- Não sei. Impossível saber. Nem o sistema judiciário sabe. É como numa guerra: você tem domínio sobre como ela começa, mas não pode imaginar como termina. Talvez nunca termine. Veja o caso da Segunda Guerra Mundial. Já se passaram 72 anos do fim da guerra e ela ainda está dentro da gente. De fato, a sensação é de que estamos sob ataque. E os inimigos são implacáveis. Estão rindo da nossa cara. Vergonha não é um valor no código de princípios deles. Veja como nós, cidadãos, é que estamos envergonhados. Você já se perguntou sobre o tamanho da vergonha que abate cada um de nós, brasileiros, embora não tenhamos culpa? Será mesmo que não temos culpa?

-- Não me faça perguntas difíceis.

Nos velhos tempos do cangaço




Há um novo cinema em gestação no Brasil e no mundo. Os teóricos da sétima arte ainda não o classificaram para pesquisas futuras, mas não importa: ele existe e sua concepção é pós-moderna, pós-tudo, pós-Glauber, pós-Godard. O clichê que leva o indivíduo à metáfora de que "passa um filme na minha cabeça" nunca foi tão atual como agora.
 
Desse modo, num universo dominado pelas imagens, cada pessoa cria, produz, monta e edita o seu filme com as imagens captadas no cotidiano. Excluem-se as ideias de autoria, atores, fotografia, som, cortes, planos, roteiro, trilha sonora. Quem executa a criação é a sensibilidade de cada um.
 
O filme do momento começa com imagens fortes. Numa quinta-feira, uma menina é assassinada dentro de uma escola durante aula de educação física. Na sequência, policiais matam dois bandidos caídos, sendo que um deles ainda se mexia.
 
Corta para uma rua. Na calçada, junto a um muro, um turista argentino é agredido por brasileiros. Um soco o derruba, ele ainda bate a cabeça no muro e cai, morto, e mesmo assim o ataque continua.
 
Enquanto isso, no metrô, uma bomba explode. Ferros retorcidos. Muitos mortos e feridos. O pânico se espalha. Autoridades se reúnem, começam as investigações. Analisadas imagens de câmeras de segurança. Suspeitos aparecem. Caçada sem precedentes na tentativa de identificar e punir os culpados.
 
Em outro plano, agentes químicos matam centenas de pessoas. Entre as vítimas há várias crianças. De novo, as autoridades se reúnem, protestam. Ignoram que elas próprias têm grande parcela de culpa na catástrofe. Ignoram os crimes que, por interesse ou omissão, incentivam pelo mundo afora. E Donald Trump, em retaliação, aperta o botão que dispara 59 mísseis contra uma base militar inimiga.
 
Num jogo de futebol, antes mesmo do início da partida, torcedores adversários brigam. Desafiam policiais. Arrancam assentos e os arremessam contra os inimigos. A polícia tenta separá-los, sem êxito. Em outro lugar, fora do estádio, um homem atira em outros dois e um deles morre.
 
Numa cidade do sul, um homem que denuncia fraudes em combustíveis é assassinado ao chegar em casa. Numa rodovia, uma mulher acaba de tirar uma selfie e postar sua imagem no Instagran, quando, de repente, no minuto seguinte, morre num grave acidente com engavetamento de veículos. Na imagem postada, ela sorri, como numa despedida.
 
Corta, mais uma vez, para multidões que protestam nas ruas contra reformas do governo. Nessas manifestações, cartazes, faixas e discursos falam uma linguagem, e o governo, na propaganda oficial, utiliza outro idioma. O governo garante que as instituições funcionam, mas os hospitais continuam precários e muita gente continua a morrer por falta de atendimento de saúde. É como se o País fosse uma torre de Babel em que cada um usa o idioma que mais lhe convém.
 
A essa altura, o espectador está desgastado. Emoções fortes debilitam o ser. Ele recebe as imagens por meio da televisão, do Facebook, do tablet, do smartphone. Agoniado, conclui que não há o que fazer. Poderiam dizer que ele tem a opção de não assistir a tudo isso, mas não é bem assim. Impossível não ser bombardeado com as imagens que circulam em todas as mídias. Impossível ficar indiferente.
 
Antigamente a gente ia ao cinema, pensa o indivíduo, procurava o melhor assento e assistia ao filme na tranquilidade e segurança da sala de projeção. Até que, um dia, um maluco entrou num cinema e começou a atirar na plateia, causando mortes e ferimentos. Era a realidade que projetava o filme da vida real dentro do filme de ficção exibido na tela. Nem na sala escura a segurança é total.
 
Agora, o cinema está em toda parte: na selfie marcada por um sorriso, no flagrante de assalto gravado pela câmera de uma loja, na câmera escondida que capta uma imagem proibida, na gravação do tiroteio de uma gangue que invade e domina cidades, como nos velhos tempos do cangaço, para estourar caixas eletrônicos.
 
A revolução tecnológica mexeu com a sensibilidade humana e favoreceu a produção de filmes imaginários pela via das emoções. O mais incrível é que, numa hora dessas, eu e você, como vítimas ou suspeitos, podemos ser os protagonistas.
 

'Escrevo porque vou morrer'





Carlos Araújo

carlos.araujo@jcruzeiro.com.br



-- Sabe que nós dois não comemos há dois dias e meio e que assim mesmo há um Governo sobre nossas cabeças?

Esta frase é extraída do romance A fúria do corpo, do gaúcho João Gilberto Noll, e é dita por uma personagem que se arrasta pelas ruas de uma cidade sem nome, que poderia ser espaço urbano de uma cidade brasileira hoje. Noll morreu na semana passada, aos 70 anos, e essa frase fica como termômetro da solidão emblemática de uma obra que resiste ao tempo.

A morte de um grande escritor é sempre o momento de refletir sobre o legado de uma existência dedicada à literatura. E essa é a hora de Noll. Para quem tem o privilégio de devorar os seus livros, a primeira sensação é de orfandade.

Conheço sua obra desde a década de 1980. Cada livro publicado trazia personagens errantes, que vagavam sem destino por cidades e regiões diferentes e não tinham uma lógica para os destinos traçados. De repente, a surpresa: aqueles homens e mulheres descritos em páginas densas podiam ser eu, você, qualquer um de nós. E isso era trágico demais.

Todo autor tem uma marca. Noll é (o verbo ser é uma forma de subversão estética) o autor do desamparo, do fracasso, da falta de sentido. Não é à toa que identificam nele influências de Clarice Lispector e Lúcio Cardoso, outros dois mestres da literatura brasileira. E pode-se acrescentar, sem medo de errar, que há muito do irlandês Samuel Beckett na base criativa da obra de Noll. Seus vagabundos poderiam ser amigos dos vagabundos de Esperando Godot, a obra-prima do dramaturgo irlandês.

Noll também é um autor de linguagem. Texto enxuto, conciso, ágil, prováveis influências do cinema. Ele era um cinéfilo incorrigível. Teve três de suas histórias adaptadas para a tela: Nunca fomos tão felizes, Harmada e Hotel Atlântico.

A fúria do corpo também é fluxo de consciência, galeria de pessoas em conflito com as buscas do cotidiano, perseguindo respostas, ocupando espaços em campos minados. A semelhança com os tempos sombrios que vivemos não é mera coincidência. A atualidade das suas histórias é assustadora.

Noll também faz parte da seleção de autores que não existem para entretenimento. Quem busca a literatura apenas com esse objetivo comete um equívoco. Abrir uma página de Noll é um ato de insatisfação, de inquietude, de solidão. Sem ser panfletário, Noll é rebelde na linguagem, na forma de envolver e embriagar o leitor, e essa característica tem a carga explosiva de um rolo compressor. Certamente o leitor não sai ileso.

O estilo de Noll pode ser explicado a partir da descrição feita pelo peruano Mario Vargas Llosa que fala da diferença, por exemplo, entre as sensações de ler A fúria do corpo e ir à praia: "Nesse sentido, a boa literatura é sempre -- embora não o pretenda nem o perceba -- sediciosa, insubmissa, revoltosa: um desafio ao que existe."

"A literatura nos permite", continua Llosa, "viver num mundo cujas leis transgridem as leis inflexíveis pelas quais transcorre nossa vida real, emancipados da prisão do espaço e do tempo, na impunidade para o excesso e donos de uma soberania que não conhece limites."

Em sintonia com essa interpretação, certa vez Noll disse:

- Escrevo porque vou morrer. Se não houvesse a morte, eu não escreveria, ficaria coçando o saco na praia, de preferência no Nordeste.

E morreu como um personagem. O corpo foi achado em seu apartamento. Não se despediu de ninguém. Como se despedidas não fizessem parte do seu comportamento. Ou talvez ele as considerasse desnecessárias. Não deixou carta. Nenhum bilhete.

Revoltado com a desproporção entre a importância de Noll e o quase desconhecimento de sua obra, apesar dos seus cinco prêmios Jabuti, Fabricio Carpinejar escreveu que Noll foi "assassinado" pela sociedade: pelo desprezo, pela indigência cultural, por ausência de incentivo e apoio.

Para que houvesse uma repercussão maior de sua obra, talvez Noll tivesse que ter escrito em inglês ou espanhol. O fato é que ele não estava preocupado com mercado, fama, reconhecimento. Não é loucura imaginar que ele ficaria satisfeito se tivesse apenas sete leitores.

O lobo da velocidade




Carlos Araújo

Houve tempo em que os homens guerreavam em espaços delimitados. Agrupavam-se em exércitos. Confrontavam-se em campo aberto. Lutavam os soldados, lutavam as armas. E evoluíram as estratégias de ataque e defesa.

Grandes comandantes militares entraram para as galerias de heróis e vilões. De paus e pedras, do arco e flecha e do uso do cavalo, os combatentes passaram a usar tanques, metralhadoras, aviões, submarinos. Eram como super-homens nas batalhas. Não satisfeitos, inventaram as armas químicas e a bomba atômica.

Agora, é como se a humanidade tivesse subvertido toda essa capacidade de destruição. Um único homem, no volante de um carro, pode fazer estragos que antigamente só eram possíveis com grandes exércitos. Foi o que aconteceu em Londres na semana passada. Foi a repetição de episódios ocorridos em Nice e Berlim.

A evolução bélica atinge o avesso da lógica: um único homem, munido de arma potente apoiada no ombro, é capaz de destruir um tanque de guerra. Imagine um lobo solitário parar dessa forma um tanque como os poderosos Tiger (Alemanha), Sherman (EUA) e T-34 (União Soviética). O que parecia impossível é uma realidade. Ao ponto de tanques serem máquinas de guerra ultrapassadas.

A tecnologia que acelera o avanço da ciência e salva vidas também está ao alcance de hackers e o potencial é devastador. Um pirata da internet a serviço de organizações radicais pode destruir o controle de sistemas de segurança de transmissão de energia, de equipamentos de segurança, de centrais nucleares.

A gravidade da situação chegou aos celulares, tablets, notebooks. Equipamentos usados na vasta comunicação de massa, símbolos da pós-modernidade, podem se transformar em armas se forem manipulados por lobos solitários. A aviação já tem registro de acidente causado pela explosão de notebook.

Nas disputas entre as potências nucleares, as relações também são de arrepiar. Os EUA, maior potência do planeta, não podem ignorar as provocações de Kim Jong-un, ditador de um pequeno e isolado país, a Coreia do Norte, mesmo que elas pareçam bravatas.

Kim testa mísseis nucleares para demonstrar que pode atingir os EUA ou o Japão (aliado dos norte-americanos) e tem sido levado a sério. Agindo assim, o ditador mostra que o domínio do poder nuclear também representa o seu sistema de defesa. E sua megalomania impõe uma nova lógica de guerra.

Ser potência nuclear já não é mais determinante num mundo em que Estados menores também dominam tecnologias de destruição. Pequenos ditadores, isoladamente, demonstram que podem fazer frente ao poder dos gigantes. O medo, agora, é que organizações radicais como o Estado Islâmico sigam o exemplo de Kim Jong-un e consigam decifrar o domínio do átomo.

Seja quem for, o inimigo agora pode ser invisível; pode ser alguém que entra num banco como um cliente anônimo; pode ser uma senhora silenciosa na sala de espera de um consultório médico; ou (fim do mundo) pode estar incorporado em uma criança carregada de explosivos. E o inimigo também pode sorrir pedindo o seu voto com promessas de felicidade.

Os ataques do inimigo podem vir de outras formas, sofisticadas umas, grotescas outras, mas tão criminosas e poderosas como as bombas. As invasões podem se manifestar em alimentos com excesso de agrotóxicos; em carnes que não foram fiscalizadas por conta de pagamento de propinas e que a Operação Abafa não consegue enganar; no conjunto da corrupção que drena os recursos públicos que deveriam ir para os hospitais e a educação.

O risco de ataque também está no semáforo, na rua escura, no portão de entrada e saída de casa. Alguém fica aterrorizado com um ataque do Estado Islâmico na Europa e esquece que também pode ser assassinado a tiros numa rua do Brasil. Para os governos, a distinção fica entre os rótulos de terrorismo, lá na Europa, e violência urbana, aqui no Brasil. Para as vítimas e suas famílias, a catástrofe é a mesma.

Seja qual for a forma de lutar e morrer, na paz e na guerra, os homens estão eternamente em combate e o campo de batalha é todos os espaços possíveis.

Santuário de mulheres




Carlos Araújo
carlos.araujo@jcruzeiro.com.br

No mês de homenagens às mulheres, agora que todos já falaram e escreveram quase tudo sobre o tema, ainda é tempo de dizer que há um campo em que a mulher rivaliza em pé de igualdade com o homem e em muitos casos até o supera: a infinita e generosa galeria de personagens femininas na literatura.

O universo das grandes escritoras é vasto, da brasileira Clarice Lispector à bielorrussa Svetlana Alexievich, mas é sobretudo nas personagens que a mulher se reinventa e surpreende o mundo. De Sherazade a Capitu, de Dulcineia del Toboso a Gabriela, Cravo e Canela, a ficção é o espaço onde a mulher habitualmente se impõe como protagonista, dita os rumos dos destinos humanos e dá razão e sentido à existência.

E não poderia ser diferente. As mulheres criadas pela imaginação dos grandes escritores, de Cervantes a Machado de Assis, refletem Martas e Marias que podem ser encontradas nas ruas, no trabalho, nas festas, na praia, na casa vizinha.

Sherazade é a mulher que desafiou o poder de um monarca. Um rei da Pérsia, que amargara a angústia de viver com uma mulher infiel, passou a se casar todo dia e a matar a nova esposa no dia seguinte para evitar a repetição da traição. Sherazade se casou com ele e o seu plano, que significava colocar a vida em risco, era barrar o massacre de mulheres. Ela usou como método a contação de histórias de aventuras. Suspendia a narrativa sempre na parte mais empolgante (recursos do folhetim, adaptados pela telenovela brasileira), e prometia contar o desfecho só no dia seguinte. Isto é, se o rei lhe desse mais um dia de vida. E foi assim durante as mil e uma noites. Se ela escapou da morte na milésima segunda noite, pois bem, não é de bom tom contar o fim da história.

O que se sabe é que a astúcia de Sherazade não é um produto só da imaginação. Ela existe também na mulher real e pode ser traduzida como criatividade, coragem, persistência e confiança na sua força como forma de inspirar, fascinar e seduzir o mundo ao redor.

Capitu, a musa dos "olhos de cigana oblíqua e dissimulada", é o centro do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, embora a narrativa seja conduzida por Bentinho. Capitu é a vida com todo o seu potencial de transgressão, imprevisibilidade e mistério, enquanto Bentinho cumpre o papel comparado ao de uma sombra dela, um mero coadjuvante. E, como em Sherazade, há sempre uma Capitu na esquina, no ponto de ônibus, no balcão da loja de celular.

Dulcineia del Toboso, ao mesmo tempo em que é o delírio de Dom Quixote (a clássica criação de Miguel de Cervantes), é também a sua razão de viver. Por ela ele luta contra gigantes e moinhos de vento. Por ela ele avança em viagens insondáveis. Por ela ele vive e está disposto a correr todos os riscos. Dulcineia, mais do que um encantamento, é a sua loucura mais apaixonante e só o fato de tê-la na imaginação faz dele um cavaleiro vencedor.

E Gabriela, Cravo e Canela, a obra de arte em forma de mulher criada pelo baiano Jorge Amado, é a representação da beleza e da sensualidade feminina. Difícil não pensar em Sônia Braga, a atriz que interpretou a personagem no cinema. Jorge Amado precisou elevar à condição de protagonista uma única mulher para ela ser todas as mulheres da Bahia e do Brasil.

Escritoras também criaram mulheres inesquecíveis para a literatura. A narradora de A paixão segundo GH, de Clarice Lispector, é apaixonante nos seus conflitos, na batalha com os seus fantasmas, e a voz narrativa é tão poderosa que é como se ela falasse diretamente ao leitor. Ana Terra e Bibiana, na obra de Érico Veríssimo, e Sinha Vitória, criação de Graciliano Ramos, também entram nessa categoria de mulheres fortes.

Resta saber, amiga leitora (como diria Machado), se você acorda de manhã como Capitu, se no almoço você é Sherazade, se à tarde você é Gabriela e, quando chega a noite, se você incorpora os encantos de Dulcineia e é a culpada pelos os delírios de um louco qualquer. Aposto que você é todas essas mulheres (e muitas mais) e guarda isso com a preocupação e a adrenalina de quem curte a aventura de esconder um valioso segredo.