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Coisa de bicho (parte 2)



Carlos Araújo

carlos.araujo@jcruzeiro.com.br


Se o leão for considerado culpado, terá que deixar o poder e o seu lugar será ocupado por um animal escolhido pelo conselho consultivo. E também se isso acontecer, a dificuldade de escolha será enorme: um exercício de indicações foi feito certa vez e todos os nomes sugeridos eram suspeitos de corrupção

Antes que a guerra comece, antes que todas as árvores sejam destruídas e antes que todos os animais enlouqueçam, eis que o papagaio sugere uma consulta a um velho urso sobre o que fazer para a solução da crise na floresta. Contando com a sabedoria do urso, uma comissão de bichos se dirige a ele. Mas o que ouvem é desanimador.
-- Não há o que fazer -- diz o urso.
Nessa hora de extrema gravidade, os animais decidem transferir a solução para o conselho consultivo da floresta. Composto de três membros (o escorpião, o avestruz e o leopardo), o conselho consultivo é uma instância superior de justiça que dá a última palavra em caso de vida ou morte.
Uma sessão do conselho consultivo é marcada para uma sexta-feira. O local é uma imensa arena no meio da mata: no centro, transformado em palco, ficam o escorpião, o avestruz e o leopardo, e os espaços em torno são tomados por uma plateia de bichos de todas as espécies.
O que está em questão é o julgamento dos crimes atribuídos ao leão. A base da acusação é de autoria do tigre e de outros inimigos igualmente envolvidos no furacão da crise. Se o leão for considerado culpado, terá que deixar o poder e o seu lugar será ocupado por um animal escolhido pelo conselho consultivo. E também se isso acontecer, a dificuldade de escolha será enorme: um exercício de indicações foi feito certa vez e todos os nomes sugeridos eram suspeitos de corrupção.
O escorpião inicia os debates:
-- Veja bem. Neste momento histórico para a floresta, o destino de todos os animais está em nossas mãos. Eu defendo a permanência do leão nas instâncias de governo. As acusações contra ele são frágeis por falta de provas.
-- Discordo -- intervém o leopardo. -- Testemunhas delataram os crimes do leão. E há conversas gravadas que mostram situações vividas pelo leão que são muito suspeitas. Tudo é muito nebuloso.
-- Eu concordo com o escorpião -- fala o avestruz. -- As provas, as gravações, as delações, só existem se forem consideradas como bases da acusação. Problemas só existem quando são admitidos como tais. Da mesma forma, provas só existem se forem levadas em conta. Aqui elas devem ser ignoradas em nome da paz e harmonia entre os animais.
-- Protesto -- reage o leopardo. -- Não é assim que se faz a justiça. As provas mostram o conluio entre o leão e a força destrutiva das motosserras. E vamos fingir que nada disso existe? Lógica do avestruz. Nem que eu seja o único em toda a floresta a votar pela culpa do leão, mesmo assim eu não me curvo diante da injustiça. Sou derrotado no resultado, mas preservo a vergonha na cara e na consciência.
Nessa altura, a reação entre os bichos é de torcida: o bloco dos que são parceiros do leão já comemora a vitória com antecedência e o grupo do tigre se consome de ódio e desejo de vingança. Muitos se limitam a assistir ao espetáculo e fazer comentários.
-- O julgamento é um grande teatro -- descreve o papagaio. -- Valem as interpretações, os elogios e as críticas, mas no final tudo termina com o pano que cai, encerrando o show, e a vida continua como sempre foi: uma massa amorfa, cinzenta, viscosa.
Minutos depois, a voz do escorpião se eleva sobre a copa das árvores, num efeito estéreo, e anuncia a vitória do leão.
Nessa hora, o tigre, refugiado numa caverna, refaz planos de ataque. Longe dali, o leão entra numa festa no palácio do governo e recebe cumprimentos com honras de herói. Num canto do salão principal, para surpresa de muitos, conversam o escorpião, o avestruz e o leopardo. Vieram parabenizar o rei dos animais. O escorpião, ciente de sua importância na engrenagem do poder, derrama-se em gargalhadas e não esconde a felicidade de ser amigo do leão.
Entre os que sensibilizaram com o discurso do leopardo, há os que se surpreendem com a presença dele na festa do leão, mas há também os que acham que discursos não passam de palavras ao vento. Indignas de confiança.
Agora, desiludidos, muitos bichos fogem da floresta em busca de outros mundos.
Empoleirado no galho de uma árvore bem alta, o papagaio assiste à debandada dos bichos que não suportam a hipocrisia na floresta. E filosofa: -- A justiça dos bichos é cega, mas ela enxerga no escuro.


Coisa de bicho (parte 1)



Numa floresta muito distante, nos confins do fim de um mundo caótico, todos os bichos estão em polvorosa. Há uma disputa entre o leão e o tigre pelo comando dos animais. Isso é suficiente para desencadear um clima de guerra na imensidão verde que se estende a perder de vista. 

O leão, que governa a floresta há muitos anos, tem sua legitimidade contestada e sua honra tem sido enxovalhada por denúncias de corrupção. E ele tem muitos inimigos. O animal que lidera o grupo dos adversários é o tigre, que quer tomar o lugar do leão. Mas também pesam contra o tigre acusações dos piores crimes jamais vistos nessas veredas. 

A floresta está dividida numa disputa insana. O risco de uma batalha mortífera entre os animais é iminente. Há o grupo que oferece apoio irrestrito ao leão, mas outra turma se alinha ao tigre também de forma obstinada. As forças são equivalentes e compõem um equilíbrio regido pela tensão. 

A coruja lidera o grupo de apoio ao leão em troca de segurança para a sua ninhada: enquanto ela estiver com o rei dos animais, amparada por ele, ninguém mexe com as suas corujinhas. Do outro lado, o grupo do tigre também tem um líder na figura do macaco. A garantia do fornecimento de bananas diárias, prometida pelo tigre, é o segredo da motivação que leva o macaco a arregimentar cada vez maior número de simpatizantes em favor de uma causa tão nobre. 

O leão nega todas as denúncias. O tigre explica que os crimes que lhe são atribuídos não passam de invenções e fantasias. Os dois poderosos animais têm em comum o discurso de combate à corrupção. E prometem defender a democracia como sistema de governo em todos os cantos da imensa floresta. 

Nesse clima, a coruja e o macaco têm trabalhado muito. A coruja procurou a cutia, a paca, a capivara, a onça, a jaguatirica, o tamanduá, o tatu. Nas conversas com os animais, pediu que todos se enfileirassem na corrente de sustentação do rei dos animais. Como recompensa teriam proteção e comida, duas necessidades fundamentais naquele universo verde marcado por pragas, ameaçado pelas motosserras e cheios de armadilhas de todo tipo.

Entre os animais assediados pela coruja, o apoio ao leão é quase unânime. O único caso de deserção foi o da capivara, que se bandeou para o lado do tigre porque recebeu como promessa, além de proteção e comida, a vantagem de ter um cargo importante num futuro governo de união geral da floresta. A mesma manobra de compra de apoio também é feita pela turma do tigre e o macaco é o capitão dessa empreitada.

Outros bichos se mantêm à margem das disputas. Em lugar de protagonistas, são coadjuvantes ou menos do que isso. Entre esses estão as aves (tucanos, papagaios, águias, sanhaços, macucos, feiticeiras, papa-moscas), as serpentes (jiboias, corais, jararacas), além dos sapos, rãs, pererecas, peixes.

Limitam-se a dar opiniões. No conjunto, estão divididos entre apoiar o leão, de um lado, ou o tigre, de outro. O papagaio não tem dúvida de que um e outro são a representação de uma única identidade:

-- São criaturas iguais, embora sejam de espécies diferentes.

Alguém propõe um duelo entre os dois poderosos da floresta. Mas a ideia é descartada por falta de respaldo do sentido de justiça.

O entendimento geral é de que alguma solução tem que ser encontrada pelo bem de todos. A vida na floresta se tornou insuportável com a crise de poder. Nos momentos em que o tigre e o leão movimentam as peças de um xadrez ameaçador, que pode levar a floresta à guerra, muitos animais morrem de fome, de doenças, de abandono, e ninguém faz nada. Para esses líderes, o que vale é a disputa pelo comando do reino animal. E mais nada.

As coisas se agravam com a ameaça das motosserras, que derrubam árvores, devastam vastas áreas da floresta e massacram os animais. Nessas áreas surgem pastos e exploração de jazidas minerais. E as motosserras recebem a aprovação de animais como o leão e o tigre. Dizem que isso acontece porque eles recebem favores e outros benefícios, embora neguem. Para quem acompanha essas agressões contra a natureza, o medo é de que a floresta seja extinta pela guerra ou pela ação das motosserras e toda a condição de vida deixe de existir.


O homem da mala




Carlos Araújo

carlos.araujo@jcruzeiro.com.br



Numa noite tropical e de iluminação amarelecida, um homem de terno segura uma mala e se esgueira pela calçada em direção a um ponto de táxi. Desconfiado, ele olha para trás, como se temesse ser seguido ou filmado, e se perde nas sombras.
Parece uma introdução daqueles filmes B tão cultuados por cinéfilos mundo afora. A diferença é que não é ficção. É uma cena real, repetida à exaustão na tevê e nas redes socias. E ganha destaque extraordinário nas batalhas políticas que paralisam o Brasil.
Também parece espionagem. E cabe perguntar: por que o crime tem fixação em malas? Enigma.
As notícias sobre o homem de terno dão conta que no interior da mala havia R$ 500 mil em dinheiro de propina. As notas vinham de algum lugar, pousaram em outro ponto para troca de mãos e agora se deslocavam para outras bandas. E pensar que nos pontos de origem, parada e destino havia sempre alguém, entre emissores e receptores.
O dinheiro fez uma viagem misteriosa e não sabida. O flagrante captado pela câmera é suficiente para indicar especulações obscuras. O desafio era saber a origem e o destino. O mistério só poderia ser esclarecido se houvesse resposta para os dois extremos e o ponto intermediário da estranha viagem.
Agora, imagine o perigo de o homem da mala ser assaltado. Mas nada disso aconteceu. Certamente ele tinha armado esquema de segurança para garantir uma viagem segura ao destino programado. Nada de escolta armada. Nada que denunciasse o seu deslocamento como parte de uma grande operação negociada por poderosos. Ou talvez, como um delinquente flagrado pelas câmeras, ele também não tivesse medo de outro parceiro de atividade.
De resto, malas não são confiáveis. O uso delas, numa situação como essa, torna-se obrigatório porque não havia outro jeito de acondicionar e transportar tanto dinheiro. O volume de pacotes de notas não cabia em nenhum bolso, em nenhuma sacola, em nenhum estojo.Tinha que ser uma mala. O problema é quando, além de malas, esse objeto de uso dos viajantes é destinado a transportar corpos.
A mala foi peça de destaque num dos crimes mais famosos da literatura criminal no Brasil: em 1928, Giusepe Pistone matou a mulher, Maria Fea, escondeu o corpo numa mala e tentou embarcá-lo para a Europa. Segundo os historiadores, a mala foi içada a bordo de um navio atracado no porto de Santos. No instante em que foi descarregada a bordo, o impacto no chão abriu e uma fresta se abriu na parte inferior. Um mau cheiro indicou coisa errada. A mala foi aberta e o cadáver no interior dela causou espanto geral. O autor do homicídio foi identificado e preso.
Outro história célebre, ocorrida em 2012, também foi marcada pelo uso de malas: a bacharel em direito Elize Matsunaga foi acusada de matar o marido, Marcos Kitano Matsunaga. O júri popular a condenou a 19 anos, 11 meses e 1 dia de prisão em regime fechado. Num dos aspectos macabros descrito pela acusação, Elise esquartejou o corpo do marido e o escondeu em malas. Uma câmera captou a cena em que ela entra num elevador do edifício onde morava com as malas que continham partes do cadáver.
Impossível não recordar esses crimes a cada momento em que são exibidas as cenas do homem de terno que foge pela calçada numa noite perdida. Em silêncio, na solidão de um destino, ele se enquadra no clássico exemplo das aparências que enganam. Ninguém podia saber que ele levava alta quantia em dinheiro na mala. Ninguém jamais saberia disso, se já não estivesse sendo investigado e filmado.
Aeroportos e terminais rodoviários são lugares abundantes em pessoas com malas. De todos os tipos e cores. As malas abrigam roupas, calçados, objetos, produtos diversos. Basta uma parada num corredor ou saguão para assistir a um desfile de malas com destino a milhares de direções em todo o País e no exterior.
Não há como resistir: a curiosidade especula qual dessas malas, no frenético movimento dos aeroportos e rodoviárias, pode conter dinheiro de corrupção ou, até mesmo, um corpo esquartejado.
Mais do que em outros acontecimentos históricos, agora, no turbilhão da crise, a mala é elevada à condição de obra monumental e decisiva para os destinos do Brasil.

Escolhas atropeladas





Carlos Araújo

carlos.araujo@jcruzeiro.com.br



Tempos sombrios, se forem considerados os estragos que provocam, habitualmente derrubam mitos. Um dos efeitos desse período é a perda da força de aforismos que há tempos são ventilados como verdades e entram no inconsciente coletivo como elementos de autoajuda, esperança, ilusão. E um desses mitos é o de que a vida é feita de escolhas.

Com o perdão dos que discordam, essa afirmação é um recibo de autoengano. E isso acontece nos planos biológico, físico, social. A ideia de escolha é impossível para o indivíduo que adquire as características físicas desde a concepção. E após o nascimento, na esfera da vida em sociedade, a definição de escolha perde o sentido frente à identidade dos grupos e classes sociais.

Ninguém escolhe ser pobre ou ter limitações físicas, mentais ou de qualificações numa sociedade marcada pela competição, endeusamento dos fortes e exclusão dos fracos. Ninguém escolhe a dor, a tristeza ou a angústia. Mesmo assim, essas aflições fazem parte do sofrimento humano, surpreendem a qualquer momento e nem todos conseguem escapar delas.

Em contrapartida, a condição do homem é ser protagonista, vencedor, símbolo de perfeição. Esse aspecto foi abordado na semana passada em palestra do professor e jornalista Clóvis de Barros Filho em Sorocaba. Ele lembrou que o protagonismo humano se constitui de duas situações: na primeira, o homem pratica autonomia e controle com o planejamento das ações para alcançar as metas propostas; na segunda, ele depara com os elementos da surpresa, do imprevisível, do imponderável.

E as duas situações têm importância que se equivalem, explica Barros Filho. O desafio é saber lidar com a segunda parte de forma amadurecida, Mas a transposição do imaginado obstáculo também se dá com maior ou menor grau de dificuldade dependendo do peso da interferência causada.

A viagem a um determinado ponto pode ser interrompida por um acidente na estrada e representar um atraso administrável. Mas a interdição do local pode se estender por tempo indefinido e nesse caso o atraso se converte em prejuízo total. E o viajante, em sã consciência, não teria escolhido um trajeto problemático se soubesse disso com antecipação.

Numa atitude positivista, o homem tende a mirar os gênios e tomá-los como modelos a seguir e imitar. Dentro do espírito de sua palestra de tom motivacional, Barros Filho citou como exemplos de perfeição o pintor catalão Salvador Dalí, o maestro João Carlos Martins, o nadador César Cielo e o campeão olímpico Thiago Braz. Excelentes modelos de inspiração. Mas a diferença é que artistas e atletas dessa categoria são líderes nos seus campos de domínio e, nessa condição, representam exceções no conjunto da sociedade.

Olhando ao redor ou para si mesmo, o homem se depara com trabalhadores competentes que perdem o emprego, com pessoas qualificadas que não encontram recolocação no mercado de trabalho, com estudantes que não conseguem aprender e professores que têm dificuldade de ensinar por causa de tiroteios em favelas no Rio. E ninguém escolhe esse tipo de vida.

Dia desses, numa mesa de bar, um homem deprimido curtia uma tristeza incrível porque tinha sido abandonado pela mulher que amava. Os amigos tentaram consolá-lo, em vão. Restou-lhe ouvir as baladas de Elton John e Adele. Quando enjoou de ouvir as canções, ele foi para casa e escreveu um livro para exorcizar a sua dor. Se pudesse, teria driblado a amargura com outra atividade.

Assim se esfacelam as escolhas, o que vale também para a democracia. Nessa forma de governo, eleitores votam nos candidatos aos cargos públicos com a esperança de que eles cumpram as promessas de trabalho e sejam honestos. E muitos escolhidos não fazem nem uma coisa nem outra: traem os representados, enriquecem indevidamente, acreditam na impunidade como prêmio e na memória curta como redenção.

Se escolhas individuais são atropeladas e não servem como justificativas para os fracassos, na plataforma coletiva a situação se agrava e vira cenário de guerra. Ninguém escolhe o atraso, a corrupção, a bandidagem. A vida não é feita de escolhas, mas de acidentes de percurso. As vítimas compõem dois grupos: os que suportam e superam a dor e os que são aniquilados por ela.

O grande desastre




Carlos Araújo

carlos.araujo@jcruzeiro.com.br



Impressionante como a fragilidade humana fica exposta em grau máximo diante dos grandes desastres: a morte entra em rota de colisão com o instinto de sobrevivência e instaura-se uma forma de duelo entre a vida e todo o conjunto de ameaças ao redor. Numa transposição do plano físico para a esfera pública, foi exatamente esse o fenômeno que anestesiou o Brasil na noite de 17 de maio com as notícias que provocaram estragos comparados a um terremoto na política brasileira.
Assim como nos desastres que envolvem mortos e feridos, a notícia detonada como furo bombástico causa uma espécie de atordoamento coletivo. Equivalentes às vítimas, os nomes atingidos pelas denúncias se enquadram na categoria de mortos ou feridos de acordo com a gravidade dos indícios de crimes cometidos. Simultaneamente, uma legião de cidadãos pelo País afora estão perplexos com o que veem, leem, ouvem, escrevem, e essa reação se converte em sentimento público de indignação.
O atordoamento é refletido no esforço de jornalistas que, atropelados pela urgência, tentam explicar e interpretar os acontecimentos. E numa situação tensa em que nem tudo está dito, informado ou compreendido. O risco de erro é iminente. Nos primeiros momentos, diante da obrigação de acrescentar informações, repete-se o que já foi dito. E as análises, sem os subsídios necessários, resvalam para o desfiladeiro do achismo. Alguns enxergam suposições coerentes, mas outros detectam especulações e teorias da conspiração.
Nessa fase inicial do choque de audiência ainda não existem áudios ou imagens, recursos obrigatórios como sustentação das denúncias, e toda a indústria de massa se vale de uma suposição de credibilidade com o público. A notícia é estarrecedora, requer comprovação. Provas obrigatórias se tornam imprescindíveis nessa hora.
Joga-se com o tempo. Enquanto as horas avançam, as perguntas se multiplicam: existem provas? elas aparecerão? o que é verdade e o que pode ser mentira no que está acontecendo? por que jogam mais areia no ventilador dentro do modelo de delações premiadas? qual será o benefício que vai privilegiar os delatores? o que acontecerá com os acusados? e, como dizem que as instituições funcionam, como elas se comportarão nesse agravamento da crise?
Num momento em que ainda não há respostas, o desafio de fazer interpretações em meio à falta de detalhes é uma tarefa atribuída aos especialistas que, nessas condições, surgem de vários cantos em passes de mágica. E, diante dos fatos, o risco de erro é total. Aparecem dados sobre entrega de pacotes de dinheiro em malas, encontros na calada da noite, negociações em restaurantes e salas de aeroportos. Falam que muita coisa foi filmada com tecnologia de rastreamento. As técnicas de espionagem usadas causariam inveja ao agente 007.
Tão impactante quanto a gravidade das denúncias, causa horror a menção a milhões de dólares para cá, outros milhões para lá, numa inesgotável montanha de dinheiro vivo nas mãos de criminosos do colarinho branco. É instantâneo o raciocínio de que essas notas foram desviadas de escolas, hospitais, assistência social, para serem destinadas a corruptos.
As imagens de malas e muito dinheiro, que logo depois são mostradas, parecem extraídas de filmes de suspense. Atraem tanto a atenção que superam a audiência das telenovelas. O clássico Terra em transe, de Glauber Rocha, que retrata uma crise política, parece poético demais se comparado aos padrões selvagens da corrupção na atualidade.
Nessa ciranda de caos, a fragilidade humana diante do desastre também se reflete nas criaturas que têm a responsabilidade de encontrar soluções para a crise. Em vez de se entenderem sobre atitudes a serem tomadas, batem cabeças. A operação mais ditada é a do "salve-se quem puder". Não se sabe quem mente ou quem diz a verdade. E qual verdade? A desconfiança é geral. No mar de dúvida e incerteza, ninguém sabe como será o amanhã.
E, se na cúpula da pirâmide o clima é de terror, imagine a base e os que fazem parte dela. Para a maioria, restam as eternas ameaças traduzidas em mais desemprego, complicações com saúde e educação, desamparo em todas as outras necessidades. No rastro do desastre, estas são as vítimas em situação de maior gravidade. De onde virá o socorro?