OUTRO OLHAR
Publicidade (passe o mouse para ouvir)


Precisa-se de super-herói




Carlos Araújo

Se no Brasil e no mundo houvesse um mercado para criaturas portadoras de super-poderes, como nas HQs, um dos apelos mais frequentes seria este: "Precisa-se de super-herói". Com o desconto da ideia utópica, o jeito é recorrer às saídas mirabolantes para as crises de plantão. As desgraças que castigam os brasileiros e a humanidade em geral são tão gigantescas que, avaliadas nos detalhes, ganham contornos assustadores na forma, no conteúdo, na origem, em todos os aspectos que se possa imaginar.

Não resta dúvida de que a dimensão dos problemas vai muito além da capacidade humana para resolvê-los. As entranhas do terrorismo, da corrupção, da crise econômica e de outras misérias, que incendeiam as imagens na televisão como catástrofes do fim do mundo, vão muito além da capacidade dos governos para cumprir as promessas de segurança, bem-estar e prosperidade.
Enquanto nos discursos os governos falam de sociedades que não existem (ou só existem, coloridas e sofisticadas,na imaginação deles), a realidade se impõe com massacres em penitenciárias, mortes em hospitais por falta de estrutura e atrasos nos pagamentos de salários de servidores públicos.

Enquanto os governos se perdem em discursos fabricados na propaganda e no descrédito, o caos avança, ganha territórios como fazem os exércitos nos campos de batalha e os derrotados nessa guerra se traduzem em pessoas sem trabalho, mendigos nas ruas e pacientes na espera (que pode durar meses) de consultas especializadas no setor público.

No exterior, as coisas vão de mal a pior. Basta citar os EUA, cantados como a maior democracia do mundo, onde a eleição de um presidente causa mais temor no mundo do que o líder da Coréia do Norte, Kim Jong-un. Um presidente, Donald Trump, que rebate com a arrogância as críticas contundentes e elegantes feitas pela atriz Meryl Streep, uma estrela de Hollywood.
Como se isso não bastasse, Trump demonstra que vai se aliar ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, que governa o país de Dostoiévski com as mãos de ferro de um novo Stalin. Pobre Rússia. As Almas Mortas, descritas no romance de Gógol que recebe esse nome, ainda se movem pela vastidão das estepes, do Volga aos campos gelados da Sibéria.

Seja qual for o horizonte, a paisagem é bárbara. A guerra na Síria deixará como marca a figura de um líder, Bashar al-Assad, que entrará para a história como um dos maiores vilões da humanidade. Ele fará companhia a Stalin, Hitler, Mussolini, Calígula e tantos outros poderosos que cometeram massacres, mataram crianças e causaram os piores sofrimentos a legiões de inocentes.

Além disso, na Europa, nos EUA e também no Brasil, organizações de extrema-direita encontram facilidades para conquistar espaços antes protegidos. Percorrem uma jornada na contramão da história. Muitas vezes, sem resistência alguma. E fincam tentáculos para marcar áreas dominadas. Na ocupação de espaços vazios, avanços em direção à dominação total parecem questão de tempo. As eleições na França em abril próximo dirão o quanto esses grupos terão percorrido.

Nessa ciranda de incerteza e intolerância, não há dúvida de que a tarefa de governar é muito superior à capacidade dos homens, por mais bem intencionados que se apresentem em discursos bem alinhavados por assessorias. As sucessivas e múltiplas crises nas sociedades também criaram uma sensação universal de descrédito em relação às palavras e às ações de governos.

Desde 11 de setembro de 2001, a história prova que os governos não são capazes de deter a ação de homens que transformam aviões em bombas voadoras, de motoristas que atiram caminhões sobre multidões nas ruas e nos mercados, de atiradores que matam passageiros em aeroportos, de carros-bomba que explodem em filas de desempregados.

As reações dos governos, até agora contabilizadas, produziram mais violência, como nos exemplos do Iraque e do Afeganistão, e não foram suficientes para conter o terror representado pela vontade de uma legião de homens-bomba pertencentes a várias organizações terroristas. Todas as reações tiveram como resultados a escavação de grandes atoleiros banhados de sangue.

E a figura do atoleiro pode ser adaptada ao Brasil na catástrofe do sistema carcerário e do narcotráfico. Talvez, no futuro, a história registre a situação das penitenciárias brasileiras como verdadeiros campos de concentração nos moldes criados por Hitler. E registre que a essa altura a mexicanização causada pelas facções criminosas já domina o Brasil. Quem paga a conta é a sociedade brasileira.

Nessa terra arrasada de maus presságios para 2017, só mesmo um super-herói teria poderes para enfrentar tantas desgraças. Se alguém pensou em um juiz, não é por aí. No Brasil, o cenário é tão grave que os três poderes deram demonstrações recentes de que estão sujeitos a crises. Montesquieu, que criou a ideia dos três poderes como sistema de governo para que um poder limite as ações dos outros dois, deve estar se revirando no túmulo.

Mas deixa estar. Tudo pode acontecer. Ou não. Se na maior democracia do planeta Trump já é visto como o super-herói das HQs, tudo (ou nada) é possível. O medo maior é que no Brasil, neste momento, alguém, estimulado pelo sucesso de Trump, se convença de que é super-herói e comece a vestir essa fantasia para disputar as eleições de 2018.

Cuidado com as palavras




Carlos Araújo

As palavras não são inocentes. Por vezes ousadas, outras vezes ácidas, amargas ou até mesmo divertidas, dependendo da situação, elas têm o poder de ditar os rumos da história, mudar comportamentos, declarar guerras. Por isso, todo o cuidado com é pouco com o que a gente diz ou pensa.

Como se isso não bastasse, algumas palavras são verdadeiras armadilhas. Não traduzem exatamente a ideia que se pretende comunicar. Ou deixam dúvida, mais do que esclarecem.

Pioram ainda mais quando são associadas a outras palavras, formando às vezes expressões estranhas, incompreensíveis. Algumas representam denominações técnicas para setores específicos de atividade. Ou dizem respeito a significados diferentes daqueles tradicionalmente conhecidos.

Exemplos de palavras com essas características: declinar, deliberar, contingenciamento, balizamento. No conjunto das expressões, as mais terríveis são "solução de continuidade" e a explicação de que "não há teto" para casos em que uma aeronave não pode decolar.
Até mesmo profissionais que há muitos anos manejam as palavras como ferramentas de trabalho derrapam nessas pegadinhas. Um dia, em Itu, o então governador Mário Covas não compareceu a uma inauguração. E ele era muito aguardado. Explicação da assessoria de imprensa: ele viria de helicóptero e não havia teto para o voo.

Na época eu era um foca (jornalista em início de atividade) e ouvi essa justificativa com certa perplexidade. Olhei para o céu, certo de que não havia um teto como restrição ou limite para o voo do helicóptero. Pensei em tirar a dúvida, mas desconfiei que a pergunta seria burra demais e eu poderia sair constrangido.

Em nome da cautela, optei pelo silêncio. Só depois uma rápida pesquisa mostrou que o referido teto era um rótulo técnico da aviação para designar falta de condições de voo em termos de vento, chuva, umidade do ar e outras variáveis do clima.

Eu também ficava perplexo quando um político, ao anunciar uma guinada nos rumos de determinado serviço público, avisava que "não haverá solução de continuidade". Até entender que o que ele queria dizer era que o serviço não seria interrompido, demorou. Desconfiei que a linguagem cifrada, tão difícil de ser compreendida, podia conter uma dose de mistério. Muitos anos depois, o referido político continua a usar as mesmas palavras.

Não recordo a primeira vez que ouvi alguém dizer que fulano "declinou" do convite. Não seria melhor dizer que ele "não aceitou" o chamado? Ou quando li pela primeira vez que o projeto de lei entrou em "deliberação" na Câmara de Vereadores. Não seria mais prático dizer que ele entrou em pauta para votação?

Quanto à palavra "contingenciamento", parece um palavrão. Muito usada pelos governos na hora dos anúncios de cortes de verbas para serviços e obras públicas, certamente os que recorrem a esse substantivo pretendem driblar ou camuflar o real significado da medida que comunicam.

Não seria mais simples traduzir o mencionado palavrão por corte? Provavelmente. Mas talvez seria esperar demais a opção pela clareza por parte de governos que preferem o discurso complexo à mensagem direta na hora de explicar ações impopulares e negativas.
Dirão que essas palavras refletem a riqueza da linguagem. Não sei. Depende do ponto de vista. Palavras que deixam dúvidas na comunicação, além de complicarem o discurso, podem ser mais prejudiciais do que se imagina.

Também nos anos de foca, um dia, numa entrevista coletiva, uma autoridade anunciou que o aeroporto de Sorocaba receberia o benefício do balizamento noturno. Na minha cabeça de então, essa palavra evocava a baliza do exame para tirar a carteira de motorista.
Nessa época eu já não tinha medo de ficar constrangido com uma questão idiota. Interrompi a entrevista para perguntar o que era o tal balizamento. Eu precisava entender o significado daquela palavra para compreender o resto das explicações.

Inconformado com a minha falta de noção, um jornalista veterano foi didático: "Sabe aquelas luzinhas enfileiradas na pista, que indicam o local de aterrissagem dos aviões à noite? Balizamento é isso." Ah bom, pensei, nada como viver e aprender. E a entrevista prosseguiu, sem mais interrupção. Depois, entre os que viram a cena, talvez tenham rido de mim. E isso já não teria importância.

Outras palavras entram para essa estranha galeria como muletas: destarte, outrossim, entretanto, contudo, conquanto, predominam. Nada mais fora de uso, nem mesmo com o desconto de que apareçam em textos carregados de juridiquês e economês. A pretendida sofisticação provoca o efeito de um tiro no pé.

Um dia, numa reportagem sobre arqueologia para estudar o terreno com pedras coloridas de significados históricos, escrevi, apelando para as cores, que "as pedras azuis predominavam sobre as brancas". A editora que leu o texto fez uma crítica construtiva: "Não é mais fácil dizer que há mais pedras azuis do que brancas?"

Claro que ela fez a mudança no texto. E encerrou com uma lição: "Quando você tiver duas opções de escrita para comunicar uma mensagem ou fazer uma descrição, prefira sempre a mais simples à mais complicada e o resultado, em termos de clareza e estilo, certamente vai ser o melhor."

Ainda bem que, nessas horas, o Aurélio está sempre à mão para consulta. Ou o Google. Ou há sempre um colega de trabalho com capacidade e disposição para decifrar os misteriosos significados de muitas palavras. Haja dicionários.



(A coluna Outro Olhar é publicada excepcionalmente hoje)

A estética das ilusões





Carlos Araújo

-- Você por aqui? Que surpresa. Como passou o Natal?

-- Triste. Perdi o emprego em novembro e estou sem chão, sem saber o que fazer. O medo do que virá pela frente gera uma tensão assustadora. Não dá para ser feliz no Natal nessa situação.

-- Mas você não acha que a magia das festas de fim de ano pode suavizar o drama que você está vivendo?

-- Nenhuma ilusão tem o poder de transformar a realidade. O Papai Noel traz brinquedos para as crianças, segundo o que diz a tradição, mas não gera empregos para os pais.

-- O que gera empregos é a economia e ela está em frangalhos. Nessa situação, quem ainda está empregado se sente privilegiado. Mas no seu caso também há possibilidade de abrir novos caminhos. Empreender, por exemplo. Dizem que a crise é sinal de oportunidade.

-- Nem todo mundo tem vocação para empreender. Usam exemplos de empreendedores que se deram bem para dizerem que essa é uma saída. Mas não contam os que se deram mal. Abrir um negócio próprio não é coisa fácil. De quebra, como num destino, você ganha um sócio: o governo, sem correr riscos, leva boa parte do que você consegue faturar. E é você que corre todos os riscos.

-- Você não acredita que pode haver oportunidades na crise? Há sempre alguém que resolve vender lenço no velório.

-- Pode haver oportunidades, sim, mas elas são seletivas. Poucas pessoas conseguem driblar a crise e se darem bem. A propaganda usa esses casos para dourar a pílula e convencer as pessoas de que o espírito empreendedor tem que ser acionado. Autoengano. Se os grandes empreendedores acumulam prejuízos, cortam investimentos, fecham portas, o que dizer dos pequenos? Muitos entram nessa onda mais por necessidade do que por vocação empreendedora, e muitos quebram a cara. A grande maioria, entre os que fazem negócios e os trabalhadores, padece as consequências de uma sociedade falida, que saiu dos trilhos, perdeu o rumo.

-- O governo falou que havia sinais de recuperação da economia.

-- Propaganda. Enquanto o governo falava, eu e milhares de pessoas perdemos nossos empregos. Não há publicidade que resista à fúria de uma realidade selvagem.

-- Dizem que a recuperação pode acontecer a partir do segundo semestre do ano que vem.

-- Essa mensagem não passa do equivalente à previsão do tempo: pode chover e pode não chover amanhã. O problema é que, sem emprego, o cara não tem como sustentar a família, perde a dignidade, fica totalmente desamparado.

-- E o otimismo, a esperança, a fé em dias melhores, não podem ajudar?

-- Otimismo, esperança, fé, tudo isso é estética das ilusões. Esses valores são levantados sem conexão com a realidade. Não queira passar pelo fogo imaginando que a esperança de não sair com os pés queimados vai dar resultado. Otimismo só tem sentido numa zona de segurança que permita o risco calculado. E a economia brasileira desce ladeira abaixo. Gritar por socorro é o mais sensato.
-- Agora estamos às vésperas do ano-novo. Esse ritual regado a fogos e champanhe não traz alguma esperança?

-- Você falou a palavra certa: é só um ritual. Na prática, o ano-novo é só uma mudança de calendário, sem nenhuma capacidade de ir além disso.

-- Por falar nisso, o que você vai fazer no ano-novo?

-- Vou ficar em casa. Por ora, ainda tenho um teto, enquanto posso pagar o aluguel. Espero conseguir um novo emprego antes de acabar o dinheiro da indenização. Encontrar um emprego é condição para que eu possa continuar existindo.

-- Você tem um plano B?

-- Sair do Brasil. Tenho uma amiga que, sem perspectiva, com dor no coração, largou tudo e foi para Miami. E outro amigo foi para a Irlanda.

-- Essa alternativa também está cada vez mais difícil. Com Donald Trump e as restrições à entrada de estrangeiros na Europa, a situação está grave.

-- O certo é que voltamos aos tempos bicudos quando se dizia que "o último a sair apague a luz" e que "o caminho mais inteligente é o do aeroporto". Talvez só me reste ir para a Bolívia.

-- Não, a Bolívia não. Nem a Venezuela. O Brasil acaba se recuperando e você vai achar outro emprego.

-- Não sei. Num cenário em que nem profissionais qualificados encontram recolocação, o mais provável é que aconteça o pior. Terminamos 2016 e entramos no ano-novo com imagens de uma verdadeira catástrofe nacional: filas de desempregados, legiões de endividados, funcionários públicos e aposentados sem receber ou com salários atrasados. Vi na televisão uma mulher chorando nessas condições. E, pouco antes, os políticos ainda tiveram a desfaçatez de falar que havia sinais de recuperação na economia. Foram desmascarados pela realidade.

-- Você me deixa preocupado: e o espírito de festa?

-- Sim. Haverá fogos de artifício em abundância. Daqui a pouco as luzes do ano-novo a euforia do ano-novo vai explodir na praia de Copacabana, na avenida Paulista. Por alguns momentos as pessoas esquecerão o desemprego, a corrupção, a Lava Jato, as delações premiadas, a Odebrecht, a política suja, toda essa miséria humana que castiga os brasileiros há muitas gerações.

-- De fato, tratam essas coisas como se elas tivessem sido descobertas recentemente, mas o Brasil sempre foi assim.

-- E mesmo assim o povo ainda tem disposição para comemorar o ano-novo. Perdoe se sou chato, mas não sei se isso é digno de admiração ou de lamentação. É a estética das ilusões em marcha. As pessoas têm necessidade de fabricar o clima de festa para não se render à pressão das desgraças nacionais. Sinto a terrível sensação de que o Brasil acabou. E, apesar disso, não se preocupe. Depois vem o Carnaval.

A fúria do poeta




A poesia de Gullar fala de um ser em luta constante consigo mesmo e com o mundo que o cerca. A tensão do corpo é inevitável, a ansiedade começa a fazer parte de tudo e o problema é que não se sabe que rumo tomar

Como numa licença poética, Ferreira Gullar morreu há duas semanas num período em que as atenções dos brasileiros estavam concentradas na tragédia do time da Chapecoense e na tensão política em Brasília. Nesse clima, sua morte, embora registrada nos noticiários, teve repercussão apenas formal, discreta, levando-se em conta que ele era o maior poeta brasileiro em atividade nesta segunda década do século 21. A morte de Gullar, pode-se dizer, também foi um capricho e um drible da poesia nos fãs de seus versos ousados, furiosos, claros e diretos como socos no estômago.

O poeta maranhense, que morava no Rio, deixa como legado uma obra que insere o seu nome na categoria de outros grandes nomes da poesia como João Cabral, Bandeira, Drummond. Como esses três, Gullar também foi ignorado pelo Nobel. Não importa. Quem criou o Poema sujo, A luta corporal e Dentro da noite veloz não precisa do Nobel para se eternizar como poeta de uma geração de artistas que contribuiu para interpretar o Brasil com palavras e versos duros como a pedra lascada. Sua genialidade usou e abusou de metáforas e ritmos dignos de uma ópera popular, de descrições de imagens e invenções de mundos que desnudam as feridas abertas das dores e misérias de um povo marcado pela desesperança.

Antes de beber na fonte mergulhando nos poemas de Gullar, ele é a própria poesia. Sua figura magra e de cabelos escorridos, rugas esculpidas pelo tempo e olhar indescritível, era a expressão da linguagem poética. Quem o conheceu pessoalmente diz que, contrariando a aparência ranzinza, era um cara simpático, bem humorado, mas irredutível nas suas convicções. Ganhou destaque, nos últimos anos, por suas críticas à era Lula em crônicas publicadas na Folha de S. Paulo. Foram estranhas as suas divergências com o poeta Augusto de Campos, com quem travou intermináveis "duelos" por escrito, num embate semelhante a outros afastamentos entre intelectuais, como na rivalidade entre Sartre e Camus.

Impossível ser indiferente a Gullar, um poeta que usa o Poema sujo para escrever coisas assim: "turvo turvo / a turva / mão do sopro / contra o muro / escuro / menos menos / menos que escuro". Ou trajetórias como essa de A luta corporal: "Caminhos não há / mas os pés na grama / os inventarão". Ou a tentativa de decifrar a realidade em Dentro da noite veloz: "Há muitas famílias sem rumo esta tarde / nos subúrbios de ferro e gás / onde brinca irremida a infância da classe operária."

A poesia de Gullar fala de um ser em luta constante consigo mesmo e com o mundo que o cerca. A tensão do corpo é inevitável, a ansiedade começa a fazer parte de tudo e o problema é que não se sabe que rumo tomar. E, curioso, essa fragmentação frenética é a essência da poesia, que não existe para apontar rumos nem muito menos para salvar alguém.

Começa pelo fato de que Gullar tem dificuldade de decifrar a poesia e por isso ele escreve, num fluxo, como se estivesse em busca de resposta para inquietações que são dele, mas que também pertencem a nós. Talvez por essa razão é que a voz poética dos seus versos se identifica de tal forma com os nossos medos que faz parecer que é também a nossa voz.

Gullar é o inventor de uma poesia cruel, que mais faz sofrer do que levar à redenção. A luta corporal é um exemplo. Certa vez, ele descreveu: "Escrevi A luta corporal por causa das contradições em que me envolvi. Escrevo pelo prazer e pela necessidade de responder a indagações que a vida me coloca, e não para entrar na história da literatura." Ao contrário de outros poetas, não teve o pudor de ser engajado. Sentia a realidade como carne e polpa de miséria humana e os seus versos traduzem esse sentimento em Poema sujo.

No momento em que nasceu A luta corporal, Gullar estava em Brasília exercendo um cargo público. Fora nomeado presidente da Fundação Cultural de Brasília. Assistiu à renúncia de Jânio Quadros. E continuou: "Depois veio o governo do Jango e eu voltei para o Rio e comecei a entrar num outro Brasil, no Brasil real, que não era o Brasil da vanguarda, de A luta corporal, mas da reforma agrária, da fome."

Também considerava que a poesia se manifesta em várias coisas e lugares: na beleza da mulher, no canto do passarinho, no sorriso da criança. Rubem Braga, o maior cronista brasileiro, assinaria embaixo. Numa entrevista recente, Gullar suspeitou que a tecnologia dominante pode resultar numa poesia que ainda está em gestação.

Personalidade de boa conversa, inventava citações que viravam anedotas. Atribuem-lhe o fato de numa divergência com a mulher, ter dado razão a ela mesmo com a convicção de que estava certo no seu entendimento sobre um assunto em discussão. Perguntaram por que ele não insistiu na sua tese, defendendo-a até o fim, e ele respondeu: "Eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz."

Fosse o Brasil um país desenvolvido, um poeta dessa dimensão teria recebido mais atenção, na vida e na morte. Ao desaparecer, com a idade de 86 anos, Gullar deixou a lição de que a morte também pode ser encarada como insondável e devastadora licença poética.

O último mito latino-americano




Fidel Castro, o líder cubano morto há duas semanas, encarnou a última utopia. Virou mito, lenda, símbolo de revolução. Inseriu Cuba, uma pequena ilha do Caribe, no centro da história mundial. Desafiou os EUA, maior máquina de guerra do planeta. Plantou notoriedade com avanços em saúde, educação e combate ao analfabetismo. Acumulou desgastes com modelos de repressão aos opositores que incluíam o paredão e discriminação das minorias. Conquistou admiradores que choraram com o seu desaparecimento, mas também ganhou inimigos que reagiram com festa.

Fidel inspirou revoluções. Consolidou o método da guerra de guerrilhas copiado por grupos que combatiam governos em outros países. A experiência deu certo em Cuba em 1959, mas foi um desastre nas décadas de 1960 e 1970 no Brasil, na Argentina, no Uruguai. E, tanto na vitoriosa guerrilha cubana como nas tentativas de repetir o mesmo tipo de ação em outros países, o saldo foi um rastro de mortos.

Fidel projetou utopias como a do "homem novo", um modelo de indivíduo formado por ideais humanistas e de entusiasmo pela revolução permanente. E catapultou Che Guevara e Camilo Cienfuegos, seus companheiros de guerrilha que também se tornaram mitos. Fez constar no imaginário a região de Sierra Maestra, ao sul da ilha caribenha, local de onde partiu a luta armada que derrubou Fulgêncio Batista.

Graças ao Che, que escreveu relatos sobre a guerrilha, pesquisadores passaram a ter acesso a testemunhos daquele episódio com a visão de quem participou internamente dos conflitos. Se não fosse a existência desses escritos, muito do que seria contado certamente teria sido material filtrado por visão ideológica de órgãos norte-americanos, como a CIA. Com o desconto também das interpretações ideológicas do Che, os seus textos sobre a luta na Sierra Maestra ao menos asseguraram o contraditório.

Fidel escancarou as tensões da história. Enquanto o acusaram de ter implantado uma ditadura, a guerrilha liderada por ele derrubou a ditadura corrupta chefiada por Fulgêncio Batista. E ao mesmo tempo em que os EUA condenaram Cuba ao isolamento, com a justificativa de combaterem uma ditadura comunista, ampararam com forças militares as ditaduras latino-americanas que dominaram essa parte do continente nos anos de 1960 e 1970.

Fidel inseriu Cuba no centro da Guerra Fria quando permitiu que a antiga União Soviética instalasse mísseis nucleares na ilha caribenha. Por pouco o mundo esteve na iminência de uma guerra nuclear, que poderia eliminar a humanidade do planeta.

Por determinação dos EUA, numa medida tomada com o objetivo de desestabilizar Fidel, Cuba sofreu um bloqueio econômico que dura até hoje e promete avançar com Donald Trump. Durante o tempo em que teve o amparo da antiga União Soviética, Cuba resistiu. Extinta a União Soviética, Cuba faliu de vez. E depois ainda cobraram da ilha um desenvolvimento que ela não podia ter. Era como cobrar de alguém com as duas pernas amputadas o mesmo desempenho de um atleta de alto nível numa corrida de obstáculos.

Tivesse sido uma decisão tomada por outro país, o bloqueio econômico seria classificado como crime de guerra. Nessa medida drástica, a tolerância dos outros países em relação aos EUA mostra a dimensão do poder entre a maior potência do mundo sobre os outros países. O desequilíbrio é de dominação absoluta, supremacia indiscutível, poder sem limite.

Querendo destruir Fidel, o bloqueio leva o povo cubano ao sofrimento. Faz recordar o cerco a Leningrado, na Rússia, determinado por Hitler na Segunda Guerra Mundial. Ou o cerco à cidade de Aleppo, na Síria, por ordem do ditador Bashar Al Assad. Impossível entender como os EUA, nação que se projetou como modelo de democracia, possam se igualar às ditaduras na forma e no conteúdo. Trump certamente é a melhor resposta.

A propósito, Trump ameaçou reverter o acordo de reaproximação entre EUA e Cuba caso o governo de Raúl Castro não respeite os direitos humanos. O discurso contra Cuba é seletivo, já que Trump silenciou em relação a outros países classificados pela Anistia Internacional entre os 10 maiores violadores dos direitos humanos. Exemplos: China, Catar, Emirados Árabes, Egito, Nigéria, Quênia, Paquistão.

A diferença é que estes países são parceiros de Washington, o que faz da ameaça de Trump uma prática do conceito que diz "aos amigos, tudo; aos inimigos, o rigor da lei".

E não se poderia esperar outra coisa de um modelo de democracia que, contrariando a propaganda, apoiou as ditaduras latino-americanas, mantém a prisão de Guantânamo, em Cuba, e criou Abu Ghraib, dois centros de violação dos direitos humanos. Além de ser responsável, por intervenção ou omissão, de massacres em várias partes do mundo, entre as quais o Vietnã, o Iraque, o Afeganistão e o Sudão.

Fidel foi o único líder latino-americano que ousou contrariar e desafiar os EUA, mesmo que essa decisão tenha lhe custado o julgamento intolerante da história. E forneceu à posteridade a lição de que todos os governos, Independentemente de ideologias, são diferentes na forma e no conteúdo, mas iguais na natureza e no poder.

Fidel é uma lição de história e de política. Ele, um revolucionário, confrontou sua existência com a provocação de um conservador, o escritor argentino Jorge Luís Borges, que certa vez escreveu: "Talvez algum dia mereceremos que não existam governos".