OUTRO OLHAR
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Goteira na cabeça




Por que o Brasil não ganha o Nobel de Literatura?
Essa pergunta martela como goteira na cabeça todo início de outubro, período em que a Academia Sueca anuncia o vencedor do maior prêmio literário do mundo. O nome da vez, divulgado na semana passada, foi o do escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro.
E o Brasil, nada? Nenhum autor brasileiro sequer entra nas tradicionais bolsas de apostas que antecedem o anúncio dos vencedores do prêmio. Jorge Amado às vezes era incluído nessa lista, mas após sua morte nenhum outro brasileiro entrou nas cotações.
Talvez a atenção aos critérios de definição dos ganhadores do Nobel seja um bom começo para entender a exclusão do Brasil nessa área. A lista dos vencedores, desde 1901, mostra o domínio dos países de línguas inglesa, francesa, alemã, espanhola, russa, italiana. Escrever em idiomas de projeção universal, portanto, é uma condição de boa probabilidade.
E a língua portuguesa, mesmo com o desconto do mundo globalizado atual, é ainda um idioma periférico. Dirão que José Saramago, autor português, foi premiado com o Nobel e isso desmonta a desconfiança com a questão do idioma, mas isso ainda não explica o desprezo pelos brasileiros.
Em outro aspecto, grande parte dos vencedores pertence a países escolhidos pela Academia Sueca que se destacam como sociedades com ampla tradição literária. São os casos da França, EUA, Alemanha, Rússia, Itália.
E o Brasil, nessa categoria, merece nota zero. Ter gênios como Machado de Assis, Guimarães Rosa, a Festa Literária de Parati (Flip), Bibliotecas Nacional e Mário de Andrade, prêmio Jabuti, programas de encontros de autores com o público em escolas, não são suficientes para cravar o Brasil como país de tradição literária. 
Ao contrário, segundo o IBGE, a leitura fica em 10º lugar quando o assunto é o que o brasileiro gosta de fazer no tempo livre. A leitura perde para televisão, música, internet, redes sociais, prática de esporte. Nada espantoso para a constatação de que (segundo o IBGE) apenas 14% dos brasileiros vão ao cinema, 96% não frequentam museus, 93% nunca foram a uma exposição de arte, 78% nunca assistiram a uma apresentação de dança.
Esse quadro dramático não deve ser visto apenas como falta de interesse do povo pela cultura. Seria irresponsabilidade pensar assim, no impulso e na superfície da indignação, sem considerar o todo. Essa tragédia é fruto da tradição de desprezo e descaso dos governos brasileiros, que tratam a cultura como mero apêndice de propaganda e favorecimento de grupos de poder privilegiados.
O pior é que a vocação literária de uma região do mundo não é garantia de nada quando o que está em jogo é o Nobel de Literatura. A Argentina, por exemplo, tem tradição de criações literárias superior a muitos lugares do planeta. Tem uma literatura fortíssima e de vasta criatividade, com nomes como Jorge Luís Borges, Julio Cortázar e Ricardo Piglia, e nem isso foi suficiente para os portenhos terem um Nobel.
O mesmo vale para Cuba, também sumariamente ignorada palos membros da Academia Sueca. E a ilha de Fidel Castro gerou escritores geniais. Entre eles, José Lezama Lima (Paradiso) e Guilhermo Cabrera Infante (Três tristes tigres), Pedro Juan Gutierrez (Trilogia suja de Havana), Virgilio Pinera (Contos frios), Reinaldo Arenas (O mundo alucinante).
Restam outros dois critérios, que são o exotismo e a atitude política. Caso de exotismo inclui o poeta Dereck Walcott, da ilha de Santa Lúcia, no Caribe, também ganhador do Nobel. E na categoria política podem ser citados quase todos os russos vencedores do prêmio durante vigência da antiga União Soviética no século passado. A maioria era dissidente e crítico do regime: entre eles, Alexandre Soljenitsin, Boris Pasternak, Joseph Brodsky.
E o Brasil, sempre ignorado pelo Nobel, não entra na categoria nem das culturas exóticas nem das políticas como credenciamento ao prêmio. Há ainda a possibilidade de um poeta da música se habilitar ao Nobel. A inspiração do ano passado, quando o Nobel saiu para Bob Dylan, abre uma alternativa. Nesse caso, o Brasil teria Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, como candidatos ao prêmio. Mas Dylan foi uma excentricidade da Academia Sueca, coisa que dificilmente se repetirá.
Talvez falte ao Brasil um romance espetacular. A última grande obra nesse nível escrita aqui foi Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. De lá para cá, a literatura brasileira ainda produziu ótimos livros e autores (Raduan Nassar, Osman Lins, Milton Hatoum, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca), mas nada que tenha se equiparado ou superado a genialidade iconoclasta do escritor mineiro.
Talvez falte às letras brasileiras um romance que transponha para o livro uma interpretação do homem e do país nos últimos tempos. Tarefa nada fácil. Muitos são os escritores, que podem ser encontrados em blogs e publicações diversas, mas nenhum tem conseguido uma representação do Brasil como Guimarães Rosa fez com a sua obra-prima. E, por tabela, nem assim ele mereceu a atenção do Nobel.
Talvez seja mais fácil o Brasil conquistar o hexacampeonato de futebol do que merecer o Nobel de Literatura.

Monólogo na sociedade do abismo




Ruídos, fraturas, perdas, dores, aflições, explosões, cheiros, gritos, pulsações, carnes, propinas, medos, exílios, desespero, agonia, conflitos, traumas.

Procuro a palavra que seja capaz de traduzir as perdições desta segunda década do século 21. O que mais choca é o contraste entre o avanço da tecnologia e a regressão à barbárie, entre a humanidade e o caos, entre o sublime e o grotesco da condição humana.


Os reflexos são sentidos em todas as atividades humanas. Nunca a falta de sentido das coisas foi tão ameaçadora. Jamais fenômenos como desesperança e incerteza estiveram tão sintonizados.


Em contrapartida, outras palavras jorram como num fluxo de consciência: fé, esperança, otimismo, solidariedade, amor, confiança, beleza, prazer, sonho. Palavras ditas, escritas, pensadas, como se tivessem a função de equilibrar a oposição das expressões negativas.


Enquanto há musicalidade nas palavras que evocam ilusões, a aspereza domina os signos do abismo. As duas veredas se projetam como labirintos num mundo frio, distante. Qual delas é a mais viável para a jornada da vida?


O grupo de palavras bonitas é o caminho mais atraente, pois faz bem aos sentidos. Ao contrário, os adjetivos e substantivos cruéis emolduram o cotidiano imponderável.


Para complicar as coisas, tudo é linguagem e o que marca as diferenças são as ideologias em posição de duelo. Palavras são como ferramentas: dependendo de quem faz uso delas, o resultado pode ser a salvação ou a perdição de milhões de pessoas.


Quantas vezes a palavra propina tem sido repetida nos últimos tempos. E o medo, a dor, a morte, fazem-se presentes com uma intensidade nunca vista. Nesse quadro, o autoengano impulsiona a glória, o sucesso, a felicidade, como se a força da linguagem pudesse substituir os valores mais caros aos estados de espírito.


A sociedade é múltipla, disforme, injusta. De um lado fervilham a fama, o poder, o dinheiro, com todas as proezas ligadas a esses signos, desde as vidas de luxo à vocação predadora das grandes corporações. No outro extremo abundam a fome, a doença, a guerra, com todas as suas misérias, de crianças abandonadas ao caos de pacientes que não conseguem tratamento nas unidades públicas de saúde.


Quem faz uso das palavras também desenha mundos inconsistentes: um juiz interpreta a lei segundo sua ideologia, um político faz promessas enganosas, um jovem negro é assassinado no beco de uma favela, alunos se jogam no chão da sala de aula em busca de proteção contra balas perdidas, motoristas se agacham atrás de carros na avenida aguardando o fim de mais um tiroteio.


E tudo é linguagem, tudo quer dizer alguma coisa, tudo se converte em perguntas sem respostas. O que acontece com o nosso mundo? Os discursos estão esgotados. De que adianta alguém falar que tal caso de corrupção vai ser investigado, se quem faz essa promessa também é suspeito de integrar a quadrilha?


Talvez seja a hora de desconstruir todos os valores, todos os princípios, todos os conceitos. Nenhuma filosofia é possível num mundo sem referências. Nenhuma poesia é permitida. Nenhuma arte faz sentido. Nenhuma justiça dá conta do intocável.


Agora, não é mais a denominação exata que eu procuro. Palavras deveriam dizer verdades, mas também são usadas para as mentiras. E são inconfiáveis, traiçoeiras, levam ao buraco.


A essa altura, eu procuro o sentido de tudo o que acontece e altera destinos. Talvez o jeito seja aceitar a vida como ela é. Não me indignar mais com nada. Render-me ao absurdo.


Lá se vão os anos em que as paixões ideológicas despertavam instintos coletivos, mobilizavam revoluções, encantavam almas e mentes. Eram os tempos das utopias. A história abriu ondas conservadoras que destruíram células de inteligência, esmagaram a consciência crítica, apropriaram-se de todo o poder. O mundo sombrio de George Orwell, com os seres submetidos a comandos programados, é uma realidade visceral.


Talvez não exista palavra para traduzir essa tristeza e solidão. E provavelmente as coisas são assim porque toda comunicação está extinta, toda poesia foi silenciada, todas as cores estão desbotadas. Quem pode, pega o caminho do aeroporto. Quem não pode, respira e tenta sobreviver mais um dia.


#fridasofia e o avião pagador



Histórias não surgem do nada: alguém contou um ponto, outro acrescentou dois pontos, um terceiro adicionou uma distorção e outro receptor entendeu tudo errado

Na semana passada, no México, a tentativa de resgate de uma menina de 12 anos dos escombros de uma escola comoveu multidões. Era o dia seguinte ao terremoto na Cidade do México. Um militar e uma rede de TV divulgaram detalhes de comunicação dos socorristas com a menina Frida Sofía (esse era o nome da garotinha), o que aumentou a aflição em meio a tamanha carga dramática. Mas a farsa durou 24 horas: a menina não existia. E o que foi tratado como fato jornalístico não passava de ficção.
Esse fenômeno, rotulado como fake news, tem outros exemplos na imprensa mundial. E no cinema. E no Brasil e em Sorocaba. Casos como esses colocam em xeque a precisão da atividade jornalística. Mas também são eloquentes no sentido de prestigiar as reportagens bem apuradas. Valorizam as histórias bem contadas e consistentes. Exaltam o compromisso com a checagem de informações, mesmo que esse rigor comprometa prazos.
Histórias não surgem do nada: alguém contou um ponto, outro acrescentou dois pontos, um terceiro adicionou uma distorção e outro receptor entendeu tudo errado. Bastam esses ingredientes para formar uma rede de comunicação difícil de ser contestada e esclarecida. Se o conteúdo for respaldado por autoridades ávidas por holofotes, que falam para repórteres burocráticos, o potencial de causar danos é equivalente ao poder de uma bomba.
Há 14 anos, o mundo se assustou com a notícia de que o prestigioso jornal The New York Times demitiu o repórter Jayson Blair por terem sido descobertas informações falsas em suas reportagens. O jornal denunciou o que classificou como invenções e erros intencionais do repórter em seus textos. Em suas reportagens, Blair fabricou declarações, elaborou cenas, abusou do Ctrl+C Ctrl+V, escreveu reportagens que davam a entender que estava em um local quando não havia saído de Nova York.
Na época, a história foi um escândalo. Após demitir o repórter, o jornal criou um e-mail específico para receber reclamações de pessoas prejudicadas por textos do ex-funcionário. O problema é que prejuízos causados por invenções que substituem reportagens podem levar a transformações indevidas e irrecuperáveis.
O tema faz recordar, no cinema, A montanha dos sete abutres. O filme conta a história do repórter Charles Tatum (Kirk Douglas), às voltas com o resgate de um homem preso em uma mina. Com o objetivo de se dar bem, o repórter manipula os acontecimentos de acordo com os seus interesses, faz do resgate um espetáculo sensacionalista e consegue enganar todo mundo.
Há 15 anos, em Sorocaba, um confronto entre polícia e bandidos no pedágio da Castelinho (rodovia Senador José Ermírio de Moraes) resultou na morte de 12 criminosos. O fato teve repercussão nacional. As versões davam conta de que o bando teria vindo à cidade com planos de assaltar um avião pagador no aeroporto. Todas as análises oficiais levavam em conta que a interceptação da quadrilha teria evitado um grande assalto.
Nessa época, eu trabalhava em São Paulo e fui enviado a Sorocaba com a tarefa de descobrir detalhes sobre o avião pagador. Era preciso saber qual a quantia de dinheiro transportada pela aeronave e que, pelos indícios, seria destinada ao abastecimento de bancos regionais, e qual seria o horário programado para o pouso. No retorno ao jornal, a chefe de reportagem ficou decepcionada quando informei que a história do avião pagador era falsa. Até então, completavam-se dois anos que o aeroporto não recebia aeronaves com esse perfil. Essa contradição desmontava a versão oficial apresentada como justificativa para a operação no pedágio.
Também não voltei para a redação de mãos vazias. Contei a história de uma família que teve a casa atingida por tiros na hora do confronto, por volta das 7h30. A casa ficava em um condomínio na linha de tiro a partir do pedágio. Uma bala ricocheteou em vários pontos no interior da residência. Naquela hora, um casal se preparava para iniciar as atividades do cotidiano. Um filho tinha saído minutos antes para a escola. A exposição ao risco de uma tragédia aterrorizou a família.
De resto, casos como esses são lições de reportagem no México, em Sorocaba e em qualquer lugar do mundo. Mostram como a desconfiança constante é uma ferramenta de segurança do repórter, operário da palavra que se equilibra todos os dias em campo minado de interesses por todos os lados. As Fridas Sofías e os aviões pagadores não são casos raros nesse universo. A saída é desconfiar sempre, mesmo quando (e principalmente) as informações partem de fontes oficiais.

A janela e a feiura da paisagem




A exposição Queermuseu -- Cartografias da diferença na arte brasileira foi cancelada neste mês em Porto Alegre por pressão dos protestos de quem viu algumas das obras como símbolos de blasfêmia religiosa e apologia à zoofilia e à pedofilia. Triste história de censura num país que tem a liberdade de expressão garantida por dispositivo constitucional. Triste notícia num país notável pela contradição de silenciar diante dos novos escândalos de corrupção, enquanto, por motivos estranhos, levanta o ruído da intolerância contra a beleza das obras de arte.
 
A mostra reunia obras de artistas consagrados como Adriana Varejão, Cândido Portinari, Fernando Baril, Hudinilson Jr., Lygia Clark, Leonilson, Volpi, Yuri Firmesa. Nem mesmo a importância inegável dessa galeria de nomes foi suficiente para garantir a continuidade do evento. As obras foram expostas por quase um mês e a visitação continuaria até o início de outubro.
 
Tragicamente, o Brasil tem tradição em censura de obras de arte. O fenômeno não é exclusivo de um só país: repete-se em outros lugares do mundo, especialmente como reflexos de governos autoritários. Do nazismo ao stalinismo, é imensa a relação de obras e autores que sofreram os rigores da censura. Muitos foram os casos extremos em que os autores perderam a vida e as obras foram queimadas em praça pública.
 
Para citar três exemplos célebres (entre milhares), a ditadura stalinista assassinou o poeta Ossip Mandelstam, o contista Isaac Babel e o romancista e dramaturgo Máximo Gorki. Eles eram livres pensadores, críticos mordazes dos crimes da ditadura comandada por Josef Stálin, e pagaram com a vida suas atitudes de coragem.
 
Para quem achar exagerada a comparação dos acontecimentos de Porto Alegre com um dos períodos mais terríveis da história humana (a catástrofe do stalinismo), basta dizer que no campo de batalha da obra de arte não existe censura leve, média ou pesada. Toda censura é trágica por natureza, seja qual for o tamanho.
 
A medida do censor é a intolerância latente na sociedade. O censor é o instrumento da presunção do indivíduo em achar que pode ditar limites para a criação artística. E ele ignora que o poder de censurar é contraditório por definição e origem, porque o objetivo a que se presta é calcado nos seus próprios fantasmas. De resto, movidos pela ilusão de poder, nenhuma proibição é capaz de constrangê-los.
 
Os grupos que protestaram contra a exposição em Porto Alegre viram em algumas obras de arte o reflexo de comportamentos existentes na sociedade e eles não aceitaram essa forma de expressão. Se os seus motivos tivessem razão de ser, eles inviabilizariam obras dos gênios Pablo Picasso, Salvador Dalí, Henri Matisse, artistas craques em provocações estéticas. Neste ano, até mesmo em Sorocaba uma obra da exposição Trienal de Artes Frestas foi alvo de polêmica.
 
As obras de arte proibidas em Porto Alegre cumpriram o papel de traduzir diversidades. Em contrapartida, os intolerantes, incapazes de digerirem seus dogmas e exorcizarem seus fantasmas, acharam por bem atacar a exposição como na clássica atitude de quem culpa a janela pela feiura da paisagem.
 
Os grupos que, por pressão nas redes sociais, interromperam a exposição de obras de arte de Porto Alegre foram os mesmos que se calaram diante da exibição de malas de dinheiro da corrupção. Deveriam explicar porque têm força para lutar contra obras de arte e porque são indiferentes às afrontas contidas nas imagens que mostram o dinheiro de propinas vinculado a personagens da política nacional.
 
O mais difícil é acreditar que um ataque desse porte à arte seja fruto de uma época de período democrático no Brasil. O AI-5, que vigorou entre 1968 e 1978, censurou centenas de obras entre músicas, filmes, livros, peças de teatro. Entre várias justificativas, algumas bizarras, os censores evocavam a defesa da moral e dos bons costumes. Na cruzada de moralidade daquela época, ignoravam as denúncias de torturas e mortes patrocinadas pelo governo, outra contradição típica da intolerância.
 
Agora, em tempos de governos democráticos, atitudes autoritárias são tomadas por grupos da população como em Porto Alegre. E isso é um desastre. Embora pareçam minorias, esses grupos fazem ruídos, crescem e ganham forças capazes de mudar a história. Aproveitam os vazios existentes e usam os discursos mais extremados para buscar adesão para a sua cartilha de delírios. Fazem valer o discurso do sangue nos olhos, do ódio ao diferente, do fim da liberdade. E pintam uma paisagem impossível de ser admirada.
 

Um dia infernal para a memória humana




Carlos Araújo

carlos.araujo@jcruzeiro.com.br



Varsóvia se destacava por suas belezas barrocas e seus 25 teatros. A capital da Polônia, conhecida como "a Paris da Europa Oriental", entrou em rota de colisão com a catástrofe num dia como hoje. Era 1º de setembro de 1939.

Naquele dia, Hitler invadiu a Polônia e traçou um destino de ruínas devastadoras para o país de Bruno Schulz e Czeslaw Milozs. E Varsóvia entrou para a categoria de cidades castigadas pela loucura humana como Hiroshima e Nagasaki, Dresden, Leningrado, Stalingrado.

Para um país de 30 milhões de habitantes, Hitler articulou a invasão com 1,5 milhão de alemães, ante 1,3 milhão dos defensores poloneses. Os exércitos eram compostos de 37 divisões de cada lado. Mas a desproporção em favor dos alemães era muito superior.

O historiador britânico Max \Hastings, em seu livro Inferno -- o mundo em guerra: 1939/1945, conta que os alemães tinham 3.600 blindados, e os poloneses, 750. As divisões de Hitler contavam com 1.929 aviões modernos, enquanto que os poloneses tinham 900 aviões obsoletos.

O ataque foi um "passeio" alemão. Vindos das frentes norte, sul e oeste, os alemães encontraram fraca resistência. Tanques Panzer e ataques aéreos arrasaram Varsóvia e várias outras cidades. Soldados e civis poloneses foram metralhados e bombardeados sem piedade.

A Polônia aguardava o prometido apoio da Inglaterra e da França. Mas essas duas nações se limitaram a uma formalidade de declaração de guerra a Hitler, três dias após a invasão, sem mobilização de tropas nessas primeiras frentes de batalha da Segunda Guerra Mundial. Os poloneses morreram e sofreram sozinhos. Foram vítimas de um banho de sangue marcado por traição, desamparo, brutalidade.

Max Hastings choca ao descrever o sentimento dos comandantes invasores a mando de Hitler. Eric von Manstein, tido como o melhor general alemão na guerra, ignorava os massacres promovidos por suas tropas e vangloriava-se da glória feita de cadáveres numa Polônia arrasada. "Em 1939, o corpo de oficiais da Wehrmacht (tropas nazistas) já demonstrava a falência moral que caracterizaria sua conduta até 1945", conclui o historiador.

E, como se não bastassem os alemães, os russos também invadiram a Polônia pelo leste naqueles dias infames. Entre os poloneses que sobreviveram, milhares foram feitos prisioneiros. Hastings calcula que cerca de 1,5 milhões de poloneses, na maioria civis expulsos de suas casas na parte oriental do país, enfrentaram o cativeiro e a fome nas mãos dos russos. E essa face da tragédia custaria a vida de 350 mil pessoas.

A invasão russa (soviética, na época) culminou com o massacre de aproximadamente 25 mil poloneses em março do ano seguinte, 1940, quando, por ordem do ditador Josef Stalin, as vítimas foram eliminadas com um único tiro na nuca. Essa execução em massa ocorreu em várias prisões russas. Os corpos foram queimados em valas comuns em várias cidades e florestas em território russo.

Segundo estimativa de Max Hastings, a invasão causou 70 mil mortes de poloneses, ante a morte de 16 mil alemães. Nos seis anos da guerra, morreram mais de cinco milhões de poloneses. Desse total, 110 mil perderam suas vidas em combate e os restantes em campos de concentração alemães e também nas mãos dos russos.

O historiador britânico informa que não há consenso quanto ao número de mortes produzido pela Segunda Guerra no mundo inteiro, mas acredita que um mínimo de 60 milhões é um volume que pode ser aceito, com prováveis 10 milhões a mais.

Nesse conjunto, as perdas russas foram estimadas em 27 milhões de mortos; a China, 15 milhões; a Alemanha, 6,9 milhões; as Filipinas, 1 milhão, a Itália, 300 mil militares e 250 mil civis; a França, 567 mil; a Inglaterra, 449 mil; os EUA, 418.500. Romenos, coreanos, gregos, iugoslavos, tchecos, canadenses, australianos, neozelandeses, indianos, brasileiros, entre outros, completam esse triste balanço.

"O aspecto mais notável das estatísticas é que o fardo mais pesado coube aos países que sofreram ocupação inimiga ou cujos territórios se tornaram campos de batalha", conclui Max Hastings.

E pensar que tudo começou num dia como hoje, em 1º de setembro de 1939. Quem começa uma guerra nunca sabe como. nem quando ela termina. Legados deveriam servir de alerta para que as tragédias não se repitam. Se o homem deve extrair lições das grandes catástrofes, tudo leva a crer que ele ainda não aprendeu nada.