EDITORIAL
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Uma bomba relógio




Como muitos especialistas em segurança pública previram, a rebelião no Complexo Anísio Jobim (Compaj), em Manaus (AM), nos primeiros dias deste ano, que resultou na morte de 56 presos, deu início a uma temporada de barbárie que promete se espalhar por vários Estados. A rebelião é consequência de brigas entre facções criminosas que disputam território para o lucrativo comércio de drogas.

Em Manaus registrou-se a maior matança de presos desde o massacre do Carandiru, em São Paulo, quando 111 detentos foram mortos em confronto com a polícia. A rebelião no Compaj, que deu início a esse ciclo de matanças, foi atribuída a uma guerra declarada entre a Família do Norte (FDN), com influência nos Estados do norte do País e ligada ao Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), de origem paulista, mas que hoje atua em várias regiões do Brasil e no Exterior.

Na sequência, no dia 7 de janeiro veio a rebelião na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Roraima, onde se repetiram cenas de barbárie já registradas em Manaus, e que terminou com a morte de 31 pessoas. Trinta desses mortos foram decapitados, alguns ainda com vida, vários tiveram o coração arrancado. As cenas de violência chocaram o país pois foram gravadas pelos celulares dos próprios revoltosos e chegaram às redes sociais. As notícias sobre o início da rebelião nesse presídio são desencontradas e só as investigações poderão revelar a verdade. De um lado há quem afirme que foi uma retaliação de presos do PCC contra as facções rivais. Por outro lado, as autoridades do Estado afirmam que naquele presídio só existiam presos ligados ao PCC já apartados de presos de grupos rivais.

Neste último final de semana, outra grande rebelião aconteceu na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Natal (RN). O motim começou no sábado à noite e só foi controlado ontem. No final do dia, a Secretaria de Segurança do Rio Grande do Norte confirmou que pelo menos 26 presos foram mortos, muitos deles decapitados, uma prática que está se tornando rotina nessas chacinas. O número de mortos pode ser ainda maior. As autoridades daquele Estado identificaram pelo menos seis homens, pertencentes à facção criminosa PCC como responsáveis pela rebelião que destruiu parcialmente a penitenciária.

As três grandes rebeliões registradas nos primeiros 15 dias do ano -- ocorreram mais mortes isoladas no sistema prisional -- mostram que as coisas podem desandar este ano na área da segurança pública. Para evitar que a situação fuja do controle, o governo de São Paulo quer isolar as lideranças do PCC transferindo-as para presídios federais, além de pedir a manutenção no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) da Penitenciária de Presidente Bernardes, por pelo menos um ano, de 12 chefes da facção, entre eles Marco William Herbas Camacho, o Marcola. O secretário da Administração Penitenciária, Lourival Gomes, disse ainda que se houver reação da facção, com ataques a policiais ou início de novas rebeliões, Marcola e outros 11 líderes poderão ser enviados a presídios federais.

As autoridades responsáveis pelos presídios estaduais e federais parecem viver em uma realidade paralela. Os presos no Brasil, principalmente aqueles ligados a alguma facção criminosa, têm acesso a celulares e com eles comandam a bandidagem, articulam ataques e organizam o negócio das drogas. Descobriu-se que a ordem para a rebelião de Manaus, que deu início à temporada, saiu de um presídio federal de segurança máxima. Os chefes do grupo criminoso estão isolados mas passaram a ter direito a visitas. Por meio delas comunicam-se com o mundo exterior e ordenam todas as barbaridades.

O sistema carcerário é uma bomba relógio. Só será desarmada se houver vontade política de fazer uma revisão total nesse sistema que não reeduca e não recupera. As prisões brasileiras já passaram da fase de escola do crime. Hoje é delas que os criminosos comandam as ações nas ruas e nos outros presídios, sem sequer serem importunados.