EDITORIAL


Patrimônio ameaçado




Alguns edifícios de valor histórico, entretanto, conseguiram sobreviver, mas hoje enfrentam sérios problemas, comuns em construções centenárias, mas que precisam de obras para se manterem em pé
 
Sorocaba é uma cidade do século 17 e ao longo do tempo assistiu a destruição da maioria de seus prédios de interesse histórico para dar lugar a novas construções. Muitos edifícios se perderam sob o pretexto de trazer o progresso para a cidade. Exemplo típico desse pouco apego ao patrimônio histórico foi a demolição, em 1963, do Mosteiro de Santa Clara, que ficava em uma área privilegiada na esquina com a rua de São Bento com a rua Padre Luiz, para dar lugar a alguns edifícios residenciais e comerciais e a uma galeria comercial. O Mosteiro da Imaculada Conceição e de Santa Clara nasceu como Recolhimento em 1811 e mais tarde se transformou em convento das Monjas Concepcionistas Franciscanas, de vida contemplativa de clausura. A sua construção contou com o trabalho de Frei Galvão, o primeiro e único santo canonizado pela Igreja Católica no Brasil.
 
Alguns edifícios de valor histórico, entretanto, conseguiram sobreviver, mas hoje enfrentam sérios problemas, comuns em construções centenárias, mas que precisam de obras para se manterem em pé. Foi pensando nessa riqueza arquitetônica ameaçada que o Cruzeiro do Sul começou a publicar, nas páginas do caderno Mais Cruzeiro, uma série semanal de reportagens mostrando a situação dos prédios de valor histórico da cidade. O primeiro edifício enfocado pela série é o casarão de taipa de pilão construído em um terreno que hoje abriga o Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, onde desde 1968 funciona o Museu Histórico Sorocabano. Esse casarão foi construído com mão de obra escrava em 1870. Sua moradora mais ilustre foi Domitila de Castro, a marquesa de Santos, casada com o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar. O casarão, que é um dos poucos remanescentes da arquitetura bandeirantista na região, chegou a ficar fechado por alguns anos e hoje apresenta a fachada descascada em vários pontos e rachaduras que poderão comprometer sua estrutura. O imóvel tombado abriga o acervo do museu e recebeu, ao longo deste ano, 135 mil visitantes.
 
Há um ano a Secretaria da Cultura e Turismo (Secult) espera a liberação de R$ 580 mil do Ministério da Cultura (Minc) para sua modernização e revitalização. Esse dinheiro será destinado especificamente para a aquisição de mobiliário, guarda-volumes, instalação de recepção e climatização dos ambientes. A previsão é que a primeira parcela desse dinheiro só chegue no primeiro trimestre de 2018. A Secult também encaminhou para o governo federal pedido de recursos para a recuperação do prédio propriamente dito, mas o processo até agora não foi apreciado pelo Minc.
 
O casarão histórico não é o único imóvel que precisa de restauração urgente. Há vários outros edifícios de inegável valor que precisam ser recuperados, e os detalhes serão mostrados na série proposta pelo Mais Cruzeiro. Um deles é o Palacete Scarpa, construído no início da década de 20 do século passado para ser a sede do Banco União. Vários protocolos já foram assinados e a restauração anunciada várias vezes, mas na realidade o prédio continua em situação precária e necessitando de reparos urgentes.
 
Há vários outros prédios importantes em igual situação, como a Capela do Divino, um patrimônio tombado e que remonta ao Ciclo do Tropeirismo; o Casarão de Brigadeiro Tobias, entre vários outros, sem contar com o Mosteiro de São Bento, cuja restauração se arrasta há anos por falta de recursos financeiros.
 
Parece que falta criatividade para contornar a falta de dinheiro, um tema muito abordado pelo então candidato José Crespo durante a campanha eleitoral. Muitas empresas podem se tornar parceiras na recuperação de prédios históricos assim como há várias leis de incentivo que precisam ser melhor exploradas. É preciso ir atrás desses recursos, uma prática mundial para obras de restauração, se não quisermos ver ruir o pouco que nos resta de patrimônio histórico.