EDITORIAL
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Destempero e crise




Os sorocabanos foram surpreendidos no início desta semana -- primeiro por denúncias divulgadas pelas redes sociais, depois por todos os meios de comunicação -- pelo comportamento supostamente pouco convencional do prefeito José Crespo (DEM) para com dois de seus principais assessores: a vice-prefeita Jaqueline Coutinho (PTB) e o secretário de Gabinete Central, Hudson Zuliani. O destempero do prefeito repercutiu também na opinião pública e nos meios políticos justamente em um momento em que a cidade passa por um problema sério com a greve no transporte público.

O assunto chegou ao conhecimento público por conta de um desabafo da mãe da vice-prefeita que, inconformada com o comportamento do chefe do Executivo, publicou em sua página no Facebook no domingo a situação constrangedora a que foram submetidos sua filha e o secretário Zuliani na manhã da sexta-feira. Nesse texto, há detalhes da reunião tensa que ocorreu no sexto andar do Palácio dos Tropeiros que teria terminado com a expulsão da vice-prefeita e do secretário da sala. À primeira, o prefeito teria sugerido que assumisse a função de vice-prefeita em casa e, ao segundo, que deixasse o cargo.

A repercussão foi imediata e no dia seguinte, Jaqueline Coutinho gravou várias entrevistas dando os detalhes do episódio constrangedor da sexta-feira. Ela disse -- e vem reafirmando essa versão desde então -- que alertada por uma denúncia anônima, começou a investigar possíveis irregularidades nos documentos de uma assessora de gabinete enquanto ocupava o cargo de prefeita, uma vez que Crespo havia viajado para fora do país por alguns dias.

A questão da validade ou não de diplomas de uma funcionária comissionada é de menor importância nesse caso, um episódio que, cedo ou tarde, será esclarecido. O que vem despertando indignação na população e deu origem à crise política mais grave da atual administração foi o relato do comportamento pouco civilizado do prefeito durante e depois do episódio. A repercussão foi tão forte que somente no início da noite de segunda-feira, praticamente 30 horas após a divulgação do primeiro relato é que a Prefeitura divulgou uma nota oficial minimizando o episódio e praticamente ignorando a parte mais grave, que foi a expulsão da vice e do secretário do gabinete, com a presença de GCM. Após a divulgação da nota oficial, em postagem no Facebook, a vice-prefeita escreveu que o comunicado se referia à contingência político-administrativa, objetivando a governabilidade do município, mas em letras maiúsculas acrescentou que não retiraria absolutamente nada do que havia dito em entrevistas sobre o episódio, o que prorroga a crise entre o prefeito e sua vice por tempo indeterminado.

Ontem, Crespo deu entrevista a uma emissora de rádio e uma coletiva para os demais veículos. Nas duas situações, quando indagado sobre o episódio no sexto andar do Paço, ele se limitou a ler a nota oficial de maneira sarcástica e tentou atribuir a confusão a uma suposta rede de intrigas formada para prejudicar sua administração.

O resultado do episódio começa a criar corpo e promete dar muita dor de cabeça ao chefe do Executivo. A Câmara, por 12 votos a oito, aprovou ontem a criação de uma comissão processante formada por três vereadores que analisará o caso. Dependendo do resultado, até o mandato do prefeito estará ameaçado. A pedido da vereadora Fernanda Garcia (Psol) também foi criada uma Comissão Parlamentar de Inquérito para analisar a denúncia de suposta apresentação de diplomas falsos pela funcionária do gabinete. Dois partidos de oposição também procuraram o Ministério Público que também deverá entrar na história. Sabe-se ainda que a Polícia Civil deverá investigar a confusão que aconteceu no gabinete na última sexta-feira.

É importante que o episódio seja bem investigado para que se apure o que de fato ocorreu, seja no que se refere à nomeação da assessora, seja na possível quebra de decoro por parte do prefeito. Crespo vê forças ocultas e inimigos por toda parte, mas talvez seu maior inimigo seja ele mesmo. Essa confusão toda certamente teria sido evitada se ele tivesse tomado atitudes mais cordiais e conciliatórias e exercitasse menos o lado autoritário de sua natureza.