LETRA VIVA
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Implicância + Nostalgia




Nelson Fondeca Neto

Nasci em 1977. Tenho quase 40 anos. Há quem diga que os anos trazem sabedoria. Pode ser. Espero que venha acontecendo com vocês.

O que os anos trouxeram para mim? Dor nas juntas, de vez em quando. Incapacidade de aguentar noitadas. Compulsão por acordar cedo. E, claro, implicância. E, claro, nostalgia.

No meu caso, eu diria que é o casamento da implicância com a nostalgia. Falando de outra maneira: torço o nariz para muitas novidades.
Passo poucas e boas por conta disso. Não podemos esquecer que estamos no glorioso ano de 2017. Vocês conhecem o bombardeio. Milhares de mensagens que tentam nos atingir de todas as formas. É a valorização do movimento, da mudança, do fricote. Se você é meio paradão ou paradona, dançou. Será símbolo de apatia. Algo a ser varrido para o canto. É a cantilena do "eterno aprendiz". Credo.

Não consigo ser agitadinho. Nem tenho tamanho para isso. Seria ridículo. Um urso na loja de cristais. Serve para o corpo e serve para o espírito. Sim, meu espírito é moroso, bonachão, preguiçoso. Acho que sou uma espécie de gato angorá que lê e escreve.

É claro que os morosos olham com dor para o tempo que passa. Isso pode ser meio doentio para muita gente. Talvez algo que lembre algumas personagens do Dickens. Reconheço que parece mórbido. Tem gente que exagera mesmo. Não sou dessas pessoas.

Acho que atingi um certo equilíbrio. Não ando de charrete por aí. Escrevo este texto valendo-me de um editor de texto. Aposentei a caneta tinteiro há vários anos. E por aí vai. O fato é que não consigo dar gritos de euforia para qualquer novidade.

Sei que soará uma bobagem para muita gente, mas vamos lá: sinto falta das videolocadoras. Talvez porque eu tenha tido sorte. Frequentei videolocadoras que empregavam caras que conheciam muito de cinema. Nessas horas, sempre lembro do Eugenio e do Célio. Ir a uma dessas locadoras nada tinha de pragmático. Nada de fazer tudo às pressas. Eu ia àqueles lugares sabendo que demoraria no mínimo meia hora. Muitos dos melhores filmes que vi foram indicações do Eugenio e do Célio. E isso acabou. Hoje, ou se compra o DVD, o que não é de todo ruim, ou se aluga o filme nesses serviços que estão na moda. Já recorri a esses serviços virtuais. O filme rodou numa boa. Os lanchinhos estavam no ponto. A Patricia estava ao meu lado. Mas, vejam bem, faltou sair para pegar e devolver o filme. E tem outra: nas videolocadoras, você segurava a caixa do filme, lia a sinopse, via que o filme ao lado poderia ser bom também. Era o acaso a nosso favor. Tudo é muito frio na televisão. Por favor, entendam, vocês não precisam concordar comigo. Só estou tentando dizer que, por aqui, implicância e nostalgia estão de mãos dadas.

E tem mais, pessoal. Vocês deram corda: agora, aguentem. Abomino a maldita "interatividade". Sei que a palavra comporta várias situações. Interatividade na hora de jogar esses jogos esquisitos de tiro. Interatividade na hora de escolher, a partir de uma votação entre os telespectadores, qual jogo será transmitido. Interatividade na hora de fazer comentários fofinhos (e desnecessários) enquanto um cantor mirim (e chato) se esgoela diante de uma plateia dopada e de jurados goiabas. E, claro, a interatividade na hora de comentar notícias na internet. Sobre o último ponto, preciso dedicar um espaço um pouco maior.

Acho que passou da hora de encararmos os comentários na internet como algo inofensivo. Passou faz tempo da hora. Confesso que, um tempo atrás, eu achava todos aqueles comentários meio divertidos. Um divertimento grotesco, masoquista, sei lá. De qualquer forma, algo que não me deixava preocupado. Hoje, sei que eu estava errado. Novamente, quero deixar claro que vocês não precisam concordar comigo. Entendam, se quiserem, como um delírio. Mas vamos lá: acho que as caixas de comentários deveriam ser eliminadas. Qualquer um que gaste um tempinho lendo muitos desses comentários conhece o teor dessa "interatividade". Movimentos feministas são atacados da maneira mais grosseira. Assassinatos e execuções sumárias são comemorados. Muito do que se encontra ali é apologia ao crime. Não é liberdade de expressão. E isso é um perigo. A história nunca termina bem quando todos estão com os dentes arreganhados. É uma lástima defender a eliminação das caixas de comentários, sou o primeiro a reconhecer. Mas não dá para deixar quietas, como se nada de grave estivesse ocorrendo, situações que defendem o estupro, a tortura, o racismo, a homofobia, a grosseria, a morte em vida.

Mas voltemos às amenidades. Passei parte da minha vida sem grandes "interatividades". Quando muito, tinha o telefone do Bozo. Ou o programa de esportes do Wanderlei Nogueira, que permitia que o telespectador ligasse e deixasse uma pergunta para o jogador convidado. Lembro que eu participei da brincadeira. Acho que foi em 1993. O convidado era o Cafu. Eu queria saber quando o contrato dele com o São Paulo terminaria. Não falei diretamente com o Cafu, uma pena. O Cafu não era o Bozo. Quem me atendeu foi uma mulher muito gentil. Ela anotou minha pergunta, meu nome, minha idade, minha cidade. Depois de quase uma hora, o Wanderlei Nogueira leu a minha pergunta. E o Cafu respondeu! Foi um instante mágico. Hoje, ao ver que todos os programas de futebol colocam na tela, sem parar, mensagens dos "internautas", lembro de como foi complicado mandar a pergunta pro Cafu.

Minha ranhetice crava: muita coisa tem perdido a graça.

A volta necessária




Nelson Fonseca Neto

Fui, entre 1999 e 2002, um devorador de filmes. Eu queria ser crítico de cinema. Se tudo desse certo, quem sabe, dirigir documentários.
Vi muita coisa legal. Não consigo abandonar minha alma de caxias. Sempre acreditei que para fazer bem algo, o estudo árduo é fundamental. Essa minha crença serviu para os estudos literários e também serviu para os meus, digamos, estudos cinematográficos. É chover no molhado afirmar a importância dos clássicos.

Tive sorte no período em que devorei filmes. Havia o Telecine Classic, o famoso canal 65, que oferecia uma programação maravilhosa. Pena que ele foi extinto. Hoje, só com muita sorte os notívagos podem se deparar com um filmaço nos fins de noite e nas madrugadas. Até agora tento entender como conseguiram acabar com um canal tão bacana.

Foi ali, no 65, que eu vi dezenas de filmes noir. Foi ali, no 65, que eu vi vários dos filmes do neorralismo italiano. Foi ali, no 65, que eu vi, deslumbrado, a trilogia de Apu. A coisa não tinha fim.

Também, naquela época, recorri às videolocadoras. Era a transição do videocassete para o DVD. Tínhamos os dois tipos de aparelhos em casa. As locadoras tinham milhares de filmes nos dois formatos. Se bem que os clássicos eram mais raros, bem mais raros, em DVD.

Numa das locadoras, havia uma prateleira inteira de clássicos da Warner em fitas. Gastei uma fortuna em locações. Fui recompensado com Charles Laughton, Marlene Dietricht, Robert Mitchum e John Wayne. Quase todos os filmes eram em preto e branco. Até hoje torço o nariz para filmes coloridos. Sei que é esquisito, mas é assim que a banda toca por aqui.

Não quero me gabar aqui. Não vou dizer quantos filmes vi naqueles anos. Eu só quero mostrar que era fanático por cinema.

Mas tudo tem um fim. Não sei dizer o que trouxe o fim da minha cinefilia daqueles anos. Não me lembro de qualquer evento isolado.

Simplesmente parei de ver filmes com aquela volúpia. Como assim, Neto? Um prazer não acaba assim, sem mais nem menos. É esquisito mesmo, mas foi o que aconteceu comigo.

A coisa toda foi tão estranha, que sou capaz de dizer sem titubear os poucos filmes que vi nos últimos anos. Vai ver que foi overdose. Sou meio exagerado mesmo.

Perdi a conta de quantas vezes falei, nos últimos tempos, que retomaria um ritmo mais intenso de cinéfilo. Eu estufava o peito e falava para a Patricia: vou ser um devorador de filmes novamente. Mas o ímpeto murchava rapidinho. E eu acabava voltando aos livros.
Tive de passar por algumas situações desagradáveis a partir do momento que abandonei os filmes. Quase todas essas situações desagradáveis têm a ver com a minha desatualização. Era comum eu estar num barzinho e escutar, meio envergonhado, as pessoas comentando a respeito de um determinado filme que estava causando muita polêmica. Eu precisava ficar quieto, enquanto os debates iam esquentando. Eu tentava escapar dizendo: não vi, mas está na minha lista. Meu lado pavão não queria que a conversa sobre cinema morresse ali. Eu dava um jeito de falar sobre algum filme clássico. Nunca deu certo.

Hoje, talvez culpa das férias, resolvi ver um filme com a Patrícia aqui no apartamento. Foi meio sem querer. Estávamos fuçando as opções de filmes num serviço da TV a cabo. É, vocês bem sabem, uma espécie de locadora virtual. Nunca dei bola para o tal de serviço. E não foi por falta de aviso. Faz tempo que a minha mãe vem dizendo que há vários filmes bons ali. Eu devia ter ouvido minha mãe. Ela e meu pai são cinéfilos. Eles não erram.

Muito bem. Final de tarde. Calor, calor. Pausa da leitura. Resolvemos mexer no tal serviço da TV a cabo. Logo de caras topamos com O som ao redor, dirigido por Kleber Mendonça. Falei para a Patrícia: pronto, achamos! É que tanto ela quanto eu já tínhamos ouvido falar que o filme era muito bom. Lembro que quando ele saiu, em 2013, apareceram vários textos elogiando. Lembro que as pessoas que assinavam os textos eram confiáveis. Mais recentemente, um aluno meu, o Kelvin, cinéfilo de alta patente, disse que valia muito a pena ver o filme. Hoje foi a nossa vez.

Lembro que vários dos textos diziam que o filme de Kleber Mendonça era extremamente agudo ao mostrar a desgraça que é o Brasil. O medo. O marasmo. As relações perversas disfarçadas pela camaradagem. A violência. As sacanagens. O passado que cobra o seu preço. O estado de natureza hobbesiano. A maldita reunião de condomínio. O playboy que sempre se safa porque tem costas quentes. As chacinas. A brutalidade contra as crianças. A revanche do pobre diabo que é humilhado pela senhora que está ocupada. A enganação da consciência tranquila do patrão gente fina. A inveja consumista. A constatação de que estamos no fundo do poço.

Tudo isso aparece no filme. Há quem diga que Kleber Mendonça exagerou. Vocês vão perguntar: Neto, você acha que ele exagerou? Honestamente, respondo que não. É só dar uma simples volta por aí. Estamos, sim, com os dentes arreganhados. É o que tem para hoje.
E o filme de Kleber Mendonça me reconciliou com o cinema.


Nelson Fonseca Neto é colunista do jornal Cruzeiro do Sul e escreve neste espaço todas as sextas-feiras.

Janeiro




Nelson Fonseca Neto

O que escreverei talvez não possa ser aplicado a todos. Serão palavras vindas da experiência do colunista. Ao mesmo tempo, o colunista tenta ser generoso de vez em quando. Ele acredita que o prazer que sente, na esfera da leitura, pode ser compartilhado. Desde já, ele pede perdão caso escreva alguma abobrinha.

Janeiro está chegando. Há quem encare o novo mês como o marco de uma nova vida. As dívidas não formarão uma montanha. Os relacionamentos não serão bélicos. Os empregos serão glamourosos. Os políticos serão menos bandidos. As roupas justas não morarão mais no fundo do armário. E por aí vai.

(Pena que já nos primeiros dias o IPVA nos lembra de que vestir roupa amarela não comove a sanha do estado.)

O colunista bem que poderia escrever um texto agressivo neste momento. Ele tem pavor de praias lotadas. Ele fica angustiado quando se depara com um monte de gente berrando. Ele acha o calor uma maldição. (Se ele fizesse um regime, o calor não seria tão inclemente.) Ele fica aborrecido com as fotos de lugares paradisíacos que fervilham nas redes sociais. Ele, em suma, é um chato, um urso, um azedo.
Ele passa os dias de folga lendo e fazendo micagens com a digníssima esposa, a Patricia. As micagens não nos interessam neste momento. Cada casal faz as suas, e viva a diferença!

O que o colunista lê talvez interesse alguém. Sim, o colunista ainda preserva as faculdades da memória e sabe que, coisa de poucos dias atrás, publicou algumas dicas de leitura neste espaço. E ele sabe que não pode fazer a mesma coisa num intervalo tão curto. Seus leitores são exigentes. E é bom que seja assim.

(O colunista parou de escrever por alguns minutos. Foi beber água. Ele está vestindo um pijama. Ele quer cortar bem curtinho o cabelo. Sua esposa não autorizou.)

O que o colunista quer fazer aqui não é um texto convencional de dicas de leitura. Isso ele considera raso, prosaico, elementar. Não que as pessoas não possam ser rasas, prosaicas, elementares. Não é isso. Precisamos, muitas vezes, ser rasos, prosaicos e elementares. Uma vida trepidante é insuportável. Um bom prato de arroz com feijão é uma iguaria.

Mas há momentos de rupturas, de rebeldias, de chutes no balde. São os momentos que temperam a existência. Se é só arroz com feijão o tempo inteiro, ficamos aborrecidos. Se é só tempero forte, vomitamos. Tudo questão de equilíbrio, de acionar as diferentes alavancas com sabedoria.

O colunista sabe que entregou, dias atrás, um prato de arroz com feijão. Agora ele quer dar umas cambalhotas. Ele quer mostrar que aqui tem café no bule. Ele quer escrever um texto útil e reflexivo. Útil: que as pessoas sigam o que ele sugere. Reflexivo: que processos mentais complexos apareçam em seu texto.

Ele tem uma tese. E ele sabe que os textos argumentativos devem ter uma tese bem resolvida. Se assim não for, não é texto: é gelatina. Ele, o colunista, não brinca com essas coisas. Ele não quer que o seu ofício seja marcado por lampejos, por golpes de sorte, por sacadas. Ele não é leviano.

E ele tem uma tese: os dias de folga do mês de janeiro são adequados ao exercício da leitura intensiva. Vários são os alicerces que sustentam sua tese. Primeiro: folga significa horas livres; horas livres podem ser atravessadas de muitas maneiras; o colunista não quer esmiuçar essas maneiras; mas ele não pode deixar de constatar que algumas dessas maneiras são boas e que outras dessas maneiras são ruins; e ele acha que a leitura está no grupo das boas maneiras. Segundo: muitos estão gozando de suas férias; muitos aguardam freneticamente pelos dias de ócio; e esses dias chegam; e o ócio vira tédio; e esse tédio tem várias caras (confraternizações regadas a bebidas entorpecentes; conversas perigosas acerca de política; pessoas que não podem ver uma piscina e resolvem jogar outras pessoas, com roupa e tudo, na dita piscina; músicas que fazem alguns constatarem que a surdez pode ser uma benção; chinelos fazendo barulhos enervantes); a leitura é uma das ferramentas para se livrar do tédio, da raiva, da angústia, dos desejos homicidas. (O colunista acaba de cometer um grave erro em sua argumentação. Ele iniciou este parágrafo dizendo que vários alicerces sustentam sua tese. Ele, o colunista, se deu conta, agora, que são apenas dois alicerces. Mas não tem problema: eles dão conta da estrutura.)

O colunista olha, com desespero, o final do texto chegando. E ele, o colunista, sabe que falta mencionar as leituras que julga adequadas para o mês de janeiro. (Ele interrompe o trabalho por alguns segundos; ele coça o queixo; vê um passarinho passar perto de sua janela; ele respira fundo; ele é um clichê.) Ele sabe que não pode enrolar muito agora. A hora decisiva está chegando. Ele precisa de um desfecho mágico. Lá vamos nós.

Leiam Tolstói. Leiam Stendhal. Leiam Thomas Mann. Leiam Balzac. Leiam Tanizaki. Leiam Dickens. Leiam Machado de Assis.
Leiam e sejam felizes. Começando o ano de mãos dadas com essa gente, as coisas tendem a ser menos malvadas.

Bom 2017!

Livros para todos os gostos




Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com



Promessa é dívida. Puxa vida, olha só quem fala. Vivo dando o cano em vocês, não é verdade? Mas de vez em quando a gente toma vergonha na cara. Na semana passada, prometi escrever algumas dicas de bons livros que podem ser lidos nas semanas modorrentas de fim de ano e de começo de 2017.
Antes de começar o jogo para valer, preciso explicar o critério das dicas que vocês lerão a seguir. É muito simples: o critério é o do ecletismo. Nunca fui, nem quero ser, um acadêmico tradicional, capaz de mergulhar fundo nas minúcias de um assunto marginal. Sou um leitor borboleteante. Gosto de literatura, mas não deixo de lado os livros de história. Sou viciado em grandes reportagens. Uma boa biografia sempre cai bem.
A listinha que segue reflete a minha volúpia leitora. Sem mais enrolações, as dicas.
A primeira sugestão tem a ver com o belo casamento da literatura com o jornalismo. Trata-se de um casamento raro. E quando ocorre, é extremamente feliz. É absurdo esperar que todos os textos de jornais e revistas sejam obras-primas. Se jornalistas ficassem muito tempo penteando a boneca, não teríamos jornalismo diário. Assim, valorizamos os textos mais urgentes; mas também tenhamos os olhos atentos para textos escritos com maior tempo de elaboração. São textos de jornalismo literário. Compromisso com a verdade, técnicas narrativas puxadas da literatura. Uma reportagem longa ganha tintas de bom romance. Uma reportagem breve fica cortante como um conto. Muita gente boa promoveu e promove o casamento do jornalismo literário nas últimas décadas. Tem de tudo um pouco, mas o nome incontornável é o de Gay Talese. Seus textos breves estão reunidos no volume Fama & anonimato. Honra teu pai é um clássico do jornalismo de longo fôlego. Parece um romance, mas é tudo verdade.
A segunda sugestão trata de um assunto interessante. Vocês sabem que as literaturas de todos os países têm seus clássicos. Claro que é bom ler os clássicos, mas e os grandes livros menos badalados? Toda literatura tem os seus. No Brasil não é diferente. A lista é vasta, mas fiquemos com um caso: Caminhos cruzados, de Erico Verissimo. Erico, o pai do Luís Fernando, é apontado como um dos principais ficcionistas brasileiros do século 20. Muito de sua fama passa pela monumental saga O tempo e o vento. São milhares de páginas, destinos que se cruzam, retrato magistral de uma sociedade. Infelizmente, a monumentalidade da saga eclipsa Caminhos cruzados, obra mais modesta. Temos, aqui, um retrato agudo da sociedade de Porto Alegre da década de 1930. Some-se a isso a linguagem ágil, repleta de frases curtas. E, por fim, mas não menos importante, a técnica cinematográfica das mudanças de cena. Preciso confessar: acho Caminhos cruzados a grande obra de Erico Verissimo. Por favor, não atirem pedras.
A terceira recomendação une jornalismo e memória. Aqui, o grande mestre é o polonês Ryszard Kapuscinski. Ele foi um dos grandes correspondentes internacionais de todos os tempos. Incansável, percorreu o mundo. Cobriu golpes militares na América Latina. Viu a desintegração da União Soviética. Passou anos percorrendo o continente africano. Viu de tudo um pouco. Mas não é mera testemunha. Seu texto seco fura nossa resistência. Seu didatismo na hora de explicar questões emaranhadas é digno de um grande professor. Seu humor ácido torna inesquecíveis seus textos. Vale muito a pena ler Ébano, Minhas viagens com Heródoto e Imperium. Boas pedidas para os que não se contentam com o noticiário raso.
A quarta recomendação vem de um susto que levei tempos atrás. Parece inacreditável, mas é verdade: vi, no Facebook, algumas pessoas glamourizando o stalinismo. Mau gosto? Burrice? Vontade de pendurar uma melancia no pescoço? Um pouco de tudo isso. Essas firulas passam rapidinho com a leitura de Chalámov (Contos de Kolimá) e Vassili Grossman (Vida e destino).
A quinta recomendação é para quem procura texto que informa e faz rir ao mesmo tempo. Estou falando do livro Bandido raça pura, do jornalista Fred Melo Paiva. Belo exemplo de como colocar o dedo na ferida sem perder a ginga. Sim, dá para amar e ser feliz ao mesmo tempo. Fred Melo Paiva fala de tudo um pouco. De Niemeyer a um cachorro feroz que tornou-se bonzinho. De Dorival Caymmi a um ex-carcereiro do Carinduru. Do horror da Daslu ao horror do minhocão. Uma aula de como se deve olhar para a cidade.
A sexta recomendação é para quem já percebeu que futebol não é só futebol. Existem livros que são declarações de amor ao esporte (exemplo: a autobiografia do Tostão); existem livros que estabelecem as conexões entre futebol e sociedade (exemplo: Veneno remédio, de José Miguel Wisnick); e existem livros que são obras de arte de primeira grandeza (todos os livros de Mário Filho).
A sétima recomendação é para quem gosta de narrativas gráficas. São as famosas HQ. Garanto que algumas dessas obras nada têm de imaturas. Will Eisner, por exemplo, foi um dos grandes artistas do século 20. Maus, de Art Spiegelman, é uma dos grandes narrativas sobre o Holocausto.
A oitava recomendação é para quem adora biografias. Com o perdão da obviedade, há biografias e biografias. Livros sobre pessoas desinteressantes. Livros centrados em fofocas bestas. Livros maravilhosos. Livros reveladores. Leiam a biografia de Getúlio Vargas, escrita pelo jornalista Lira Neto. James Kaplan, ao escrever sobre Sinatra, mostrou que biografia pode ser arte.
Ufa, cumpri minha promessa!

Útil




Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com




Na semana passada, eu havia prometido escrever, para hoje, um texto engraçado. Juro que ele estava no gatilho. Seria tão fácil. Sou um iludido nato. E a culpa é de vocês. Sim, vocês dificultaram o meu trabalho.

Eu estava empolgado com o texto engraçado. Ele estava redondinho na minha cabeça. Bastaria sentar, bater no teclado do computador por mais ou menos uma hora, e pronto! Missão cumprida e viva o Brasil!

Só que eu sou meio neurótico. Desconfio das coisas simples. Sou mestre na arte de achar chifre na cabeça do pobre cavalo. Vou tentar lembrar do contexto da caraminhola que impediu a coluna engraçada que eu havia prometido na semana passada.

Era noite. Eu estava dirigindo de volta para casa. Sei lá como, o maldito espinho fincou-se no meu cérebro: Neto, será que todos seus leitores e leitoras gostam dos seus textos supostamente engraçados? Será que eles não sentem falta de textos mais instrutivos? Você quer ser conhecido como o mico de circo sorocabano?

Quando eu falo, ninguém acredita: sou uma espécie de Woody Allen gorducho. Sem o talento do original, mas tão neurótico quanto. Enquanto voltava para casa, foram surgindo cenários tristes na minha cabeça. Será que falam de mim? Será que acham que sou ridículo? Será que não estão telefonando para o Fineis e para a Juliana pedindo a minha cabeça numa bandeja de prata? Soltei uma bufada a fim de livrar-me dos pensamentos tóxicos.

Decidi adotar uma postura mais, argh!, resiliente. Passei a imaginar nos meios para sair da enrascada. Defini que o texto engraçado seria descartado. Sou neurótico e volúvel. Fico empolgado rapidinho. Fui pensando nas alternativas.

Primeira delas: texto recheado de erudição. Rapidamente descartado. Não sou erudito.

Segunda delas: texto político. Rapidamente descartado também. Não quero mexer no vespeiro.

Terceira delas: texto dramático. Descartado. Qual drama? A odisseia de pagar o boleto no caixa eletrônico? A história monumental do sujeito que leva um susto na padaria, ao saber quanto custa duzentos gramas de presunto de Parma?

Quarta delas: texto de utilidade pública. Pronto, achei!

Sim, minha gente, utilidade pública. Seriedade sem pedantismo. Sensação de dever cumprido. Essas coisas.

Achei, digamos, o grande tema. Como é bom ser útil! Como é bom não ser um parasita do sistema! Enquanto dirigia, júbilo deste que escreve.

Só que este que escreve é neurótico, volúvel e dominado por um espírito de porco. Posso falar para vocês: pensei num monte de abobrinhas.

Primeiro pensamento supostamente útil: escrever um guia para a pessoa que é obrigada a frequentar a festa de amigo secreto da firma. Eu começaria desenhando o cenário tétrico dos barzinhos e restaurantes nesta época do ano. Eu esmiuçaria as relações pitorescas de poder de uma empresa. Tudo muito sombrio. Em seguida, eu daria algumas dicas de como não afundar num pesadelo. Sorte que o meu senso crítico manifestou-se. O texto ficaria azedo. Seria água no chope gourmet.

Segundo pensamento supostamente útil: escrever um pequenino tratado que ajudasse a pessoa a não perder a sanidade mental nas festas de fim de ano. Seria um texto influenciado pelas comédias italianas dos anos 1960. Sorte que puxei o freio de mão, metaforicamente falando, claro. Poderia soar ofensivo. Não quero ofender. Sou um cordeiro.

Terceiro pensamento supostamente útil: escrever algumas orientações para a pessoa que precisa enfrentar um shopping center a poucos dias do Natal. Descartei: muito consumista.

Quarto pensamento supostamente útil: escrever um roteiro de viagens. Ainda bem que lembrei que não gosto muito de viajar. Na melhor das hipóteses, sairia um guia de como aproveitar as delícias de Campos do Jordão. Eu não escreveria sobre praias. Chinelo é uma das minhas fobias. Sem contar a aflição que sempre sentirei ao ver aquelas pessoas vendendo queijo no palito, vestidas com aquelas roupas de pelúcia.

Quinto pensamento supostamente útil: escrever um tratado sobre a arte de presentear com fineza e requinte. Segundos depois, lembrei que não sou o prefeito de São Paulo.

Sexto pensamento supostamente útil: dicas de bons livros para os dias de folga. Em vez de Roberto Carlos, Tolstói. Legal, né?

É o que farei para a próxima semana, juro. Será uma lista eclética. Abrirei minha caixa de ferramentas. Mostrarei que não gasto meu tempo só fazendo palhaçadas.

E, agora percebi, é até melhor que as dicas de livros apareçam na próxima semana. Fica mais perto da segunda parcela do décimo terceiro salário.

Agora respiro aliviado.

Nossa tragédia



Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com




Estou escrevendo este texto deitado. O Word do celular permite. A Patrícia está dormindo ao meu lado.
Quase meia-noite. Dia 29/11. A televisão está ligada sem som. De vez em quando, tiro os olhos do celular e vejo o que está passando. São imagens do estádio da Chapecoense. Estou deitado de costas.
Minha ideia era escrever o texto para o jornal na quarta de manhã. As últimas semanas de novembro sempre oferecem brechas. Eu iria escrever algo engraçado. Seria uma história real, acontecida há muitos anos. Tudo estava fresco na minha cabeça. Acho que meus leitores e minhas leitoras dariam risada. Acho. Vai saber.
Só que eu não consigo escrever o texto engraçado. Hoje foi um dia triste.
Acordei cedo. Costumo tomar um iogurte. Depois vou ao banheiro. Quem não medita no banheiro? Sempre levo o celular. Verifico e-mails e outras mensagens. Dou uma passadinha no Facebook. Entro em alguns sites de jornais. Nada que leve muito tempo. É mais para acordar mesmo. Seria estranho ficar olhando para o azulejo. Ainda não evoluí a este ponto.
Hoje, passando pelo Facebook, vi a notícia da queda do avião que transportava os jogadores da Chapecoense, sua comissão técnica, dirigentes e jornalistas que cobririam o jogo na Colômbia. Claro que levei um susto.
Para variar, as informações, nas primeiras horas, eram confusas. Mencionaram, num primeiro momento, vários sobreviventes. Mas já havia gente dizendo que eram poucos sobreviventes.
Enquanto isso, dei algumas aulas. Escola, nesta época do ano, é uma tristeza. Boa parte dos alunos já está desfrutando as férias. Escola vazia machuca a gente. Mas não é disso que eu quero falar.
Conversei com alguns professores. Vários deles são fanáticos por futebol. Claro que falamos sobre a queda do avião. E então começou uma coisa meio doida. Doida e bonita.
Não somos amigos das pessoas que morreram no desastre. Mas parecia que sim, que eram nossos amigos. Mencionamos o nome de vários jogadores. Concordamos no seguinte: o técnico da Chapecoense, o Caio Júnior, era um cara muito gente fina. E assim a coisa foi rolando.
Depois falamos sobre alguns dos jornalistas que morreram. Tudo ficou mais difícil. É que os amantes do futebol sempre arrumam um tempinho para ver um desses debates esportivos. A abundância da TV a cabo permitiu que esses debates aconteçam nos mais diferentes horários. É o paraíso dos devotos do futebol. Tem debate cedinho, tem debate na hora do almoço, tem debate no fim da tarde, tem debate no meio da noite, tem debate de madrugada. É uma festa.
Impossível ver todos. Há que se ganhar o pão nosso de cada dia. Impossível, para mim, acompanhar a programação da manhã. Do meio da tarde em diante, também. Sobram os horários da noite e sobre um intervalo logo depois do almoço. Nem sempre vejo os debates da noite. É que a Patrícia e eu estamos viciados no melhor seriado de todos os tempos: Seinfeld. Só antes de dormir é que eu sou uma bicadinha nesses programas.
Sobra, então, o sagrado intervalo logo depois do almoço. Algum cientista disse que um cochilo depois do almoço é fundamental para que a sociedade caminhe a contento. Se não disse, deveria dizer. Faz um bem danado. E viva a cultura espanhola!
Com o quarto escuro, ligo a televisão e ponho num dos canais de esporte. Dou risada, torço por uma boa treta entre os jornalistas. Sempre tem treta. Nada de grave: típica conversa de bar. O maluco disso tudo é que você meio que acaba ficando amigo dos caras. É um ritual. O descanso da tarde tem que ter a voz dos caras ao fundo.
E, hoje, perdi a voz de alguns dos caras que velam o meu descanso da tarde: Vitorino Chermont, Paulo Júlio Clement e Mário Sergio. Morreram no acidente. Hoje, o descanso da tarde não foi descanso: foi tortura. Por que esconder? Chorei.
Paulo Júlio Clement conseguia ser, ao mesmo tempo, bonachão e afiado. Vitorino Chermont trazia informações quentes e ainda tirava onda com todos. Mário Sergio era um gênio.
E agora eles foram embora. Foram embora junto com outros jornalistas. Junto com o time mais legal dos últimos tempos. Deixaram familiares. Deixaram amigos. Deixaram pessoas que se viam como seus amigos, mesmo longe, longe.
Hoje à noite, o Mauro Cesar Pereira, jornalista de uma outra emissora, chorou ao falar do Clement e do Chermont. Olha que o Mauro é um cara durão. Chorei junto. Não tinha como ser de outra forma.
E assim vou tentando lidar com o maldito dia de hoje.
A Patrícia dorme ao meu lado. O sino da igreja deu meia-noite. Cheguei ao fim do texto.
E nunca se esqueçam: futebol não é apenas futebol.
Semana que vem, conto a história engraçada.

Edifício Arthur Cyrillo Freire




Nelson Fonseca Filho

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


Morei boa parte da minha vida num apartamento que fica na esquina da Penha com a Benedito Pires. O prédio leva o nome de Arthur Cyrillo Freire. Tudo em família, pois Cyrillo Freire foi casado com a minha bisavó Tersila, mãe do meu querido vovô Nelson e do meu também querido tio-avô Arthur.

Morei lá, com os meus pais e o meu irmão, por quase trinta anos. Nós quatro somos figuras apaixonadas pelo centro da cidade. Não importa a degradação; não importa as sacanagens dos políticos que promovem a mais grosseira especulação imobiliária; não importa que tudo tenha ficado mais perigoso, mais sombrio, menos humano; o que importa, isso sim, é que o centro nunca sairá de nós. Pode soar brega, mas é a mais pura verdade.

Bem que eu queria ter o talento de um Gay Talese para fazer um texto longo sobre os prédios do centro da cidade. Vários exemplos surgem. Penso nos apartamentos que ficam sobre a farmácia logo depois que a Penha cruza com a Benedito Pires. Seus pisos devem ser de taquinhos. Isso se nenhum vândalo trocou tudo pelo sacrossanto porcelanato. Há quem chegue ao fundo do poço e insista em cavar mais um pouco.

Penso também no edifício Eufrida Margarida, com sua belíssima fachada. Desculpem minha ranhetice, mas o edifício Eufrida Margarida dá de dez a zero nesses prédios cheios de vidro e de varandas gourmet.

Sempre acharei um primor o conjunto Santa Clara. Quer coisa mais deliciosa do que morar sobre uma galeria. A Myrna e a Elisa sabem das coisas.

Tantos prédios cheios de estilo! E, hoje, muita gente torce o nariz para eles. Claro, legal mesmo é morar num cenário que lembra a Detroit do Robocop. Bom mesmo é pagar caríssimo por um casa cercada de toda a parafernália de segurança e correr o risco de ter surpresas desagradáveis quando a molecada do condomínio resolve brincar de Halloween.

Mas voltando ao prédio onde morei por quase trinta anos. Ele ficava a menos de um quarteirão de onde meu irmão e eu estudamos. (Quero evitar problemas com o departamento comercial do jornal, e por isso não citarei o nome da escola. Mas Sorocaba é uma aldeia e vocês, meus queridos leitores e leitoras, lendo meu sobrenome, sabendo onde morei, conhecendo o nome do prédio, matarão a questão. Às vezes, sou bem malandro.)

Íamos a pé, claro. E claro que a minha mãe, da janela da cozinha, via se as coisas corriam bem no curto trajeto. Tudo correu bem, e aqui está o cronista quase quarentão mexendo na memória.

Pelos padrões de hoje, o prédio da Penha com a Benedito Pires precisaria de um, argh!, "choque de gestão". Não havia portaria 24 horas. E daí? O seu Zé, o seu Getúlio, o seu Claudinei, o seu Romildo davam conta do recado. E eles não ficavam isolados numa cabininha repleta de vidros escuros. Não. Eles trabalham atrás de um balcão de madeira, que ficava num canto do saguão. Era um móvel lindo. Cada apartamento tinha um escaninho. As correspondências eram colocadas naquele espaço. Sobre o balcão, havia um interfone enorme. No começo, ele era branco. Depois, ficou amarelado.

Os dois elevadores eram temperamentais. Um deles, o social, era bem mais rápido que o de serviço. A porta interna de um deles era branca. A do outro não era bem porta. Era uma grade sanfonada dourada. Parecia um cenário de filme antigo. Claro que a criançada fazia a festa no elevador da porta sanfonada. Conforme o elevador subia ou descia, deixávamos nossas mãos correrem pelos rebocos dos andares. Uma temeridade, talvez, mas ninguém perdeu os dedos na brincadeira.

Abaixo do saguão era a garagem. Comparado com o que se vê hoje, um espaço modesto. Nada dessas histórias de duas vagas por apartamento. Nem todos os apartamentos tinham vaga na garagem. Hoje, acho que isso daria em linchamento. Era um espaço pequeno e labiríntico. Acho que um ou dois felizardos tinham a vida mansa ali. O resto penava nas manobras. As pilastras eram tão traiçoeiras! Logo depois que tirei a carteira de motorista, entalei o carro entre duas pilastras. A proeza rendeu uma romaria à garagem.

Logo acima do saguão, havia o escritório do seu Zé. Quer dizer, não era bem um escritório. Era um pedaço de corredor ocupado por uma mesa longa e um armário bege de metal. O bom daquele escritório era que, se subíssemos numa das cadeiras, dava para ver, por um recorte retangular na parede, o balcão da portaria. Criança criada em prédio é fogo: se não tínhamos bosques, campinas e lagos para desbravar, recorríamos ao improviso minimalista. Traduzindo: ficávamos aporrinhando os porteiros a partir do recorte na parede do escritório do seu Zé.

Acima do escritório do seu Zé, era a "área verde". Consciência ecológica? Nada disso: não havia uma árvore na área verde, só uns vasinhos com umas plantinhas mixuruca. A área verde era parte coberta e parte ao ar livre. Era para ser um salão de festas, mas não era bem um salão de festas. Tinha uma cozinha minúscula, um tambor cortado longitudinalmente servindo como churrasqueira, um banheirinho entulhado de cacarecos. O chão da área verde era áspero. Vivíamos caindo de bicicleta ali. Não houve sequelas.

O edifício Arthur Cyrillo Freire tinha lá os seus defeitos, mas ele sempre será lindão e garboso. Amar é também achar beleza nas imperfeições.

O retrô




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Não invento a roda ao dizer que cada um lida com o tempo à sua maneira. Conheço pessoas acorrentadas ao passado. Conheço pessoas que exercitam gostosamente a amnésia. Conheço pessoas que valorizam a pontualidade. Conheço pessoas que encaram o relógio como prisão. Viva a diversidade!

Com o perdão da repetição, faz tempo que penso sobre o tempo. Calma, minha gente, não em termos acadêmicos. Vocês não lerão um ensaio sofisticado. Vocês lerão, sim, umas abobrinhas que tomam conta dos meus pensamentos.

Dia desses, eu estava dando aula. Interrompi o ritmo da matéria. Não era bronca. Era algum tipo de conselho. Comecei dizendo: olha, pessoal, eu tenho idade para ser pai de vocês. Eram jovens na cada dos quinze anos. Ora, tenho trinta e nove. Biologicamente, minha constatação não é revolucionária. Quando nasci, meus pais tinham vinte e três anos. Outros tempos, eu sei.

Mas voltando à aula. Fiz as contas e descobri que realmente tinha idade para ser pai do meu público. Aposto que vocês estão pensando: o Neto ficou triste; caiu a ficha; pensamentos outonais o dominaram. Pensaram, não é? Pois erraram. Constatar minha maturidade não assusta. Muito pelo contrário: sempre fui atraído pela placidez, pela mansidão, pela sabedoria. (Preciso dizer que não sou plácido, manso e sábio. Talvez um dia eu chegue lá. Otimismo é tudo nesta vida.)

Não fiquei triste, repito. Fiquei, isso sim, surpreso. Sim, e aí volto ao início deste texto. Cada um lida com o tempo à sua maneira. Nasci em 1977. Passei a infância na década de 1980. Vocês bem sabem que a mente da criança é dos terrenos mais férteis. Tudo é absorvido. Uma esponja, praticamente. Muito bem. Lá se vão uns trinta anos, e minha memória preservou com espantosa clareza musiquinhas, propagandas, programas de televisão, brinquedos e paisagens da gloriosa década de 1980.

Nas horas de bobeira, gosto de voltar àquele tempo. Não sou especialista, mas sei que cada um de nós tem uma habilidade mais aguçada de memória. Tem gente que é craque na memória auditiva. Minha mãe e meu pai são mestres da memória visual. A Patrícia também. Não que a minha memória visual emperre, mas acho que me saio melhor na memória olfativa. Às vezes, a memória auditiva dá uma mão.

Querem um exemplo? Programas de televisão. Sou do tempo (vixe, algo estranho acontece quando colocamos "sou do tempo" na frase); voltando, sou do tempo da televisão com poucos canais. Pior (ou melhor): peguei alguns anos sem a existência do controle remoto em nossas vidas. Quando conto, meus alunos e minhas alunas dão risada. Sei lá, é como se uma pessoa bem velhinha falasse a respeito de carruagens e lamparinas para mim. Sim, alguns anos sem controle remoto. Era possível viver assim? Ô, e vocês sabem disso muito bem. Trocar de canal não era operação que envolvia apertar um botão. Precisávamos girar um botãozinho de um aparelho que ficava sobre a televisão. A operação não era prosaica. Uma dose de atenção era fundamental. Eu, meio anárquico, gostava de sintonizar o canal de uma forma distorcida. Eu não queria a imagem pura. Eu queria o chiado. Eu queria as figuras dançando. Eu queria a interferência. Bem que o Machado de Assis dizia que o menino é o pai do homem.

Naquela época, no Brasil, não tinha TV a cabo. Alguns privilegiados tinham antena parabólica. Recorríamos a menos de dez canais. Cultura. TVS (SBT). Globo. Record. Bandeirantes. Manchete. Para vocês entenderem o peso daqueles anos na minha vida: preciso me policiar para dizer "coloca na Globo", e não "coloca no 5". SBT era 4. Bandeirantes era 13. Se não estou enlouquecendo, não chamávamos os canais pelo nome. Era tudo na base do número. Uma nação de matemáticos.

Tudo era mais ritualizado na relação com a televisão. Era luxo ter um aparelho de TV no quarto. Pelo menos na primeira metade dos anos 1980. Como esquecer das musiquinhas de abertura dos programas do Jô e do Chico? E o glorioso Globo de Ouro? E as aberturas brilhantes -- que hoje consideramos toscas -- das novelas? Grande Hans Donner.

(Para variar, uma interrupção: miramos o passado, muitas vezes, com ares de galhofa. Mais ou menos assim: nossa, como conseguimos vestir veludo cotelê com lycra? Nossa, agora dá para perceber como o Monza é feio! Não sejam canalhas. Lembro de muita gente que babava por um Monza. Sou um arquivo vivo. Sou capaz de puxar a capivara de vocês. Olha, minha gente, nada de fazer careta para o gel. Eu lembro de alguns de vocês nos bailinhos da vida. Eu lembro do cabelo lambido de todos nós. E lembro das calças de cintura alta. E lembro dos vídeos da Jane Fonda. Saibam que a selfie glamourosa de hoje será motivo de chacota daqui uns quinze anos.)

Mais uma volta ao primeiro parágrafo. Não sou um sujeito acorrentado ao passado. Escrevo este texto batucando as macias teclas de um notebook. Fico apavorado só de pensar que poderia escrever a coluna numa daquelas máquinas pesadonas. E por aí vai.

Mas não sou dado a esquecimentos. É por isso que, antes de dormir, enquanto a Patrícia já dorme o sono das justas, vejo, por alguns minutos, um desses canais maravilhosamente retrôs. Só a abertura da novela antiga basta para que o sono seja doce.

Aos 39



Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com



Completei trinta e nove anos na semana passada. Tenho o costume de fazer um balanço da minha vida nessas ocasiões de fim de década. Fiz isso aos dezenove e aos vinte e nove. Sempre tive o pé no memorialismo. Passei os últimos dias pensando nos trinta.


Revisitei os balanços anteriores. Que diferença! Eu era dado ao monumental. Por que mentir? Eu era ambicioso. Meus olhos não se detinham em miudezas. Ainda bem que mudei. Sim, pois o último balanço revela um sujeito mais pacato, mais observador, mais modesto. Como vocês, leitores e leitoras, têm sido uma simpática companhia nos últimos anos, divido com vocês o resultado dos pensamentos mais recentes. Encarem da seguinte maneira: o que vocês lerão abaixo são exemplos de coisas, situações e pessoas que fazem, de algum modo a minha felicidade.

Gosto de tempo nublado. Pode ter uma chuvinha. De preferência, sem vento forte. Tempo perfeito para reflexões sutilmente melancólicas. Não estou ficando doido. Uma pitada de melancolia, de quando em quando, faz a gente ficar mais lúcida.
Gosto de ver bobeiras na televisão. Finalmente assumi. Antes, eu lutava contra e só via debates e análises políticas profundas. Hoje, passo longe. Não digo que estou certo. As coisas são como são.

Gosto de chamar as pessoas mais chegadas por apelidos. Não os revelo aqui. Sou meio mafioso.

Gosto de preparar aulas. De preferência, no papel e com muitos rabiscos e flechinhas. Tento dar conta dos aspectos fundamentais da matéria e das maluquices, das comparações mais ousadas, das referências bibliográficas, de como ficará a lousa. Passei a considerar perturbadora a situação de entrar numa sala de aula improvisando.

Larguei mão da escrita de textos sisudos. Nada de contos cortantes ou de romances ambiciosos. Sinto-me em paz no quartinho da crônica. Continuo gostando dos textos sisudos, mas vindos de gente mais talentosa do que eu.

Gosto de estudar gramática. Não gosto do patrulhamento gramatical. Gosto de fazer, mentalmente, análises sintáticas. Estou ficando craque na coisa. Que os santos padroeiros da crônica não permitam que meus textos fiquem empoeirados.

Gosto de reler, todos os anos: a obra completa de Machado de Assis; Guerra e paz; A morte de Ivan Ilitch; as novelas de Gógol; as crônicas de Rubem Braga; as crônicas de Otto Lara Resende; A ilustre casa de Ramires; Madame Bovary; os contos e novelas de Tchékhov; Brás, Bexiga e Barra Funda; os contos de Rubem Fonseca; os contos maravilhosos dos irmãos Grimm; a obra completa de Graciliano Ramos; a obra completa de Manuel Bandeira; Dom Quixote; Os contos das mil e uma noites; Decameron.

Gosto de acordar cedo no fim de semana. Gosto de ler e trabalhar em silêncio nas manhãs de sábado e domingo. Dias bons para que algumas ideias boas apareçam.

Gosto de fazer molecagens com os mais chegados. Quanto mais bobo e inofensivo, melhor.

Gosto de conversar com os bichos. Gato, cachorro, passarinho, grilo.

Gosto de ficar em casa nas noites de sábado. É bom e é prudente.

Gosto de ler comentários malucos no Facebook. Faz a gente dar risada e faz a gente perceber que nos superam em burrice.

Gosto de olhar para os prédios à noite. Não é bisbilhotice. É comunhão. Confortável ver pedaços diferentes da vida.

Gosto de ouvir os barulhos dos apartamentos vizinhos. Muito agradável perceber que cada célula segue seu ritmo. Jantamos às nove, um dos vizinhos come às 11, o outro está dormindo às 10.

Gosto de ler até tarde da noite. Enquanto isso, ao lado, a Patrícia dorme profundamente. Dá uma calma danada. É, sem exagero, uma dádiva.

Gosto de ver o pessoal jogando no campo do clube. Tenho vista privilegiada a partir das janelas do apartamento. Tudo fica estranho quando não tem joguinho.

Gosto de provocar a Patrícia. Provocações inocentes, que fique claro. Não entro em detalhes. Não sejam abelhudos.

Gosto de ver diariamente meus pais. Tudo fica mais tranquilo.

Gosto quando o Tiago e a Milena vêm para Sorocaba. Gosto de tomar café com eles na padaria.

Gosto de ver e ouvir minha avó Clélia. Tudo fica menos complicado.

Gosto de estar com meus sogros. Tudo fica divertido.

Gosto de receber visitas. Sou da moda antiga.

Gosto de estar casado com a Patricia. Gosto de dormir ao seu lado. Gosto de acordar ao seu lado. Gosto de fofocar com ela. Gosto de ver como ela faz tudo com leveza. Gosto quando ela fica brava. Gosto quando ela está meiga. Gosto dos apelidos que ela inventa. Gosto quando ela resolve dançar. Gosto quando ela resolve tudo com uma frase certeira. Gosto quando ela leva um tempão para contar um treco simples. Gosto da vida que nos uniu.

A vida é boa.

Beleza! (Conto)



Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


Boa tarde! Ai, vocês estão muito desanimados! Boaaaaaaa tardeeeeeee! Aê, agora sim!


Quero começar me apresentando. Eu sou o Márcio Henrique, mas ninguém me chama de Márcio Henrique. Todo mundo me chama de Marcio Beleza. Claro que não é porque eu sou bonito. Hahahahaha! (Risos do palestrante e risos da plateia.) Eu sou o Marcio Beleza porque nunca deixo a tristeza me dominar.


Vejam esse vídeo. (No telão, aparece um vídeo com quase três minutos de duração. São várias cenas de cadeirantes rindo.) Entenderam? Olha a vida deles. Olha a risada gostosa deles. Que direito eu tenho de ficar emburrado?


A tristeza é como se fosse um pernilongo. Tem que ter o jeito certo de matar o pernilongo. Eu sou o Beleza porque aprendi a matar o pernilongo. Quando eu digo "beleza!", o pernilongo morre! Quando eu digo "beleza!", é como se eu fizesse um "tsssssssss!" no pernilongo.
Nem sempre fui assim. Já fui resmungão. Eu sempre brigava com a minha esposa. Meus filhos me achavam um chato. Eu dormia mal, rangia os dentes. No caminho para o trabalho, eu tinha vontade de matar pelo menos uns dez motoqueiros. Até que um dia eu levei uma fechada. Não consegui ficar quieto. Fui seguindo o sujeito que me fechou por uns quinhentos metros. Até que ele parou. Continuei berrando. Ele desceu do carro com um pedaço de pau e amassou o capô do meu carro. Fiquei paralisado. E aquilo mudou a minha vida. Pensei: "Que mundo mais violento, que sociedade mais perigosa! Ainda bem que o cara não me machucou! Ufa! Beleza!". Foi ali que começou o "beleza!". Senti um baita alívio quando falei "beleza!". Senti que estava blindado, protegido. Foi mágico. Virou uma espécie de mantra.


Minha vida melhorou muito desde então. Minha esposa me chama de tonto. Beleza! Meus filhos respondem atravessado. Beleza! Eu tinha um chefe mandão. Ele gostava de judiar do pessoal. Ele adorava pedir algo urgente no final do dia. Eu ficava até tarde na minha sala. Eu via que ele passava por mim com uma risadinha. Antes do "beleza!", eu imaginei umas duzentas maneiras de matar aquele cara. Pensei em veneno no café, facada no pescoço, tiro na cara, atropelamento na garagem. Eu não estava bem.


Depois do "beleza!", ele vinha e pedia as coisas de sempre. Comecei a responder: "beleza!". E fazia tudo cantarolando. Tudo bem, eu estava sendo sacaneado, mas eu conhecia gente que não tinha emprego. Então, beleza! Eu despachava a papelada e preparava apresentações sorrindo, quase gargalhando. A vida é boa.


Viu, vocês precisam saber: ser feliz dá dinheiro. Eu percebi isso poucos meses depois do primeiro "beleza!". O pessoal da empresa começou a perceber que eu contagiava todo mundo ao meu redor. Eu trabalhava numa grande empresa, com várias filiais espalhadas pelo Brasil. A turma do RH começou a me chamar para dar palestras em várias unidades. Foi uma surpresa quando recebi o convite. Vou falar sobre o quê? Ora, sobre você, sobre a vida.


Eles deram algumas semanas até eu preparar a primeira palestra. Passei horas mergulhando nos vídeos da internet. Antes eu achava tudo um lixo. Eu achava brega pra caramba. Como eu era tonto! Hahahahaha! (Palestrante e plateia soltam uma gargalhada.) Comecei a ver os vídeos com menos preconceitos. Encontrei coisas maravilhosas. Eu parecia um louco. Eu ria e chorava de madrugada. Coitada da minha esposa! Hahahahaha! (Apenas o palestrante ri.)


Mas eu não quero ficar falando só sobre a minha vida. Eu só preciso dizer que comecei as palestras e não parei mais. Eu virei uma estrela. Gente de outras empresas passou a me procurar. Tive que pedir demissão. E foi justamente para o chefe que me atormentava! Beleza! Hahahahahaha! (Apenas o palestrante ri.)


E agora eu estou aqui. Eu estou vendo que todos vocês querem ser felizes. Oba, eu sou o "tsssssss!" de vocês. Vamos relaxar! Levantem os braços! Respirem fundo! Fechem os olhos! Isso! Agora eu vou levar as carteiras e os celulares de vocês! Hahahahahaha! (Só o palestrante ri. Algumas pessoas da plateia ficam um tanto apreensivas.) Brincadeira! Agora pensem num gramadão. Agora pensem nos bichinhos andando no gramadão! Que beleza! Hahahaha! Beleza! Vocês precisam dizer "beleza!". Digam agora: beleza! Isso!


Mas pensar no gramadão é fácil. Vejam como funciona a técnica. Vocês estão no trânsito. No carro ao lado, o cara está cutucando o nariz, tirando meleca mesmo. Está um baita calor. Você avança um pouco. O carro da frente passa no sinal vermelho e quase atrapalha uma moça que está com um filhinho. Foi por muito pouco. Ufa! Beleza! Vocês abrem o Facebook e percebem um monte de gente espalhando os boatos mais bizarros sobre figuras da política. Vocês têm que dizer: beleza! Que pessoal criativo! Vocês estão vendo um programa de notícias na televisão. Aparecem cenas de grupinhos querendo dar porrada nos estudantes que estão ocupando algumas escolas. Vocês percebem na hora que esses grupinhos que querem dar porrada nos estudantes estão louquinhos para executar ações maiores, e mais sangrentas. Beleza! Vocês terão histórias para contar. E que histórias! Os grupinhos virarão grupões! Que louco, né?


Daria para ficar um tempão dando exemplos. Mas vou parar por aqui. Acabou meu tempo. Vocês podem entrar no meu blog. Lá vocês podem ler um monte de textos que eu escrevi. Ah, e vocês podem ver um monte de vídeos legais. É isso.


E não se esqueçam: quando tudo ficar ruim, digam "beleza!". (Plateia aplaudindo. O palestrante está com os olhos marejados.)