LETRA VIVA


Carta para o homem que só vai à livraria para beber café




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com



Caro homem que só vai à livraria para beber café,


Posso começar pedindo desculpas? Nada tenho com a sua vida. Tenho pavor das pessoas que ficam ditando regras por aí. E você sabe que o mundo está apinhado de gente assim. Entremos num acordo: esta carta é um conselho de amigo. Pode ser?

Você não sabe quem eu sou. Nunca trocamos palavras. Nem chegamos perto de um discreto cumprimento. Apenas dividimos, por alguns momentos, o espaço da cafeteria da livraria. E é a partir disso que eu quero fazer algumas considerações.

Se eu ganhasse dez centavos a cada vez que ouço que toda livraria deveria ter uma cafeteria, eu estaria rico. Não é pouco rico; é rico mesmo, pode acreditar. Muita gente associa a xícara de café ao processo da leitura. Não sei se isso é certo ou errado. Gosto de café, até abuso do dito cujo, mas acho meio exagerado esse vínculo com os livros.

A cafeteria na livraria pode ser uma armadilha. Não estou me baseando em estudos aprofundados, desses repletos de gráficos em formato de pizza. É puro achismo mesmo. Minha convicção vem do que tenho visto ao longo de vários anos. Cansei de ver livrarias que constroem anexos que abrigam a sacrossanta cafeteria. E o que vi nesses anos todos? Muita gente passando reto pelos livros, para ocupar as mesinhas da cafeteria. E essa gente fica horas bebericando uma ou outra xícara de café. Quase ninguém pede os salgadinhos e docinhos refinados.

E o que eu acho disso? Acho que é uma tristeza sem fim. Eu penso na pessoa que é dona da livraria. Essa pessoa escolheu um ponto com carinho. Levou os familiares para ver a reforma. Construiu sonhos grandiosos. Todos ao seu redor merecidamente orgulhosos. Depois ele pensou em algo para incrementar o negócio: a cafeteria, lógico. É que ele também passou a vida ouvindo que tem que ter cafeteria na boa livraria. Como bom empreendedor, ele soube ouvir a clientela. E ele caprichou na livraria e na cafeteria. Claro que caprichou muito mais na livraria. A cafeteria seria a cerejinha lustrosa do bolo. Ninguém em sã consciência pensa em ganhar fortunas servindo mesas que, num intervalo de duas ou três horas, pedem dois cafés e uma água com gás.

E chega o dia da inauguração da livraria. A pessoa dona da livraria gastou os tubos para oferecer o que há de melhor nesta vida. No caso do ramo livreiro, essa pessoa que é a dona da livraria firmou acordo com as melhores editoras do Brasil. Escarafunchou dezenas de catálogos. Estudou como um agudo estrategista a posição dos livros. Contratou vendedores e vendedoras que entendem do riscado. Pensou com carinho na música ambiente. Escolheu os melhores quitutes para a cafeteria. Tudo é festa na inauguração e nos dias seguintes. Na noite de festa, só há elogios e promessas. Nos dias seguintes, os curiosos aparecem. Os elogios ainda brotam. E pouco depois começam os dias mais amargos. Os livros bacanas ficam olhando tristonhos das prateleiras. Quem aparece está em busca da autobiografia do youtuber. Muita gente reclamando do preço. Mas acham o espaço descolado pra caramba. É gostoso estar ali. E assim começa o fenômeno da livraria que é ocupada pelos fregueses da cafeteria. Você é um desses fregueses da cafeteria. Eu também. Mas há uma diferença crucial: eu sempre estou comprando livros. Não fico ocupando a mesa por tanto tempo assim. Eu sei que você fica horas na sua mesa. Eu tenho as minhas fontes. Mentira. É só ter um pouco de senso de observação. Se fica muitas horas ou poucos minutos, você, com razão, perguntará o que eu tenho com isso. Nada, eu não tenho nada com isso. O problema é que, admita, você não desgruda do celular. Pior: você urra quando está usando o celular. Não tem como não ouvir o que você diz. Já ouvi você dizer que estava ocupadíssimo naquele momento, o que é uma mentira deslavada. Você estava fuçando alguns perfis no Facebook. Já ouvi você dizer que estava entrando numa reunião. De novo, mentira. Você estava vendo uma entrevista do Tiririca. O que eu gostaria de dizer é bem simples. Apesar de ficar irritado ao perceber que você transformou a cafeteria num escritório, tenho que ficar na minha. Apesar de ficar constrangido com as suas mentirinhas, tenho que ficar na minha. Agora, e aí já é problema meu, gostaria de pedir o seguinte: não berre, enquanto estiver falando no celular, como se estivesse num pregão na Bovespa nos anos 80. Esse tempo já passou. Pense nisso.

Um grande abraço!


Carta ao vendedor da loja de roupas




Nelson Fonseca Neto

Prezado vendedor da loja de roupas,
Quero deixar bem claro: seu emprego é honesto, e nada tenho contra ele. Você vai ler algo rabugento, e não quero que você me interprete mal. Nada tenho contra a sua profissão. Sou o primeiro a reconhecer: tenho ficado mais implicante com o passar dos anos. Já fui um sujeito mais brando. Por muitos anos, aceitei gostosamente as chatices desta vida. Por incrível que possa parecer, eu encarava um congestionamento, desses que abundam no período natalino, numa boa. Eu também me virava bem nas filas. Quando alguém puxava conversa, ainda que fosse uma conversa meio besta, eu respondia com cordialidade. E não era forçado. Talvez você não saiba: sempre ando por aí carregando livros. Perdi a conta de quantas vezes, no elevador, tive que falar a respeito do livro que eu estava lendo. E não era forçado. Eu achava que fazia parte da vida civilizada.

Feliz ou infelizmente, tudo mudou. Eu fico bufando no carro quando vejo as barbeiragens que tornam a nossa querida cidade tão célebre. Faço malabarismos para evitar os piores horários dos caixas eletrônicos. No elevador, meu esforço é hercúleo na tentativa de manter o verniz civilizado. Você, querido vendedor, está lendo esta carta e já está pensando: Neto, você virou um chato, um cricri. Se pensou assim, acertou.

Não tenho orgulho da minha chatice. As coisas são como são. Usando uma imagem meio brega: minha chatice é a água que escapa, incontrolável, da vasilha. Seria exaustivo elencar as situações nas quais minha chatice mostra sua cara hedionda. Mas fiquemos com uma situação que diz respeito a você e explica o porquê desta carta. Serei categórico. Ir a uma loja de roupas é uma das situações mais tétricas do meu humilde cotidiano. A culpa não é sua. Estou tentando, aqui, entender o que se passa comigo. Espero que você suporte algumas confissões.

Sou corpulento. Jeito rebuscado de dizer: sou gordo. Não um gordo imenso, mas sou gordinho. Gordinho e alto. Você, que é do ramo, sabe que não é fácil suprir as demandas de um gordinho grandalhão. As marcas que abastecem sua loja dão mais atenção aos homens magros. Até dá para entender. Cada vez mais as pessoas estão em busca do corpo perfeito. Vale recorrer a tudo: dietas malucas, baldes enormes de suplementos, maratonas sob as condições mais adversas, consultas a nutrólogos, sofrimento com o personal trainner. Claro que um cara que segue tudo à risca desejará uma camiseta colante, uma camisa que valorize o peitoral malhado, calças que entram no corpo depois que as pernas são besuntadas com vaselina. A camisetona é o emblema do desleixo. A camisa grandona é o sinal do fracasso. É assim que a banda toca. Não estou dizendo que os sarados devem ser prejudicados. Nada disso. Eu apenas gostaria que as lojas fossem mais democráticas em suas ofertas. O gordinho também gosta de uma camiseta estilosa. Idem para as calças e camisas. Seria o mundo ideal. Só que o mundo não anda lá muito bem.

Resta o conformismo. Se não encontro facilmente as roupas do meu sonho, eu, no mínimo, espero sinceridade de quem trabalha nas lojas. Tudo seria muito mais tranquilo se você, por exemplo, dissesse, logo de cara: não há a menor chance de você encontrar algo em nossa loja. Só que nunca é assim. Não sei se você é um otimista nato, não sei se é culpa do treinamento que a loja dá para vocês, não sei se você espera um milagre. Enfim, pode ser um monte de coisas. Só acho meio chato quando você alimenta esperanças vãs. Você sabe muito bem do que estou falando. São as situações em que você sorri e afirma: vou achar umas coisas legais. E então você sobe uma escadinha caracol e volta minutos depois com várias peças nas mãos. Nessas horas, eu dou uma rezadinha, torcendo para que tudo dê certo. É que eu já imagino os minutos futuros. Sei que sofrerei na cabininha. Sei que estará quente pra burro. Mas a esperança nunca morre. E então vou provar as peças que você trouxe. Minutos e malabarismos depois, todo suado, parecendo um egresso de uma trincheira, saio vestindo calças ridiculamente apertadas. As condições adversas embotam meu julgamento. Nesses minutos críticos, preciso que alguém diga a verdade. Mas a verdade nunca é dita. Quando muito, você diz: esse tecido é assim mesmo; depois ele fica mais folgado. Quando ouço tais palavras agourentas, sei que, mais uma vez, perdi o jogo.

Por favor, não faça mais isso. A verdade pode doer, mas, tempos depois, ela é um bálsamo.


Carta ao homem da moto




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


Prezado homem da moto:

Sou antiquado, e por isso decidi conversar por meio desta carta. Espero que você e os seus estejam bem. Por aqui, tudo na santa paz. Melhor dizendo: quase tudo na santa paz. Infelizmente, você tem participação no que eu acabei de escrever.

Quero acreditar que você não faz o que faz de propósito. Às vezes essas coisas acontecem. A gente se sente feliz, pleno, e esquece que essa nossa alegria pode perturbar as pessoas do entorno. Você não faz de propósito, tudo bem. Eu entendo. E espero que você entenda que eu não escrevo esta carta para constranger a sua felicidade.

Moramos no centro da cidade, pertinho da Moreira César e da Eugênio Salerno. Como você bem sabe, são vias importantes da nossa cidade. Por elas passam diariamente milhares de carros, motos, ônibus e ambulâncias. E, aqui, eu preciso confessar: gosto dessa movimentação. Sempre fico angustiado no campo ou numa praia deserta. Isso não quer dizer que eu não goste de natureza, de mato, dessas coisas. Gosto, só que longe. Gosto, só que muito de vez em quando. Deus me livre morar nesses condomínios mais afastados da cidade! Respeito profundamente quem mora nesses lugares, é mais tontice minha, mas não consigo me imaginar morando num lugar em que o único barulho é o cantar de um grilo.

Mas há limites nesta vida. E a sabedoria é saber quais são eles, esses limites. Quando o sujeito decide morar numa região central, ele sabe que não ouvirá facilmente o canto da cotovia ou que não verá um tatu brincando em seu gramado. Na verdade, o sujeito que decide morar numa região central abriu mão do gramadinho. Coisas da vida. Pois bem, o sujeito que decide morar numa região central sabe que as ruas perto do seu apartamento ficarão congestionadas boa parte do dia. A cidade não pode parar. Ele, o nosso sujeito, pode dar, de vez em quando, umas bufadas quando a coisa está mais apertada no fim da tarde. Mas é uma bufada inofensiva. Ele jamais poderá alegar que levou gato por lebre. Mas não é por isso que ele, o nosso sujeito, deva sofrer além da conta. Ele abriu mão do gramadinho, ele não verá bichinhos no quintal, ele não dará longas caminhadas pelo bosque do condomínio fechado; enfim, ele abriu mão de muitas coisas, e ele não precisa ser castigado por isso. Foi opção dele, e essa opção deve ser respeitada. Ele não precisa de torturas complementares. Por incrível que possa parecer, o sujeito que decide morar numa região central trabalha e ganha seu dinheiro honestamente. Por incrível que possa aparecer, ele acorda cedo. Veja o nosso caso. A Patrícia e eu acordamos cedo. Não trabalhamos pouco. Montamos nosso apartamento com esmero. Gostamos de ficar nele. Parecemos dois caramujos nas horas vagas, e isso é bom. Nossa sintonia é quase perfeita. Só não é perfeita porque a Patrícia consegue dormir bem mais cedo do que eu. Acho que sei os porquês: consciência leve e ingestão moderada de café. Da parte dela, claro. Promessa para 2018: diminuir o café. Quanto à consciência leve, acho que não é um problema para mim. A minha não está pesada. Escrevi o que escrevi algumas linhas acima só para fazer graça mesmo. E só agora me dou conta da minha gafe. Você é um homem da velocidade e está sendo obrigado a ler uma carta repleta de voltas e de informações desnecessárias. Peço desculpas, mas vai assim mesmo. Daria um trabalhão escrever tudo de novo. Não sei se eu disse: sou meio preguiçoso. Fiquemos assim: eu durmo tarde, e a Patrícia dorme cedo. Ela dorme, e eu fico vendo televisão e lendo. Tento não ser barulhento. Você poderia dizer que eu poderia fazer essas coisas lá na sala, enquanto a Patrícia dorme o sono das justas. Sim, eu poderia. Mas tem graça deixar a Patrícia sozinha? Tem graça ler um livro sem ouvir a respiração dela? E, como eu disse, faço tudo quietinho. Tomo muito cuidado na hora de virar a página. Estou descrevendo algo que acontece perto da meia-noite. Estou descrevendo algo que acontece perto da meia-noite de uma terça-feira, por exemplo. Sou um artista do silêncio, mas o que acontece? Ora, o que acontece é o seu divertimento, caro homem da moto. O seu divertimento e o dos seus amiguinhos. Vocês resolvem tirar uma corridinha tarde da noite. Vocês pilotam motos potentes. O barulho é terrível. Pode ser maravilhoso para vocês, mas é terrível para nós. Eu perco a concentração na leitura, e a Patrícia acorda. Acho imperdoável.

Por favor, pare. Muito obrigado.


Caio (conto - final)




Nelson Fonseca Neto

Quando fui contratado, vi o tamanho do buffet e pensei: isso não vai durar muito tempo. Eu estava enganado. É só dar uma olhada na lista de reservas. Estamos lotados até o fim do ano que vem. Eu deveria estar contente. Significa que tenho emprego garantido nos próximos meses. É só não fazer besteira. O problema é que nunca estamos satisfeitos. Vira e mexe, a gente começa a pensar numas besteiras.

Como eu disse antes, gosto de ler. Minhas leituras nada têm a ver com algo acadêmico. Não tenho disciplina, não tenho paciência. Não consigo me imaginar acatando orientações de leituras, seguindo bibliografias, escrevendo teses empoladas. Leio muito, mais do que qualquer outra pessoa, mas pauto minha vida pelo autodidatismo e pelo princípio do prazer. Se o livro me aborrece, largo na hora. Não sei quem disse esta verdade: não é preciso comer o ovo inteiro para saber que ele está podre.

Se um dia eu pegasse uma folha de papel e fizesse nela duas colunas, uma com os prós e a outra com os contras do meu vício de leitura, tenho certeza de que a coluna dos prós seria bem maior: a gente conhece vários lugares sem sair de casa; a gente viaja no tempo; a gente vê melhor o mundo ao redor; a gente conhece personagens fascinantes; a gente escreve melhor; a gente não passa vergonha; o pessoal olha com mais respeito pra gente. Tudo muito bonito. O drama é que cada tópico, tomado isoladamente, é fraco, pouco convincente. Leio bem, falo bem, escrevo bem, mas vejo um monte de gente conquistando muito mais coisas. Nessas horas, eu me sinto um otário. Se eu abrisse mão da minha vida de caramujo e gastasse mais energia com bajulações, politicagens, vida acadêmica oficial; enfim, se eu fizesse essas coisas todas, eu certamente não estaria trabalhando num buffet infantil. E é nessas horas também que um olhar mais atento para a coluna dos contras mostra que ler pra burro pode ser um grande, um enorme problema: a gente fica mais inconformado; a gente não cai em conversa mole; a gente passa a desprezar a humanidade. E então a gente começa a pensar numas besteiras. É apenas uma questão de ligar os pontos.

Claro que o ambiente de um buffet infantil favorece o surgimento e o fortalecimento dessas besteiras. Não precisa ser um gênio para notar os horrores que pululam numa festa de criança. Primeiro que nós, os que trabalhamos no buffet, somos invisíveis. Até aí, nada de novo. O Fantástico, se não estou enganando, fez um programa em que a Camila Pitanga se disfarçava de faxineira num shopping center no Rio de Janeiro. Ninguém a reconheceu. Lógico que depois veio o apresentador comentando, com voz de choro, o que as pessoas tinham acabado de assistir. Ou seja: a idiotice de sempre. Mas não importa. Pelo menos, eles mostraram algo que acontece. Pensando melhor, ser invisível para os frequentadores de uma festa de criança não é tão ruim. Poderia ser pior. Nada mais imbecil do que rico com a consciência pesada. Aquela história furada de ser amigo do porteiro, de dizer que a empregada doméstica é quase da família, de cumprimentar o frentista do posto de gasolina com um toque espalhafatoso de mãos, de ficar fazendo gracinha com o garçom. Melhor ser invisível mesmo. O problema é que a invisibilidade não traz a cegueira nem a surdez. Não tem como não ver aquelas camisas com um cavalo gigante perto do peito. Também pode ser um jacaré. Não tem como não ouvir os comentários sábios a respeito de política. Não tem como não ouvir as dicas marotas de investimento. Não tem como não ouvir os relatos cafonas das viagens. Não tem como não ouvir os planos para a viagem do fim de ano. Isso que eu não cheguei às crianças. Melhor não comentar. Elas são vítimas. Com os pais que frequentam o buffet, dá para entender por que são arredias, grosseiras, mimadas, arrogantes. Mas não é culpa delas.

A gente soma essas peças todas e pensa num monte de besteiras. Conversar com o pessoal da cozinha para que os alimentos sejam preparados com ingredientes vencidos? Seria arriscado. Preciso do emprego. Sabotar a fiação? Eu não quero morrer num incêndio. Judiar das crianças? Eu já disse que elas não têm culpa. Afrouxar os parafusos de um dos brinquedos mais arriscados? Eu sou intelectual. Nem imagino como fazer uma coisa dessas. Enfim, a gente pensa numas besteiras, mas elas passam. Não sei se isso é bom ou ruim. Não sei o que vai acontecer quando elas não passarem.

(Fim do conto.)


Caio (conto - primeira parte)




Nelson Fonseca Neto

O mundo está emperrado porque as pessoas ficam presas na superfície das coisas. Eu sei muito bem do que estou falando. Não aprendi isso nos livros, apesar de ler bastante. Aprendi isso na prática.

As pessoas olham para mim. O que elas encontram? Um piercing no nariz, um alargador de orelha, um monte de tatuagens nos braços. Tem também este meu jeito espevitado. Não tenho culpa de ser magricela, de fazer exercícios regularmente, de comer bem, de dormir como uma pedra. Tem também o meu trabalho: monitor de buffet infantil.

As pessoas olham para mim, elas observam o meu trabalho, ficam atentas aos meus movimentos no meio da criançada. As pessoas processam essas informações todas e chegam ao veredito: molecão meio bobo. Mais: trabalha para ter um dinheirinho para gastar nas baladas.

Se bem que eu colaboro. Eu visto a carapuça. Faço questão de parecer meio bobo. (Eu ia dizer "leviano", mas acho que "bobo" é mais certeiro.) Acabou virando uma espécie de jogo. Seria uma terapia heterodoxa. Li, não lembro onde, que é saudável recuar um passo e observar o espetáculo da vida. Se a gente consegue fazer isso, não leva a vida tão a sério. Rir de si mesmo, dizem, é sinal de sanidade mental. Não sou a pessoa mais autorizada para confirmar se isso é certo. Não importa. Só sei que tem dado certo comigo. Não posso reclamar da vida.

No buffet infantil onde eu trabalho tudo custa uma fortuna. Ele ocupa um prédio imenso numa das regiões mais valorizadas da cidade. Sei que o dono gastou uma grana pesada. Tem brinquedo de tudo quanto é tipo. Tem videogames de última geração e fliperamas retrôs. Tem uma pistinha de kart. Tem uma discoteca minúscula, muito bem abastecida: luzes coloridas, globos, gelo seco, som potente. Tem um salão onde a criançada fica duelando com armas que emitem laser. O pessoal da cozinha prepara bolos gigantescos. É boa a variedade de salgadinhos e docinhos. Resumindo: o preço é caro, bem caro, mas o serviço não deixa a desejar.

Quer dizer, sempre tem alguém que reclama. Não é fácil ter clientes com grana. Sempre tem alguém que diz que os salgadinhos não estão muito quentes, ou que os refrigerantes não estão gelados, ou que não tem determinada marca de cerveja, ou que o Juquinha torceu o tornozelo porque um dos monitores estava distraído, mexendo no celular, ou que uma das monitoras foi grossa com a Mariazinha, ou que a música está muito alta, ou que não dá para ouvir direito a música, ou que o garçom fez cara feia quando um dos convidados adultos fez uma reclamação, ou que tem um mendigo aporrinhando perto da porta de entrada. Enfim, sempre tem rolo, mas nada que chegue a atrapalhar a reputação do buffet.

É até engraçado. Temos uma página no Facebook. O dono contratou alguém para fazer as postagens. Não tem mais essa história de folhetos ou de anúncio nos jornais. Faz muito tempo que não tem propaganda no rádio. Tudo rola nas redes sociais. As postagens da nossa página no Facebook são atualizadas diariamente. As fotos da mesa de doces chamam a atenção. Tem também uns vídeos com os brinquedos de maior destaque: a tirolesa, o teleférico, a pistinha de kart. Muita gente comenta. Eu até levei um susto no início. Nunca imaginei que tanta gente era doida por buffet infantil. As perguntas são de tudo que é tipo. Quanto custa a festa. Se dá para fazer festas mais modestas. Se dá para levar bolo de fora. Se dá para levar salgadinho de fora. Se tem manobrista. Se tem equipe para filmar e fotografar a festa. Se dá para levar trezentas pessoas, entre crianças e adultos.

Quando fui contratado, vi o tamanho do buffet e pensei: isso não vai durar muito tempo. Eu estava enganado. É só dar uma olhada na lista de reservas. Estamos lotados até o fim do ano que vem. Eu deveria estar contente. Significa que tenho emprego garantido nos próximos meses. É só não fazer besteira. O problema é que nunca estamos satisfeitos. Vira e mexe, a gente começa a pensar numas besteiras.
(Fim da primeira parte. Continua na semana que vem.)


Otília (conto - final)




Nelson Fonseca Neto

E foi assim, de puxadinha em puxadinha, de levantadinha em levantadinha, que o meu rosto ficou monstruoso.

No começo a gente não percebe. A gente acha que está abafando. Todos os olhares se voltam para gente. E não tem como não achar que é inveja ou paquera. Sinceramente, passei da fase da paquera. Conhecer as próprias limitações é a estrada da sabedoria.

Meu coração está trancado, e eu joguei a chave fora. É complicado. Sempre aparece um gigolô. Vai ver que é por causa das bijuterias que eu uso. Não são bijuterias vagabundas. Elas chamam a atenção. Tem gente que acha que são joias de verdade. E essa gente acha que eu sou rica.

Aí, uns caras percebem que eu ando arrumada, que eu tenho uma certa idade. Olham para a mão esquerda e não encontram a aliança. Devem pensar: lá vai a carente, lá vai a trouxa, vou amarrar meu burro. Eu seria capaz de escrever um livro, uma antologia das cantadas furadas. Nunca caí nessas historinhas. Já basta ter a cara deformada.

Eu bem que queria ver a cara desses sujeitos se vissem o saldo da minha conta corrente. Eu acho que ficariam com dó. Capaz de alguém oferecer um empréstimo para a pobre coitada. O que eu tenho dá para pagar o aluguel de um apartamento minúsculo. Sobra um pouco para a TV a cabo e para a conexão da internet. Uma vez ou outra, uma garrafa de rum. Quando eu encho a cara, eu fico contentinha. Não dou vexame: bebo sozinha, no aconchego do lar. Evito exagerar. Tenho pavor de ressaca.

Quando estou calibrada, fica mais fácil encarar o espelho. É um treco mágico. Volto a ter o rosto de antigamente. Quando eu tinha uns vinte e poucos, eu fazia sucesso nos bailes. Bons tempos, ótimos tempos. Só que eu era desbocada. Tirava sarro dos homens e mulheres que dançavam durinhos. E isso acaba afugentando. E aí, para ficar com fama de biruta, é fácil, fácil.

Sempre é complicado acordar na manhã seguinte. Não consigo acordar tarde. Mesmo que eu durma às quatro da manhã, sempre acordo antes das sete. Eu rezo para voltar a dormir. Pena que nunca deu certo. Eu acordo com aquele gosto ruim na boca e vou ao banheiro. Antes de enfrentar o espelho, tomo um banho bem gelado. Faço umas massagens no rosto. Chegou a hora do espelho. Sempre me assusto. E sempre tenho vontade de dar uns tapas na minha cara. Como foi que cheguei a este ponto?

Simples. Ganância, falta de noção, perfeccionismo, ingenuidade. A primeira plástica ficou boa. Nem parecia que eu tinha feito a cirurgia. Esse é o problema. A gente, quando entra nessa, não se contenta com um mero retoque. A gente passa a acreditar em milagres. E assim fui engrenando as plásticas. Pergunte se apareceu um médico para botar um freio na coisa. Nada, ninguém. Pergunte se algum conhecido falou para eu parar. Só recebi elogios. Valorizavam a minha coragem, a minha ousadia. Naquela época eu não percebi que eles queriam ver, isso sim, uma encenação, ao vivo, de Frankenstein. E assim fiquei com esta carranca. Posso ter cinquenta anos ou oitenta. Parece bom, mas não é.

Com uma cara destas, ou eu uso um véu ou eu abro mão de ser discreta. Eu posso falar baixo, meus gestos podem ser lentos e calculados, eu posso falar coisas amenas, mas não adianta. Eu sempre serei a aberração. Ora, melhor mergulhar fundo, sem medo. O nome disso é coerência. O negócio é ser escandalosa em tempo integral. Acho que é a minha vingança. A reprovação das pessoas é o meu combustível. Tento não deixar isso claro. Faço cara de boba. Que essas pessoas pensem que eu sou meio atrapalhada. O meu negócio é chocar. Não foi assim de uma hora para outra. Ser quem eu sou exigiu sabedoria.

Tanto é assim, que eu transformo o ato de dirigir o meu carro no estacionamento da igreja em arte. É a arte de fazer barulho. É a arte de fazer barulho com os saltos altos. É a arte de me espremer num cantinho. E tudo isso com a expressão mais plácida deste mundo. O padre celebra a missa, um monte de gente pensa mal de mim. Inclusive o cara que se acha escritor, e que certamente está criando uma história para mim. Uma história, imagino, triste, trágica. Coitado, quem ri por último sou eu.

Sempre.

(Fim do conto.)


Otília (conto - primeira parte)




Nelson Fonseca Neto

E esse maldito semáforo que não abre! Estou atrasada. Eu sempre estou atrasada. Tenho certeza de que o estacionamento da igreja está cheio. Ufa, abriu.

Eu não aprendo mesmo. Sessenta anos na lomba, e eu não aprendo. Desde menina levo bronca por causa dos atrasos. Tentei de todas as formas resolver o problema. Nunca deu certo. As pessoas que me conhecem levam na brincadeira.

Eu bem que gostaria de saber por que estou atrasada hoje. Fiz tudo direitinho. Não enrolei na internet. Fui ao supermercado mais cedo. Tomei um banho mais rápido. Não dá para abrir mão do banho. Detesto gente desleixada. Por exemplo, na igreja: tem um monte de marmanjo de bermuda e tênis sem meias.

Eu sei, eu chego atrasada, é meio chato. Já tentei parar o carro na rua lateral. Quebrei a cara. Fui assaltada. Levaram a bolsa. Por pouco não levaram o carro. Aí, sim, eu estaria frita. Eu me recuso a pagar seguro. Quando quase levaram o carro, pensei: sua otária, custa pagar o seguro? Não levaram. E o arrependimento passou.

Oba, acho que vou parar numa vaguinha boa. Será que é o meu dia de sorte?

Droga! Lotado! Esse povo não tem o que fazer? Vou ter que parar, de novo, lá no cantinho, perto do muro. É um inferno para sair do carro. Eu sempre raspo a porta. E sempre faz um barulho esquisito, que chama a atenção. Claro que vão olhar torto. Toda semana é assim. Já me conhecem. Para eles, eu sou a velha que não tem noção das coisas mais básicas. A velha que não consegue perceber que a porta do carro sempre bate no muro.

Só que eu tenho noção. Quer saber: dane-se. Vou parar do mesmo jeito. É uma igreja com puxadinho. Se eu contar para quem não é da cidade, vão achar que eu sou mentirosa. É que estão reformando a igreja. Sei lá quando vão terminar. Acho que vai demorar. A lateral do puxadinho é vazada na lateral. Quem está no puxadinho vê quem chega ao estacionamento. E é claro que as cabeças estão viradas para mim neste exato momento.

Melhor fingir que sou meio boba. Quero ver quem tem coragem de falar alguma coisa. Tratem de engolir a raivinha de vocês. Faço questão de puxar o freio de mão bem forte. Quero fazer barulho mesmo. E eu vou bater a porta mais forte que o normal.

Nunca tem lugar para sentar. Pudera: o lugar é minúsculo. Vou ter que ficar em pé, meio escondida. Não vai dar para ver o padre. Só vai dar para ouvir. Mas não tem problema. Só de ouvir já basta.

Eu gosto de pensar na vida durante a missa. Não estou querendo dizer que eu gosto de pensar em bobagens como contas atrasadas, jantar de logo mais, viagem de fim de ano, essas coisas. Eu sei que esse pessoal besta que fica me olhando torto só pensa nessas coisas. Fazem cara de santo, mas só têm minhoca na cabeça. Eu, não. Eu penso em coisas mais sérias. Por exemplo, na besteira que eu deixei fazerem no meu rosto.

Só as pessoas mais chegadas sabem quantos anos eu tenho. Dou um prêmio para o desconhecido que conseguir adivinhar quantos anos eu tenho. Eu não digo essas coisas com orgulho. Nada dessa história de ser meio velha e parecer bem mais jovem. Quer dizer, era para ser assim se tudo desse certo. No início, era só para tirar umas rugas, dar uma puxadinha na pele do pescoço, essas coisas.

Pena que nunca é do jeito que a gente sonha. Mexer na cara vicia. Você sempre diz, no começo, que é um retoquezinho de nada, que ninguém vai perceber. Bela ilusão. Você faz a primeira cirurgia, percebe que a coisa toda deu uma melhorada e já começa a pensar na seguinte.

E foi assim, de puxadinha em puxadinha, de levantadinha em levantadinha, que o meu rosto ficou monstruoso.

(Fim da primeira parte. Continua na semana que vem.)


A pedra, o martelo e duas pitadas de insanidade




Nelson Fonseca Neto

Quem não gosta de ler um bom ensaio? É difícil explicar o que é um ensaio. Pode ser um texto sobre qualquer coisa. Já li ensaios brilhantes que tratavam de poltronas, de chapéus, de ensino do criacionismo. O que conta é a ousadia de quem escreve. Criatividade e lucidez. Conhecimento profundo do objeto do ensaio. É a celebração da liberdade.

Há vários ensaios certeiros sobre literatura. São textos que mostram o óbvio: literatura é prazer. Dentre os ensaios que têm a literatura como tema, um dos mais brilhantes que já li foi escrito pelo argentino Ricardo Piglia. Tem umas dez páginas. É uma jornada acelerada pelos estilos de alguns escritores consagrados. Parte de uma situação prosaica, simples de explicar. Depois, mostra como cada escritor trataria a situação prosaica. Resultado: aula genial de literatura.

Ter contato com esses textos ousados é contagioso. A gente fica com vontade de dar uns palpites. É o que vocês terão a partir de agora.
Sou o primeiro a reconhecer: a comparação é pobre. É pobre, mas não abro mão dela. Vamos lá: o escritor é um escultor e o assunto é a pedra, a matéria bruta. O escultor/escritor tem à disposição todas as ferramentas. E a pedrona lá, esperando.

Daremos uma cara mais definida à pedra. Ela é grande e representa a invasão napoleônica à Rússia. A partir disso, nossos escultores começam o trabalho. O que teremos como resultado? Vejamos.

Tolstói escreveria Guerra e paz, óbvio. Ele faria questão de conhecer cada centímetro da enorme pedra. Ou seja: ele leria milhares de livros e documentos. Sua escultura seria monumental. Não há detalhe inútil. O mosquito e Napoleão. Os políticos influentes e os soldados rasos. Moscou, Petersburgo e Borodino. Escultura de mais de duas mil páginas.

Dostoievski faria uma escultura monumental, mas sem o senso de simetria de Tolstói. Seria considerada por muitos uma aberração. Perturbaria, incomodaria. Os eventos históricos não estariam no primeiro plano. Seriam como trovões distantes. Serão percebidos, ditarão o ritmo da narrativa, mas não serão dissecados com o rigor tolstoiano. As personagens não seriam multidão. Os ambientes não seriam tão variados. A narrativa não cobriria vários anos. Poucos dias seriam espremidos. Cada minuto é crucial. Não há ação que não tenha consequência.

Machado de Assis faria uma escultura bem menor. O observador sentiria vontade de rir. Mas não seria um riso limpo. Ele, o observador, perceberia algo sinistro, algo incômodo. A Moscou dominada pelos franceses seria uma cidade com ares de normalidade. Os incêndios apareceriam, mas de um jeito bonachão. Os muito pobres fariam breves aparições. Breves, mas sempre decisivas. Muita coisa ocorreria no universo da classe média. As conversas políticas aconteceriam em festinhas. O jogo jogado seria muito mais intenso na vida interior de algumas personagens. Sobrariam algumas alfinetadas criptografadas. As comparações malucas dariam o tom.

Balzac, primeiramente, pegaria a pedra gigante e a quebraria em blocos grandes. Com ele, não teríamos uma escultura. Teríamos, isso sim, um conjunto de peças, dispostas bem próximas umas das outras. Seriam esculturas bem diferentes entre si. Cada uma teria o seu encanto.

Pode ser que algumas não fossem perfeitas. O observador relevaria. O conjunto é avassalador. Cada livro iria até as últimas consequências.

A escultura de Dickens seria de grandes proporções. O primeiro olhar do observador seria cômico. O segundo, de arrancar lágrimas amargas, muito amargas. Depois o riso voltaria. A história aconteceria em Moscou. Tudo seria assustador. O protagonista seria uma criança levando porrada de todos os lados. Depois ela encontraria a redenção. E os leitores também.

São observações meio bestas, admito. Mas não tem problema. Às vezes é bom dar uma despirocada, não?


Nostalgia, mundo retrô e confusão mental




Sou nostálgico? Sou, mas acho que na medida certa. Caminho do meio. Essas coisas de sabedoria, moderação, equilíbrio. Até parece.
Nos últimos meses, tenho visto propagandas anunciando o fim do sinal analógico das televisões. Se eu fosse um cara tranquilo, encararia isso de cabeça erguida. Melhor: não faria a menor diferença para mim. Acho que vocês são pessoas bem resolvidas, e enxergam o fim do sinal analógico como parte do curso natural das coisas. Certo? Espero que sim.
Mas não é o que acontece comigo. Vejo essas propagandas com o coração apertado. Vai ver é culpa dos publicitários. Se a notícia fosse transmitida de outra maneira, quem sabe, minha tristeza diminuiria. O que me deixa acabrunhado é o tom meio sádico. Como se, na data tal, haverá a execução, em praça pública, do sinal analógico. E as palavras que anunciam o massacre são engraçadinhas, sapequinhas.
Com a morte decretada do sinal analógico, sinto que muita coisa desaparecerá. Sei que estou dizendo besteira. Como se eu já não tivesse TV a cabo aqui no apartamento. Como se eu não visse jogos de futebol e filmes em HD. Seria muito fácil desarmar esta minha melancolia. Qualquer um com mais de dois neurônios traria argumentos consistentes. Eu sei, eu sei. Mas somos abismos. Se não fôssemos, a vida perderia a graça.
É que, no meu coração biruta, o fim do sinal analógico enterrará os programas que eu amava nos anos 1980 e 1990. Não estudei em internato na Suíça, não cantarolei óperas, não tive aulas de esgrima. Eu cresci nos anos 1980 e 1990, frequentei uma excelente escola, ganhei muito carinho e educação dos meus pais, e tive a televisão como parte importante da minha informação. Quase chegando aos 40, fico caçando programas antigos. O coração bate mais forte quando eu vejo a abertura de Fera radical, por exemplo. Bastam alguns minutos para perceber as falhas na dramaturgia, mas não tem problema. O amor não é analítico.
Releio o parágrafo anterior e penso: Neto, você não está falando de nostalgia; você simplesmente ficou goiaba. Pode ser. Nunca neguei. Sou atrapalhado mesmo.
Posso dar um sinal de alerta? O que vocês vão ler daqui pra frente será perturbador. Sim, pois boa parte deste texto é um chororô passadista. Minha angústia com esse lance de sinal analógico é bobagem. E fica fácil, quase automático, vocês pensarem: o Neto deve ser assim, anacrônico, em todas as camadas da vida dele. Eu entendo o raciocínio de vocês. Lamento dizer que não é bem assim.
Eu fico balbuciando por causa do fim do sinal analógico, mas implico ferozmente com barzinho retrô. Muitos dos meus amigos vão a esses barzinhos em busca do tempo perdido. Nossa, a mesinha é igualzinha àquela mesinha dos anos 1980! Nossa, só toca música da época da boatinha! Essas coisas. Coisas que não me atraem. Parece um treco mórbido. Exumação, sei lá.
Perguntem se eu já fui a uma barbearia retrô. Nunca. Nada contra, por favor, pessoas ganhando dinheiro honestamente. Ouço maravilhas desses lugares. Pode ser que eles sejam muito legais. Não duvido. O lance esquisito é comigo mesmo. Parece coisa de festa temática. Isso me deixa cabreiro. Vou repetir, pois acho sacanagem usar o espaço do jornal para descer a marreta: nada contra barbearia retrô! O problema está em mim! Em mim!
Não tem como não bancar o sociólogo mambembe: vivemos uma onda retrô. Se isso é bom ou ruim, eu não sei dizer. Mas há, inegavelmente, uma onda retrô. Vai parecer tiração de sarro da minha parte, mas não é. A Patrícia sempre diz que eu sou engraçado mesmo quando estou sério. Muito bem. Num primeiro momento, eu até acho bonitinho ver um Atari na vitrine. Mas passa. Fica, isso sim, um quê de incômodo. Eu falo  que o meu sonho é ter um Ford Del Rey. A Patrícia não se conforma. Ninguém se conforma. Mas acho que nunca comprarei um Del Rey. Sou nostálgico, mas também sou meio molenga. Difícil abrir mão do conforto dos carros mais novos. E assim reservo o Del Rey para os momentos de palhaçada.
E eu termino esta coluna preocupado com a minha sanidade mental. Espero que vocês entendam.


A borboleta gorda




Já escrevi quase trezentos textos para este espaço. É muita coisa. Ou nem é tanto assim. Depende do ponto de vista. Honestamente, eu acho que é muita coisa. Claro que essa opinião tem a ver com o reconhecimento das minhas limitações. Nunca fui um cara disciplinado. Várias dietas foram abandonadas sem escrúpulos. O propósito de correr diariamente foi sepultado depois do primeiro tropeção na Afonso Vergueiro.
 
Sem falar nos projetos megalomaníacos de leitura. Esses desejos grandiosos acontecem nos períodos de férias. Ah, vou tirar as próximas semanas para reler os romanções do Tolstói. Agora ninguém me segura: vou enfileirar os romances da maturidade do Dostoiévski. Os começos de jornadas até que são promissores. Pena que no meio do caminho minha volúpia costuma emitir vozes sedutoras. E assim largo os projetos faraônicos.
 
Vejam só: estou mencionando apenas algumas áreas da minha vida. Saibam que a minha instabilidade se espraia por todos os setores. Tem gente que acha bonitinho. E tem gente que desce a lenha. Fazer o quê?
 
(Mudar, dirão vocês. Não é fácil. Não é por falta de boa vontade.)
 
Quando a Juliana Simonetti, em março de 2011, fez o convite para que eu escrevesse uma coluna semanal, o ponteiro foi da euforia ao pânico. Euforia: sempre quis escrever para um jornal; muitos dos meus ídolos literários exerceram seu ofício nas colunas ágeis publicadas por diversos jornais brasileiros. Pânico: será que eu teria repertório para sustentar esse esquema de uma coluna por semana? No fim, acabou dando certo. Bom, acho que deu certo.
 
Em quase sete anos de colaboração, muita gente perguntou como eu arrumava assunto para o texto. Bem que eu gostaria de responder que sou um sujeito sério, que planeja com zelo a sacrossanta coluna. Pena que não é assim. A resposta mais honesta: depende da fase. Há épocas de exuberância criativa. E há épocas de miséria. Quando estou com a macaca, sou capaz de escrever uns três ou quatro textos num dia, sem ficar com a língua de fora. Na fase de escassez, sofro terrivelmente para escrever um mísero parágrafo. Acho que a vida é assim mesmo. O grande livro do Eclesiastes fala disso.
 
Resultado dessa junção de indisciplina com alternância de fases: uma trajetória cambaleante. Cambaleante nos assuntos. Cambaleante na qualidade. Cambaleante no humor. Cambaleante no gênero textual.
 
Não era o que eu imaginava no começo do trabalho. Eu queria escrever textos que mostrassem minha relação com os clássicos. Até que os primeiros foram assim. Mas depois, sei lá o que aconteceu, fui navegando por outras águas. Longe de mim afirmar que fui um bom marujo em todas as viagens. Acho que os contos são meio forçados. Alguns textos mais sérios saíram chatos, pedantes. Acho que me saí melhor nos textos a respeito dos anos do meu passado e nos textos que trataram de miudezas. Não que eles ficaram bons: eles apenas destoaram positivamente da média. Isso sou eu quem diz. Pode ser que vocês não concordem. Paciência.
 
Por muito tempo, abri mão de entender o motivo das oscilações. Hoje, do alto da montanha, consigo arriscar uma explicação. Os textos memorialísticos e os textos sobre miudezas são mais honestos. Vai ver que é narcisismo do cronista. Vai ver que é familiaridade com os assuntos. Não importa. O que importa é que são os que mais me deram prazer. Não deixam de ser minha terapiazinha.
 
Nunca imaginei chegar a esta fase da vida ficando empolgado com besteirinhas. Passei anos imaginando textos pesados, musculosos, solenes, categóricos. Como eu era tonto! Agora mesmo, pensando nos próximos textos, eu estava diante de uma bifurcação: escrever sobre Balzac ou escrever sobre a chatice do futebol brasileiro, cujos jogos estão marcados pela bobagem de jogadores levantando a mãozinha a cada apito da arbitragem? O Neto de antigamente escolheria a primeira opção. O Neto de hoje reconhece que a segunda opção é muito mais sedutora.
 
Acho que estou envelhecendo bem.