LETRA VIVA
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Como escrever um conto




Nelson Fonseca Neto

Hoje estou generoso. Alguns vão achar que é falta de jeito. Outros acharão que é oportunismo. Também vai ter gente achando que é falta do que fazer. Pode ser que alguém torça o nariz e diga que, diante de tanta coisa séria acontecendo, eu sou leviano.

Falta de jeito, certamente. Oportunismo, não. Falta do que fazer, também não: estou escrevendo este texto no celular, forçando os olhos, no intervalo das aulas. Sobre a leviandade: querem que eu escreva a respeito dos horrores neonazistas de Charlottesville? É fácil. Otto Lara Resende, numa de suas crônicas, resolveu a questão: dá para ser a favor do câncer? Neonazismo e câncer precisam ser combatidos. Não consigo pensar em sutilezas.

Mas falemos de outras coisas. Hoje, eu estou aqui para ensinar a escrever um conto. Ué, não tem coach para tudo nesta vida? Como arrumar o armário. O que vestir num encontro amoroso. O que dizer numa entrevista de emprego. Como turbinar as finanças familiares. Como fazer a viagem dos sonhos. O que ler nas horas vagas. Por que não ouvir os ensinamentos de um coach da literatura? Lá vou eu lançando tendências. Encarem-me como um cara de vanguarda.

Quer dizer, nem tão vanguarda assim. De uns tempos pra cá, as oficinas de criação literária pululam. Não sei dizer se isso é bom ou ruim. Talvez tenha muita picaretagem, talvez tenha gente séria no esquema. A vida é assim mesmo, né?

E eu estou aqui para dar algumas dicas sobre como escrever um conto. Nessas horas, sempre aparece um chato dizendo: se você é tão bom assim, por que não escreve, você mesmo, um baita livro de contos? Ué, só ex-craque pode ser técnico de futebol? Vocês se lembram das gloriosas atuações do Tite como zagueiro? Não? Nem eu. E tem mais: somos todos palpiteiros. Eu não posso dar meus pitacos?

A pergunta é retórica. Claro que eu posso dar meus pitacos. Não gostou, faça o seguinte: pegue está folha de jornal e... sei lá, vá embrulhar um peixe. Que susto, hein? Acharam que eu soltaria uma grosseria daquelas. Respirem aliviados. Sou manso. Estou aqui para ajudar.
Bom, chega de enrolação. Que tipo de conto escrever? São muitos os caminhos. Fiquemos com o conto de situação. Ou seja: a narrativa que destaque o enredo. Não estou dizendo que as personagens devam ser pálidas. O que estou dizendo é o seguinte: o enredo deve prevalecer.

Uma bifurcação: conto realista ou conto fantástico? Por que não o caminho do meio? Conto realista e fantástico. Certamente vocês tiveram a infância povoada por personagens de contos de fadas e contos maravilhosos. Lembram do esquemão? Adultos e crianças desprotegidos ajudados pelas fadas, pelos gnomos, por várias entidades. Ora, e o que equivaleria a isso nos dias de hoje? Por favor, estou implorando: nada de fadas rolezeiras ou gnomos malandrões batendo perna pelas ruas da nossa cidade. O que estou sugerindo é algo menos vistoso. Que tal um conto de bilhete de loteria?

Li muitos contos protagonizados por figuras que estão prestes a ganhar o prêmio. Só falta conferir o último número. A imaginação sai dos trilhos. No fim, o prêmio não sai. Sinceramente, dá para escrever um conto espetacular com um material desses. O problema é que o Tchekhov já fez isso. E, sem querer desanimar, impossível bater o Tchekhov.

Façamos algo mais rústico. Nosso personagem ganha uma bolada na loteria. Mas tem que ser bolada mesmo. Uma grana para sustentar a família do cara pelas próximas cinco gerações. Sejamos toscos. O ganhador pode ter uns quarenta e cinco anos. Ele pode ser um cara que só tomou porrada na vida. Ele pode ser banguela. Ele pode ser alvo de chacotas. Bom, vocês sabem do que estou falando. Estamos no Brasil. Pensem que o ganhador torna-se uma espécie de anjo vingador. Ele, com toda essa grana, vai espezinhar a galera. Não sobrará nada. Será um conto cáustico. Tome o partido do personagem.

Pode ser que não saia grande coisa, mas que será uma ótima terapia, ah, isso, sim, será.

O grande romance brasileiro contemporâneo (final)




Nelson Fonseca Neto

Óbvio que o grande romance brasileiro contemporâneo precisa ser monumental, exagerado, caudaloso. Chance zero de estilo contido, de controle dos adjetivos, de frases esqueléticas. O grande romance brasileiro contemporâneo precisa resgatar as delícias do Barroco.
Que fique bem claro: não a religiosidade do Barroco, e sim a maluquice, a exuberância, o descontrole, o ziguezague. É nutrir-se da sadia ambição. É saber que a vida é descontrole e desatino. É lambuzar-se na feijoada.

É deixar de lado os enredos anêmicos, encaixadinhos, minimalistas, sóbrios. É recusar o prato de salada. O colesterol baixo é encargo do cardiologista.

O enredo deve ser labiríntico. Centenas de personagens devem povoar o grande romance brasileiro contemporâneo. Evitar a tentação de escrever um romance magrinho sobre as sutis complexidades do casal entediado que mora em Higienópolis.

O grande romance brasileiro contemporâneo deve fazer o leitor zanzar por aí. Deve ter favela e deve ter casarão protegido por dezenas de seguranças. Deve mostrar a bandidagem mais chinfrim e deve mostrar a bandidagem de grosso calibre. Quem quiser escrever o grande romance brasileiro contemporâneo deve bater perna exaustivamente. Deve, também, ler como um condenado. Não pode achar que conhece a treta só de orelhada. Precisa entender de fato as relações sempre complexas. Não pode cair no papo furado de que, por exemplo, o tráfico de drogas é apenas uma questão de favelas ou de bairros periféricos.

Quem quiser escrever o grande romance brasileiro contemporâneo deve fuçar a vida intensamente. Não pode torcer o nariz para o sujo e para o fedido. Precisa saber que as ratazanas ainda mordem crianças que dormem desprotegidas no berço. Não pode ser vago. Tem que amar os detalhes.

Quem quiser escrever o grande romance brasileiro contemporâneo não pode ser ingênuo. E, ao mesmo tempo, não pode se achar o espertalhão. Precisa ter humildade. Não pode atolar no charco das generalizações manjadas. Tem que saber a fundo o que é o SUS, o que acontece na rede pública de educação. Precisa parar com a dicotomia besta que afirma que as escolas particulares são lugares paradisíacos sempre e que as escolas públicas são sempre o inferno já terra.

Quem quiser escrever o grande romance brasileiro contemporâneo precisa garimpar as preciosidades de uma reunião de condomínio. Precisa entender que aqueles dentes arreganhada por causa da necessidade de um aporte na taxa mensal revelam camadas e mais camadas do que somos.

Quem quiser escrever o grande romance brasileiro contemporâneo precisa exercitar a empatia. Não para escrever algo meloso, e sim para não gerar caricaturas sem graça. Barroco que é barroco vai até o fundo das coisas. Barroco que é barroco gosta de luz e de sombra. Amar o paradoxal é revelar o que temos de mais humano. Muitas vezes é desagradável, quase sempre é desagradável, mas é o que temos pra hoje.
As personagens do grande romance brasileiro contemporâneo devem ser tagarelas, birutas, conspiradores, craques na hora de se proferir aquela abobrinha suculenta. Criar personagens assim é, no fundo, Realismo. É muito simples: passe meia hora numa padaria em qualquer centro de qualquer cidade grande.

Quem quiser escrever o grande romance brasileiro contemporâneo não pode ter nojinho de alguns temas. Como escrever o grande romance brasileiro contemporâneo sem se lambuzar nas redes sociais? Tem como deixar de lado o futebol, o empreendedorismo, os coachs, a varanda gourmet, o queijo&vinho no clube, o show do Roberto Carlos no fim do ano, o Ratinho, a festa rave, o Michel Teló? Não tem, e tudo fascina.

No fim das contas, o grande romance brasileiro contemporâneo é uma declaração de amor à vida.

O grande romance brasileiro contemporâneo (primeira parte)




Nelson Fonseca Neto

Escrevi, na semana passada, que eu trataria, hoje, de mesas redondas futebolísticas. Mas decidi quebrar a promessa. Primeiro motivo: preciso refinar as observações que povoam minha mente; chance grande de sair um texto desengonçado, de interesse apenas para os iniciados e iniciadas no vício dos programas esportivos. Segundo -- e principal -- motivo: surgiu algo mais interessante para escrever a respeito. As mesas redondas ficam para outra ocasião.

Gosto de mostrar os bastidores desta coluna. Vocês já perderam a conta de quantas vezes eu abri o jogo e mostrei dúvidas, angústias e becos sem saída relacionados a este espaço. Tem quem goste. E tem quem torça o nariz, achando que estou embromando. Não faço o que faço para angariar afeto. E não faço o que faço por desleixo. Faço o que faço porque sinto que estamos entre amigos. Quero acreditar que as coisas funcionam assim. E como gosto de mostrar os bastidores desta coluna, vocês precisam saber como surgiu algo mais interessante que as mesas redondas futebolísticas para tratar no texto que vocês estão lendo.

O que vocês estão lendo está sendo escrito no começo da noite de domingo, dia 30 de julho. Estou deitado de lado no sofá. Se um ortopedista visse a cena, eu levaria um merecido pito. A televisão está ligada, para produzir um sonzinho ambiente. Está passando um balanço da rodada do campeonato brasileiro. Conto isso para vocês porque gosto de desmistificar algumas chatices. E uma dessas chatices afirma que o escritor precisa de um ambiente sagrado para lançar suas pérolas. É cascata. Cada cabeça trabalha à sua maneira.

Minutos atrás, bebi um café na cozinha. Sinceramente, eu não imaginava escrever a coluna hoje. Se tudo desse certo, na terça-feira. Na pior das hipóteses, na quarta à noite. Impossível na quinta de manhã: volta às aulas e a Juliana Simonetti, com razão, soaria os alarmes no jornal.

Voltando ao que interessa: bebendo café, pensei num outro assunto. Minhas epifanias costumam ocorrer na cozinha. Nada de trombetas ou luzes descendo das nuvens. Quando muito, o tilintar dos copos do apartamento do vizinho. Cada um com a epifania que é o seu número. Decidi escrever, pondo a xícara na pia, sobre o grande romance brasileiro.

Faz tempo que isso ronda meus pensamentos. Calma, pessoal, não farei um ranking da literatura brasileira. Sempre desconfio dessas coisas. Nem estou querendo dizer que não temos grandes romances brasileiros. Temos, e são muitos. Encafifo, isso sim, com a ausência de um vasto romance nos dias de hoje. Entendam: não é menosprezo com a produção atual. O problema -- quer dizer, nem sei se é problema -- é que os esforços estão rendendo excelentes contos, novelas e poemas. Ótimo, que maravilha, mas e o romanção?

Vai ver a falha é minha. Acho que bebi muito da fonte do século 19. Balzac, Dickens, Jane Austen, Tolstói, Stendhal, Melville, esse pessoal. Livros que traçam panoramas. Livros, para o bem e para o mal, ambiciosos. Hoje, o romance panorâmico não morreu em outras terras. Basta olhar com um pouco de atenção para, por exemplo, os EUA. O Thomas Pynchon, aos 80 anos, continua escrevendo romances monumentais.

Eu acho que sou meio deslumbrado. Apesar de anos trabalhando com literatura, fico besta com algumas coisas. Por exemplo, com a produtividade de algumas pessoas. Freud escreveu uma obra vasta, e tinha tempo para manter uma correspondência gigantesca, e tinha tempo para atender muitos pacientes diariamente. Tolstói escrevia seus tijolos, e escrevia contos, e escrevia novelas, e cuidava de questões educacionais em sua propriedade, e escrevia cartilhas interessantíssimas, e arrumava tretas com as autoridades russas. Fico deslumbrado e sou tomado por um inevitável sentimento de inferioridade. Puxa vida, fico resmungando quando a fila no banco está um pouquinho maior. E por aí vai.

Faço pouco, mas vislumbro muito. Sempre penso num projeto de grande romance brasileiro contemporâneo. Estou muito aquém da empreitada. Mas não custa nada sonhar, não? Se não escrevo o grande romance brasileiro contemporâneo, com quase mil páginas, imagino sobre o que ele pode tratar. É uma espécie de roteiro mental meio tacanho.

Eis que surge, depois de alguns dias adormecida, a veia de professor. E surge, também, uma promessa que não será furada. Não será furada! O motivo é óbvio: já estou escrevendo, milagre!, o texto da próxima semana. Não tem para onde correr. Ou seja: na semana que vem, vocês conhecerão o meu projeto para o grande romance brasileiro contemporâneo.

Até lá.

Papo furado




Nelson Fonseca Neto

Você gosta de papo furado? Eu gosto. Vou explicar melhor: depende do papo furado. Acho que o conceito é amplo. Pode ir da conversa com o amigo mais chegado ao discurso aborrecido.

Comecemos com o lado sombrio da coisa: conversa no elevador, reclamação na fila do banco, tagarelice de consultor de vendas, reunião de condomínio. (Talvez eu escreva, nas próximas semanas, a respeito do horror que pode ser uma reunião de condomínio.) Sou o primeiro a reconhecer que a minha paciência anda curtíssima para esse tipo de papo furado. Envelhecer tem dessas coisas.

Agora falemos das coisas boas da vida. O bom papo furado tem aparência enganosa. Parece que é nada, mas é tudo. Sei que é clichê, e penso duas vezes antes de colocar aqui, mas vamos lá. Vivemos tempos estranhos. Você deve ouvir isso umas cinco vezes por semana. Mas é verdade: vivemos tempos estranhos.

Tudo tem que ter uma finalidade prática, empresarial, gestora, sei lá. Não estou escrevendo de orelhada. Sei bem do que estou falando. Sou um frequentador contumaz de padarias. Qualquer coisa é desculpa para ir à padaria: comprar cigarro, pão, beber café, comprar alguns itens emergenciais sem precisar ir ao supermercado. Em suma, estou sempre na padaria. E, não tem jeito, acabo ouvindo algumas conversas. Bem que eu queria dizer que essas conversas são bons papos furados. Mas não são. Quase sempre são transações empresariais vagas ou demonstrações de sucesso na vida. Ou é o preço do terreno ou é conversa motivacional de quinta categoria. Parece que todos são gestores em tempo integral. Adaptando Hobbes: o homem é o coach do homem.

Pois bem, vivemos tempos estranhos, mas há salvação. Ainda é possível encontrar -- outro clichê -- oásis no meio dessa barulheira cafona. E é nessas horas que damos o justo valor ao bom papo furado. Tenho certeza de que você já passou por isso. Espero que continue passando por muito tempo. É o milagre: o que parecia ser bobo passa a ser importante. Aprenda a lidar direito com as miudezas. A vida é uma montanha dessas miudezas. Pare de olhar para o grandioso, para o glamouroso, para o estridente. Deus está nos detalhes.

O texto que você está lendo tem um baita jeito de papo furado. Talvez você ache que seja falta de respeito do cronista. Que ele deveria planejar com bastante antecedência o texto. Que ele deveria trazer revelações espetaculares. Que ele deveria emocionar ou arrancar gargalhadas. Enfim, talvez você espere algo de relevante. Bem que eu gostaria de ser mais sisudo. No começo da minha colaboração neste espaço, eu tentei. Acho que não deu certo.

Com o passar das semanas, você, que me lê fielmente, tornou-se amigo (a). Coloquei as manguinhas pra fora. E o papo furado ficou bom, pelo menos para mim. Espero que para você também.

Mas eu preciso explicar uma coisa. A coluna desta semana até que estava bem encaminhada na minha cabeça. De vez em quando acontece: três ou quatro tópicos que poderiam ter sido desenvolvidos com rigor. Aquela história de começo, meio e fim bem encadeados, tese clara, bons exemplos, mensagem relevante. Poderia ter sido sobre os livros lidos nas férias. Poderia ter sido a virulência nas redes sociais. Poderia ter sido um conto. Poderia ter sido algo fisgado no fundo da memória. Poderia ter sido sobre pavorosas reuniões de condomínio.

Estou escrevendo na noite de quarta-feira. A televisão está ligada no jogo Corinthians X Patriotas. Estou no sofá. A Patrícia está lendo ao meu lado. Já jantamos. Ainda estou de férias. Li doidamente o primeiro livro da trilogia Millennium, do sueco Stieg Larson. Ainda hoje começo o segundo livro. E estou aqui escrevendo sobre boas e más conversas fiadas. O que explica?

Algo singelo que aconteceu hoje à tarde. Vocês entenderão. Ontem, eu tinha publicado um textinho no meu perfil do Facebook. Algumas pessoas curtiram, outras comentaram. Tomei um susto ao perceber que o Marcio Guedes, um dos titãs do jornalismo esportivo brasileiro, tinha comentado. Muito educadamente, ele discordava do que eu havia escrito. Respondi com uma mensagem de tiete. Horas depois, ele escreveu novamente. O textinho era de uma gentileza e de uma generosidade raras nos dias que correm. Não tenho vergonha de dizer que ganhei meu dia. Contei para o meu pai, para a minha mãe e para a Patrícia. Todos ficaram contentes.

É o que eu disse acima: parece pouco, mas não é. Pô, o Marcio Guedes me chamou de amigo! E mandou um abraço pro meu pai! Isso merece um texto que trate das gloriosas mesas redondas futebolísticas. Semana que vem será sobre isso. Prometo algo com começo, meio e fim. Prometo trazer reminiscências dos anos 80 e 90. Prometo um papo furado mais substancioso.

Quatro amigos




Nelson Fonseca Neto

Não estou dizendo que acontece com todo mundo. Mas aconteceu comigo. Eu era meio cafona na adolescência. Vou explicar melhor.

A cafonice da minha adolescência tem a ver com o desejo de coisas grandiosas, especialmente barzinhos e boates. Eu tentava frequentar os lugares da moda na nossa gloriosa cidade. Barzinho bom era aquele com fila de umas cem pessoas. Boate boa tinha que ter contagem regressiva para marcar o início das músicas, muita fumaça, suor, pisões nos pés e cotoveladas. Nem passava pela minha cabeça, naquela época, ir a um barzinho mais ameno ou a uma boate mais civilizada. Tudo tinha que ser monumental. E cafona.

Ainda bem que passou. O envelhecimento é depuração. Nunca mais botei os pés numa boate. O barzinho da moda é o barzinho a ser evitado com todas as forças deste mundo. Tem gente que acha que é chatice da minha parte. E eu acho que é evolução.

Na quinta-feira da semana passada constatei que estou no caminho certo. Por um milagre, o Eliederson Foramiglio, meu grande amigo, armou um encontro que juntaria ele, o Flavio Digiampietri, o Luís Gustavo Nunes e eu. Foi um milagre, pois fazia muito tempo que não reuníamos a turma que era muito próxima na época do ensino médio.

O espaço desta coluna é mirrado para comportar as anedotas pitorescas da adolescência. Mas, ao mesmo tempo, não quero que meus leitores e minhas leitoras fiquem perdidos. Tentarei caracterizar as figuras com algumas poucas palavras. O Eliederson, personagem que já apareceu em textos anteriores, é a pessoa com o senso de humor mais afiado que eu conheço. O Flavio sempre me impressionou com a facilidade em todas as matérias do ensino médio. Com ele, não tinha essa história de ser apenas bom em exatas, ou em humanas, ou em biológicas. Parecia algo sobrenatural. O Luís Gustavo sempre foi, para mim, o exemplo perfeito da sabedoria. Não pensem em alguém arrogante, que fica aporrinhando as pessoas com conselhos bestas. Nada disso. A sabedoria dele está na maneira como toca a vida sem alarde, sem moralismo de araque. Eu acho, sempre achei, que ele pertence ao grupo do Paulinho da Viola, do Pepeu Gomes, da Fernanda Montenegro. Pessoal que a gente olha e sai logo confiando.

E, finalmente, nos encontramos na quinta passada. E foi num barzinho acanhado. Acho que só tinha mais um casal por lá. Se fosse na adolescência, eu sairia correndo dali. Mas a adolescência passou, ufa. Para tudo ficar melhor, era um barzinho com milhares de jogos antigos de vídeo game. Atari, Master Sistem, Mega Drive, Super Nintendo. Pronto, cenário perfeito para o nostálgico que assina esta coluna.

Vejo o Eliederson regularmente. O Flavio, de vez em quando. Ele é o meu dentista. O Luís Gustavo, quase nunca, infelizmente, nos últimos anos. Sei que é manjado, mas eu preciso dizer que parecia que a turminha tinha se visto na última semana. Só depois me dei conta que o timinho de futebol de salão estava quase completo. Faltou apenas o Paulo Ricardo Gobbo, nosso estimado goleiro. Mas a turma da linha estava ali.

(Não era um time que participava de campeonatos. Nosso grupo se esmerava mesmo nos joguinhos de fim de semana. E era difícil ganhar da gente, viu? O Paulo fechava o gol. O Flavio era firme na defesa. O Luís Gustavo era artilheiro nato. Eu dava passes brilhantes. O Eliederson, jogador limitadíssimo, fechava a ala direita. Que interessante! Até o Eliederson conseguiu jogar sem comprometer.)

Falamos do futebol de salão, da escola, das besteiras, das tristezas, da vida política nacional, das preocupações de todos. Nada de relevante. E ao mesmo tempo, tudo muito relevante. A amizade profunda tem dessas coisas. É que nem literatura boa: não importa o que se fala, mas como se fala.

Claro que um tirou sarro do outro. Quando chegou a minha vez de ser o boi de piranha, eu fiz uma coisa meio canalha. Lembrei o seguinte: escrevo para o jornal, e a minha vingança viria nesta semana. Prometi revelar apelidos. Prometi revelar idiotices. Mas não vou fazer. Sou bonzinho.

E tem mais: eu escreveria sobre eles de qualquer jeito. A vida é urgente. Não tenho paciência para lidar com inutilidades. Escrevo sobre o que é importante para mim. Com o passar dos anos, as pessoas realmente importantes vão rareando. É que a gente aprende a ver melhor. Meus três amigos são fundamentais. Sempre serão.

Ficar mais velho tem destas coisas: a multidão dá lugar ao grupinho pequeno; a muvuca perde para as mesas vazias. É o que eu gosto de chamar de depuração. A vida é boa.

Eli, Flavio e Luís Gustavo: ficaram com medo, hein? Não abusem da minha paciência. Agora, queridos leitores e queridas leitoras, há, entre os três amigos, um que passou a usar o topetinho mais invocado do mundo. Ele está a cara do célebre cantor Vanilla Ice. Se vocês conhecem a peça, sabem muito bem de quem estou falando.

Caramujo




Nelson Fonseca Neto

Vejo, com admiração, muitas pessoas preocupadas com as chamadas grandes questões. No barzinho, a conversa fica em torno das questões econômicas da nação. Na sala dos professores, fica em torno de graves aspectos geopolíticos. Nas redes sociais, os debates são inflamados. São formas de se lidar com o engajamento. Respeito, de verdade, esse pessoal profundamente preocupado. Não estou sendo irônico.

Só que eu não consigo ser assim. Não estou dizendo que eu estou certo. Provavelmente é o contrário. Eu estou errado. Eu deveria ser mais engajado, mais crítico. Isto aqui é uma confissão: eu simplesmente não consigo ser engajado.

Acho que é culpa da paciência curta. Cansei de ouvir palavras eloquentes. E cansei de constatar que essas mesmas palavras eloquentes são proferidas por pessoas dominadas por intenções das mais sombrias. Cansei de ver debates inflamados. E cansei de constatar que esses mesmos debates inflamados são performances toscas, grosseiras, ridículas, cafonas, superficiais, maldosas.

Ainda bem que nem todos pensam como eu. Se assim fosse, não teríamos civilização. Seríamos um amontoado de caramujos preocupados com miudezas. Não teríamos carro, avião, antibióticos, livro digital, internet, TV a cabo, celular, sushi de cream cheese, memes no Facebook, coachs, essas coisas todas. Ficaríamos na moita, pensando na morte da bezerra, contando histórias, dando risada, essas coisas. Estaríamos na fase da pintura rupestre.

Só que eu estou no século 21. Tenho telefone celular (sempre no mudo). Tenho carro (sempre tenho dificuldades para encontrar a alavanca que abre o capô). Tenho cartão (e sempre acho que essas transações têm jeito de bruxaria). Tenho perfil em redes sociais (só para fazer palhaçadas e ver vídeos de cachorrinhos e gatinhos). Tenho TV a cabo (só para ver sempre dois ou três canais; o resto é mistério para mim). Sou um conciliador. Não mergulho de cabeça no meu tempo, mas não sou eremita. É assim que a banda toca.

Eu preciso explicar direito. Sou avesso a novidades. Sou um amante da rotina. A Patrícia vive tirando sarro disso. Se eu filmasse o que acontece aqui no apartamento, vocês teriam um filme protagonizado por um Woody Allen robusto. Se sou avesso a novidades, isso não quer dizer que sou burro. Quando estou gripado, tomo remédios, e não fico achando que alguém fez um feitiço contra mim.

Digamos que eu tento ser uma espécie de malabarista do cotidiano. Não fico babando ovo, mas sei reconhecer os confortos que a vida pode oferecer. E, para variar, estou enrolando. Comecei dizendo que não consigo me envolver apaixonadamente com as grandes questões, e descambei para uma argumentação meio besta a respeito de hábitos e gostos que nada têm a ver com a ideia inicial. Vocês precisam ter uma paciência patológica para aguentar essas coisas.

Se bem que, pensando melhor, o desvio não foi tão grande assim desta vez. Esse meu malabarismo cotidiano pode ser resumido da seguinte forma: não estou enfronhado nas questões urgentes, não penso em morar numa cabana no alto da montanha. Digamos o seguinte: dou muito mais bola para coisas tidas como fúteis, frívolas, menores.

Vamos a um exemplo: gosto de zanzar pelos sebos da cidade. Conheço gente que não gosta. Essas pessoas alegam que os ácaros são muitos, que a poeira ataca a alergia, que não tem livro bom, que acha estranho levar para casa objetos que pertenceram a outras pessoas. Não são alegações bestas. Sei bem o que é ter o nariz trancado. A tossinha seca é minha companheira. Não tiro sarro desse lance de energia dos objetos. Não que a minha vida seja pautada pelo misterioso, mas não sou de descartar. Já vi coisas das mais esquisitas. Qualquer dia, conto algumas delas.

E nessa história de frequentar sebos, a gente acaba tendo que lidar com algumas situações interessantíssimas. Não é sempre que acontece, mas quando acontece, é recompensador. Estou falando nas ocasiões em que pegamos um livro com dedicatória. Não deixa de ser comovente. E comovente por dois motivos: quase sempre as palavras são doces, afetuosas; não tem como não pensar como aquele livro foi parar num sebo. A pessoa que ganhou o livro morreu, e a família, para desatravancar a casa resolveu vender centenas de livros a troco de banana? A pessoa que ganhou o livro tem coração de gelo e, sem o menor remorso, passou o livro pra frente? A pessoa que ganhou o livro estava magoada com a outra pessoa que escreveu a dedicatória e resolveu sumir com a lembrança incômoda? A pessoa que ganhou o livro estava em apuros financeiros e precisou vender, com a consciência atormentada, o objeto que simbolizava tanto em termos afetivos? Vejam só o que algumas palavras rabiscadas na página de um livro podem fazer com um sujeito meio goiaba. Quem dá bola para palavras num livro empoeirado? Eu dou, e muita. O que essas palavras num livro empoeirado podem fazer pelo mundo terrível do século 21? Nada. E daí?

Viva a inutilidade!

Um conto de uma cidade (conto - final)




Nelson Fonseca Neto

Chegamos, finalmente. Era a típica cidade de interior: ruas estreitas, piso de paralelepípedo, praça central com a igreja, coreto, comércio em torno da praça.

Estávamos famintos, e meu amigo disse que ali perto havia uma padaria ótima. Ele estacionou o carro numa das travessas da praça. Não era tão cedo assim, o comércio já estava aberto, muitas pessoas zanzavam pelas ruas. Algumas lojas tocavam as músicas irritantes de sempre. E claro que apareceu o olhador de carros. Ele veio até nós, todo sorridente.

Até aí, tudo bem. O problema estava nas roupas. Ele não vestia um daqueles coletes fosforescentes. A figura que veio até nós estava de paletó cinzento. Claro que era uma fantasia de Machado de Assis. Dava para perceber o capricho. Sua fala tentava imitar o que seria o ritmo, o vocabulário e a sintaxe do final do século 19. Meu amigo imaginou que aquele olhador de carros conquistaria a minha admiração. No início, até que é engraçadinho, mas depois ficou meio chato. Você ouve mesóclises, familiaridades com personagens do universo machadiano, essas coisas, mas o achaque é o mesmo: a grana para o carro não ser riscado ou ter os vidros estourados.

Meu amigo trancou o carro, nos despedimos do olhador machadiano, ele continuou fazendo rapapés. Chegamos à padaria. Eu imaginava encontrar algo que não fosse heterodoxo. Coisa simples: balcão, chapa, caixa, uma ou outra mesinha, freezer com sorvetes de palito perto do caixa. Mas não. Era uma padaria que queria ser uma confeitaria do início do século 20. Mesas de mármore, funcionários com bigodes, letras estilizadas do cardápio. Novamente meu amigo imaginou que aquilo conquistaria minha admiração. Camuflei meu arrependimento. Eu não queria ser um convidado grosseiro. Sempre é bom lembrar: eu estava ali porque queria; ninguém encostou um revólver na minha têmpora.

Sentamos e lemos o cardápio. Cada opção foi batizada com o nome de alguma celebridade literária. Sundae Coelho Netto. Suco Lima Barreto. Ovos mexidos Raul Pompeia. Vitamina Olavo Bilac. As descrições eram esmeradas. Tentavam imitar o estilo da figura homenageada. O sundae Coelho Netto era descrito com frases longas e vocabulário precioso. O suco Lima Barreto era mais conciso, mais áspero. Ler sobre a vitamina Olavo Bilac dava vontade de percorrer heroicamente o Brasil.

Em seguida, apareceu um garçom. Assim como o olhador machadiano, a fala era empolada. Não tinha como não imaginar a trabalheira para montar aquela performance. Sempre penso assim nessas horas. Quando estou aborrecido, com vontade de mandar alguém para o escambau, respiro fundo e avalio que aquele alguém está buscando seu lugar ao sol. Resumindo, entrei no esquema do garçom da Belle Époque. E não é que a comida era bem Belle Époque? Aparência suntuosa e gosto horrível. Uma coisa eu aprendi nesta vida: desconfiar de cremes e maioneses.

Pagamos a conta. Resolvemos bater perna pela praça. O olhador de carros fez um aceno da outra esquina. Fomos ao coreto. Sempre gostei de coretos. Vai ver porque na minha cidade eles costumam estar vazios. Em cidades maiores, ninguém dá bola para coretos.
Só que eu não estava na minha cidade. Aquela era a cidade que amava ler. Tinha um grupinho no coreto. Pessoas de todas as idades. Todos segurando folhas de sulfite. Era um encontro de declamação de poemas. Um senhor de uns cinquenta anos estava declamando poemas de sua lavra. Os demais estavam sentados, olhos vidrados. As mãos do senhor que declamava não paravam. A voz era retumbante. Paramos para ouvir. Eram poemas sobre a cachoeira que ficava ali perto, sobre um amor da juventude, sobre a pátria, sobre as flores do jardim, sobre a inocência da infância. Nada muito, digamos, ousado. Ele foi aplaudido. Em seguida, foi a vez de um adolescente. Poemas sobre a importância do estudo. Um tour pela história do Brasil. Mais aplausos. Meu amigo queria ficar mais, e eu estava quase chorando, de aflição. Mas eu não queria jogar água no chope do meu amigo, e inventei que precisava ir ao banheiro.

Ele, muito educado, disse que me acompanharia. Fomos a uma loja. Prateleiras abarrotadas de cacarecos. Bonequinhos de louça, almofadas, quadrinhos, mantas, bibelôs de todo tipo. Bonequinhos e bonecões do Eça. Almofadas estampadas com o rosto do José de Alencar. Canecas com versos do Castro Alves. Imaginem isso multiplicado por mil. Era a lojinha. Fui ao banheiro. Juro que pensei que tudo aquilo era um delírio, e que eu acordaria em poucos minutos. Não era um delírio. Eu estava na Disneylândia da literatura. E pensar que a jornada estava apenas começando. Meu amigo queria que eu conhecesse a escola, que eu trocasse algumas ideias com o diretor, que eu desse uma espiada em algumas aulas. No banheiro, pensei no que estava por vir. Impossível continuar a jornada.

Saí do enrosco dizendo ao meu amigo que eu tinha acabado de receber uma ligação urgente no celular. Fiz cara de arrasado. Falei para ele continuar por ali. Eu tomaria um ônibus na rodoviária e logo estaria na minha amada, ignorante, turbulenta cidade. As utopias sempre são macabras.

(Fim do conto.)

Um conto de uma cidade (conto - segunda parte)



Pensei em desmarcar a aventura. Bastava inventar uma desculpinha esfarrapada. Meu amigo compreenderia. Mas envelhecer tem destas coisas: a gente fica envergonhado na hora de dar desculpinhas esfarrapadas

 

Aceitei o convite do meu amigo para conhecer a tal cidade. Ele se referia a ela de um jeito estranho. Parecia coisa de milagre. Naquele dia, na loja de conveniência, falamos de outros assuntos. Mas não vem ao caso tocar neles agora.

 

Um frentista veio avisar que o meu carro estava pronto. Paguei os lanches e saí junto com o meu amigo. Ficou acertado que iríamos na manhã seguinte visitar a cidade que, segundo meu amigo, tinha índices espetaculares de educação.

 

Saindo do posto, comecei a amaldiçoar minha decisão. Não tanto por precisar acordar muito cedo na manhã seguinte. Não tenho problemas com isso. Tem mais a ver com a quebra de rotina mesmo. Antes de encontrar meu amigo na loja de conveniência do posto de gasolina, eu imaginava passar a manhã lendo tranquilamente. Depois de uma certa idade, a gente aprende a valorizar o que importa de verdade.

 

Pensei em desmarcar a aventura. Bastava inventar uma desculpinha esfarrapada. Meu amigo compreenderia. Mas envelhecer tem destas coisas: a gente fica envergonhado na hora de dar desculpinhas esfarrapadas. A gente acaba parecendo aqueles caubóis honrados dos filmes do John Ford. Pelo menos é assim que vem acontecendo comigo.

 

Não desmarquei, e passei a noite reclamando na cama. Acho que não tem problema resmungar baixinho. Já basta ser honrado. Abrir mão do azedume está mais para santidade.

 

Estou contando a verdade aqui. Leio o que acabei de escrever e fico pensando sobre as inúmeras formas de se contar uma história. O final do último parágrafo poderia ser um gancho para dezenas de linhas que mostrariam o drama da insônia. Sem querer bancar o virtuose, acho que eu conseguiria dar conta do recado e contar algo interessante. As imagens trazidas pela insônia podem ser apetitosas para o leitor. Eu mostraria um amontoado de memórias e delírios. Eu provaria que na literatura o que importa é o como se conta algo e não o que se conta. E aí a história viraria ensaio.

 

Mas tem dia que a gente deseja caminhar em linha reta. E assim soterro a tentação das curvas e dos rococós. Falemos do que realmente importa. Falemos da viagem.

 

Acordei cedo. Ainda bem que não estava quente. Nada mais irritante que uma manhãzinha quente. É a promessa de um dia arrastado. Nada rende num ambiente desses. Tomei banho, bebi café, escovei os dentes, vesti uma roupa confortável. Sem novidades. Minhas roupas sempre são confortáveis. Tenho apenas um terno no armário. Faz muito tempo que tenho esse terno. Novamente surge o demônio da digressão. Deu vontade de contar algumas situações engraçadas sobre o tal terno. Mas falemos da viagem.

 

Meu amigo passou pontualmente para me apanhar. Gosto disso. Outra marca do envelhecimento: ficamos mais chatos com horários marcados. Pelo menos é assim que vem acontecendo comigo.

 

A cidade não ficava longe. O problema é que a estrada para chegar até ali era péssima. Parecia que eu estava no meio de um conto russo, desses que mostram um povoado no meio do nada. Comentei isso com o meu amigo. Ele não achou graça. Acho que ele não queria que a minha tiração de sarro manchasse a solenidade da visita. Estou para ver um fanático com senso de humor. Se você conhecer algum, por favor, me apresente. A ciência merece conhecer uma figura dessa grandeza.

 

Até chegarmos lá, a conversa foi esquisita. Ficou com cara de preleção. Meu amigo estava solene e cuidadoso. Não parava de me alertar a respeito da seriedade da coisa toda. Aquilo não seria uma brincadeira. As pessoas daquela cidade tinham orgulho de suas conquistas intelectuais. Não tinha sido uma jornada suave. E tinham que manter segredo. Eles não queriam que aquilo descambasse para um circo. Até aí, tudo bem.

 

O que me incomodou foi que ele, no percurso, sempre dava um jeito de me podar. Que eu não fizesse palhaçada. Que eu não fizesse caretas. Que eu deixasse a ironia muito bem guardada. Como se eu fosse um sujeito descontrolado, desagradável, um sátiro indomável. Não sou um santo, e nunca escondi de ninguém. Sou dado a ironias, mas tenho certo decoro. Não era a imagem que o meu amigo tinha de mim. Uma pena. Parecia que eu estava num texto do Pirandello.

 

Não retruquei. Deixei meu lado polemista na virada dos vinte para os trinta anos. Virei um ursão sorridente. Mais uma marca do envelhecimento: deixamos as tretas de lado. É o que vem acontecendo comigo.

 

Chegamos, finalmente. A primeira cena mostrou que eu lamentaria ter bancado o Indiana Jones da educação brasileira.

 

(Continua na próxima semana.)

 

Um conto de uma cidade (conto - primeira parte)




Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com



Sou professor, e você imagina que reclamo da escassez de leitura no Brasil. Imaginou corretamente. Acho que o brasileiro lê pouco, que as nossas livrarias são ridículas, que os livros mais vendidos são porcarias. Também acho que pouca gente sabe escrever com um mínimo de clareza. Leio o que as pessoas escrevem nas redes sociais e fico perplexo com a incapacidade de se concatenar duas frases num texto curto. Não é o caso de sair berrando em defesa da pureza gramatical. Acho que esses patrulheiros da colocação pronominal são imbecis.
Canalizo boa parte da minha raiva para essas questões. Fora isso, até que sou bonzinho. Não fico nervoso no trânsito, suporto longas filas, cumprimento as pessoas no elevador, participo de longas reuniões. Acho que todos nós precisamos de uma válvula de escape. Do contrário, não haveria sociedade. Seríamos ratazanas deslizando os dedos nos smartphones.
Mas estou me desviando. Este não é um texto sobre a situação brasileira. Quero contar algo mais interessante.
Aconteceu na semana passada. Eu estava aguardando a troca de óleo do meu carro. Sou um homem fiel, e deixo o meu carro nas mãos do pessoal de um posto de gasolina que fica perto de casa. Faço isso há mais de vinte anos.
O dono do posto de gasolina é um cara esperto. Tudo ali é muito arrumado. Perto de onde trocam o óleo, há uma loja de conveniência bem fornida. Servem bons lanches a preços justos. As mesinhas são confortáveis. Dá para ficar ali numa boa por vários minutos.
Na semana passada, eu estava na loja de conveniência do posto, comendo um lanche e lendo um livro. O livro era bom, mas não vou dizer o nome. Não quero bancar o esnobe. Era um bom livro, mas estava difícil prestar atenção. O volume da televisão estava alto, algumas pessoas olhavam atentas para um desses filmes de sessão da tarde. Passei minha infância vendo sessão da tarde, achava aquilo o máximo, e acho que não tenho o direito de ser chato só porque me tornei adulto.
Difícil manter a concentração no livro. Era daqueles que exigiam o máximo esforço do leitor. Percebi, em poucos minutos, que forçar a barra prejudicaria a leitura. Em alguns casos, é melhor reconhecer a derrota. Fechei o livro, dei uma espiada na televisão, olhei para a porta.
Entrou um amigo meu. Fazia alguns anos que eu não o via. Nossas conversas sempre foram boas. Ele também gostava de ler. Às vezes as pessoas olhavam torto para nós. Achavam que éramos pedantes. Nos barzinhos, tínhamos que mudar o rumo da conversa. Afundávamos na lama das conversas moles. Sorte que éramos pacientes. E assim tocamos a vida.
Coisa de uns quatro anos atrás, esse meu amigo arrumou emprego no Rio de Janeiro. Nunca mais conversamos. Isso acontece, infelizmente. Bom, deixemos os devaneios. O que importa é que o meu amigo entrou naquela loja de conveniência.
Todo relacionamento carrega uma boa dose de mistério. Convivemos diariamente com pessoas que não são importantes para nossa vida. Basta um afastamento de alguns meses para deixar clara a situação. Quando reencontramos essa pessoa, a conversa fica gelada, constrangida, e não vemos a hora de sair correndo dali. Mas há pessoas que se afastam por um longo tempo, e o reencontro é dos mais agradáveis. Como se não tivéssemos nos afastado por mais de uma semana. Essas são as verdadeiras afinidades.
Meu amigo entrou na loja de conveniência e me viu numa das mesinhas. Trocamos cumprimentos calorosos, mas não efusivos. Somos discretos. Ele puxou uma cadeira, colocamos o papo em dia, cada um contou o que aconteceu nos últimos anos. Era a parte burocrática do reencontro, e todos passamos por isso.
Meu carro ficaria pronto em uma hora, e o dele também. Ele pediu um lanche que eu sugeri. Superamos o protocolo inicial e passamos a falar de coisas realmente interessantes. Ele estava trabalhando para uma ONG que mapeava cidades que vinham tendo sucesso no campo da educação. Ele percorria o Brasil pesquisando essas cidades. Fiquei envergonhado, pois sou terrivelmente sedentário, e mal conheço as cidades vizinhas. Perdi a conta de quantas vezes, na virada do ano, prometi ser mais audacioso. Passei longe de cumprir tão nobres propósitos.
Não sou aventureiro, mas gosto de ouvir aventuras, e fui ouvindo os casos do meu amigo. Os primeiros casos foram contados em voz alta, sem qualquer tipo de mistério. Ele percebeu que o assunto me interessava. Lá pelas tantas, ele começou a cochichar. É que o que seria contado era sigiloso ainda, mas ele confiava em mim. Ele revelou o que estava acontecendo numa cidade minúscula. Ali, segundo ele, estava acontecendo um milagre. Uma cidadezinha cujos habitantes eram leitores vorazes. Por sorte, ficava a menos de cem quilômetros de onde estávamos. Ele queria que eu fosse com ele, naquela tarde mesmo, dar uma espiada na tal cidadezinha. Contrariando minha natureza, aceitei o convite.
(Continua na próxima semana.)

Lena e Frederico (o conto prometido)



Minha ideia inicial era entregar, hoje, um conto sem grandes explicações. Direto e reto, sem firulas ou gracinhas. Mais uma vez, infelizmente, meu planejamento foi para o vinagre. Culpa dos meus queridos leitores.

Publiquei, na semana passada, uma crônica. Era para ser um texto sobre Marilyn Monroe e Arthur Miller. Foi minha culpa: criei expectativas conservadoras. Muitos de vocês esperaram uma crônica histórica, que revelasse curiosidades a respeito do casal. Mas resolvi bancar o vanguardista. Escrevi uma crônica metalinguística. Muita gente não gostou. Disse que eu estava enrolando. Não estava. Bom, eu achava que não estava. Resolvi reler o texto. Mudei de ideia. Ficou mesmo com cara de enrolação. Assumo integralmente a responsabilidade.

Precisei de dois parágrafos para este arremedo de justificativa. Paro por aqui. Não quero ser apedrejado na rua. Finalmente, conto. O narrador será machadiano, dado a intromissões graciosas. Sempre é bom avisar. Não quero que me chamem de enrolador novamente. Bom, que venha o conto.

Não há pessoa que não tenha a sua teoria a respeito do amor. Acho que é instinto de sobrevivência. O seguro morreu de velho. Há quem diga que os opostos se atraem, e há quem diga que ocorre o contrário. Difícil cravar quem tem razão. Não sou o dono da verdade.

De qualquer forma, o casal da nossa história, ao menos nos primeiros passos da paixão, seguiu a máxima de que os opostos se atraem. Lena era exuberante e já fazia sucesso como atriz. Nesses casos, muita gente torce o nariz. Sempre surgem as tirações de sarro que insistem no destaque à burrice de quem é belo ou bela. Trata-se de um clichê. São inúmeros os casos de união entre formosura e inteligência. Os leitores atentos sabem do que estou falando.

Lena era considerada burra, o que é um equívoco. Ela não era, eis a questão, acelerada. Nosso tempo avalia mal a inteligência. Acha que rapidez é sinal de vitalidade do cérebro. Quanta gente voluntariosa não comete desatinos? Ora, Lena apenas gostava de pesar bem as coisas da vida. E assim ficou com fama de burra.

Frederico não era uma estátua de Michelângelo, mas também não era um Quasímodo. Era um tipo comum. O seu brilho estava no intelecto. Frederico escrevia roteiros para a televisão. Em poucos anos, tornou-se um nome respeitado. Suas histórias conseguiam ser, ao mesmo tempo, ousadas e populares. Sutilmente, ele mudou a maneira como milhões de pessoas encaravam uma história. Poucos conseguem fazer algo dessa natureza.

Lena e Frederico, trabalhando na televisão, precisavam frequentar festas imponentes e bestas. Não gostavam desses eventos, por razões diferentes. Lena gostava de ficar em casa, deitada na cama relembrando episódios da infância. Sua memória era um prodígio. Ela revisitava mentalmente os cômodos do apartamento onde morou por vários anos. Ela passava horas agradáveis nessas reminiscências. Frederico era menos contemplativo. Gostava de ficar em casa para ler seus clássicos prediletos. Mas obrigação é obrigação, e os dois precisavam circular por festas aborrecidas, suportar cretinos arrogantes, fingir alegria e vivacidade. Numa dessas festas, ficaram um tempão batendo papo. Apaixonaram-se. Parece comédia romântica, mas às vezes a vida funciona assim mesmo. Meu humilde papel é contar a história dos dois.

Namoraram, discretamente. Casaram com pompa. As revistas são infernais, e o Nelson Rubens, também. Foram capa de revistas, enfrentaram maratonas de perguntas cretinas. Tentaram preservar a vida íntima. Surgiram as brigas, as implicâncias miúdas, as fofocas plantadas por invejosos. Divorciaram-se, sem mágoas. Ainda guardam boas recordações. Têm trabalhado como nunca. E assim acaba a história. Às vezes, a vida não é uma comédia romântica.

Agora quero ver vocês falarem que eu enrolei. Até a próxima semana.