LETRA VIVA
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Aula de conto (conto - final)




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


Opa! Estou vendo que você está ficando aborrecido. Vamos passar para algo mais prático.

Entenda: trabalharei com alguns exemplos. Seu estilo não precisa ser o meu estilo. Sei respeitar as individualidades.

Acho que você vai gostar desta parte. Nem todas as pessoas estão preparadas para longas exposições teóricas. Você precisa entender: nunca perderei este meu ar professoral. Por isso gastei os nossos primeiros minutos temperando a conversa com ingredientes eruditos.

Sei que você não me chamou. Sei que estou bancando o intrometido. Meu papel aqui é mostrar que escrever bons contos pode ser um excelente negócio. Não quero que tudo saia automaticamente. Você precisa compreender por que fará algo. Bom, chega de enrolação.

Você, no processo de escrita de um conto, precisa de um argumento. Argumento é a sinopse da história. Precisa saber quem faz o quê. Organização é fundamental. Não caia no conto do vigário que mostra o artista como uma antena privilegiada que captura ondas mágicas. Você não quer ser um artista. Você quer ser um trabalhador hábil. O argumento será sua bússola.

Claro que você quer perguntar: de onde tirar o argumento? Pergunta interessante. Cada escritor a responde de um jeito. É só pesquisar. Há bons livros de entrevistas com escritores. Recomendo a leitura. É o acesso à cozinha da criação.

Mas voltando à pergunta importante: de onde tirar o argumento? Antes de tudo, você precisa saber o seguinte: você é um contador de histórias de qual tipo? Você quer brilhar pela fantasia exuberante? Quer criar seres fantásticos? É chegado numa distopiazinha? Quer que o leitor termine a leitura do seu conto e diga: uau, de onde ele tirou tudo isso? Tentador, não? Sim, e perigoso.

A chance de você bancar o ridículo é grande. Sem contar que já tem muita gente fazendo isso atualmente. Pode acreditar, é um modelo que está em vias de se esgotar.

Não busque o brilho fácil. Não busque a exuberância gordurosa. Seja modesto, baixe a bola. Perceba que o cotidiano oferece inúmeras boas histórias. Seja um excelente observador. Parece fácil, mas não é.

Se não tomarmos cuidado, nossos olhos reparam apenas nos brilharecos. Ora, meu querido, reparar no que é clamoroso, convenhamos, não é uma jornada épica. Mais ou menos assim: você está observando a rua de sua janela; muita gente e muitos veículos; muito barulho também; nada de chamativo ocorre; você está aborrecido; todos do seu entorno estão aborrecidos; acontece, então, uma batida; de repente, tudo fica eletrizante; todos olham para o local da batida; minutos depois, tudo está resolvido; a vida volta à chatice. Certo? Errado! O observador do cotidiano jamais fica aborrecido com a normalidade. É que ele sabe levantar o céu. Debaixo desse véu, as histórias estão fervilhando. O observador do cotidiano não dá bola para o acidente. O observador do cotidiano, por incrível que isso possa parecer, detesta a vulgaridade.

Seus olhos devem ser atentos nos mais diversos níveis. Uma boa tática: encarar os jornais como fontes de bons argumentos. Não estou inventando a roda ao dizer uma coisa dessas. Gente muito boa faz isso há bastante tempo. Dependendo da seriedade do escritor, costuma dar ótimos resultados.

Darei um presente em forma de exercício para você. Ontem, fuçando na internet, li que algumas instituições estão fazendo sucesso com um tratamento chamado biblioterapia. O nome já entrega: é a cura pelos livros. Que tal escrever um conto a partir disso? Percebe as múltiplas possibilidades? Mãos à obra! Quando terminar, continuamos a lição. Até lá! (Fim do conto.)

Aula de conto (primeira parte)




Nelson Fonseca Neto

Você tirou a sorte grande. Hoje você vai aprender a fazer algo que pouca gente domina. Hoje você vai aprender a escrever um conto. Parece pouco, mas não é.

Se você for meio rabugento, vai dizer: escrever conto pra quê? Não seja assim. É feio. Pare de chafurdar na lama da ignorância. Dê apenas cinco minutos da sua atenção. Cinco minutos: o tempo que você gasta para ver um vídeo bobo na internet.

Seu tempo é curto, e eu sou bom de lábia. Aposto que quando eu disse "conto", você imaginou que eu iria falar poeticamente, que as minhas palavras seriam melosas. Você não me conhece. Já passei da fase das ilusões. Tudo bem, não perdi a ternura, mas virei pragmático. Prepare-se.

Natural que você pergunte das recompensas por escrever um conto. Primeiro de tudo: você não vai ganhar dinheiro publicando um livro de contos. Sim, ele pode ser uma maravilha. Sim, ele pode receber resenhas elogiosas nos principais jornais do país. Sim, pode ser que você seja chamado para dar uma palestra num festival literário bacana. Sim, pode ser que você descole uma viagem internacional para representar o Brasil numa dessas bienais estilosas na Europa. Mas, não, ganhar dinheiro apenas com os contos, sem chance.
Mas estou indo depressa demais. Sou meio afobado mesmo. Vamos deixar de lado, por enquanto, as consequências do livro de contos. Vamos falar, isso sim, de como escrever um bom conto.

Você tem boa memória? Sua vida tem algum episódio marcante? Tem? Alguns? Excelente! Eles podem ser a matéria-prima de belas histórias. Não, não precisa ser um acontecimento espetacular. A vida é monotonia, eu sei. Mas você se lembra de algo que o emocionou de verdade? Opa, que bom! Pode ser um caminho útil.

Mas tenha cuidado. O que se conta é importante, mas ainda mais importante é o como se conta. Como contar uma história é o que diferencia, com o perdão do clichê, os meninos dos homens. Qualquer sujeito tem uma boa história para contar. É a vida. São milhões de histórias. Mas elas passam, o vento as leva. É triste, e é verdade.

O que queremos aqui é eternizar histórias. Você quer que as suas histórias sejam lidas daqui a cem anos. Tem que querer isso! Humildade não leva a nada. Não é bonito ser ignorante. Literatura não é diletantismo.

Como contar uma história envolve profissionalismo. Envolve treino. Envolve malandragem. Envolve conhecer os melhores exemplos.

Decore o texto dos seguintes autores: Tchekhov, Hemingway, Maupassant, Machado de Assis, Dorothy Parker, Otto Lara Resende, Cortázar, Juan Rulfo, James Joyce, George Saunders, Flannery O"Connor, Ítalo Calvino, Pirandello. Sinta o corte das frases. Repare no uso dos adjetivos. Valorize o detalhe revelador. Você tem apenas uma bala no revólver. Nunca se esqueça disso.

Não banque o pedante: pense no leitor. Você não é um eremita. Não estou dizendo para você abrir mão da sua integridade artística. O que estou dizendo: dá para escolher o caminho do meio. Conte o que tem para contar, mas nada de hermetismo. Não tenha medo do entretenimento. Lembre sempre do Marcos Rey.

Caprichar nos diálogos é um ótimo negócio. Eles são atalhos preciosos. Uma linha de diálogo pode substituir dez linhas tipicamente narrativas.

Opa! Estou vendo que você está ficando aborrecido. Vamos passar para algo mais prático.

(Continua na próxima semana.)

As eleições de 2022 (conto)




Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


É difícil dizer como essas coisas começam. Depois do acontecido surgem as mais diferentes explicações. Algumas são bem plausíveis; outras, a maioria, são absurdas.
É difícil dizer como essas coisas começam, e é ainda mais difícil dizer quem é o grande responsável pelas mudanças. Dependendo do que acontece, se é algo bom ou se é algo catastrófico, surgem oportunistas que batem forte no peito e contam histórias comoventes de superação, ou todos resolvem se esconder, como se a catástrofe fosse um fenômeno da natureza, como chuvarada ou uma estiagem daquelas.
Portanto, estamos caminhando num terreno pantanoso. Não sabemos como tudo começou, mas sabemos o que está acontecendo. Que os historiadores, daqui algumas décadas, saibam puxar adequadamente o fio do novelo. Nós, que estamos aqui e agora, devemos muito mais ser jornalistas, retratistas. Nossos teclados devem ser ágeis. Nada há de indigno nisso. Cada qual com o seu quinhão.
Não sabemos como o movimento começou, mas sentimos na pele o que está acontecendo. Essas coisas sempre dependem do ponto de vista: para alguns, a pele recebe carinho; para outros, chicotada. Tentaremos ser neutros aqui.
Há quem diga que é errado chamar o que está acontecendo de movimento. Essas pessoas defendem que o nosso presente é fruto de algo espontâneo. Certamente é uma visão ingênua. Não importa: tem um enorme apelo.
Estamos divagando. Isto aqui não é um tratado.
Aconteceu muito rápido. Escrevo este texto em março de 2023, poucos meses depois das eleições presidenciais. No início de 2022, o cenário não apresentava nada de muito chamativo. As pesquisas ainda não apontavam números confiáveis. O terreno era fértil para as projeções mais mirabolantes. Não seria um ano fácil. Tínhamos uma certeza: não haveria reeleição.
Havia os candidatos esperados. Eram as figurinhas carimbadas. Apostávamos no candidato que prometia, para os mais diversos setores da nação, uma linha bastante rígida. A violência era o medo número um da população. Os linchamentos haviam disparado. Os linchadores não eram punidos. O candidato da linha dura era bom de retórica. Suas frases eram curtas. Ele nem chegava perto de tocar noutros problemas.
Havia um candidato mais preocupado com a redução das desigualdades sociais. Ele era motivo de riso. Ele era tratado por todos como uma figura bonachona, divertida, uma espécie de louco da aldeia.
Havia uma candidata que era constantemente interrompida em suas falas. Ela era vista como uma maluquinha meio brava. Claro que quem dizia isso jamais dizia que era o mais cristalino machismo.
E havia o empresário que dizia que governar era a mesma coisa que administrar uma empresa. Suas aparições sempre eram acompanhadas de gráficos coloridos. Seus correligionários pareciam ter saído de um comercial que exalta o empreendedorismo. Seus esforços eram vistos como algo ligado ao mundo dos almofadinhas. O povo não é tão burro assim.
Meses antes das eleições, começaram a surgir textos e vídeos estranhos nas redes sociais. Eram palavras que recomendavam aos cidadãos que tinham renda mais alta o não comparecimento às eleições. Diziam que o governo mexe mal com o dinheiro, que o dinheiro dos impostos não retornava nunca, que havia chegado a hora da verdade. Estava bem claro que, não importava o vencedor, a parcela mais abastada da população não pagaria mais impostos. Ora, se a gente já paga tudo por fora, acabou a mamata dos políticos.
À primeira vista, parecia coisa de maluco, de gente que não tem o que fazer. Mas a coisa ganhou corpo. As discussões em diversos grupos fechados mostravam os aspectos práticos da questão. Seria muito simples: o dinheiro não mudaria de mãos, o governo quebraria, os serviços de sempre seriam prestados normalmente. O resto do povo teria que se virar. E mais: dinheiro compra autoridade. Depois de algumas semanas, já não parecia mais coisa de maluco. Ainda assim, muita gente não acreditou. Era esperar para ver.
Sabemos como tudo terminou. Quando os deuses querem punir alguém, eles ouvem suas preces.

A sorte




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


Era algo estranho: o avô e o pai apostavam regularmente na loteria. Nunca ganharam, nem chegaram perto, mas nunca desistiram.

Não que ele achasse errado ou estúpido comprar um bilhete de loteria. O grande problema era a preguiça. Comprar pão na padaria que ficava a dois quarteirões de casa era para ele uma jornada monumental. Se não tivesse jeito, por insistência da esposa, ele saia bufando, fazendo escarcéu. Imagine enfrentar fila numa casa lotérica. Por alguma conspiração demoníaca, as casas lotéricas passaram a prestar vários serviços. Ele era preguiçoso e detestava as conversas fiadas típicas de filas. Não era antipático, longe disso.

Também não era supersticioso: achava engraçadas as crendices das pessoas. Não era chato, e não entrava em polêmicas. Fingia achar normais as manias místicas da maioria dos seus conhecidos. Se o sonho era ruim, era apenas um sonho ruim. Nunca achou que poderia ser uma premonição.

Muitos anos atrás, havia um porteiro engraçado no seu prédio. Era um senhor falante, profundo conhecedor da Bíblia, apostador feroz do jogo do bicho. Era impressionante: o porteiro sempre ganhava uma graninha de prêmio. Às vezes, o dinheiro não era tão miúdo assim. O porteiro sortudo baseava suas apostas nos sonhos e nos sinais mais exóticos. Ainda assim, nosso cético não cedia. Acha que era apenas sorte. E era só isso.

Quando chegava a última semana de dezembro, ele via todo mundo ficar ouriçado. No último dia do ano corria o maior prêmio. Ele era obrigado a ouvir as conversas sobre o que fazer com a bolada. Ele se achava escritor e, de certa forma, gostava de observar os delírios típicos. Havia de tudo um pouco. Os ingênuos, os generosos, os entendidos, os ousados, os conservadores, os egoístas.

Mas uma coisa ele precisava reconhecer: de vez em quando, sonhava com a fortuna. Esses sonhos dependiam de seu humor. Se tudo estivesse bem, eles eram conservadores. Ele continuaria trabalhando normalmente. Só teria um pouco mais de tranquilidade; só viajaria um pouco mais; certamente compraria mais livros. Se estivesse com a paciência curta, cansado, seus sonhos eram grandiosos e vingativos. Largaria o emprego recorrendo a desaforos. Viraria um rico excêntrico, cheio de fricotes, isolado do mundo, exercendo seu sadismo com uma gargalhada horripilante. Mas eram sonhos apenas, e ocupavam pouco tempo da sua vida. Eram fugas saudáveis.

E assim os anos foram passando. Seria precipitado afirmar que o que aconteceu com ele foi culpa da internet? Não, não seria. Sem a internet, ele jamais apostaria na Mega Sena da Virada.

Foi no dia 29 de dezembro. Uma tarde tórrida, modorrenta. A esposa e ele estavam de férias. Tinham almoçado fazia pouco tempo. Impossível dormir com um calor daqueles. O cérebro estava entorpecido para a leitura. A programação da televisão mostrava nosso deserto cultural.

Ele estava olhando para o teto. A esposa estava mexendo no celular. Lá pelas tantas, ela o cutucou. Sabia que dá para apostar pela internet? A hora era morta. Ele abençoou a tecnologia. Apostaram um bilhete. Escolheram os números fazendo relações complicadas. Por exemplo, pegaram a data do casamento e somaram com o dia do aniversário de cada um. A esposa concluiu a aposta. Claro que gastaram alguns minutos falando a respeito do que fazer com o prêmio.

Pode parecer bobagem, mas não é. Esses devaneios de riqueza revelam caráter. Naquela tarde quente, a imaginação dele estava paranóica. Ele disse que mudariam de cidade. Seria importante gastar uma parte significativa da grana com segurança. Ela era muito mais evoluída. Em primeiro lugar, como ajudar o maior número possível de pessoas. Só depois aproveitar o dinheiro. Ele percebeu que, naquela tarde, os devaneios duraram um pouco mais que o habitual. Mas não tinha problema. Todos ficam transtornados em dezembro.

O dia 29 terminou.

Os dias 30 e 31 seriam atribulados. A festa da virada do ano seria no apartamento deles. Estavam felizes e ansiosos. Era a primeira vez que organizavam a festa. Não viria tanta gente assim, mas queriam caprichar. Se dependesse das habilidades dele, a festa seria catastrófica. Sorte que a esposa estava ali para salvar tudo. Foram a supermercados, ajeitaram o apartamento. A cozinha ficou um sururu. O calor só atrapalhava. Mas fizeram tudo com alma leve.

E então chegou o começo da noite do dia 31. Tudo estava arrumado no apartamento. A esposa estava tomando banho, e ele estava percorrendo os canais da televisão. Ele havia esquecido do sorteio, que aconteceria às 20h; ela, também. Ele ouviu o barulho do secador de cabelo no banheiro, desligou a televisão, resolveu mexer na internet.

Passava um pouco das 21h. Viu no Facebook um monte de gente dizendo que o único ganhador era de Sorocaba. Nosso cético não ficou indiferente. A esposa tinha explicado como conferir a aposta. Ela ainda estava no banheiro. Ele resolveu conferir sem falar nada para ela.

E lá foi ele conferir. Eles ganharam. Estavam milionários. Ele bem que gostaria de dar um grito de felicidade. Mas ele não estava feliz. Ele sabia que sua vida viraria um inferno.

Cidade vazia



Nelson Fonseca Neto


Vejo a cidade vazia. Muita gente está viajando.

Vejo as fotos no Facebook. Muita gente está viajando. O mar é azul fosforescente. A areia, de tão branca, machuca os olhos. As caipirinhas são servidas em copos rococós. Os óculos escuros tapam boa parte dos rostos. As pessoas parecem abelhas. As legendas das fotos esbanjam sabedoria extraída da Bíblia, do Pequeno príncipe, da propaganda fofinha e motivadora do banco. Todos viajam felizes.

A cidade está vazia. As avenidas respiram. Ouço poucas buzinas. O cachorro trota numa boa. O senhorzinho vai à padaria sem sobressaltos. A criança pode dar um pinote na calçada sem levar bronca da mãe. Você não precisa enfrentar fila no caixa eletrônico. Muita gente está viajando. O sertão foi para o mar.

Eu aproveito a cidade vazia. Eu sou meio matuto. Sou um motorista deslumbrado. Meus olhos nunca estarão saciados dos prédios antigos do centro da cidade. Eu volto a amar a minha cidade. Nem sempre o amor é fiel. Passo boa parte do ano falando mal da cidade. Sim, é masoquismo. Sim, é um pouco de pose. Sim, é mania de jogar conversa fora.

Até arrisco umas caminhadas tímidas. A falta que faz um deslocamento a cinco quilômetros por hora!

Eu sou um matuto nostálgico. Lembro das lojas que fecharam. Lembro das casas demolidas. Lembro das musiquinhas. Lembro das vidas demolidas.

Eu quero escrever sobre a cidade. Eu quero ser minucioso. Eu quero ser frio. Eu quero ser científico. Eu quero registrar tudo. A ratazana que resolve desembestar em plena manhã. O rapaz bêbado que dorme encolhido na calçada. O cachorro engraçado que está usando botinhas para proteger as patas do chão quente. O folheto da vidente colado no poste. A psicologia das pombas. A praça que ficou sem graça, puro cimento. O motoqueiro que passa empinando sua moto. É muita coisa!

Só que eu não sou um bom retratista. Minha prosa é gorducha. Eu preciso deixar minhas marcas. A objetividade é uma lenda. Meu catálogo da cidade vira crônica meio maluca da cidade.

Queria começar meu trabalho de catalogador da cidade pela rua da Penha. Há nisso uma boa dose de pedantismo: eu manjo da rua da Penha! Conheço todas as suas camadas. Sou capaz de ficar horas falando de suas miudezas. Tento botar a cabeça em ordem. Importante respirar fundo. Hora de começar o trabalho.

Os olhos estão limpos. O coração está leve. A cidade está vazia. Muita gente está viajando. Que o mar seja sempre muito azul. Que a areia seja branca que nem farinha. Que os copos das caipirinhas sejam cada vez mais robustos. Que as palavras das legendas sejam cada vez mais agudas.

Por onde começar? Pela parte de baixo ou pela parte de cima da rua da Penha? Lei do mínimo esforço: começar pelos altos da Penha. Olhar com atenção ao redor. Limpar o afeto do coração. Começa o desastre. Vários minutos olhando para algumas janelas dos prédios. Imaginando as vidas dos apartamentos.

Aquele apartamento tem uns adesivos colados na janela. É o quarto do adolescente. O adolescente está emburrado. O futebol no clube foi cancelado. O ano está apenas começando. O final do ano passado foi um terror. O adolescente quase repetiu de ano. Sorte que o conselho de classe não pegou pesado. O adolescente chorou de alegria. Todos no apartamento choraram de alegria. E então vieram as cobranças. E então vieram as promessas. E então o ano virou. Começaram as aulas. Promessa é dívida. Tudo vai ser diferente. É só ter foco, força e fé. Fácil falar. Os amigos do adolescente estão torrando na praia. A cidade está vazia. O futebol no clube quebraria o galho. Mas não vai ter. Resolveram aproveitar o feriado para dar um trato no gramado. Não vai ter futebol, mas vai ter Dom Casmurro. A prova será na semana que vem. O professor disse que é para ler o livro inteiro. Não adianta ler resumo. Não adianta ver o seriado no YouTube. Ele resolveu iniciar a leitura. Maldito Machado de Assis! Aquele tonto do professor enchendo a boca para falar do cara! Vida bandida!
Eu imagino a história do adolescente. E é só uma janela. Há dezenas de janelas. Há dezenas de prédios. Há dezenas de ruas. E eu parado na calçada, olhando para uma janela. Eu teria que ser o Tolstói da rua da Penha.

A rua da Penha está vazia. Os flanelinhas sumiram. Talvez eu consiga, quem sabe, escrever sobre os flanelinhas. São histórias inacreditáveis. São histórias que valem tratados sobre o Brasil. São histórias de Edgar Alan Poe. São histórias burlescas. São histórias de realismo fantástico.

A cidade está vazia, mas as freadas que fazem o coração da gente disparar não são trégua. A cidade está vazia, mas as sirenes não silenciam. A triste vida da cidade continua a pleno vapor, a plena bala. Você passa a acreditar em assombração.
Eu quero escrever um texto forte. Eu quero eternizar o instante. Eu acredito que as palavras registram melhor que as fotografias. Eu quero muita coisa.

Mas, por enquanto, fico feliz de sentir a cidade vazia.

Útil e prático




Nelson Fonseca Neto

Não faz muito tempo, um amigo perguntou se tenho liberdade para escrever o que quiser neste espaço. Respondi que sim. Nunca tive qualquer problema com meus editores. Obrigado, Juliana! Obrigado, Fineis!

Liberdade deve ter como contrapartida a responsabilidade. Foram muitas as semanas em que escrevi abobrinhas. Foi de tudo um pouco. Desabafos rabugentos. Textos pedantes sobre os clássicos da literatura. Pitacos futebolísitcos. Contos irritantes divididos em várias partes. Crônicas repletas de metalinguagem. Muita coisa, minha gente!

Mas não escrevi algo verdadeiramente útil. O sonho da minha vida é ser útil e prático. Juro que tentei várias vezes ser assim aqui. Pena que minha tacanhice nunca permitiu.

Só que, para todos nós, chega a hora da verdade. No momento em que escrevo este texto, estou sozinho. A Patricia saiu. O sol está terrível. Umas crianças barulhentas brincam na piscina do prédio ao lado. Um cachorrinho late ardido alguns andares abaixo. Tem até uma calopsita enlouquecida para compor o cenário.

É domingo, e você vai ler este texto na sexta-feira logo depois do Carnaval. Espero que tudo tenha corrido bem na farra.

É domingo, almoçamos bem, preparei as aulas, li um pouco de Isaac Bashevis Singer, enviei uns testes para a coordenação da escola onde trabalho. Tudo tramando para eu ficar com a cara enfiada no ventilador, acompanhando o jogo do Palmeiras. Nem palmeirense eu sou. Resumindo: momentos para saborear a letargia.

Só que enfiei na cabeça que eu quero ser útil e prático. Infelizmente sou uma porcaria para trabalhos braçais. Sei lá, eu bem que poderia trocar uma lâmpada ou resolver o problema do assoalho que range num certo ponto da sala. Seria tão bom! Mas eu, quando ouço a expressão "chave Philips", acho que a ferramenta vem da fábrica de televisão.

Então eu só posso ser útil e prático escrevendo. Bem agora, vocês estão pensando: lá vêm as dicas de livros. Erraram. Chega de ler! O brasileiro lê muito! Partamos para a ação.

Em quais aspectos da vida eu sou bom? Não respondam. Eu mesmo me encarrego da depreciação. Em quase nada. Faço umas vozinhas fininhas engraçadas. Jogo razoavelmente bem tênis de mesa. Sou frio na hora de bater pênalti. Não ando que nem um louco pelas vias sorocabanas. Ajudo algumas livrarias da cidade gastando o dinheiro que deveria ir para o leite das crianças. Essas coisas.

E também acho que sou um bom observador. Não importa a situação -- tirando as aulas, óbvio --, fico bobeando pelos cantos. Não é tristeza, longe disso. Sei lá o que é. As coisas são como são. Observo e anoto. Tenho vários caderninhos. Muito do material é bobagem. Às vezes uso uma coisa ou outra. Das vastas anotações, salvam-se as observações de algumas situações que observei ao longo destes anos. Dando uma penteada aqui e outra ali, elas viraram um pequeno código de conduta. Sim, isso mesmo, um guia para não passarmos vergonha. Parece pouca coisa, mas acho que ajuda bastante. Seguem alguns pontos. Dividi em tópicos por amor ao didatismo. Sangue de professor, vocês entendem.

Na colação de grau. Tenham respeito pela solenidade da ocasião. É um marco. Não transformem numa micareta. Por que tudo tem que ser meio micareta nos dias de hoje? Nada de levar buzina em spray. Nem pensem naquela espuma meio fétida.

Na fila da padaria. Enfiem o maldito celular no bolso. Olhe para a cara de quem está atendendo. Ser avoado não é glamouroso. Nada de responder com um "oi?" a uma pergunta tão prosaica como "débito ou crédito?".

Na livraria. Não berre. Contenha o entusiasmo. Ninguém quer saber se vocês gostam ou não de tal livro. Ninguém quer ouvir sua resenha oral.

Na micareta. Vocês realmente precisam ir a uma micareta?

No restaurante japonês. Primeiramente, nada de fotos dos barquinhos com sushis e sashimis. Segundamente, expulsem o espírito maligno que fica soprando em seus ouvidos que vocês devem comer até arrebentar. Isso é muito cafona, desculpe informar.

Na academia. Por favor, por favor mesmo, não usem regatas. Levem uma toalhinha. Não namorem a imagem no espelho. Não berrem.

Nas redes sociais. Ninguém está apontando um revólver para sua cabeça, ordenando para vocês comentarem nos sites de notícia. A vida é dura, e vocês precisam saber que ninguém quer saber o que vocês acham disso ou daquilo. Nos perfis do Facebook, nada de citações da Clarice Lispector. Se quiserem escrever algo sobre Raduan Nassar, uma dica: primeiramente, leiam seus livros. Cuidado com as indiretas raivosas ou melancólicas. As outras pessoas costumam rir delas. Agora, sejam compartilhadores ativos de fotos de gatinhos e cachorrinhos perdidos. Aí, sim, vocês estarão sendo decentes.

Em velórios. Velórios não são baladas nem micaretas. Sei que é difícil assimilar uma informação dessas, mas o trivial deve ser repisado.
Tenho várias outras situações na cabeça. Depois, posso dividir com vocês.

Espero ter sido útil e prático.

O exótico (conto - final)




Nelson Fonseca Neto

Vamos começar com um vídeo.

(Duração do vídeo: quatro minutos e trinta e dois segundos. Imagens aceleradas de resorts tradicionais. Para as primeiras cenas, uma música bem animada, estilo rumba. Montanhas de comidas. Bebidas servidas em copos gigantescos. Exatamente aos dois minutos e quatro segundos, a tela fica preta. A música é interrompida. Surgem cenas das pessoas que haviam aproveitado as festanças dos resorts tradicionais. Elas estão tristes. Beliscam as barrigas flácidas. Olham com desdém para os objetos de suas casas. Uma dessas pessoas, homem de uns quarenta anos, afirma: o prazer torna-se amargura quando termina; o primeiro gole é doce; o resto é intragável; a gente vive segundos felizes e uma eternidade de aporrinhação; gastei um dinheirão para sofrer. A tela fica preta novamente. Três segundos depois, surge uma música bélica e os dizeres: um gole doce, uma vida amarga.)

Gostaram? Eu criei o roteiro. Acho que ele diz muita coisa. Vocês entendem, não?

Repararam como o domingo, logo nos primeiros minutos depois do almoço, é um martírio para a maioria das pessoas? O ser humano é um abismo, não tem jeito. O mesmo sujeito que parecia caminhar pelas nuvens no sábado mal consegue falar com a esposa na tarde de domingo. Claro que ele pensa na semana que se inicia no dia seguinte.

Vejam como pode ser interessante pensar ousadamente. Quase todo mundo culpa os dias de trabalho. Como se a tristeza estivesse nos dias suados. Para essas pessoas, tudo seria ótimo se houvesse mais dias de lazer.

Só que eu acho que é justamente o contrário. A culpa é do sábado e da manhã de domingo. Sintetizando: a culpa é do contraste. Só se sofre quando se conhece a alegria. O rico que perde muito sofre mais que o pobre que nunca teve nada. O problema está no conhecimento da felicidade. O problema está na queda.

Vou continuar com o exemplo das tardes de domingo. Essas tardes seriam tão sombrias se não houvesse sábado? Claro que não seriam. A vida seria um caminhar homogêneo em linha reta. Não seria a epifania, não seria o júbilo. Mas não seria a tristeza.

Agora imaginem essa ideia aplicada a um contexto maior. Nosso "resort prisão" surge justamente para salvar as pessoas. Nosso empreendimento é um treino para a vida. Sendo bem conciso, eu diria: oferecemos a carga máxima de sofrimento; depois, tudo fica mais fácil. É como se a segunda-feira se transformasse num domingo. Eu iria além: depois de passar um tempo em nosso resort, todos os dias serão domingos. Hahahaha!

Aqui, uma animação de como será nosso empreendimento visto do alto.

(Surge, na tela, uma animação computadorizada. Tem-se uma vista aérea. Não há piscinas. Não há qualquer indício de jardins. Há prédios acinzentados. As janelas são minúsculas. São quatro grandes prédios acinzentados. Há um pátio que deve servir aos quatro prédios. Há também quatro torres de vigilância. O muro que cerca o enorme terreno tem oito metros de altura. Num dos cantos, um prédio mais baixo. É o refeitório.)

Viram que interessante? Seguimos fielmente a arquitetura prisional. Sem querer, temos, em nosso negócio, um bônus. Construir tudo isso é rápido e barato.

Vocês estão percebendo que não estou para brincadeiras. O que estou mostrando não é um parque temático. Seria contraditório só oferecermos a casca. Imaginem o paradoxo: o ambiente é sombrio, mas as refeições são de primeira linha. Não dá para ser assim.
Nossos nutricionistas esmeraram-se na preparação de um cardápio verdadeiramente nojento. Eles, inclusive, medirão a quantidade de coliformes fecais em cada refeição. Se vendemos sofrimento, precisamos entregar cólicas e evacuações assustadoras. Quem come da nossa comida deve definhar, ver tudo nublado, rolar de dor.

Nossos arquitetos pensaram em acomodações que impeçam a circulação do ar. A ideia fundamental é que o calor seja sufocante. Queremos que nossos clientes passem o dia tentando enfiar a cara pela janela. Cada acomodação estará devidamente apinhada. E haverá uma latrina para cada vinte pessoas. Nossos clientes entenderão as potencialidades do corpo humano.

Nossos pedagogos criaram regras perfeitamente absurdas. Os menores deslizes serão punidos. Haverá quartinhos para toda sorte de torturas. Haverá também um sistema baseado no suborno. Quem conseguir dar um jeito de fazer um agrado, ganha um outro agrado de nossa parte. Nossos clientes entenderão que nada vem fácil nesta vida.

Daqui a pouco, vocês receberão uma pasta contendo informações mais minuciosas. Ali, vocês verão preços, permanência mínima, modalidades de punição, horários de banho de sol. Não quero desperdiçar o tempo de vocês. Vocês sairão daqui com uma noção clara do "resort prisão".

Para finalizar: imaginem um cliente passando um bom tempo conosco. Ele terá visto de tudo um pouco. Ele terá conhecido os tristes dias. E depois ele poderá retomar sua vida.

Sejam honestos: um sujeito desses continuará reclamando nas tardes de domingo?

Obrigado!

(Fim do conto.)

O exótico (conto - terceira parte)



Nelson Fonseca Filho

nelsonfonsecaletraviva@gmail.com


Vocês sabem que as grandes ideias são de uma simplicidade avassaladora. Depois que alguém tem uma ideia genial, muita gente fica desconcertada: como não pensei nisso antes? Pois é. A vida é assim. Fazer o quê?


Foi o que aconteceu comigo na manhã da iluminação. Eu estava bebendo café e lendo jornal. De repente, alguns comerciais de televisão apareceram na minha cabeça. Sei que é meio clichê, mas senti uma vertigem. Ainda bem que durou pouco. Não gosto dos aspectos incontroláveis da vida. Rapidamente minha capacidade de amarrar os fios veio à tona.


Claro! Aquelas imagens dos comerciais eram um sinal. Todas elas, a seu modo, mostravam que as pessoas desejam novas emoções, novas experiências. Não importa se é a caminhonete no meio da lama ou se é a praia nos cafundós: todos querem sair da mesmice. E todos querem que a experiência seja marcante de fato. Já repararam que a febre das tatuagens tem a ver justamente com isso?


Estão acompanhando? Ótimo! Estamos chegando ao ponto central. Anotem bem: experiência marcante. Daremos agora o próximo passo.
Repararam como tem aumentado o número de resorts? Tenho certeza de que já repararam. O que, no fundo, são os resorts? Ilhas que nos isolam da realidade. Sempre estão localizadas em espaços paradisíacos. Cobram os olhos da cara porque oferecem isolamento. O mito da ilha perdida não morreu.


E o que mais? Os resorts são o paraíso da abundância. Rios de cerveja e uísque. Montanhas de sashimi e tapioca. O "all inclusive" é a senha do paraíso.


Se eu acho ruim a ideia desses resorts? Claro que não. Quem teve a sacada é brilhante. Mas a coisa toda se desgastou. Com o perdão da gíria, virou carne de vaca. Hoje, qualquer hotelzinho fuleiro quer ser resort. Vocês sabem do que estou falando.


Sem mais delongas, minha iluminação naquela manhã: por que não um resort que traga uma experiência de fato inesquecível?
E o que é inesquecível? O descanso não é inesquecível. O tobogã não é inesquecível. A saquerita não é inesquecível. Mas, então, o que é inesquecível? Ora, o sofrimento! O sofrimento, com o perdão da licença poética, é a tatuagem da alma. É a nossa marca mais humana.


O problema sempre foi o caos, o aleatório, o imprevisível, a casca de banana que a vida gosta de colocar no nosso caminho. Em pleno século 21, é inadmissível vivermos como crianças na floresta escura. Isso funcionou nos contos dos irmãos Grimm. É até bacana na ficção. No jogo jogado (na vida real), não. É uma porcaria. Ainda bem que o problema surge para ser resolvido. Reparem.


E se alguém (uma empresa sólida, por exemplo) pudesse oferecer vivências controladas de sofrimento? Que fique claro que não sou burro. Ainda não chegamos ao ponto de matar e ressuscitar alguém só para que se tenha a experiência da morte. Ora, mas o arco das possibilidades é bem maior. Podemos lidar com outras questões.


Se não podemos lidar com a morte, podemos lidar com a tortura, com a prisão. E aqui chegamos ao ponto alto da minha fala.
O terrenão que comprei será o primeiro "resort prisão" do mundo. Nossa meta é oferecer sofrimentos inesquecíveis. Nossos clientes sairão de lá com uma nova maneira de encarar a vida.


Que fique claro: o negócio que estou propondo não é filantropia. Gastei meses fazendo o planejamento. Posso entregar para cada um de vocês as projeções financeiras. Vocês vão ver que não estou tratando de números mágicos. Como eu disse anteriormente, não enriqueci ganhando na loteria. Posso dizer, sem falsa humildade, que sei interpretar agudamente os cenários. Por favor, não espalhem: se eu quisesse, dominaria a vida política. Não da cidade, não do estado, mas do país. Não duvidem. Vocês estão vendo muito bem o que está acontecendo.


Junto com o planejamento financeiro, fiz algumas sondagens. É evidente que não foi do jeito tradicional. Por exemplo, seria absurdo imaginar um entrevistador, segurando uma pranchetinha, conversando com as pessoas na rua. Eu não seria burro de fazer uma coisa dessas. Minhas sondagens foram muito mais sutis. Conversei com gente de tudo quanto é tipo. Não entreguei o jogo. Conduzi tudo com muita delicadeza.


Mandarei os detalhes da conclusão depois. Quero, neste momento, fazer uma síntese: vocês não imaginam quantas pessoas pagariam por uma experiência em nosso "resort prisão". Vejam bem: não estou falando apenas da superfície da coisa. Os anseios dos nossos clientes não se limitam a questões arquitetônicas ou de uniforme. Eles não ficarão contentes apenas com funcionários vestidos de agentes penitenciários. Acreditem em mim: nossos clientes querem intensidade. E é a intensidade que pautará nossas atividades.


Falarei agora a respeito dos detalhes do nosso empreendimento. Alguém pode apagar as luzes e ligar o projetor?(Continua na próxima semana.)

O exótico (conto - segunda parte)




Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com




Como eu estava dizendo: certa manhã, tive uma iluminação. Eu estava bebendo café. Só bebo café sem açúcar. Não como nada de manhã. Embrulha meu estômago. Mas isso não vem ao caso.
Minha iluminação veio enquanto eu bebia o café puro e virava as páginas do jornal. Gosto de ler o jornal de cabo a rabo. Não deixo passar nada. Leio com o mesmo empenho as reportagens e as propagandas. Acho horóscopo um besteira, mas leio. Enfim, vocês entenderam.
Acho divertidas as propagandas. Acho engraçado o esforço de empurrar lixo para os ingênuos. Ler as propagandas anima minhas manhãs.
Na manhã da iluminação, topei com uma imagem de um condomínio. Vocês conhecem a cena. Um punhado de árvores. Um casal jovem. Um cachorro com a língua de fora. Duas crianças correndo. Junto com a imagem, o texto de sempre: muito mais que um condomínio, um clube no coração da cidade. Essas coisas.
E então as peças começaram a se encaixar na minha cabeça. Opa, as pessoas sonham com a exclusividade. Opa, as pessoas querem segurança. Opa, as pessoas querem viver experiências com pitadas de aventura.
Sim, aventura. Já repararam? São os estudantes de faculdades caras usando as férias para sentir na pele o que é ser um pescador numa aldeia sem energia elétrica. São as propagandas que mostram caminhonetes chafurdando no barro. Tudo muito interessante, mas, convenhamos, pálido, sem força, sem resultados duradouros. São experiências inofensivas.
Não consigo imaginar experiências sem resultados efetivos. É o meu temperamento.
Naquela manhã da iluminação, juntei a fome com a vontade de comer. Eu estava cansado de ganhar dinheiro no mercado financeiro. Tinha chegado a hora de fazer algo pelas pessoas. Ao mesmo tempo, eu não queria queimar dinheiro. Não sou louco. Excêntrico, talvez; alternativo, talvez; imbecil, jamais.
Decidi entrar no ramo dos condomínios. Mas não entro no jogo para fazer mais do mesmo. Vocês vão entender.
Escolhi um terreno enorme a uns cinco quilômetros daqui. Não foi difícil comprar. Os donos estavam com aquelas terras encalhadas. Não dava para plantar nada ali. Os donos estavam rezando para a cidade crescer até ali. Mas essas coisas sempre são problemáticas. Vai saber.
Cheguei com uma oferta em dinheiro vivo. Eles tomaram um susto. Para fazer charme, disseram que iriam pensar e que dariam a resposta na próxima semana. Quando ligaram de volta, disseram que a minha oferta poderia melhorar um pouco. Eu sabia que eles estavam contentes com o que eu havia oferecido, mas estavam fazendo aquele joguinho só porque ouviram por aí que os bons negociantes são duros na queda.
Decidi bancar o sádico. Disse que nem a oferta anterior estava valendo. Fui grosso mesmo. Desliguei na cara do sujeito que representava a família. Eu dominava todas as alavancas. Eu sabia que eles ligariam de volta, com o rabo entre as pernas. E ligaram mesmo. Não fiz isso por causa do dinheiro. É que não gosto de gente que se acha esperta.
Comprei o terrenão. Essas notícias espalham rápido. Apareceu gente de tudo quanto é lado. Construtores com ideias megalomaníacas. Arquitetos com tendências revolucionárias. Políticos dando a entender que sabiam muito bem como tudo seria no médio prazo. Essas coisas.
Minha vontade era botar todo mundo para correr. Mas seria menos divertido. Sou mestre na arte de dar corda. A literatura me ensinou que a vida é palco. Nada mais delicioso que conversar com uma pessoa que acredita estar passando uma rasteira na gente. Eu poderia escrever um tratado a respeito das imposturas desses espertalhões.
Gosto de imaginar um desses sujeitos que tentam me enganar. Imagino o sujeito acordando mais cedo que o normal, para colocar as ideias em ordem. Imagino o sujeito mordendo o filãozinho enquanto conversa com a esposa sobre a grande bolada que eles vão, se tudo der certo, ganhar. Imagino o sujeito tomando um banho caprichado. Imagino o sujeito olhando para as camisas. Imagino o sujeito escolhendo a roupa que ele acha que transmite mais credibilidade. Imagino tudo isso. Culpa da literatura.
Logo depois que as notícias da compra do terreno se espalharam, tive de conversar com dezenas desses sujeitos. Tratei todos muito bem. Meu olhar demonstrava interesse. Minha voz, entusiasmo. E eles caíam. Despediam-se com a convicção de que tinham levado o horário no bico. Sempre me encantou a imagem do gato brincando com o rato antes de devorá-lo. É uma bela imagem. Espero que vocês entendam.
Claro que não cheguei perto de revelar o que passou pela minha cabeça na manhã da iluminação. Eles não seriam parceiros adequados. E eu não precisava de parceiros. A vanguarda costuma ser solitário.
Pela reação de vocês, acho que vocês estão esperando um condomínio um pouco mais elegante que o normal. Se estão pensando assim, erraram feio. Chegou a hora da verdade. Vocês ficarão loucos de alegria.
(Continua na próxima semana.)

O exótico (conto primeira parte)




Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


Não foi fácil chegar até aqui. Claro que estou falando no sentido metafórico. Gosto de explicar bem as coisas. Para muita gente, parece uma coisa chata. As pessoas não gostam da linguagem exata. Não tem problema. Vou tocando o barco assim mesmo. Claro que estou falando, de novo, no sentido metafórico.


Voltando ao ponto inicial. Não foi fácil chegar até aqui. Se vocês permitirem, falarei um pouco a respeito de minha trajetória. Não encarem como enrolação. Vocês perceberão o sentido perto do final desta apresentação.


Acho que posso dizer que sou um peixe fora d"água. Eu ia usar a expressão "ponto fora da curva", mas ela é meio surrada. O que desejo dizer é o seguinte: minha trajetória não é convencional. Vocês entenderão.


O senso comum diz que pessoas muito cultas não sabem ganhar dinheiro. Como se os livros inibissem os aspectos práticos da vida. Como se o bom leitor vivesse sempre no mundo da lua. Como se alguém com tendências artísticas fosse uma espécie de marginal. Vocês precisam saber que tais visões são tipicamente românticas.


Eu sou o caso que contraria a regra. Leio religiosamente os clássicos e sei ganhar dinheiro. Ouso dizer que a leitura dos grandes textos aguçou meu faro. Seria cansativo entrar nos detalhes dos exemplos. Basta que vocês acreditem em mim.


Mas acho que vocês merecem uma síntese do como se dá a relação entre literatura e negócios. A literatura, ao mostrar panoramas, tornou minha observação da realidade muito mais aguda. Balzac ensinou a reparar nas múltiplas correntes que percorrem a sociedade. Dostoiévski mostrou que a alma é abismo. Shakespeare, que gostamos de sangue.


Enquanto leio os clássicos, busco uma aplicação prática para seus ensinamentos. Perco pouco tempo com teorizações. Evito o deslumbramento. Os grandes livros são guias de sobrevivência. Machado de Assis mostrou que devo ser um eterno desconfiado.
Os clássicos também mostram a virtude da paciência. No mundo dos negócios, as pessoas costumam ter uma miopia surpreendente. Perdi a conta de quantos figurões mostraram uma visão contaminada pelo imediatismo. Qualquer novidade acaba sendo motivo de empolgação frenética ou de pessimismo inconsolável. Perde-se muito dinheiro assim. É gente que não conhece gente.


E a literatura nos ajuda a conhecer a humanidade a fundo. O cenário muda, claro, mas os comportamentos são os mesmos. A vaidade de Trimalquião é a vaidade do rei do camarote. Assim é a vida. A literatura, no fim das contas, é uma lente esplêndida.


Imagine isso nos mercados de ação. Consegui ganhar muito dinheiro mexendo na bolsa de valores. Vejam vocês o que é a natureza. Não sou bom com números. Leio gráficos apenas superficialmente. Não consigo chegar perto de compreender os modelos matemáticos que norteiam os investimentos. Não seria leviano a ponto de afirmar que são firulas. Apenas quero dizer que a visão humanística é muito mais poderosa.


Basta, sem falsa modéstia, ter olhos para ver. Eu não gastava meu tempo roendo as unhas diante do computador. Minhas decisões de compra e venda de ações sempre foram pautadas pela calma. Nunca quis ganhar dinheiro de um dia para outro. Muita gente afirmava que eu seria um fracasso como investidor, que eu era muito moroso, uma espécie de boi manso. Eu respondia: é o boi manso que arrebenta a cerca.


Meu método? Conhecer a alma dos homens e mulheres. Conhecer seus medos e alegrias. Reparar nos hábitos. Perceber as necessidades. Estudar as empresas que melhor compreendem os seres humanos. Colocar minhas fichas nessas empresas. Esperar placidamente. Finalmente, com o perdão da expressão, lavar a égua.


E como lavei a égua! Mas foi perdendo a graça. Não vou esconder: sou ambicioso. Não vejo mal nisso. Todos precisamos de combustível. É do ser humano repudiar o marasmo, as águas paradas.


Lá pelas tantas, resolvi, metaforicamente falando, recolher minhas fichas. O montante era suficiente para garantir a sobrevivência de várias gerações. Logo depois de recolher as fichas, decidi seguir o clichê: conheci lugares exóticos, comi nos melhores restaurantes, comprei roupas maravilhosas, construí uma mansão, essas coisas.


Mas logo perdeu a graça. Desejei ser útil. Logo pensei em filantropia. Desisti poucos dias depois. Não gosto de coitadismo. E filantropia é algo efêmero. Se o benfeitor decide cortar a verba, tudo acaba. E não há desafio intelectual, não há concepções revolucionárias. Tudo é provisório. E eu queria deixar minha marca no mundo.


Nada de escrever um livro, nada de plantar uma árvore, nada de ter um filho. Minha marca deveria ser uma mudança drástica de concepção. Criar o que o fordismo foi para Henry Ford. Não foi fácil. Reli os clássicos, metaforicamente falando, com uma lupa. Fiz dezenas de esboços.


Gastei muitas horas observando as pessoas nas mais diversas situações: fila no caixa eletrônico, fila na padaria, comentários nas redes sociais, e por aí vai.


Sei que soará convencional: certa manhã, tive uma iluminação. É o que desejo dividir com vocês a partir de agora. (Continua na próxima semana.)