LETRA VIVA
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Um conto de uma cidade (conto - primeira parte)




Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com



Sou professor, e você imagina que reclamo da escassez de leitura no Brasil. Imaginou corretamente. Acho que o brasileiro lê pouco, que as nossas livrarias são ridículas, que os livros mais vendidos são porcarias. Também acho que pouca gente sabe escrever com um mínimo de clareza. Leio o que as pessoas escrevem nas redes sociais e fico perplexo com a incapacidade de se concatenar duas frases num texto curto. Não é o caso de sair berrando em defesa da pureza gramatical. Acho que esses patrulheiros da colocação pronominal são imbecis.
Canalizo boa parte da minha raiva para essas questões. Fora isso, até que sou bonzinho. Não fico nervoso no trânsito, suporto longas filas, cumprimento as pessoas no elevador, participo de longas reuniões. Acho que todos nós precisamos de uma válvula de escape. Do contrário, não haveria sociedade. Seríamos ratazanas deslizando os dedos nos smartphones.
Mas estou me desviando. Este não é um texto sobre a situação brasileira. Quero contar algo mais interessante.
Aconteceu na semana passada. Eu estava aguardando a troca de óleo do meu carro. Sou um homem fiel, e deixo o meu carro nas mãos do pessoal de um posto de gasolina que fica perto de casa. Faço isso há mais de vinte anos.
O dono do posto de gasolina é um cara esperto. Tudo ali é muito arrumado. Perto de onde trocam o óleo, há uma loja de conveniência bem fornida. Servem bons lanches a preços justos. As mesinhas são confortáveis. Dá para ficar ali numa boa por vários minutos.
Na semana passada, eu estava na loja de conveniência do posto, comendo um lanche e lendo um livro. O livro era bom, mas não vou dizer o nome. Não quero bancar o esnobe. Era um bom livro, mas estava difícil prestar atenção. O volume da televisão estava alto, algumas pessoas olhavam atentas para um desses filmes de sessão da tarde. Passei minha infância vendo sessão da tarde, achava aquilo o máximo, e acho que não tenho o direito de ser chato só porque me tornei adulto.
Difícil manter a concentração no livro. Era daqueles que exigiam o máximo esforço do leitor. Percebi, em poucos minutos, que forçar a barra prejudicaria a leitura. Em alguns casos, é melhor reconhecer a derrota. Fechei o livro, dei uma espiada na televisão, olhei para a porta.
Entrou um amigo meu. Fazia alguns anos que eu não o via. Nossas conversas sempre foram boas. Ele também gostava de ler. Às vezes as pessoas olhavam torto para nós. Achavam que éramos pedantes. Nos barzinhos, tínhamos que mudar o rumo da conversa. Afundávamos na lama das conversas moles. Sorte que éramos pacientes. E assim tocamos a vida.
Coisa de uns quatro anos atrás, esse meu amigo arrumou emprego no Rio de Janeiro. Nunca mais conversamos. Isso acontece, infelizmente. Bom, deixemos os devaneios. O que importa é que o meu amigo entrou naquela loja de conveniência.
Todo relacionamento carrega uma boa dose de mistério. Convivemos diariamente com pessoas que não são importantes para nossa vida. Basta um afastamento de alguns meses para deixar clara a situação. Quando reencontramos essa pessoa, a conversa fica gelada, constrangida, e não vemos a hora de sair correndo dali. Mas há pessoas que se afastam por um longo tempo, e o reencontro é dos mais agradáveis. Como se não tivéssemos nos afastado por mais de uma semana. Essas são as verdadeiras afinidades.
Meu amigo entrou na loja de conveniência e me viu numa das mesinhas. Trocamos cumprimentos calorosos, mas não efusivos. Somos discretos. Ele puxou uma cadeira, colocamos o papo em dia, cada um contou o que aconteceu nos últimos anos. Era a parte burocrática do reencontro, e todos passamos por isso.
Meu carro ficaria pronto em uma hora, e o dele também. Ele pediu um lanche que eu sugeri. Superamos o protocolo inicial e passamos a falar de coisas realmente interessantes. Ele estava trabalhando para uma ONG que mapeava cidades que vinham tendo sucesso no campo da educação. Ele percorria o Brasil pesquisando essas cidades. Fiquei envergonhado, pois sou terrivelmente sedentário, e mal conheço as cidades vizinhas. Perdi a conta de quantas vezes, na virada do ano, prometi ser mais audacioso. Passei longe de cumprir tão nobres propósitos.
Não sou aventureiro, mas gosto de ouvir aventuras, e fui ouvindo os casos do meu amigo. Os primeiros casos foram contados em voz alta, sem qualquer tipo de mistério. Ele percebeu que o assunto me interessava. Lá pelas tantas, ele começou a cochichar. É que o que seria contado era sigiloso ainda, mas ele confiava em mim. Ele revelou o que estava acontecendo numa cidade minúscula. Ali, segundo ele, estava acontecendo um milagre. Uma cidadezinha cujos habitantes eram leitores vorazes. Por sorte, ficava a menos de cem quilômetros de onde estávamos. Ele queria que eu fosse com ele, naquela tarde mesmo, dar uma espiada na tal cidadezinha. Contrariando minha natureza, aceitei o convite.
(Continua na próxima semana.)

Lena e Frederico (o conto prometido)



Minha ideia inicial era entregar, hoje, um conto sem grandes explicações. Direto e reto, sem firulas ou gracinhas. Mais uma vez, infelizmente, meu planejamento foi para o vinagre. Culpa dos meus queridos leitores.

Publiquei, na semana passada, uma crônica. Era para ser um texto sobre Marilyn Monroe e Arthur Miller. Foi minha culpa: criei expectativas conservadoras. Muitos de vocês esperaram uma crônica histórica, que revelasse curiosidades a respeito do casal. Mas resolvi bancar o vanguardista. Escrevi uma crônica metalinguística. Muita gente não gostou. Disse que eu estava enrolando. Não estava. Bom, eu achava que não estava. Resolvi reler o texto. Mudei de ideia. Ficou mesmo com cara de enrolação. Assumo integralmente a responsabilidade.

Precisei de dois parágrafos para este arremedo de justificativa. Paro por aqui. Não quero ser apedrejado na rua. Finalmente, conto. O narrador será machadiano, dado a intromissões graciosas. Sempre é bom avisar. Não quero que me chamem de enrolador novamente. Bom, que venha o conto.

Não há pessoa que não tenha a sua teoria a respeito do amor. Acho que é instinto de sobrevivência. O seguro morreu de velho. Há quem diga que os opostos se atraem, e há quem diga que ocorre o contrário. Difícil cravar quem tem razão. Não sou o dono da verdade.

De qualquer forma, o casal da nossa história, ao menos nos primeiros passos da paixão, seguiu a máxima de que os opostos se atraem. Lena era exuberante e já fazia sucesso como atriz. Nesses casos, muita gente torce o nariz. Sempre surgem as tirações de sarro que insistem no destaque à burrice de quem é belo ou bela. Trata-se de um clichê. São inúmeros os casos de união entre formosura e inteligência. Os leitores atentos sabem do que estou falando.

Lena era considerada burra, o que é um equívoco. Ela não era, eis a questão, acelerada. Nosso tempo avalia mal a inteligência. Acha que rapidez é sinal de vitalidade do cérebro. Quanta gente voluntariosa não comete desatinos? Ora, Lena apenas gostava de pesar bem as coisas da vida. E assim ficou com fama de burra.

Frederico não era uma estátua de Michelângelo, mas também não era um Quasímodo. Era um tipo comum. O seu brilho estava no intelecto. Frederico escrevia roteiros para a televisão. Em poucos anos, tornou-se um nome respeitado. Suas histórias conseguiam ser, ao mesmo tempo, ousadas e populares. Sutilmente, ele mudou a maneira como milhões de pessoas encaravam uma história. Poucos conseguem fazer algo dessa natureza.

Lena e Frederico, trabalhando na televisão, precisavam frequentar festas imponentes e bestas. Não gostavam desses eventos, por razões diferentes. Lena gostava de ficar em casa, deitada na cama relembrando episódios da infância. Sua memória era um prodígio. Ela revisitava mentalmente os cômodos do apartamento onde morou por vários anos. Ela passava horas agradáveis nessas reminiscências. Frederico era menos contemplativo. Gostava de ficar em casa para ler seus clássicos prediletos. Mas obrigação é obrigação, e os dois precisavam circular por festas aborrecidas, suportar cretinos arrogantes, fingir alegria e vivacidade. Numa dessas festas, ficaram um tempão batendo papo. Apaixonaram-se. Parece comédia romântica, mas às vezes a vida funciona assim mesmo. Meu humilde papel é contar a história dos dois.

Namoraram, discretamente. Casaram com pompa. As revistas são infernais, e o Nelson Rubens, também. Foram capa de revistas, enfrentaram maratonas de perguntas cretinas. Tentaram preservar a vida íntima. Surgiram as brigas, as implicâncias miúdas, as fofocas plantadas por invejosos. Divorciaram-se, sem mágoas. Ainda guardam boas recordações. Têm trabalhado como nunca. E assim acaba a história. Às vezes, a vida não é uma comédia romântica.

Agora quero ver vocês falarem que eu enrolei. Até a próxima semana.

A crônica prometida




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@hotmail.com
Prometi, na semana passada, escrever uma crônica a partir de um "material bruto". Reconheço que o final do último texto, quando eu disse que escreveria uma crônica e um conto nas duas semanas seguintes, foi uma temeridade. Fui arrogante. Banquei o mestre da escrita, em pleno domínio de suas ferramentas. Pouco tempo depois da promessa, fiquei assustado. Sei que vocês são exigentes. Chance zero de enrolação.

Estou reconhecendo minhas limitações, apenas isso. Não vou quebrar o trato. Escreverei a crônica. Apenas peço um pouco de paciência. Preciso retomar alguns pontos da semana passada. Não estou insinuando que vocês têm memória curta. É que muita água passa por debaixo da ponte em uma semana. Por exemplo, acompanhar o noticiário nacional é uma aventura das mais exigentes. Entendo que uma humilde coluna não é das coisas mais marcantes desta vida. E tem um outro ponto que não pode ser menosprezado: pode ser que alguns de vocês não tenham lido o texto da semana passada. Se isso aconteceu, não tem problema. Recomendo que vocês procurem a coluna anterior na internet ou que peçam a uma boa alma o exemplar da sexta-feira passada. Leiam o que escrevi ali e voltem para cá. Desculpem o incômodo. Hora de mudar de parágrafo. Texto jornalístico é fogo.

Relembrando a semana passada: prometi escrever uma crônica a partir da história de Marilyn Monroe e Arthur Miller. Eles eram um casal dos mais interessantes. Sua união causou perplexidade. Ela era uma das grandes estrelas do cinema mundial, e ele era um dramaturgo de peso. Difícil imaginar pessoas mais incompatíveis. E eles acabaram se casando. A imprensa divulgou amplamente. Essa é a história que escolhi como ponto de partida para a crônica.

Hora de vocês perguntarem: cronista, como você chega a essas histórias? Talvez vocês imaginem alguém fuçando anedotas bizarras. Não é bem isso. Topei com o caso num livro dos mais interessantes, escrito por um humorista inglês. Leiam, por favor, vocês acharão uma delícia: Um por um, de Craig Brown. Não falarei muito a respeito agora. Isto aqui não é uma resenha. Espero que vocês entendam. Professor de redação é bitolado nos rigores dos gêneros textuais. Qualquer dia desses eu comento o livro. Não é uma promessa séria. Está mais para promessa furada de boteco. Vocês conhecem a história.

Voltando ao mais importante. Li o livro de Craig Brown. Um dos capítulos tratava de Monroe e Miller. Senti o estalo. Epa, dá para escrever alguma bobagem sobre! (Nota gramatical: gosto de encerrar frases com preposições.)

Saibam que um estalo não resolve muita coisa. Parece resolver, mas não resolve. Não estou desprezando. Sem o estalo, o texto não sai. Ele, para quem escreve, é uma espécie de paixonite. Empolga, mas não garante o amor. Sem constância e sem profundidade, o amor não desabrocha. Sem constância e sem profundidade, o texto não sai.

Tive o estalo, e dezenas de caminhos foram abertos. Poderia ser uma crônica histórica. Poderia ser uma ponte entre passado e presente. Poderia ser uma reflexão delicada. Poderia ser algo cômico. Poderia ser fofoca. Enfim, vocês entenderam.

Passei três dias rodeando o estalo. Trabalhei bastante. Mentalmente, elaborei várias versões. Uma pior que a outra. Vocês já passaram por isso? Têm uma ideia que consideram brilhante; ficam empolgados com ela; fazem soar as trombetas; acham que agora vai; e acaba não indo. O estalo é uma biribinha. Chega a ser patético. Sei que vocês são pessoas lúcidas. Se passam pelo drama, logo tocam a vida. Como eu sou meio bobo, não consigo tocar a vida. Para piorar: fiz uma promessa. E vocês clamando: e a crônica?

Não sou estelionatário, mas, vejam bem, vocês leram uma crônica. Uma crônica frágil, doentia, capenga, com cara de pilantra, mas crônica. Coisa mais manjada do mundo: a crônica sobre a dificuldade de se escrever uma crônica. Manjada, mas, ainda assim, crônica. Um dia faço algo digno com o material. Não estou prometendo, viu?

Semana que vem vocês lerão o conto. Tentarei melhorar. Desculpem.

Crônica? Conto?




Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com




Muitos cronistas, em algum momento de suas vidas, padeceram de complexo de inferioridade. Há vários relatos comprovando o que estou dizendo. O tom varia. Há cronistas resignados e há cronistas mais tristes com a sua humilde situação. Às vezes é apenas uma fase: o passar dos anos pode trazer uma resignação confortável.
Tudo é muito variado, mas uma coisa é inegável: os cronistas olham com respeito para os ficcionistas. Como se criar fosse sempre superior a observar. No mundo das letras, viver no mundo da lua é respeitável.
E quando o cronista resolve bancar o ficcionista? Dá certo? Conheço vários casos de sucesso. Rubem Braga escreveu algumas crônicas que poderiam estar na galeria dos melhores contos publicados no Brasil. Muitas das crônicas de Carlos Drummond de Andrade deveriam estar em qualquer antologia respeitável de contos.
É possível perceber traços do cronista nos casos em que ele resolve escrever um conto? Na maioria das vezes, sim. E como seria isso? Não é nada científico o que escreverei aqui, e tem muito mais a ver com a minha experiência: cronistas costumam escrever contos sutis. As páginas mostram apreço pelas miudezas. É a valorização do detalhe revelador. Cronistas que resolvem escrever ficção são, por excelência, metonímicos. Parte pelo todo, essas coisas.
Como esta coluna deseja ser útil, decidi mostrar na prática o processo de transformação de crônica em conto. Não há, aqui, qualquer vontade de escrever um manual. Sei que posso ser facilmente contestado. Os apartes choveriam. Talvez seja melhor registrar o seguinte: em vez de "como transformar crônica em conto", diremos "como Nelson Fonseca Neto transforma crônica em conto".
Primeiro passo: a coleta do material. Semana passada, li a história, real, de um casal com inúmeras incompatibilidades. A moça era uma celebridade, de arrebatadora beleza. O moço, não tão moço assim, era um escritor de prestígio, aclamado nas principais rodas de intelectuais. Talvez não seja algo tão espetacular assim: é a história de Marilyn Monroe e Arthur Miller. Li o relato e pensei: pode dar samba. Já é alguma coisa.
Segundo passo: o que fazer com o material. Se eu quiser escrever uma crônica, criarei um primeiro parágrafo mostrando, sei lá, como topei com o texto. Poderei fazer uma gracinha. A partir do segundo parágrafo, farei de tudo para sintetizar a história da melhor maneira possível. Depois desse bloco, poderei criar uma ponte da história original com algo observado nos dias de hoje. Poderei concluir de um jeito amargo ou de um jeito brincalhão. Dependerá do meu estado de ânimo. Pronto, a crônica está pronta.
Ainda segundo passo: o que fazer com o material. Eu quero escrever um conto. Precisarei apagar a fonte (a história original). Necessário mudar o contexto, apertar vários parafusos, mudar cores, tom, essas coisas. A história original é, vamos lá, o molde. Resta preencher o molde. É a hora mais criativa. Adicionar personagens, situações. Pensar no tom: dramático ou cômico? Mistura dos dois? Um texto meio maluco? Foco narrativo? Diálogos? Com muito trabalho, o conto sai. Se estará longe ou perto da história original, fica a critério de quem escreve.
E agora chegou o momento que pode ser catastrófico para mim: nas próximas semanas, a partir da história de Marilyn Monroe e Arthur Miller, escreverei uma crônica e um conto. Será o nosso laboratório de escrita.
Espero não decepcionar. Mandem boas vibrações.

Minhocas





Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


Não sou um cara isolado do mundo. Acompanho tendências. Rio de algumas, levo a sério outras. As que levo a sério têm a ver com os meus ofícios. Sempre que aparece algo ligado ao magistério ou à escrita, leio ou assisto com certa avidez.
Noto o florescimento dos cursos de roteiro. Tem de tudo um pouco. Cursos sérios e cursos picaretas. Vale a mesma coisa para os livros que abordam o assunto. Não precisa ser muito sofisticado para entender a razão de tal florescimento. É a onda liderada por Netflix e HBO. Dessas empresas vêm produções de primeira linha. Há porcarias também, claro. A vida é assim mesmo.
Vejo muita gente desejando ser roteirista. Tomara que dê certo para essas pessoas. Mas acho que vai rolar a história de sempre: muitos serão chamados, poucos serão escolhidos. De qualquer forma, fica aqui a minha torcida.
Como eu disse acima, acompanho tendências. Posso abrir o jogo para vocês: nos últimos tempos, venho elaborando, mentalmente, roteiros. Calma, minha gente, não vou largar as aulas. Os roteiros são, digamos, exercícios mentais. Chance zero de algum deles ganhar vida.
Sou um sujeito dividido. Tem um lado meu que é sensato, ponderado, equilibrado. E tem um lado anárquico, maluco, despirocado. Acho que, no dia a dia, prevalece o primeiro. Acho que tem que ser assim, né? Do contrário, ir ao banco pagar um boleto ou preparar uma aula de orações subordinadas seriam jornadas extenuantes.
O segundo lado, o pirado, dá sinal de sua existência quando invento de lidar com criação literária. Por isso os contos saem, quase sempre, tortos, exagerados, distópicos, grotescos, mordazes, repletos de personagens perturbadas. Já tentei andar na linha. Saíram uns contos bestas, anêmicos.
De certa forma, roteiro é criação. E todos esses roteiros imaginados são, acho, perturbadores. Não consigo imaginar algo moderado, sutil, matizado, delicado. Minhas personagens não são refinadas: elas berram e dizem os maiores disparates. As situações nunca são corriqueiras. Ou o mundo é apocalíptico ou o mundo é róseo, exageradamente fofo.
Para vocês sentirem o drama: tenho o hábito de ver comerciais na televisão e imaginar roteiros alternativos. Vocês devem ter reparado nos cansativos comerciais de cerveja: praia ou churrasco; gente dançando que nem as bailarinas do Faustão; acontece algum problema (falta de cerveja); tudo termina bem, com atores e atrizes rindo. Deve ser algum pacto sinistro envolvendo publicitários e cervejarias. Vai ver eles sabem das coisas e eu sou um bocó.
O meu comercial de cerveja daria vida a uma garrafa. Seria algo no estilo Toy story ou A Bela e a Fera, com objetos e cacarecos falantes. Seria uma garrafa melancólica, preterida. É que ela habita uma geladeira cujos proprietários são naturebas. Ela, a pobre garrafa, só foi aparecer ali porque, num jantarzinho qualquer, um casal de amigos dos donos da casa levou um mimo, no caso, a melancólica garrafa. E ali ela passa um longo e tenebroso inverno. Sucos detox infernizam sua vida, lançando chacotas agressivas. As verduras e os legumes engrossam o coro. Idem para os alimentos sem lactose. A vida da garrafa é horrorosa. Até que uma noite, o casal dono da geladeira briga feio. Algo envolvendo a luvinha que o marido usa na academia. Parece que a esposa guardou a luvinha no lugar errado. Essas coisas cruciais. Revoltado (não está fácil pra ninguém), o marido pega a garrafinha e toma um golão. O líquido o deixa comovido, e ele vai ao quarto pedir desculpas à esposa. A garrafinha tem um sorriso dos que são, ao final de tudo, donos da razão. Fim
Imaginem a angústia de quem tem essas minhocas na cabeça. Bom, pelo menos, desabafei. Obrigado.

Bonecos



Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


O bebê não era um bebê. Era um boneco. O nome: bebê reborn. Acho que vocês já ouviram falar. São bonecos idênticos a bebês. As pequenas rugas estão todas ali. Idem para cílios, cabelinho, boquinha, narizinho. Esses bonecos iludem tranquilamente os desavisados
A dúvida para a coluna desta semana foi cruel, crudelíssima: escrever a respeito de livros interessantes, lidos nos últimos dias, ou escrever a respeito de algo que tenho observado em lugares como shoppings e padarias? Você tem três segundos para adivinhar. Um, dois, três.
Pronto. Eu tenho certeza de que você acertou. Resolvi escrever a respeito de algo que tenho observado em lugares como shoppings e padarias. Antes de chegar ao ponto, preciso contextualizar um pouco.
Tudo começou num elevador de shopping. Eu estava com a Patrícia. Na cabine, além de nós, entrou um casal com duas crianças na faixa dos dez anos e um bebê de colo. Vocês sabem muito bem que a Patrícia é muito mais esperta do que este que escreve estas linhas. Ela logo sacou o cenário. Eu, eterno distraído, não notei as nuances daquela cabine.
Só fui notar o que estava acontecendo depois que uma das crianças de dez anos resolveu pegar, de um jeito temerário, o bebê que estava no colo da mãe. Eu quase desmaiei de medo. É que o bebê estava sendo puxado, com muita força, pela perninha. Tive presença de espírito para notar que a Patrícia estava rindo, que o pai estava rindo, que a mãe estava rindo, que as crianças estavam rindo. Afe, o que era aquilo? Fui parar numa outra dimensão, pautada por regras macabras? Eu estava desacordado e delirando?
Não. Aquilo era real. O bebê não era um bebê. Era um boneco. O nome: bebê reborn. Acho que vocês já ouviram falar. São bonecos idênticos a bebês. As pequenas rugas estão todas ali. Idem para cílios, cabelinho, boquinha, narizinho. Esses bonecos iludem tranquilamente os desavisados.
A cabine do elevador chegou ao andar desejado, a família do bebê reborn saiu, a Patrícia e eu saímos. Sempre perspicaz, a Patrícia notou meu susto e riu sadicamente. Ela já tinha ouvido falar no fenômeno. Eterna professora, trouxe informações importantes. O preço do brinquedo é altíssimo. O boneco virou fenômeno mundial. Há comunidades na internet homenageando o tal bebê reborn. Existem grupos de discussão sobre as sutilezas disso tudo.
De lá para cá, outras coisas foram acontecendo, sempre reforçando a febre reborn. Grandes amigos têm filhos e filhas que brincam, em casa, com bebês reborn. Soubemos por esses nossos grandes amigos que existem, também, grandes encontros, espécie de piqueniques, para amantes do boneco. Não pense que são eventos fracassados. Parece que lota. Os relatos desses nossos grandes amigos são engraçados, típicos da ficção mais enlouquecida. Não entrarei nos detalhes desses relatos aqui. O material é vasto, e eu não sou o Tolstói reborn.
Nosso olhar nunca é inocente. Vemos o que queremos. E eu passei a ver vários bebês reborns zanzando por aí. Modo de dizer, claro. Sempre no colo de alguém, ainda bem. Aproveitei para conversar com pessoas enfronhadas nesse universo reborn. Muitas informações foram úteis. Gastei um tempo pesquisando na internet. Informações igualmente úteis. Há empresas que, a partir da foto de adultos, cria uma simulação, uma espécie de fusão de imagens, e fabrica um bebê reborn que é a cara do pai e a cara da mãe.
(Confesso que, neste ponto, o do cruzamento de rostos, fiquei com medo. Minha mente doentia começou a fazer projeções distópicas. Imaginei bebês reborn andando e falando. Melhor bater três vezes na madeira.)
Você sabe que nossos pensamentos são erráticos. Uma coisa puxa a outra. E assim chegamos ao terreno da idiotice. Não falo de você, por favor. Falo de mim. Quando solto as rédeas, o ponto final sempre é algo perturbador. Começou com o bebê reborn e foi avançando para a Barbie, para o Ken, para o Boneco Assassino, para o Fofão, para a Xuxa grandona, para a Susie, para a Lu Patinadora. Peneirei os bonecos e bonecas. Dividi em duas categorias: os inofensivos e os assustadores. Tentei ser justo. Eu acreditava que alguns poderiam ser amáveis. Infelizmente, todos foram para a categoria de assustadores.
Lógico que o problema está em mim. Não me lembro de qualquer episódio tétrico na infância. Mas tenho uma pista: culpa da visão periférica. E culpa, também, do meu jeito assustadiço. Tudo me assusta: a porta que bate, o telefone que toca, o tapinha que a Patrícia dá no meu pé, o carro apressado, a sirene, a palma desnecessária. É fácil de entender: estou olhando para frente, noto que algo ao lado se movimenta, pronto, taquicardia na certa.
E tem mais: agora, só penso em bonecos. Rabisquei um conto protagonizado por bonecos. Invento apelidos a partir do nome de bonecos. Já tive esse tipo de febre. Demora algumas semanas para passar. Quando o furacão passar, volto a escrever normalmente. Pode ser que seja na semana que vem. Nunca se sabe. Espero que sim.

Retomada



Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com



As leituras moldam minha vida, a maneira como encaro as coisas. Sou maleável, e não vejo problema de reconhecer. Claro que todos nós mantemos uma espécie de núcleo duro de personalidade. Mais ou menos assim: o vento pode soprar assim ou assado, revemos alguns pontos, mas algo permanece inflexível
Ausentei-me nas últimas semanas. Minhas férias do jornal não são sincronizadas com as do colégio. Não pensem que passei os últimos dias na flauta. Entendam: não estou reclamando. Senti falta de batucar esta coluna. Fiquei com saudade de vocês.
Tive boas surpresas nos últimos dias. Muita gente perguntando quando eu voltaria. Parece bobagem, mas não é: sempre fico comovido com essas manifestações carinhosas. Talvez seja complexo de vira-lata, mas continuo acreditando que poucas pessoas gostam do que escrevo. Nesses dias de ausência, percebi que tenho leitores e leitoras. Melhor ainda: gente que realmente lê o que escrevo. Quando chegamos a uma certa idade, as alegrias não precisam ser trepidantes.
Muitos desses leitores e muitas dessas leitoras perguntam o que fiz nos dias de férias. Dei aulas e li. Escrevi muito pouco. Essa história de escrever pouco eu reconheço meio envergonhado. Vivo alardeando a importância de se escrever regularmente. Meus alunos e minhas alunas conhecem a ladainha.
Quero aprofundar um pouco isso de escrever pouco quando não há obrigação. Juro para vocês, e a Patrícia e os meus pais estão de prova: meu desejo era escrever como se não estivesse de férias. Dois motivos explicam, um nobre e outro prático. O nobre: o ato da escrita não pode depender exclusivamente da obrigação; deve ser um, vejam só!, um jeito de se tocar a vida. O prático: boa oportunidade de se acumular uma gordurinha e usá-la no fim do ano, por exemplo. Evidentemente, não cumpri a promessa. Passei as últimas semanas escrevendo muito pouco.
Se fez falta? Fez muita falta. Difícil explicar. Não são alterações concretas. Não escrever mexe com a maneira como penso, como leio um livro, como observo o entorno. Sei lá, tudo fica meio frouxo. Leio com menos atenção, não imagino contos, fico meio preguiçoso. Minha explicação esbarra nisso. Se eu tentar puxar ainda mais o fio, começo a ficar meio místico.
Agora, ler, li bastante. Como o hábito nos embota, não? Faz muitos anos que leio regularmente. Não consigo recordar se, nos últimos vinte anos, fiquei um dia sem ler ao menos algumas páginas. Incorporei esse processo da leitura de um modo que não consigo me imaginar longe de um livro. Sei que parece pedante, e longe de mim julgar que ler bastante me torna uma pessoa melhor. Eu simplesmente leio bastante. Isso não tem a ver com caráter. Também não tem a ver com inteligência. No fundo, é bem simples: gosto de ler, não consigo deixar de ler.
Tenho a mania de balanços. Gosto, ao final de cada ano, de repassar os títulos lidos nos últimos meses. Sempre fico assustado. Caramba, foi tudo isso? Foi. Coisa de doido, não?
E as leituras moldam minha vida, a maneira como encaro as coisas. Sou maleável, e não vejo problema de reconhecer. Claro que todos nós mantemos uma espécie de núcleo duro de personalidade. Mais ou menos assim: o vento pode soprar assim ou assado, revemos alguns pontos, mas algo permanece inflexível. É assim que as leituras atuam em mim. Tenho fases efusivas e tenho fases melancólicas, e essas fases dependem muito dos livros que estou lendo. Impossível engatar a leitura dos romanções do Dostoiévski e encarar a vida como algo brilhante e leve.
Assim, minhas leituras necessariamente influenciam os textos que escrevo. Claro que os textos das próximas semanas refletirão o que venho lendo. É assim desde sempre.
Aproveito, então, para elencar autores e autoras que têm acionado as alavancas do meu cérebro: Haruki Murakami, Lucia Berlin, Sergio Pitol, Wells Towers, George Saunders, Willem Eschot.
Não esperem resenhas bem arrumadinhas. Superei, faz tempo, essa fase. Faz anos que chutei o balde. Nada contra textos tradicionais. Gosto de lê-los. Aprendo muito com eles. Apenas estou dizendo que não consigo escrever com muitas limitações. Vida que segue.
Agora, aí sim, esperem, para as próximas semanas, ecos desses grandes escritores e dessas grandes escritoras. Pode ser que apareça um conto meio maluco inspirado em George Saunders. Pode ser que apareça outro conto, calcado nas miudezas, inspirado em Lucia Berlin. Pode ser que apareça um ensaio meio místico inspirado no grande Murakami.
A sorte está lançada. É um ciclo que começa. Se será bom ou não, isso não me preocupa. O importante é seguir o que o coração manda. E o mais importante de tudo: ter vocês ao meu lado.
Que os próximos meses sejam felizes!

Aula de conto (conto - final)




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


Opa! Estou vendo que você está ficando aborrecido. Vamos passar para algo mais prático.

Entenda: trabalharei com alguns exemplos. Seu estilo não precisa ser o meu estilo. Sei respeitar as individualidades.

Acho que você vai gostar desta parte. Nem todas as pessoas estão preparadas para longas exposições teóricas. Você precisa entender: nunca perderei este meu ar professoral. Por isso gastei os nossos primeiros minutos temperando a conversa com ingredientes eruditos.

Sei que você não me chamou. Sei que estou bancando o intrometido. Meu papel aqui é mostrar que escrever bons contos pode ser um excelente negócio. Não quero que tudo saia automaticamente. Você precisa compreender por que fará algo. Bom, chega de enrolação.

Você, no processo de escrita de um conto, precisa de um argumento. Argumento é a sinopse da história. Precisa saber quem faz o quê. Organização é fundamental. Não caia no conto do vigário que mostra o artista como uma antena privilegiada que captura ondas mágicas. Você não quer ser um artista. Você quer ser um trabalhador hábil. O argumento será sua bússola.

Claro que você quer perguntar: de onde tirar o argumento? Pergunta interessante. Cada escritor a responde de um jeito. É só pesquisar. Há bons livros de entrevistas com escritores. Recomendo a leitura. É o acesso à cozinha da criação.

Mas voltando à pergunta importante: de onde tirar o argumento? Antes de tudo, você precisa saber o seguinte: você é um contador de histórias de qual tipo? Você quer brilhar pela fantasia exuberante? Quer criar seres fantásticos? É chegado numa distopiazinha? Quer que o leitor termine a leitura do seu conto e diga: uau, de onde ele tirou tudo isso? Tentador, não? Sim, e perigoso.

A chance de você bancar o ridículo é grande. Sem contar que já tem muita gente fazendo isso atualmente. Pode acreditar, é um modelo que está em vias de se esgotar.

Não busque o brilho fácil. Não busque a exuberância gordurosa. Seja modesto, baixe a bola. Perceba que o cotidiano oferece inúmeras boas histórias. Seja um excelente observador. Parece fácil, mas não é.

Se não tomarmos cuidado, nossos olhos reparam apenas nos brilharecos. Ora, meu querido, reparar no que é clamoroso, convenhamos, não é uma jornada épica. Mais ou menos assim: você está observando a rua de sua janela; muita gente e muitos veículos; muito barulho também; nada de chamativo ocorre; você está aborrecido; todos do seu entorno estão aborrecidos; acontece, então, uma batida; de repente, tudo fica eletrizante; todos olham para o local da batida; minutos depois, tudo está resolvido; a vida volta à chatice. Certo? Errado! O observador do cotidiano jamais fica aborrecido com a normalidade. É que ele sabe levantar o céu. Debaixo desse véu, as histórias estão fervilhando. O observador do cotidiano não dá bola para o acidente. O observador do cotidiano, por incrível que isso possa parecer, detesta a vulgaridade.

Seus olhos devem ser atentos nos mais diversos níveis. Uma boa tática: encarar os jornais como fontes de bons argumentos. Não estou inventando a roda ao dizer uma coisa dessas. Gente muito boa faz isso há bastante tempo. Dependendo da seriedade do escritor, costuma dar ótimos resultados.

Darei um presente em forma de exercício para você. Ontem, fuçando na internet, li que algumas instituições estão fazendo sucesso com um tratamento chamado biblioterapia. O nome já entrega: é a cura pelos livros. Que tal escrever um conto a partir disso? Percebe as múltiplas possibilidades? Mãos à obra! Quando terminar, continuamos a lição. Até lá! (Fim do conto.)

Aula de conto (primeira parte)




Nelson Fonseca Neto

Você tirou a sorte grande. Hoje você vai aprender a fazer algo que pouca gente domina. Hoje você vai aprender a escrever um conto. Parece pouco, mas não é.

Se você for meio rabugento, vai dizer: escrever conto pra quê? Não seja assim. É feio. Pare de chafurdar na lama da ignorância. Dê apenas cinco minutos da sua atenção. Cinco minutos: o tempo que você gasta para ver um vídeo bobo na internet.

Seu tempo é curto, e eu sou bom de lábia. Aposto que quando eu disse "conto", você imaginou que eu iria falar poeticamente, que as minhas palavras seriam melosas. Você não me conhece. Já passei da fase das ilusões. Tudo bem, não perdi a ternura, mas virei pragmático. Prepare-se.

Natural que você pergunte das recompensas por escrever um conto. Primeiro de tudo: você não vai ganhar dinheiro publicando um livro de contos. Sim, ele pode ser uma maravilha. Sim, ele pode receber resenhas elogiosas nos principais jornais do país. Sim, pode ser que você seja chamado para dar uma palestra num festival literário bacana. Sim, pode ser que você descole uma viagem internacional para representar o Brasil numa dessas bienais estilosas na Europa. Mas, não, ganhar dinheiro apenas com os contos, sem chance.
Mas estou indo depressa demais. Sou meio afobado mesmo. Vamos deixar de lado, por enquanto, as consequências do livro de contos. Vamos falar, isso sim, de como escrever um bom conto.

Você tem boa memória? Sua vida tem algum episódio marcante? Tem? Alguns? Excelente! Eles podem ser a matéria-prima de belas histórias. Não, não precisa ser um acontecimento espetacular. A vida é monotonia, eu sei. Mas você se lembra de algo que o emocionou de verdade? Opa, que bom! Pode ser um caminho útil.

Mas tenha cuidado. O que se conta é importante, mas ainda mais importante é o como se conta. Como contar uma história é o que diferencia, com o perdão do clichê, os meninos dos homens. Qualquer sujeito tem uma boa história para contar. É a vida. São milhões de histórias. Mas elas passam, o vento as leva. É triste, e é verdade.

O que queremos aqui é eternizar histórias. Você quer que as suas histórias sejam lidas daqui a cem anos. Tem que querer isso! Humildade não leva a nada. Não é bonito ser ignorante. Literatura não é diletantismo.

Como contar uma história envolve profissionalismo. Envolve treino. Envolve malandragem. Envolve conhecer os melhores exemplos.

Decore o texto dos seguintes autores: Tchekhov, Hemingway, Maupassant, Machado de Assis, Dorothy Parker, Otto Lara Resende, Cortázar, Juan Rulfo, James Joyce, George Saunders, Flannery O"Connor, Ítalo Calvino, Pirandello. Sinta o corte das frases. Repare no uso dos adjetivos. Valorize o detalhe revelador. Você tem apenas uma bala no revólver. Nunca se esqueça disso.

Não banque o pedante: pense no leitor. Você não é um eremita. Não estou dizendo para você abrir mão da sua integridade artística. O que estou dizendo: dá para escolher o caminho do meio. Conte o que tem para contar, mas nada de hermetismo. Não tenha medo do entretenimento. Lembre sempre do Marcos Rey.

Caprichar nos diálogos é um ótimo negócio. Eles são atalhos preciosos. Uma linha de diálogo pode substituir dez linhas tipicamente narrativas.

Opa! Estou vendo que você está ficando aborrecido. Vamos passar para algo mais prático.

(Continua na próxima semana.)

As eleições de 2022 (conto)




Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


É difícil dizer como essas coisas começam. Depois do acontecido surgem as mais diferentes explicações. Algumas são bem plausíveis; outras, a maioria, são absurdas.
É difícil dizer como essas coisas começam, e é ainda mais difícil dizer quem é o grande responsável pelas mudanças. Dependendo do que acontece, se é algo bom ou se é algo catastrófico, surgem oportunistas que batem forte no peito e contam histórias comoventes de superação, ou todos resolvem se esconder, como se a catástrofe fosse um fenômeno da natureza, como chuvarada ou uma estiagem daquelas.
Portanto, estamos caminhando num terreno pantanoso. Não sabemos como tudo começou, mas sabemos o que está acontecendo. Que os historiadores, daqui algumas décadas, saibam puxar adequadamente o fio do novelo. Nós, que estamos aqui e agora, devemos muito mais ser jornalistas, retratistas. Nossos teclados devem ser ágeis. Nada há de indigno nisso. Cada qual com o seu quinhão.
Não sabemos como o movimento começou, mas sentimos na pele o que está acontecendo. Essas coisas sempre dependem do ponto de vista: para alguns, a pele recebe carinho; para outros, chicotada. Tentaremos ser neutros aqui.
Há quem diga que é errado chamar o que está acontecendo de movimento. Essas pessoas defendem que o nosso presente é fruto de algo espontâneo. Certamente é uma visão ingênua. Não importa: tem um enorme apelo.
Estamos divagando. Isto aqui não é um tratado.
Aconteceu muito rápido. Escrevo este texto em março de 2023, poucos meses depois das eleições presidenciais. No início de 2022, o cenário não apresentava nada de muito chamativo. As pesquisas ainda não apontavam números confiáveis. O terreno era fértil para as projeções mais mirabolantes. Não seria um ano fácil. Tínhamos uma certeza: não haveria reeleição.
Havia os candidatos esperados. Eram as figurinhas carimbadas. Apostávamos no candidato que prometia, para os mais diversos setores da nação, uma linha bastante rígida. A violência era o medo número um da população. Os linchamentos haviam disparado. Os linchadores não eram punidos. O candidato da linha dura era bom de retórica. Suas frases eram curtas. Ele nem chegava perto de tocar noutros problemas.
Havia um candidato mais preocupado com a redução das desigualdades sociais. Ele era motivo de riso. Ele era tratado por todos como uma figura bonachona, divertida, uma espécie de louco da aldeia.
Havia uma candidata que era constantemente interrompida em suas falas. Ela era vista como uma maluquinha meio brava. Claro que quem dizia isso jamais dizia que era o mais cristalino machismo.
E havia o empresário que dizia que governar era a mesma coisa que administrar uma empresa. Suas aparições sempre eram acompanhadas de gráficos coloridos. Seus correligionários pareciam ter saído de um comercial que exalta o empreendedorismo. Seus esforços eram vistos como algo ligado ao mundo dos almofadinhas. O povo não é tão burro assim.
Meses antes das eleições, começaram a surgir textos e vídeos estranhos nas redes sociais. Eram palavras que recomendavam aos cidadãos que tinham renda mais alta o não comparecimento às eleições. Diziam que o governo mexe mal com o dinheiro, que o dinheiro dos impostos não retornava nunca, que havia chegado a hora da verdade. Estava bem claro que, não importava o vencedor, a parcela mais abastada da população não pagaria mais impostos. Ora, se a gente já paga tudo por fora, acabou a mamata dos políticos.
À primeira vista, parecia coisa de maluco, de gente que não tem o que fazer. Mas a coisa ganhou corpo. As discussões em diversos grupos fechados mostravam os aspectos práticos da questão. Seria muito simples: o dinheiro não mudaria de mãos, o governo quebraria, os serviços de sempre seriam prestados normalmente. O resto do povo teria que se virar. E mais: dinheiro compra autoridade. Depois de algumas semanas, já não parecia mais coisa de maluco. Ainda assim, muita gente não acreditou. Era esperar para ver.
Sabemos como tudo terminou. Quando os deuses querem punir alguém, eles ouvem suas preces.