LETRA VIVA
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Nostalgia, mundo retrô e confusão mental




Sou nostálgico? Sou, mas acho que na medida certa. Caminho do meio. Essas coisas de sabedoria, moderação, equilíbrio. Até parece.
Nos últimos meses, tenho visto propagandas anunciando o fim do sinal analógico das televisões. Se eu fosse um cara tranquilo, encararia isso de cabeça erguida. Melhor: não faria a menor diferença para mim. Acho que vocês são pessoas bem resolvidas, e enxergam o fim do sinal analógico como parte do curso natural das coisas. Certo? Espero que sim.
Mas não é o que acontece comigo. Vejo essas propagandas com o coração apertado. Vai ver é culpa dos publicitários. Se a notícia fosse transmitida de outra maneira, quem sabe, minha tristeza diminuiria. O que me deixa acabrunhado é o tom meio sádico. Como se, na data tal, haverá a execução, em praça pública, do sinal analógico. E as palavras que anunciam o massacre são engraçadinhas, sapequinhas.
Com a morte decretada do sinal analógico, sinto que muita coisa desaparecerá. Sei que estou dizendo besteira. Como se eu já não tivesse TV a cabo aqui no apartamento. Como se eu não visse jogos de futebol e filmes em HD. Seria muito fácil desarmar esta minha melancolia. Qualquer um com mais de dois neurônios traria argumentos consistentes. Eu sei, eu sei. Mas somos abismos. Se não fôssemos, a vida perderia a graça.
É que, no meu coração biruta, o fim do sinal analógico enterrará os programas que eu amava nos anos 1980 e 1990. Não estudei em internato na Suíça, não cantarolei óperas, não tive aulas de esgrima. Eu cresci nos anos 1980 e 1990, frequentei uma excelente escola, ganhei muito carinho e educação dos meus pais, e tive a televisão como parte importante da minha informação. Quase chegando aos 40, fico caçando programas antigos. O coração bate mais forte quando eu vejo a abertura de Fera radical, por exemplo. Bastam alguns minutos para perceber as falhas na dramaturgia, mas não tem problema. O amor não é analítico.
Releio o parágrafo anterior e penso: Neto, você não está falando de nostalgia; você simplesmente ficou goiaba. Pode ser. Nunca neguei. Sou atrapalhado mesmo.
Posso dar um sinal de alerta? O que vocês vão ler daqui pra frente será perturbador. Sim, pois boa parte deste texto é um chororô passadista. Minha angústia com esse lance de sinal analógico é bobagem. E fica fácil, quase automático, vocês pensarem: o Neto deve ser assim, anacrônico, em todas as camadas da vida dele. Eu entendo o raciocínio de vocês. Lamento dizer que não é bem assim.
Eu fico balbuciando por causa do fim do sinal analógico, mas implico ferozmente com barzinho retrô. Muitos dos meus amigos vão a esses barzinhos em busca do tempo perdido. Nossa, a mesinha é igualzinha àquela mesinha dos anos 1980! Nossa, só toca música da época da boatinha! Essas coisas. Coisas que não me atraem. Parece um treco mórbido. Exumação, sei lá.
Perguntem se eu já fui a uma barbearia retrô. Nunca. Nada contra, por favor, pessoas ganhando dinheiro honestamente. Ouço maravilhas desses lugares. Pode ser que eles sejam muito legais. Não duvido. O lance esquisito é comigo mesmo. Parece coisa de festa temática. Isso me deixa cabreiro. Vou repetir, pois acho sacanagem usar o espaço do jornal para descer a marreta: nada contra barbearia retrô! O problema está em mim! Em mim!
Não tem como não bancar o sociólogo mambembe: vivemos uma onda retrô. Se isso é bom ou ruim, eu não sei dizer. Mas há, inegavelmente, uma onda retrô. Vai parecer tiração de sarro da minha parte, mas não é. A Patrícia sempre diz que eu sou engraçado mesmo quando estou sério. Muito bem. Num primeiro momento, eu até acho bonitinho ver um Atari na vitrine. Mas passa. Fica, isso sim, um quê de incômodo. Eu falo  que o meu sonho é ter um Ford Del Rey. A Patrícia não se conforma. Ninguém se conforma. Mas acho que nunca comprarei um Del Rey. Sou nostálgico, mas também sou meio molenga. Difícil abrir mão do conforto dos carros mais novos. E assim reservo o Del Rey para os momentos de palhaçada.
E eu termino esta coluna preocupado com a minha sanidade mental. Espero que vocês entendam.

A borboleta gorda




Já escrevi quase trezentos textos para este espaço. É muita coisa. Ou nem é tanto assim. Depende do ponto de vista. Honestamente, eu acho que é muita coisa. Claro que essa opinião tem a ver com o reconhecimento das minhas limitações. Nunca fui um cara disciplinado. Várias dietas foram abandonadas sem escrúpulos. O propósito de correr diariamente foi sepultado depois do primeiro tropeção na Afonso Vergueiro.
 
Sem falar nos projetos megalomaníacos de leitura. Esses desejos grandiosos acontecem nos períodos de férias. Ah, vou tirar as próximas semanas para reler os romanções do Tolstói. Agora ninguém me segura: vou enfileirar os romances da maturidade do Dostoiévski. Os começos de jornadas até que são promissores. Pena que no meio do caminho minha volúpia costuma emitir vozes sedutoras. E assim largo os projetos faraônicos.
 
Vejam só: estou mencionando apenas algumas áreas da minha vida. Saibam que a minha instabilidade se espraia por todos os setores. Tem gente que acha bonitinho. E tem gente que desce a lenha. Fazer o quê?
 
(Mudar, dirão vocês. Não é fácil. Não é por falta de boa vontade.)
 
Quando a Juliana Simonetti, em março de 2011, fez o convite para que eu escrevesse uma coluna semanal, o ponteiro foi da euforia ao pânico. Euforia: sempre quis escrever para um jornal; muitos dos meus ídolos literários exerceram seu ofício nas colunas ágeis publicadas por diversos jornais brasileiros. Pânico: será que eu teria repertório para sustentar esse esquema de uma coluna por semana? No fim, acabou dando certo. Bom, acho que deu certo.
 
Em quase sete anos de colaboração, muita gente perguntou como eu arrumava assunto para o texto. Bem que eu gostaria de responder que sou um sujeito sério, que planeja com zelo a sacrossanta coluna. Pena que não é assim. A resposta mais honesta: depende da fase. Há épocas de exuberância criativa. E há épocas de miséria. Quando estou com a macaca, sou capaz de escrever uns três ou quatro textos num dia, sem ficar com a língua de fora. Na fase de escassez, sofro terrivelmente para escrever um mísero parágrafo. Acho que a vida é assim mesmo. O grande livro do Eclesiastes fala disso.
 
Resultado dessa junção de indisciplina com alternância de fases: uma trajetória cambaleante. Cambaleante nos assuntos. Cambaleante na qualidade. Cambaleante no humor. Cambaleante no gênero textual.
 
Não era o que eu imaginava no começo do trabalho. Eu queria escrever textos que mostrassem minha relação com os clássicos. Até que os primeiros foram assim. Mas depois, sei lá o que aconteceu, fui navegando por outras águas. Longe de mim afirmar que fui um bom marujo em todas as viagens. Acho que os contos são meio forçados. Alguns textos mais sérios saíram chatos, pedantes. Acho que me saí melhor nos textos a respeito dos anos do meu passado e nos textos que trataram de miudezas. Não que eles ficaram bons: eles apenas destoaram positivamente da média. Isso sou eu quem diz. Pode ser que vocês não concordem. Paciência.
 
Por muito tempo, abri mão de entender o motivo das oscilações. Hoje, do alto da montanha, consigo arriscar uma explicação. Os textos memorialísticos e os textos sobre miudezas são mais honestos. Vai ver que é narcisismo do cronista. Vai ver que é familiaridade com os assuntos. Não importa. O que importa é que são os que mais me deram prazer. Não deixam de ser minha terapiazinha.
 
Nunca imaginei chegar a esta fase da vida ficando empolgado com besteirinhas. Passei anos imaginando textos pesados, musculosos, solenes, categóricos. Como eu era tonto! Agora mesmo, pensando nos próximos textos, eu estava diante de uma bifurcação: escrever sobre Balzac ou escrever sobre a chatice do futebol brasileiro, cujos jogos estão marcados pela bobagem de jogadores levantando a mãozinha a cada apito da arbitragem? O Neto de antigamente escolheria a primeira opção. O Neto de hoje reconhece que a segunda opção é muito mais sedutora.
 
Acho que estou envelhecendo bem.

Manias e amigos do peito




Muitos dos meus hábitos são alvos de chacotas. A lista é enorme. A pessoa que me vê frequentemente sabe que eu tenho uma roupa para cada dia da semana. Terça-feira é dia de camisa jeans e camiseta branca por baixo. Quarta-feira, da camiseta azul com detalhes vermelhos. Nos restaurantes, a bebida é Coca Zero com limão e gelo. Antes de começar uma aula, eu escrevo o conteúdo do dia no canto da lousa e limpo os óculos. E por aí vai.


Mas, de todos os hábitos, as chacotas bombardeiam mais forte minha insistência na releitura de algumas obras. Setembro e outubro são meses dedicados a Machado de Assis. Faz um tempão que é assim. Se bem que tem sido diferente neste ano. Setembro está acabando, e eu ainda não tirei o Machadinho da prateleira. Talvez em outubro role um intensivão.


Machado de Assis não é a única vítima dessa mania. Costumo reservar os primeiros dias de janeiro para os contos de Tchékhov. Vai ver que é pra dar sorte. A gente tenta ser racional, cartesiano, mas um pouco de imponderável não faz mal a ninguém.


E agora me dou conta de um paradoxo. Julho é o mês das descobertas literárias. São dias de ousadia para um sujeito pesadão e pacato como eu. Mas prever um mês para o imprevisto é coisa de doido, não? Parece a história do sujeito que ajuda a organizar a festa surpresa do próprio aniversário. Eu nunca disse que sou um cara que anda certinho.


Os que implicam com as minhas releituras dizem que eu já sei de cor muitas daquelas páginas amareladas e dobradinhas na parte de cima ou na parte de baixo. (É que eu não gosto de grifar. Sempre que algo chama minha atenção, faço uma dobrinha na página.) E é verdade mesmo. Mas, nas releituras, eu não estou em busca da novidade espetacular. Eu quero, isso sim, a voz estável. Eu quero, isso sim, a amizade que resiste aos furacões da vida. Eu quero, isso sim, perceber que há sentido nesta vida bandida.


Das obras que eu sempre visito, Guerra e paz ganha com folga. No gigantismo de Tolstói, eu busco a casa ampla, arejada, com os móveis no mesmo lugar, com o barulho de sempre na cozinha, com o cheiro bom no jardim, com o lençol limpo que embala o meu sono. Sempre é bom tagarelar com o gordinho Kutuzóv. Eu ouço com atenção as lamúrias de Pierre Bezúkhov. Meu eterno receio: será que a Natasha vai derrubar o vaso que está na mesinha?


Em Guerra e paz, todos são queridos, até o prefeito louco de Moscou. Até o arrogante Murat. Até os interesseiros, verdadeiros corvos, que rodeiam o quarto do pai do Pierre. As farras estão perdoadas. Viver é dar cabeçadas por aí.


Quando penso nessas coisas, pergunto: e o Neto que os amigos de Guerra e paz encontram a cada visita? Deve ser perturbador para eles. Eles já me viram eufórico, angustiado, indiferente, megalomaníaco, humilde, revoltado, conformado, sábio, imbecil. Não tem problema. Eles entendem. Amizade forte dá nisso mesmo.


Há quem diga que essas minhas releituras são o símbolo do pedantismo. Dizer uma coisa dessas é maldade. Como se o propósito da minha vida fosse circular por aí com livrões debaixo do braço. Ou acham que eu gosto de ostentar erudição. Não sou erudito. Eu simplesmente gosto de ler. Zero de academicismo. Zero de referências cabeludas. Talvez, no início da minha jornada de leitor, eu gostasse de tagarelar sobre os clássicos da literatura nos barzinhos da vida. Acho que muitos leitores passam por essa fase meio besta. Mas acaba, ainda bem. Prestes a completar 40 anos, a gente aprende a baixar a bola.


Opa, pessoal, um momento! O que estou ouvindo? É uma discussão bem barulhenta. Uma voz alterada e outra mais plácida. Claro, Dom Quixote e Sancho Pança. Eita, esses caras não têm jeito!


Melhor ver o que está acontecendo.

Janelona: o reduto do cronista




Costumo pitar meu cigarrinho na janela da área de serviço. É uma janela imensa, horizontal, panorâmica. Não sou bom para contas: imagino que 80% da vista é tomada pelas janelas das áreas de serviço da outra ala do meu prédio. Não tem como ignorar as referências ao filme Janela indiscreta, do Hitchcock. Feliz ou infelizmente, meus vizinhos não costumam circular por suas áreas de serviço. Quase sempre suas janelas estão fechadas. Às vezes dá para ouvir uns latidinhos de cachorros, uma ou outra conversa, nada que se aproxime de crimes ou de revelações espetaculares. Meus olhos não se distraem com os vizinhos.
 
Assim, meu cigarrinho é pitado com ar de meditação. Aproveito os minutos para pensar na vida. Depende muito do meu humor. Podem ser pensamentos levianos, bobos, destrambelhados, sérios, melancólicos, eufóricos, inconsequentes, solenes. Vai saber, não? A gente é meio besta, não tem jeito.
 
20% da vista é mais arejada. É o trecho que traz o bendito vento. A partir desse trecho, vejo o estacionamento da escola onde trabalho. Dia desses, eu estava no estacionamento e a Patrícia estava em casa. Consegui dar um tchauzinho para ela. Desculpem a pieguice: essas coisas não têm preço. Eu estou falando sério.
 
O trecho mais arejado da janela da área de serviço também mostra um prédio que fica a um quarteirão de distância. Sempre fui com a cara desse prédio. A Patrícia também. Quando estávamos procurando um teto para comprar, demos uma olhadinha num dos apartamentos do prédio simpático. Fomos recebidos por uma senhora que morava sozinha. Nunca vimos um lugar tão atulhado de cacarecos. Isso não é uma crítica. Os cacarecos eram de bom gosto. Pratinhos pendurados na parede, desses que são comprados para eternizar uma viagem gostosa; estatuazinhas sérias e engraçadas; paninhos delicados; quadrinhos; essas coisas. Fomos muito bem recebidos pela proprietária. Engatamos uma conversa que durou um tempão. A negociação não deu certo. Ainda era o início de uma longa peregrinação pelos caminhos tortos do financiamento imobiliário. Depois deu tudo certo, num outro apartamento, onde estamos agora, felizes, fazendo micagens.
 
Gosto de olhar para o apartamento que fica a um quarteirão de distância à noite. Sempre fui tarado por luzes de televisão. Tenho um ritual que sigo antes de dormir: a Patrícia já está desfrutando o sono das justas; eu ligo a televisão num volume bem baixinho; aciono o timer. Isso embala o meu sono. Da minha janelona, vejo um monte de luzes de televisão. Essas coisas aquecem a alma. Nem tento explicar.
 
Sábado de manhã é um bom momento para ver uma outra faceta que a janela da área de serviço oferece. É um terrenão, que fica logo do outro lado da rua. Sei, pelo relato da minha avó Clélia, que no terrenão tinha uma casona que era famosa na cidade. Faz muito tempo que derrubaram a casona. Dá para ver, de onde estou, as marcas da glória antiga. Não conseguiram destruir o piso em forma de mosaico. Mentalmente, a partir dos traços no chão, reconstruo a casona. Certamente a minha imaginação passa longe da obra original. Não sei como a casona original era, mas sei que a minha construção tem o formato de "U", com todos os quartos dando direto para um quintalzão.
 
Sempre vejo no sábado de manhã um gatinho amarelo sassaricando pelo terrenão. Consigo perceber os estados de sua alminha de gato. Se passa alguém perto do muro, o gatinho se camufla de uma forma espertíssima. Se tem passarinho na área, o gatinho se arrasta, como um soldadinho invadindo a Normandia. Se não tem nada de muito especial, o gatinho rola para coçar as costas. De onde estou, não consigo, infelizmente, ouvir seu miadinho. Não sei se é gatinho ou gatinha. Acho que é gatinha. Gatinhos são mais estabanados. Nunca vou saber. Jamais ousaria atrapalhar aquele santuário.
 
Resta agradecer. As dádivas que a vida oferece sempre são bobinhas.
 

Como escrever um conto




Nelson Fonseca Neto

Hoje estou generoso. Alguns vão achar que é falta de jeito. Outros acharão que é oportunismo. Também vai ter gente achando que é falta do que fazer. Pode ser que alguém torça o nariz e diga que, diante de tanta coisa séria acontecendo, eu sou leviano.

Falta de jeito, certamente. Oportunismo, não. Falta do que fazer, também não: estou escrevendo este texto no celular, forçando os olhos, no intervalo das aulas. Sobre a leviandade: querem que eu escreva a respeito dos horrores neonazistas de Charlottesville? É fácil. Otto Lara Resende, numa de suas crônicas, resolveu a questão: dá para ser a favor do câncer? Neonazismo e câncer precisam ser combatidos. Não consigo pensar em sutilezas.

Mas falemos de outras coisas. Hoje, eu estou aqui para ensinar a escrever um conto. Ué, não tem coach para tudo nesta vida? Como arrumar o armário. O que vestir num encontro amoroso. O que dizer numa entrevista de emprego. Como turbinar as finanças familiares. Como fazer a viagem dos sonhos. O que ler nas horas vagas. Por que não ouvir os ensinamentos de um coach da literatura? Lá vou eu lançando tendências. Encarem-me como um cara de vanguarda.

Quer dizer, nem tão vanguarda assim. De uns tempos pra cá, as oficinas de criação literária pululam. Não sei dizer se isso é bom ou ruim. Talvez tenha muita picaretagem, talvez tenha gente séria no esquema. A vida é assim mesmo, né?

E eu estou aqui para dar algumas dicas sobre como escrever um conto. Nessas horas, sempre aparece um chato dizendo: se você é tão bom assim, por que não escreve, você mesmo, um baita livro de contos? Ué, só ex-craque pode ser técnico de futebol? Vocês se lembram das gloriosas atuações do Tite como zagueiro? Não? Nem eu. E tem mais: somos todos palpiteiros. Eu não posso dar meus pitacos?

A pergunta é retórica. Claro que eu posso dar meus pitacos. Não gostou, faça o seguinte: pegue está folha de jornal e... sei lá, vá embrulhar um peixe. Que susto, hein? Acharam que eu soltaria uma grosseria daquelas. Respirem aliviados. Sou manso. Estou aqui para ajudar.
Bom, chega de enrolação. Que tipo de conto escrever? São muitos os caminhos. Fiquemos com o conto de situação. Ou seja: a narrativa que destaque o enredo. Não estou dizendo que as personagens devam ser pálidas. O que estou dizendo é o seguinte: o enredo deve prevalecer.

Uma bifurcação: conto realista ou conto fantástico? Por que não o caminho do meio? Conto realista e fantástico. Certamente vocês tiveram a infância povoada por personagens de contos de fadas e contos maravilhosos. Lembram do esquemão? Adultos e crianças desprotegidos ajudados pelas fadas, pelos gnomos, por várias entidades. Ora, e o que equivaleria a isso nos dias de hoje? Por favor, estou implorando: nada de fadas rolezeiras ou gnomos malandrões batendo perna pelas ruas da nossa cidade. O que estou sugerindo é algo menos vistoso. Que tal um conto de bilhete de loteria?

Li muitos contos protagonizados por figuras que estão prestes a ganhar o prêmio. Só falta conferir o último número. A imaginação sai dos trilhos. No fim, o prêmio não sai. Sinceramente, dá para escrever um conto espetacular com um material desses. O problema é que o Tchekhov já fez isso. E, sem querer desanimar, impossível bater o Tchekhov.

Façamos algo mais rústico. Nosso personagem ganha uma bolada na loteria. Mas tem que ser bolada mesmo. Uma grana para sustentar a família do cara pelas próximas cinco gerações. Sejamos toscos. O ganhador pode ter uns quarenta e cinco anos. Ele pode ser um cara que só tomou porrada na vida. Ele pode ser banguela. Ele pode ser alvo de chacotas. Bom, vocês sabem do que estou falando. Estamos no Brasil. Pensem que o ganhador torna-se uma espécie de anjo vingador. Ele, com toda essa grana, vai espezinhar a galera. Não sobrará nada. Será um conto cáustico. Tome o partido do personagem.

Pode ser que não saia grande coisa, mas que será uma ótima terapia, ah, isso, sim, será.

O grande romance brasileiro contemporâneo (final)




Nelson Fonseca Neto

Óbvio que o grande romance brasileiro contemporâneo precisa ser monumental, exagerado, caudaloso. Chance zero de estilo contido, de controle dos adjetivos, de frases esqueléticas. O grande romance brasileiro contemporâneo precisa resgatar as delícias do Barroco.
Que fique bem claro: não a religiosidade do Barroco, e sim a maluquice, a exuberância, o descontrole, o ziguezague. É nutrir-se da sadia ambição. É saber que a vida é descontrole e desatino. É lambuzar-se na feijoada.

É deixar de lado os enredos anêmicos, encaixadinhos, minimalistas, sóbrios. É recusar o prato de salada. O colesterol baixo é encargo do cardiologista.

O enredo deve ser labiríntico. Centenas de personagens devem povoar o grande romance brasileiro contemporâneo. Evitar a tentação de escrever um romance magrinho sobre as sutis complexidades do casal entediado que mora em Higienópolis.

O grande romance brasileiro contemporâneo deve fazer o leitor zanzar por aí. Deve ter favela e deve ter casarão protegido por dezenas de seguranças. Deve mostrar a bandidagem mais chinfrim e deve mostrar a bandidagem de grosso calibre. Quem quiser escrever o grande romance brasileiro contemporâneo deve bater perna exaustivamente. Deve, também, ler como um condenado. Não pode achar que conhece a treta só de orelhada. Precisa entender de fato as relações sempre complexas. Não pode cair no papo furado de que, por exemplo, o tráfico de drogas é apenas uma questão de favelas ou de bairros periféricos.

Quem quiser escrever o grande romance brasileiro contemporâneo deve fuçar a vida intensamente. Não pode torcer o nariz para o sujo e para o fedido. Precisa saber que as ratazanas ainda mordem crianças que dormem desprotegidas no berço. Não pode ser vago. Tem que amar os detalhes.

Quem quiser escrever o grande romance brasileiro contemporâneo não pode ser ingênuo. E, ao mesmo tempo, não pode se achar o espertalhão. Precisa ter humildade. Não pode atolar no charco das generalizações manjadas. Tem que saber a fundo o que é o SUS, o que acontece na rede pública de educação. Precisa parar com a dicotomia besta que afirma que as escolas particulares são lugares paradisíacos sempre e que as escolas públicas são sempre o inferno já terra.

Quem quiser escrever o grande romance brasileiro contemporâneo precisa garimpar as preciosidades de uma reunião de condomínio. Precisa entender que aqueles dentes arreganhada por causa da necessidade de um aporte na taxa mensal revelam camadas e mais camadas do que somos.

Quem quiser escrever o grande romance brasileiro contemporâneo precisa exercitar a empatia. Não para escrever algo meloso, e sim para não gerar caricaturas sem graça. Barroco que é barroco vai até o fundo das coisas. Barroco que é barroco gosta de luz e de sombra. Amar o paradoxal é revelar o que temos de mais humano. Muitas vezes é desagradável, quase sempre é desagradável, mas é o que temos pra hoje.
As personagens do grande romance brasileiro contemporâneo devem ser tagarelas, birutas, conspiradores, craques na hora de se proferir aquela abobrinha suculenta. Criar personagens assim é, no fundo, Realismo. É muito simples: passe meia hora numa padaria em qualquer centro de qualquer cidade grande.

Quem quiser escrever o grande romance brasileiro contemporâneo não pode ter nojinho de alguns temas. Como escrever o grande romance brasileiro contemporâneo sem se lambuzar nas redes sociais? Tem como deixar de lado o futebol, o empreendedorismo, os coachs, a varanda gourmet, o queijo&vinho no clube, o show do Roberto Carlos no fim do ano, o Ratinho, a festa rave, o Michel Teló? Não tem, e tudo fascina.

No fim das contas, o grande romance brasileiro contemporâneo é uma declaração de amor à vida.

O grande romance brasileiro contemporâneo (primeira parte)




Nelson Fonseca Neto

Escrevi, na semana passada, que eu trataria, hoje, de mesas redondas futebolísticas. Mas decidi quebrar a promessa. Primeiro motivo: preciso refinar as observações que povoam minha mente; chance grande de sair um texto desengonçado, de interesse apenas para os iniciados e iniciadas no vício dos programas esportivos. Segundo -- e principal -- motivo: surgiu algo mais interessante para escrever a respeito. As mesas redondas ficam para outra ocasião.

Gosto de mostrar os bastidores desta coluna. Vocês já perderam a conta de quantas vezes eu abri o jogo e mostrei dúvidas, angústias e becos sem saída relacionados a este espaço. Tem quem goste. E tem quem torça o nariz, achando que estou embromando. Não faço o que faço para angariar afeto. E não faço o que faço por desleixo. Faço o que faço porque sinto que estamos entre amigos. Quero acreditar que as coisas funcionam assim. E como gosto de mostrar os bastidores desta coluna, vocês precisam saber como surgiu algo mais interessante que as mesas redondas futebolísticas para tratar no texto que vocês estão lendo.

O que vocês estão lendo está sendo escrito no começo da noite de domingo, dia 30 de julho. Estou deitado de lado no sofá. Se um ortopedista visse a cena, eu levaria um merecido pito. A televisão está ligada, para produzir um sonzinho ambiente. Está passando um balanço da rodada do campeonato brasileiro. Conto isso para vocês porque gosto de desmistificar algumas chatices. E uma dessas chatices afirma que o escritor precisa de um ambiente sagrado para lançar suas pérolas. É cascata. Cada cabeça trabalha à sua maneira.

Minutos atrás, bebi um café na cozinha. Sinceramente, eu não imaginava escrever a coluna hoje. Se tudo desse certo, na terça-feira. Na pior das hipóteses, na quarta à noite. Impossível na quinta de manhã: volta às aulas e a Juliana Simonetti, com razão, soaria os alarmes no jornal.

Voltando ao que interessa: bebendo café, pensei num outro assunto. Minhas epifanias costumam ocorrer na cozinha. Nada de trombetas ou luzes descendo das nuvens. Quando muito, o tilintar dos copos do apartamento do vizinho. Cada um com a epifania que é o seu número. Decidi escrever, pondo a xícara na pia, sobre o grande romance brasileiro.

Faz tempo que isso ronda meus pensamentos. Calma, pessoal, não farei um ranking da literatura brasileira. Sempre desconfio dessas coisas. Nem estou querendo dizer que não temos grandes romances brasileiros. Temos, e são muitos. Encafifo, isso sim, com a ausência de um vasto romance nos dias de hoje. Entendam: não é menosprezo com a produção atual. O problema -- quer dizer, nem sei se é problema -- é que os esforços estão rendendo excelentes contos, novelas e poemas. Ótimo, que maravilha, mas e o romanção?

Vai ver a falha é minha. Acho que bebi muito da fonte do século 19. Balzac, Dickens, Jane Austen, Tolstói, Stendhal, Melville, esse pessoal. Livros que traçam panoramas. Livros, para o bem e para o mal, ambiciosos. Hoje, o romance panorâmico não morreu em outras terras. Basta olhar com um pouco de atenção para, por exemplo, os EUA. O Thomas Pynchon, aos 80 anos, continua escrevendo romances monumentais.

Eu acho que sou meio deslumbrado. Apesar de anos trabalhando com literatura, fico besta com algumas coisas. Por exemplo, com a produtividade de algumas pessoas. Freud escreveu uma obra vasta, e tinha tempo para manter uma correspondência gigantesca, e tinha tempo para atender muitos pacientes diariamente. Tolstói escrevia seus tijolos, e escrevia contos, e escrevia novelas, e cuidava de questões educacionais em sua propriedade, e escrevia cartilhas interessantíssimas, e arrumava tretas com as autoridades russas. Fico deslumbrado e sou tomado por um inevitável sentimento de inferioridade. Puxa vida, fico resmungando quando a fila no banco está um pouquinho maior. E por aí vai.

Faço pouco, mas vislumbro muito. Sempre penso num projeto de grande romance brasileiro contemporâneo. Estou muito aquém da empreitada. Mas não custa nada sonhar, não? Se não escrevo o grande romance brasileiro contemporâneo, com quase mil páginas, imagino sobre o que ele pode tratar. É uma espécie de roteiro mental meio tacanho.

Eis que surge, depois de alguns dias adormecida, a veia de professor. E surge, também, uma promessa que não será furada. Não será furada! O motivo é óbvio: já estou escrevendo, milagre!, o texto da próxima semana. Não tem para onde correr. Ou seja: na semana que vem, vocês conhecerão o meu projeto para o grande romance brasileiro contemporâneo.

Até lá.

Papo furado




Nelson Fonseca Neto

Você gosta de papo furado? Eu gosto. Vou explicar melhor: depende do papo furado. Acho que o conceito é amplo. Pode ir da conversa com o amigo mais chegado ao discurso aborrecido.

Comecemos com o lado sombrio da coisa: conversa no elevador, reclamação na fila do banco, tagarelice de consultor de vendas, reunião de condomínio. (Talvez eu escreva, nas próximas semanas, a respeito do horror que pode ser uma reunião de condomínio.) Sou o primeiro a reconhecer que a minha paciência anda curtíssima para esse tipo de papo furado. Envelhecer tem dessas coisas.

Agora falemos das coisas boas da vida. O bom papo furado tem aparência enganosa. Parece que é nada, mas é tudo. Sei que é clichê, e penso duas vezes antes de colocar aqui, mas vamos lá. Vivemos tempos estranhos. Você deve ouvir isso umas cinco vezes por semana. Mas é verdade: vivemos tempos estranhos.

Tudo tem que ter uma finalidade prática, empresarial, gestora, sei lá. Não estou escrevendo de orelhada. Sei bem do que estou falando. Sou um frequentador contumaz de padarias. Qualquer coisa é desculpa para ir à padaria: comprar cigarro, pão, beber café, comprar alguns itens emergenciais sem precisar ir ao supermercado. Em suma, estou sempre na padaria. E, não tem jeito, acabo ouvindo algumas conversas. Bem que eu queria dizer que essas conversas são bons papos furados. Mas não são. Quase sempre são transações empresariais vagas ou demonstrações de sucesso na vida. Ou é o preço do terreno ou é conversa motivacional de quinta categoria. Parece que todos são gestores em tempo integral. Adaptando Hobbes: o homem é o coach do homem.

Pois bem, vivemos tempos estranhos, mas há salvação. Ainda é possível encontrar -- outro clichê -- oásis no meio dessa barulheira cafona. E é nessas horas que damos o justo valor ao bom papo furado. Tenho certeza de que você já passou por isso. Espero que continue passando por muito tempo. É o milagre: o que parecia ser bobo passa a ser importante. Aprenda a lidar direito com as miudezas. A vida é uma montanha dessas miudezas. Pare de olhar para o grandioso, para o glamouroso, para o estridente. Deus está nos detalhes.

O texto que você está lendo tem um baita jeito de papo furado. Talvez você ache que seja falta de respeito do cronista. Que ele deveria planejar com bastante antecedência o texto. Que ele deveria trazer revelações espetaculares. Que ele deveria emocionar ou arrancar gargalhadas. Enfim, talvez você espere algo de relevante. Bem que eu gostaria de ser mais sisudo. No começo da minha colaboração neste espaço, eu tentei. Acho que não deu certo.

Com o passar das semanas, você, que me lê fielmente, tornou-se amigo (a). Coloquei as manguinhas pra fora. E o papo furado ficou bom, pelo menos para mim. Espero que para você também.

Mas eu preciso explicar uma coisa. A coluna desta semana até que estava bem encaminhada na minha cabeça. De vez em quando acontece: três ou quatro tópicos que poderiam ter sido desenvolvidos com rigor. Aquela história de começo, meio e fim bem encadeados, tese clara, bons exemplos, mensagem relevante. Poderia ter sido sobre os livros lidos nas férias. Poderia ter sido a virulência nas redes sociais. Poderia ter sido um conto. Poderia ter sido algo fisgado no fundo da memória. Poderia ter sido sobre pavorosas reuniões de condomínio.

Estou escrevendo na noite de quarta-feira. A televisão está ligada no jogo Corinthians X Patriotas. Estou no sofá. A Patrícia está lendo ao meu lado. Já jantamos. Ainda estou de férias. Li doidamente o primeiro livro da trilogia Millennium, do sueco Stieg Larson. Ainda hoje começo o segundo livro. E estou aqui escrevendo sobre boas e más conversas fiadas. O que explica?

Algo singelo que aconteceu hoje à tarde. Vocês entenderão. Ontem, eu tinha publicado um textinho no meu perfil do Facebook. Algumas pessoas curtiram, outras comentaram. Tomei um susto ao perceber que o Marcio Guedes, um dos titãs do jornalismo esportivo brasileiro, tinha comentado. Muito educadamente, ele discordava do que eu havia escrito. Respondi com uma mensagem de tiete. Horas depois, ele escreveu novamente. O textinho era de uma gentileza e de uma generosidade raras nos dias que correm. Não tenho vergonha de dizer que ganhei meu dia. Contei para o meu pai, para a minha mãe e para a Patrícia. Todos ficaram contentes.

É o que eu disse acima: parece pouco, mas não é. Pô, o Marcio Guedes me chamou de amigo! E mandou um abraço pro meu pai! Isso merece um texto que trate das gloriosas mesas redondas futebolísticas. Semana que vem será sobre isso. Prometo algo com começo, meio e fim. Prometo trazer reminiscências dos anos 80 e 90. Prometo um papo furado mais substancioso.

Quatro amigos




Nelson Fonseca Neto

Não estou dizendo que acontece com todo mundo. Mas aconteceu comigo. Eu era meio cafona na adolescência. Vou explicar melhor.

A cafonice da minha adolescência tem a ver com o desejo de coisas grandiosas, especialmente barzinhos e boates. Eu tentava frequentar os lugares da moda na nossa gloriosa cidade. Barzinho bom era aquele com fila de umas cem pessoas. Boate boa tinha que ter contagem regressiva para marcar o início das músicas, muita fumaça, suor, pisões nos pés e cotoveladas. Nem passava pela minha cabeça, naquela época, ir a um barzinho mais ameno ou a uma boate mais civilizada. Tudo tinha que ser monumental. E cafona.

Ainda bem que passou. O envelhecimento é depuração. Nunca mais botei os pés numa boate. O barzinho da moda é o barzinho a ser evitado com todas as forças deste mundo. Tem gente que acha que é chatice da minha parte. E eu acho que é evolução.

Na quinta-feira da semana passada constatei que estou no caminho certo. Por um milagre, o Eliederson Foramiglio, meu grande amigo, armou um encontro que juntaria ele, o Flavio Digiampietri, o Luís Gustavo Nunes e eu. Foi um milagre, pois fazia muito tempo que não reuníamos a turma que era muito próxima na época do ensino médio.

O espaço desta coluna é mirrado para comportar as anedotas pitorescas da adolescência. Mas, ao mesmo tempo, não quero que meus leitores e minhas leitoras fiquem perdidos. Tentarei caracterizar as figuras com algumas poucas palavras. O Eliederson, personagem que já apareceu em textos anteriores, é a pessoa com o senso de humor mais afiado que eu conheço. O Flavio sempre me impressionou com a facilidade em todas as matérias do ensino médio. Com ele, não tinha essa história de ser apenas bom em exatas, ou em humanas, ou em biológicas. Parecia algo sobrenatural. O Luís Gustavo sempre foi, para mim, o exemplo perfeito da sabedoria. Não pensem em alguém arrogante, que fica aporrinhando as pessoas com conselhos bestas. Nada disso. A sabedoria dele está na maneira como toca a vida sem alarde, sem moralismo de araque. Eu acho, sempre achei, que ele pertence ao grupo do Paulinho da Viola, do Pepeu Gomes, da Fernanda Montenegro. Pessoal que a gente olha e sai logo confiando.

E, finalmente, nos encontramos na quinta passada. E foi num barzinho acanhado. Acho que só tinha mais um casal por lá. Se fosse na adolescência, eu sairia correndo dali. Mas a adolescência passou, ufa. Para tudo ficar melhor, era um barzinho com milhares de jogos antigos de vídeo game. Atari, Master Sistem, Mega Drive, Super Nintendo. Pronto, cenário perfeito para o nostálgico que assina esta coluna.

Vejo o Eliederson regularmente. O Flavio, de vez em quando. Ele é o meu dentista. O Luís Gustavo, quase nunca, infelizmente, nos últimos anos. Sei que é manjado, mas eu preciso dizer que parecia que a turminha tinha se visto na última semana. Só depois me dei conta que o timinho de futebol de salão estava quase completo. Faltou apenas o Paulo Ricardo Gobbo, nosso estimado goleiro. Mas a turma da linha estava ali.

(Não era um time que participava de campeonatos. Nosso grupo se esmerava mesmo nos joguinhos de fim de semana. E era difícil ganhar da gente, viu? O Paulo fechava o gol. O Flavio era firme na defesa. O Luís Gustavo era artilheiro nato. Eu dava passes brilhantes. O Eliederson, jogador limitadíssimo, fechava a ala direita. Que interessante! Até o Eliederson conseguiu jogar sem comprometer.)

Falamos do futebol de salão, da escola, das besteiras, das tristezas, da vida política nacional, das preocupações de todos. Nada de relevante. E ao mesmo tempo, tudo muito relevante. A amizade profunda tem dessas coisas. É que nem literatura boa: não importa o que se fala, mas como se fala.

Claro que um tirou sarro do outro. Quando chegou a minha vez de ser o boi de piranha, eu fiz uma coisa meio canalha. Lembrei o seguinte: escrevo para o jornal, e a minha vingança viria nesta semana. Prometi revelar apelidos. Prometi revelar idiotices. Mas não vou fazer. Sou bonzinho.

E tem mais: eu escreveria sobre eles de qualquer jeito. A vida é urgente. Não tenho paciência para lidar com inutilidades. Escrevo sobre o que é importante para mim. Com o passar dos anos, as pessoas realmente importantes vão rareando. É que a gente aprende a ver melhor. Meus três amigos são fundamentais. Sempre serão.

Ficar mais velho tem destas coisas: a multidão dá lugar ao grupinho pequeno; a muvuca perde para as mesas vazias. É o que eu gosto de chamar de depuração. A vida é boa.

Eli, Flavio e Luís Gustavo: ficaram com medo, hein? Não abusem da minha paciência. Agora, queridos leitores e queridas leitoras, há, entre os três amigos, um que passou a usar o topetinho mais invocado do mundo. Ele está a cara do célebre cantor Vanilla Ice. Se vocês conhecem a peça, sabem muito bem de quem estou falando.

Caramujo




Nelson Fonseca Neto

Vejo, com admiração, muitas pessoas preocupadas com as chamadas grandes questões. No barzinho, a conversa fica em torno das questões econômicas da nação. Na sala dos professores, fica em torno de graves aspectos geopolíticos. Nas redes sociais, os debates são inflamados. São formas de se lidar com o engajamento. Respeito, de verdade, esse pessoal profundamente preocupado. Não estou sendo irônico.

Só que eu não consigo ser assim. Não estou dizendo que eu estou certo. Provavelmente é o contrário. Eu estou errado. Eu deveria ser mais engajado, mais crítico. Isto aqui é uma confissão: eu simplesmente não consigo ser engajado.

Acho que é culpa da paciência curta. Cansei de ouvir palavras eloquentes. E cansei de constatar que essas mesmas palavras eloquentes são proferidas por pessoas dominadas por intenções das mais sombrias. Cansei de ver debates inflamados. E cansei de constatar que esses mesmos debates inflamados são performances toscas, grosseiras, ridículas, cafonas, superficiais, maldosas.

Ainda bem que nem todos pensam como eu. Se assim fosse, não teríamos civilização. Seríamos um amontoado de caramujos preocupados com miudezas. Não teríamos carro, avião, antibióticos, livro digital, internet, TV a cabo, celular, sushi de cream cheese, memes no Facebook, coachs, essas coisas todas. Ficaríamos na moita, pensando na morte da bezerra, contando histórias, dando risada, essas coisas. Estaríamos na fase da pintura rupestre.

Só que eu estou no século 21. Tenho telefone celular (sempre no mudo). Tenho carro (sempre tenho dificuldades para encontrar a alavanca que abre o capô). Tenho cartão (e sempre acho que essas transações têm jeito de bruxaria). Tenho perfil em redes sociais (só para fazer palhaçadas e ver vídeos de cachorrinhos e gatinhos). Tenho TV a cabo (só para ver sempre dois ou três canais; o resto é mistério para mim). Sou um conciliador. Não mergulho de cabeça no meu tempo, mas não sou eremita. É assim que a banda toca.

Eu preciso explicar direito. Sou avesso a novidades. Sou um amante da rotina. A Patrícia vive tirando sarro disso. Se eu filmasse o que acontece aqui no apartamento, vocês teriam um filme protagonizado por um Woody Allen robusto. Se sou avesso a novidades, isso não quer dizer que sou burro. Quando estou gripado, tomo remédios, e não fico achando que alguém fez um feitiço contra mim.

Digamos que eu tento ser uma espécie de malabarista do cotidiano. Não fico babando ovo, mas sei reconhecer os confortos que a vida pode oferecer. E, para variar, estou enrolando. Comecei dizendo que não consigo me envolver apaixonadamente com as grandes questões, e descambei para uma argumentação meio besta a respeito de hábitos e gostos que nada têm a ver com a ideia inicial. Vocês precisam ter uma paciência patológica para aguentar essas coisas.

Se bem que, pensando melhor, o desvio não foi tão grande assim desta vez. Esse meu malabarismo cotidiano pode ser resumido da seguinte forma: não estou enfronhado nas questões urgentes, não penso em morar numa cabana no alto da montanha. Digamos o seguinte: dou muito mais bola para coisas tidas como fúteis, frívolas, menores.

Vamos a um exemplo: gosto de zanzar pelos sebos da cidade. Conheço gente que não gosta. Essas pessoas alegam que os ácaros são muitos, que a poeira ataca a alergia, que não tem livro bom, que acha estranho levar para casa objetos que pertenceram a outras pessoas. Não são alegações bestas. Sei bem o que é ter o nariz trancado. A tossinha seca é minha companheira. Não tiro sarro desse lance de energia dos objetos. Não que a minha vida seja pautada pelo misterioso, mas não sou de descartar. Já vi coisas das mais esquisitas. Qualquer dia, conto algumas delas.

E nessa história de frequentar sebos, a gente acaba tendo que lidar com algumas situações interessantíssimas. Não é sempre que acontece, mas quando acontece, é recompensador. Estou falando nas ocasiões em que pegamos um livro com dedicatória. Não deixa de ser comovente. E comovente por dois motivos: quase sempre as palavras são doces, afetuosas; não tem como não pensar como aquele livro foi parar num sebo. A pessoa que ganhou o livro morreu, e a família, para desatravancar a casa resolveu vender centenas de livros a troco de banana? A pessoa que ganhou o livro tem coração de gelo e, sem o menor remorso, passou o livro pra frente? A pessoa que ganhou o livro estava magoada com a outra pessoa que escreveu a dedicatória e resolveu sumir com a lembrança incômoda? A pessoa que ganhou o livro estava em apuros financeiros e precisou vender, com a consciência atormentada, o objeto que simbolizava tanto em termos afetivos? Vejam só o que algumas palavras rabiscadas na página de um livro podem fazer com um sujeito meio goiaba. Quem dá bola para palavras num livro empoeirado? Eu dou, e muita. O que essas palavras num livro empoeirado podem fazer pelo mundo terrível do século 21? Nada. E daí?

Viva a inutilidade!