LETRA VIVA
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O exótico (conto - terceira parte)



Nelson Fonseca Filho

nelsonfonsecaletraviva@gmail.com


Vocês sabem que as grandes ideias são de uma simplicidade avassaladora. Depois que alguém tem uma ideia genial, muita gente fica desconcertada: como não pensei nisso antes? Pois é. A vida é assim. Fazer o quê?


Foi o que aconteceu comigo na manhã da iluminação. Eu estava bebendo café e lendo jornal. De repente, alguns comerciais de televisão apareceram na minha cabeça. Sei que é meio clichê, mas senti uma vertigem. Ainda bem que durou pouco. Não gosto dos aspectos incontroláveis da vida. Rapidamente minha capacidade de amarrar os fios veio à tona.


Claro! Aquelas imagens dos comerciais eram um sinal. Todas elas, a seu modo, mostravam que as pessoas desejam novas emoções, novas experiências. Não importa se é a caminhonete no meio da lama ou se é a praia nos cafundós: todos querem sair da mesmice. E todos querem que a experiência seja marcante de fato. Já repararam que a febre das tatuagens tem a ver justamente com isso?


Estão acompanhando? Ótimo! Estamos chegando ao ponto central. Anotem bem: experiência marcante. Daremos agora o próximo passo.
Repararam como tem aumentado o número de resorts? Tenho certeza de que já repararam. O que, no fundo, são os resorts? Ilhas que nos isolam da realidade. Sempre estão localizadas em espaços paradisíacos. Cobram os olhos da cara porque oferecem isolamento. O mito da ilha perdida não morreu.


E o que mais? Os resorts são o paraíso da abundância. Rios de cerveja e uísque. Montanhas de sashimi e tapioca. O "all inclusive" é a senha do paraíso.


Se eu acho ruim a ideia desses resorts? Claro que não. Quem teve a sacada é brilhante. Mas a coisa toda se desgastou. Com o perdão da gíria, virou carne de vaca. Hoje, qualquer hotelzinho fuleiro quer ser resort. Vocês sabem do que estou falando.


Sem mais delongas, minha iluminação naquela manhã: por que não um resort que traga uma experiência de fato inesquecível?
E o que é inesquecível? O descanso não é inesquecível. O tobogã não é inesquecível. A saquerita não é inesquecível. Mas, então, o que é inesquecível? Ora, o sofrimento! O sofrimento, com o perdão da licença poética, é a tatuagem da alma. É a nossa marca mais humana.


O problema sempre foi o caos, o aleatório, o imprevisível, a casca de banana que a vida gosta de colocar no nosso caminho. Em pleno século 21, é inadmissível vivermos como crianças na floresta escura. Isso funcionou nos contos dos irmãos Grimm. É até bacana na ficção. No jogo jogado (na vida real), não. É uma porcaria. Ainda bem que o problema surge para ser resolvido. Reparem.


E se alguém (uma empresa sólida, por exemplo) pudesse oferecer vivências controladas de sofrimento? Que fique claro que não sou burro. Ainda não chegamos ao ponto de matar e ressuscitar alguém só para que se tenha a experiência da morte. Ora, mas o arco das possibilidades é bem maior. Podemos lidar com outras questões.


Se não podemos lidar com a morte, podemos lidar com a tortura, com a prisão. E aqui chegamos ao ponto alto da minha fala.
O terrenão que comprei será o primeiro "resort prisão" do mundo. Nossa meta é oferecer sofrimentos inesquecíveis. Nossos clientes sairão de lá com uma nova maneira de encarar a vida.


Que fique claro: o negócio que estou propondo não é filantropia. Gastei meses fazendo o planejamento. Posso entregar para cada um de vocês as projeções financeiras. Vocês vão ver que não estou tratando de números mágicos. Como eu disse anteriormente, não enriqueci ganhando na loteria. Posso dizer, sem falsa humildade, que sei interpretar agudamente os cenários. Por favor, não espalhem: se eu quisesse, dominaria a vida política. Não da cidade, não do estado, mas do país. Não duvidem. Vocês estão vendo muito bem o que está acontecendo.


Junto com o planejamento financeiro, fiz algumas sondagens. É evidente que não foi do jeito tradicional. Por exemplo, seria absurdo imaginar um entrevistador, segurando uma pranchetinha, conversando com as pessoas na rua. Eu não seria burro de fazer uma coisa dessas. Minhas sondagens foram muito mais sutis. Conversei com gente de tudo quanto é tipo. Não entreguei o jogo. Conduzi tudo com muita delicadeza.


Mandarei os detalhes da conclusão depois. Quero, neste momento, fazer uma síntese: vocês não imaginam quantas pessoas pagariam por uma experiência em nosso "resort prisão". Vejam bem: não estou falando apenas da superfície da coisa. Os anseios dos nossos clientes não se limitam a questões arquitetônicas ou de uniforme. Eles não ficarão contentes apenas com funcionários vestidos de agentes penitenciários. Acreditem em mim: nossos clientes querem intensidade. E é a intensidade que pautará nossas atividades.


Falarei agora a respeito dos detalhes do nosso empreendimento. Alguém pode apagar as luzes e ligar o projetor?(Continua na próxima semana.)

O exótico (conto - segunda parte)




Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com




Como eu estava dizendo: certa manhã, tive uma iluminação. Eu estava bebendo café. Só bebo café sem açúcar. Não como nada de manhã. Embrulha meu estômago. Mas isso não vem ao caso.
Minha iluminação veio enquanto eu bebia o café puro e virava as páginas do jornal. Gosto de ler o jornal de cabo a rabo. Não deixo passar nada. Leio com o mesmo empenho as reportagens e as propagandas. Acho horóscopo um besteira, mas leio. Enfim, vocês entenderam.
Acho divertidas as propagandas. Acho engraçado o esforço de empurrar lixo para os ingênuos. Ler as propagandas anima minhas manhãs.
Na manhã da iluminação, topei com uma imagem de um condomínio. Vocês conhecem a cena. Um punhado de árvores. Um casal jovem. Um cachorro com a língua de fora. Duas crianças correndo. Junto com a imagem, o texto de sempre: muito mais que um condomínio, um clube no coração da cidade. Essas coisas.
E então as peças começaram a se encaixar na minha cabeça. Opa, as pessoas sonham com a exclusividade. Opa, as pessoas querem segurança. Opa, as pessoas querem viver experiências com pitadas de aventura.
Sim, aventura. Já repararam? São os estudantes de faculdades caras usando as férias para sentir na pele o que é ser um pescador numa aldeia sem energia elétrica. São as propagandas que mostram caminhonetes chafurdando no barro. Tudo muito interessante, mas, convenhamos, pálido, sem força, sem resultados duradouros. São experiências inofensivas.
Não consigo imaginar experiências sem resultados efetivos. É o meu temperamento.
Naquela manhã da iluminação, juntei a fome com a vontade de comer. Eu estava cansado de ganhar dinheiro no mercado financeiro. Tinha chegado a hora de fazer algo pelas pessoas. Ao mesmo tempo, eu não queria queimar dinheiro. Não sou louco. Excêntrico, talvez; alternativo, talvez; imbecil, jamais.
Decidi entrar no ramo dos condomínios. Mas não entro no jogo para fazer mais do mesmo. Vocês vão entender.
Escolhi um terreno enorme a uns cinco quilômetros daqui. Não foi difícil comprar. Os donos estavam com aquelas terras encalhadas. Não dava para plantar nada ali. Os donos estavam rezando para a cidade crescer até ali. Mas essas coisas sempre são problemáticas. Vai saber.
Cheguei com uma oferta em dinheiro vivo. Eles tomaram um susto. Para fazer charme, disseram que iriam pensar e que dariam a resposta na próxima semana. Quando ligaram de volta, disseram que a minha oferta poderia melhorar um pouco. Eu sabia que eles estavam contentes com o que eu havia oferecido, mas estavam fazendo aquele joguinho só porque ouviram por aí que os bons negociantes são duros na queda.
Decidi bancar o sádico. Disse que nem a oferta anterior estava valendo. Fui grosso mesmo. Desliguei na cara do sujeito que representava a família. Eu dominava todas as alavancas. Eu sabia que eles ligariam de volta, com o rabo entre as pernas. E ligaram mesmo. Não fiz isso por causa do dinheiro. É que não gosto de gente que se acha esperta.
Comprei o terrenão. Essas notícias espalham rápido. Apareceu gente de tudo quanto é lado. Construtores com ideias megalomaníacas. Arquitetos com tendências revolucionárias. Políticos dando a entender que sabiam muito bem como tudo seria no médio prazo. Essas coisas.
Minha vontade era botar todo mundo para correr. Mas seria menos divertido. Sou mestre na arte de dar corda. A literatura me ensinou que a vida é palco. Nada mais delicioso que conversar com uma pessoa que acredita estar passando uma rasteira na gente. Eu poderia escrever um tratado a respeito das imposturas desses espertalhões.
Gosto de imaginar um desses sujeitos que tentam me enganar. Imagino o sujeito acordando mais cedo que o normal, para colocar as ideias em ordem. Imagino o sujeito mordendo o filãozinho enquanto conversa com a esposa sobre a grande bolada que eles vão, se tudo der certo, ganhar. Imagino o sujeito tomando um banho caprichado. Imagino o sujeito olhando para as camisas. Imagino o sujeito escolhendo a roupa que ele acha que transmite mais credibilidade. Imagino tudo isso. Culpa da literatura.
Logo depois que as notícias da compra do terreno se espalharam, tive de conversar com dezenas desses sujeitos. Tratei todos muito bem. Meu olhar demonstrava interesse. Minha voz, entusiasmo. E eles caíam. Despediam-se com a convicção de que tinham levado o horário no bico. Sempre me encantou a imagem do gato brincando com o rato antes de devorá-lo. É uma bela imagem. Espero que vocês entendam.
Claro que não cheguei perto de revelar o que passou pela minha cabeça na manhã da iluminação. Eles não seriam parceiros adequados. E eu não precisava de parceiros. A vanguarda costuma ser solitário.
Pela reação de vocês, acho que vocês estão esperando um condomínio um pouco mais elegante que o normal. Se estão pensando assim, erraram feio. Chegou a hora da verdade. Vocês ficarão loucos de alegria.
(Continua na próxima semana.)

O exótico (conto primeira parte)




Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


Não foi fácil chegar até aqui. Claro que estou falando no sentido metafórico. Gosto de explicar bem as coisas. Para muita gente, parece uma coisa chata. As pessoas não gostam da linguagem exata. Não tem problema. Vou tocando o barco assim mesmo. Claro que estou falando, de novo, no sentido metafórico.


Voltando ao ponto inicial. Não foi fácil chegar até aqui. Se vocês permitirem, falarei um pouco a respeito de minha trajetória. Não encarem como enrolação. Vocês perceberão o sentido perto do final desta apresentação.


Acho que posso dizer que sou um peixe fora d"água. Eu ia usar a expressão "ponto fora da curva", mas ela é meio surrada. O que desejo dizer é o seguinte: minha trajetória não é convencional. Vocês entenderão.


O senso comum diz que pessoas muito cultas não sabem ganhar dinheiro. Como se os livros inibissem os aspectos práticos da vida. Como se o bom leitor vivesse sempre no mundo da lua. Como se alguém com tendências artísticas fosse uma espécie de marginal. Vocês precisam saber que tais visões são tipicamente românticas.


Eu sou o caso que contraria a regra. Leio religiosamente os clássicos e sei ganhar dinheiro. Ouso dizer que a leitura dos grandes textos aguçou meu faro. Seria cansativo entrar nos detalhes dos exemplos. Basta que vocês acreditem em mim.


Mas acho que vocês merecem uma síntese do como se dá a relação entre literatura e negócios. A literatura, ao mostrar panoramas, tornou minha observação da realidade muito mais aguda. Balzac ensinou a reparar nas múltiplas correntes que percorrem a sociedade. Dostoiévski mostrou que a alma é abismo. Shakespeare, que gostamos de sangue.


Enquanto leio os clássicos, busco uma aplicação prática para seus ensinamentos. Perco pouco tempo com teorizações. Evito o deslumbramento. Os grandes livros são guias de sobrevivência. Machado de Assis mostrou que devo ser um eterno desconfiado.
Os clássicos também mostram a virtude da paciência. No mundo dos negócios, as pessoas costumam ter uma miopia surpreendente. Perdi a conta de quantos figurões mostraram uma visão contaminada pelo imediatismo. Qualquer novidade acaba sendo motivo de empolgação frenética ou de pessimismo inconsolável. Perde-se muito dinheiro assim. É gente que não conhece gente.


E a literatura nos ajuda a conhecer a humanidade a fundo. O cenário muda, claro, mas os comportamentos são os mesmos. A vaidade de Trimalquião é a vaidade do rei do camarote. Assim é a vida. A literatura, no fim das contas, é uma lente esplêndida.


Imagine isso nos mercados de ação. Consegui ganhar muito dinheiro mexendo na bolsa de valores. Vejam vocês o que é a natureza. Não sou bom com números. Leio gráficos apenas superficialmente. Não consigo chegar perto de compreender os modelos matemáticos que norteiam os investimentos. Não seria leviano a ponto de afirmar que são firulas. Apenas quero dizer que a visão humanística é muito mais poderosa.


Basta, sem falsa modéstia, ter olhos para ver. Eu não gastava meu tempo roendo as unhas diante do computador. Minhas decisões de compra e venda de ações sempre foram pautadas pela calma. Nunca quis ganhar dinheiro de um dia para outro. Muita gente afirmava que eu seria um fracasso como investidor, que eu era muito moroso, uma espécie de boi manso. Eu respondia: é o boi manso que arrebenta a cerca.


Meu método? Conhecer a alma dos homens e mulheres. Conhecer seus medos e alegrias. Reparar nos hábitos. Perceber as necessidades. Estudar as empresas que melhor compreendem os seres humanos. Colocar minhas fichas nessas empresas. Esperar placidamente. Finalmente, com o perdão da expressão, lavar a égua.


E como lavei a égua! Mas foi perdendo a graça. Não vou esconder: sou ambicioso. Não vejo mal nisso. Todos precisamos de combustível. É do ser humano repudiar o marasmo, as águas paradas.


Lá pelas tantas, resolvi, metaforicamente falando, recolher minhas fichas. O montante era suficiente para garantir a sobrevivência de várias gerações. Logo depois de recolher as fichas, decidi seguir o clichê: conheci lugares exóticos, comi nos melhores restaurantes, comprei roupas maravilhosas, construí uma mansão, essas coisas.


Mas logo perdeu a graça. Desejei ser útil. Logo pensei em filantropia. Desisti poucos dias depois. Não gosto de coitadismo. E filantropia é algo efêmero. Se o benfeitor decide cortar a verba, tudo acaba. E não há desafio intelectual, não há concepções revolucionárias. Tudo é provisório. E eu queria deixar minha marca no mundo.


Nada de escrever um livro, nada de plantar uma árvore, nada de ter um filho. Minha marca deveria ser uma mudança drástica de concepção. Criar o que o fordismo foi para Henry Ford. Não foi fácil. Reli os clássicos, metaforicamente falando, com uma lupa. Fiz dezenas de esboços.


Gastei muitas horas observando as pessoas nas mais diversas situações: fila no caixa eletrônico, fila na padaria, comentários nas redes sociais, e por aí vai.


Sei que soará convencional: certa manhã, tive uma iluminação. É o que desejo dividir com vocês a partir de agora. (Continua na próxima semana.)

Doçura




Alguns leitores acharam a coluna da semana passada um tanto azeda. O texto, peço desculpas, saiu naturalmente. É que sou naturalmente azedo.

Sei que é feio advogar em causa própria, mas preciso desfazer alguns equívocos. Quando digo que sou azedo, não significa que saio dando botinadas por aí. Tento ser cordato e ordeiro. Cumprimentos as pessoas no elevador. Digo "obrigado" e "por favor". Detesto berrar. Evito brigas recorrendo ao humor pastelão. Sou um bom cidadão.

Para dizer a verdade, estou mais para resmungão. A Patrícia conhece o drama. Mas sou um resmungão inofensivo. Não fico escrevendo mensagens raivosas em caixa alta na internet. Já é alguma coisa.

No texto da semana passada, revelei que sou nostálgico. Tentei mostrar a dificuldade que tenho para me adaptar às mudanças. Não era para o texto ter saído tão azedo. Eu havia pensado em algo mais leve, mais poético. Só que me empolguei e acabou saindo algo mais sombrio. Dei-me conta assim que mandei o texto para o jornal. Como o prazo era apertado, saiu daquele jeito mesmo.

Passei os últimos dias pensando em arrumar o estrago. Várias foram as alternativas. Escolhi a mais justa, acho. Decidi escrever um texto mais puxado para a meiguice. Não é a minha praia, mas vale a pena tentar. Espero que vocês saibam valorizar meu esforço.

Tentarei mostrar minha nostalgia a partir de um ângulo, digamos, fofinho. Prometo não descer marreta nas aberrações de hoje. A ideia é mostrar um passado florido. Apertem os cintos. Preparem os lenços. (Calma, Neto!)

Que saudade dos poucos canais de televisão! As opções escassas nos ensinavam a valorizar o que a vida oferecia.

Que saudade do Atari! Que saudade do Nintendo!

Que saudade das mesas redondas comandadas pelo Luciano do Vale! Que saudade do Gerson e do Rivellino falando coisas sábias!

Que saudade do Chico Anysio! Bento Carneiro, o vampiro brasileiro!

Que saudade da fase boa do Gilberto Braga! Ah, todos vendo a Beatriz Segall!

Que saudade do Leonel Brizola! Concordando ou não com ele, impossível não reconhecer que ele sabia incendiar um debate!

Que saudade das transmissões do Carnaval! Tínhamos os desfiles das escolas de samba, mas também tínhamos as coberturas dos bailes. Ah, as entrevistas constrangedoras! Ah, os olhares amalucados! Ah, as vozes pastosas! Ah, os rostos banhados de suor!

Que saudade das ruas da cidade iluminadas para o Natal! Ah, o trenzinho da Cirandinha! Ah, as calçadas apinhadas! Ah, o trânsito alegre! Ah, os lojistas laçando os clientes!

Que saudade dos bailes de Carnaval no clube! Que saudade das músicas da Daniela Mercury! Ah, o samba-enredo da Mangueira! Me leva que eu vou, sonho meu...

Que saudade das festas juninas da escola. Aquilo era grandioso!

Que saudade das festas juninas do CIC! Aquilo também era grandioso!

Que saudade do Topa tudo por dinheiro! Ah, meu irmão e eu assistindo àquilo deitados no tapetão da casa da minha avó Clélia!

Que saudade dos apartamentos sem varanda gourmet! Ah, os quartos grandes, o banheiro grande, a salona! Que saudade dos apartamentos que não eram clubes!

Que saudade da Biblioteca Municipal no centro, perto da Concha Acústica!

Que saudade da época em que o sujeito, ao atender o celular no restaurante, recebia olhares de reprovação.

Que saudade da escola de datilografia! Logo depois do almoço, sentar-me por uma hora diante de uma máquina de escrever pesadona. A apostila com os exercícios. O visto da professora. A promoção: mostrar as habilidades na salinha de cima, repleta de máquinas elétricas.

Que saudade do nosso deslumbramento com um elevador panorâmico!

Que saudade dos lanches comidos na cobertura do prédio mais alto da cidade!

Que saudade do reloginho digital do Del Rey!

Que saudade daquelas balinhas quadradinhas, com desenho de frutas!

Que saudade da espera das fotos sendo reveladas! Que saudade daqueles adesivos engraçadinhos que colávamos em algumas dessas fotos!

Que saudade de pegar o pão na janelinha!

Que saudade da nossa falta de informação! Que saudade daquele silêncio! Que saudade da época em que as pessoas tinham mais vergonha na hora de dizer barbaridades!

Viram como tenho um bom coração?

Obrigado!

Implicância + Nostalgia




Nelson Fondeca Neto

Nasci em 1977. Tenho quase 40 anos. Há quem diga que os anos trazem sabedoria. Pode ser. Espero que venha acontecendo com vocês.

O que os anos trouxeram para mim? Dor nas juntas, de vez em quando. Incapacidade de aguentar noitadas. Compulsão por acordar cedo. E, claro, implicância. E, claro, nostalgia.

No meu caso, eu diria que é o casamento da implicância com a nostalgia. Falando de outra maneira: torço o nariz para muitas novidades.
Passo poucas e boas por conta disso. Não podemos esquecer que estamos no glorioso ano de 2017. Vocês conhecem o bombardeio. Milhares de mensagens que tentam nos atingir de todas as formas. É a valorização do movimento, da mudança, do fricote. Se você é meio paradão ou paradona, dançou. Será símbolo de apatia. Algo a ser varrido para o canto. É a cantilena do "eterno aprendiz". Credo.

Não consigo ser agitadinho. Nem tenho tamanho para isso. Seria ridículo. Um urso na loja de cristais. Serve para o corpo e serve para o espírito. Sim, meu espírito é moroso, bonachão, preguiçoso. Acho que sou uma espécie de gato angorá que lê e escreve.

É claro que os morosos olham com dor para o tempo que passa. Isso pode ser meio doentio para muita gente. Talvez algo que lembre algumas personagens do Dickens. Reconheço que parece mórbido. Tem gente que exagera mesmo. Não sou dessas pessoas.

Acho que atingi um certo equilíbrio. Não ando de charrete por aí. Escrevo este texto valendo-me de um editor de texto. Aposentei a caneta tinteiro há vários anos. E por aí vai. O fato é que não consigo dar gritos de euforia para qualquer novidade.

Sei que soará uma bobagem para muita gente, mas vamos lá: sinto falta das videolocadoras. Talvez porque eu tenha tido sorte. Frequentei videolocadoras que empregavam caras que conheciam muito de cinema. Nessas horas, sempre lembro do Eugenio e do Célio. Ir a uma dessas locadoras nada tinha de pragmático. Nada de fazer tudo às pressas. Eu ia àqueles lugares sabendo que demoraria no mínimo meia hora. Muitos dos melhores filmes que vi foram indicações do Eugenio e do Célio. E isso acabou. Hoje, ou se compra o DVD, o que não é de todo ruim, ou se aluga o filme nesses serviços que estão na moda. Já recorri a esses serviços virtuais. O filme rodou numa boa. Os lanchinhos estavam no ponto. A Patricia estava ao meu lado. Mas, vejam bem, faltou sair para pegar e devolver o filme. E tem outra: nas videolocadoras, você segurava a caixa do filme, lia a sinopse, via que o filme ao lado poderia ser bom também. Era o acaso a nosso favor. Tudo é muito frio na televisão. Por favor, entendam, vocês não precisam concordar comigo. Só estou tentando dizer que, por aqui, implicância e nostalgia estão de mãos dadas.

E tem mais, pessoal. Vocês deram corda: agora, aguentem. Abomino a maldita "interatividade". Sei que a palavra comporta várias situações. Interatividade na hora de jogar esses jogos esquisitos de tiro. Interatividade na hora de escolher, a partir de uma votação entre os telespectadores, qual jogo será transmitido. Interatividade na hora de fazer comentários fofinhos (e desnecessários) enquanto um cantor mirim (e chato) se esgoela diante de uma plateia dopada e de jurados goiabas. E, claro, a interatividade na hora de comentar notícias na internet. Sobre o último ponto, preciso dedicar um espaço um pouco maior.

Acho que passou da hora de encararmos os comentários na internet como algo inofensivo. Passou faz tempo da hora. Confesso que, um tempo atrás, eu achava todos aqueles comentários meio divertidos. Um divertimento grotesco, masoquista, sei lá. De qualquer forma, algo que não me deixava preocupado. Hoje, sei que eu estava errado. Novamente, quero deixar claro que vocês não precisam concordar comigo. Entendam, se quiserem, como um delírio. Mas vamos lá: acho que as caixas de comentários deveriam ser eliminadas. Qualquer um que gaste um tempinho lendo muitos desses comentários conhece o teor dessa "interatividade". Movimentos feministas são atacados da maneira mais grosseira. Assassinatos e execuções sumárias são comemorados. Muito do que se encontra ali é apologia ao crime. Não é liberdade de expressão. E isso é um perigo. A história nunca termina bem quando todos estão com os dentes arreganhados. É uma lástima defender a eliminação das caixas de comentários, sou o primeiro a reconhecer. Mas não dá para deixar quietas, como se nada de grave estivesse ocorrendo, situações que defendem o estupro, a tortura, o racismo, a homofobia, a grosseria, a morte em vida.

Mas voltemos às amenidades. Passei parte da minha vida sem grandes "interatividades". Quando muito, tinha o telefone do Bozo. Ou o programa de esportes do Wanderlei Nogueira, que permitia que o telespectador ligasse e deixasse uma pergunta para o jogador convidado. Lembro que eu participei da brincadeira. Acho que foi em 1993. O convidado era o Cafu. Eu queria saber quando o contrato dele com o São Paulo terminaria. Não falei diretamente com o Cafu, uma pena. O Cafu não era o Bozo. Quem me atendeu foi uma mulher muito gentil. Ela anotou minha pergunta, meu nome, minha idade, minha cidade. Depois de quase uma hora, o Wanderlei Nogueira leu a minha pergunta. E o Cafu respondeu! Foi um instante mágico. Hoje, ao ver que todos os programas de futebol colocam na tela, sem parar, mensagens dos "internautas", lembro de como foi complicado mandar a pergunta pro Cafu.

Minha ranhetice crava: muita coisa tem perdido a graça.

A volta necessária




Nelson Fonseca Neto

Fui, entre 1999 e 2002, um devorador de filmes. Eu queria ser crítico de cinema. Se tudo desse certo, quem sabe, dirigir documentários.
Vi muita coisa legal. Não consigo abandonar minha alma de caxias. Sempre acreditei que para fazer bem algo, o estudo árduo é fundamental. Essa minha crença serviu para os estudos literários e também serviu para os meus, digamos, estudos cinematográficos. É chover no molhado afirmar a importância dos clássicos.

Tive sorte no período em que devorei filmes. Havia o Telecine Classic, o famoso canal 65, que oferecia uma programação maravilhosa. Pena que ele foi extinto. Hoje, só com muita sorte os notívagos podem se deparar com um filmaço nos fins de noite e nas madrugadas. Até agora tento entender como conseguiram acabar com um canal tão bacana.

Foi ali, no 65, que eu vi dezenas de filmes noir. Foi ali, no 65, que eu vi vários dos filmes do neorralismo italiano. Foi ali, no 65, que eu vi, deslumbrado, a trilogia de Apu. A coisa não tinha fim.

Também, naquela época, recorri às videolocadoras. Era a transição do videocassete para o DVD. Tínhamos os dois tipos de aparelhos em casa. As locadoras tinham milhares de filmes nos dois formatos. Se bem que os clássicos eram mais raros, bem mais raros, em DVD.

Numa das locadoras, havia uma prateleira inteira de clássicos da Warner em fitas. Gastei uma fortuna em locações. Fui recompensado com Charles Laughton, Marlene Dietricht, Robert Mitchum e John Wayne. Quase todos os filmes eram em preto e branco. Até hoje torço o nariz para filmes coloridos. Sei que é esquisito, mas é assim que a banda toca por aqui.

Não quero me gabar aqui. Não vou dizer quantos filmes vi naqueles anos. Eu só quero mostrar que era fanático por cinema.

Mas tudo tem um fim. Não sei dizer o que trouxe o fim da minha cinefilia daqueles anos. Não me lembro de qualquer evento isolado.

Simplesmente parei de ver filmes com aquela volúpia. Como assim, Neto? Um prazer não acaba assim, sem mais nem menos. É esquisito mesmo, mas foi o que aconteceu comigo.

A coisa toda foi tão estranha, que sou capaz de dizer sem titubear os poucos filmes que vi nos últimos anos. Vai ver que foi overdose. Sou meio exagerado mesmo.

Perdi a conta de quantas vezes falei, nos últimos tempos, que retomaria um ritmo mais intenso de cinéfilo. Eu estufava o peito e falava para a Patricia: vou ser um devorador de filmes novamente. Mas o ímpeto murchava rapidinho. E eu acabava voltando aos livros.
Tive de passar por algumas situações desagradáveis a partir do momento que abandonei os filmes. Quase todas essas situações desagradáveis têm a ver com a minha desatualização. Era comum eu estar num barzinho e escutar, meio envergonhado, as pessoas comentando a respeito de um determinado filme que estava causando muita polêmica. Eu precisava ficar quieto, enquanto os debates iam esquentando. Eu tentava escapar dizendo: não vi, mas está na minha lista. Meu lado pavão não queria que a conversa sobre cinema morresse ali. Eu dava um jeito de falar sobre algum filme clássico. Nunca deu certo.

Hoje, talvez culpa das férias, resolvi ver um filme com a Patrícia aqui no apartamento. Foi meio sem querer. Estávamos fuçando as opções de filmes num serviço da TV a cabo. É, vocês bem sabem, uma espécie de locadora virtual. Nunca dei bola para o tal de serviço. E não foi por falta de aviso. Faz tempo que a minha mãe vem dizendo que há vários filmes bons ali. Eu devia ter ouvido minha mãe. Ela e meu pai são cinéfilos. Eles não erram.

Muito bem. Final de tarde. Calor, calor. Pausa da leitura. Resolvemos mexer no tal serviço da TV a cabo. Logo de caras topamos com O som ao redor, dirigido por Kleber Mendonça. Falei para a Patrícia: pronto, achamos! É que tanto ela quanto eu já tínhamos ouvido falar que o filme era muito bom. Lembro que quando ele saiu, em 2013, apareceram vários textos elogiando. Lembro que as pessoas que assinavam os textos eram confiáveis. Mais recentemente, um aluno meu, o Kelvin, cinéfilo de alta patente, disse que valia muito a pena ver o filme. Hoje foi a nossa vez.

Lembro que vários dos textos diziam que o filme de Kleber Mendonça era extremamente agudo ao mostrar a desgraça que é o Brasil. O medo. O marasmo. As relações perversas disfarçadas pela camaradagem. A violência. As sacanagens. O passado que cobra o seu preço. O estado de natureza hobbesiano. A maldita reunião de condomínio. O playboy que sempre se safa porque tem costas quentes. As chacinas. A brutalidade contra as crianças. A revanche do pobre diabo que é humilhado pela senhora que está ocupada. A enganação da consciência tranquila do patrão gente fina. A inveja consumista. A constatação de que estamos no fundo do poço.

Tudo isso aparece no filme. Há quem diga que Kleber Mendonça exagerou. Vocês vão perguntar: Neto, você acha que ele exagerou? Honestamente, respondo que não. É só dar uma simples volta por aí. Estamos, sim, com os dentes arreganhados. É o que tem para hoje.
E o filme de Kleber Mendonça me reconciliou com o cinema.


Nelson Fonseca Neto é colunista do jornal Cruzeiro do Sul e escreve neste espaço todas as sextas-feiras.

Janeiro




Nelson Fonseca Neto

O que escreverei talvez não possa ser aplicado a todos. Serão palavras vindas da experiência do colunista. Ao mesmo tempo, o colunista tenta ser generoso de vez em quando. Ele acredita que o prazer que sente, na esfera da leitura, pode ser compartilhado. Desde já, ele pede perdão caso escreva alguma abobrinha.

Janeiro está chegando. Há quem encare o novo mês como o marco de uma nova vida. As dívidas não formarão uma montanha. Os relacionamentos não serão bélicos. Os empregos serão glamourosos. Os políticos serão menos bandidos. As roupas justas não morarão mais no fundo do armário. E por aí vai.

(Pena que já nos primeiros dias o IPVA nos lembra de que vestir roupa amarela não comove a sanha do estado.)

O colunista bem que poderia escrever um texto agressivo neste momento. Ele tem pavor de praias lotadas. Ele fica angustiado quando se depara com um monte de gente berrando. Ele acha o calor uma maldição. (Se ele fizesse um regime, o calor não seria tão inclemente.) Ele fica aborrecido com as fotos de lugares paradisíacos que fervilham nas redes sociais. Ele, em suma, é um chato, um urso, um azedo.
Ele passa os dias de folga lendo e fazendo micagens com a digníssima esposa, a Patricia. As micagens não nos interessam neste momento. Cada casal faz as suas, e viva a diferença!

O que o colunista lê talvez interesse alguém. Sim, o colunista ainda preserva as faculdades da memória e sabe que, coisa de poucos dias atrás, publicou algumas dicas de leitura neste espaço. E ele sabe que não pode fazer a mesma coisa num intervalo tão curto. Seus leitores são exigentes. E é bom que seja assim.

(O colunista parou de escrever por alguns minutos. Foi beber água. Ele está vestindo um pijama. Ele quer cortar bem curtinho o cabelo. Sua esposa não autorizou.)

O que o colunista quer fazer aqui não é um texto convencional de dicas de leitura. Isso ele considera raso, prosaico, elementar. Não que as pessoas não possam ser rasas, prosaicas, elementares. Não é isso. Precisamos, muitas vezes, ser rasos, prosaicos e elementares. Uma vida trepidante é insuportável. Um bom prato de arroz com feijão é uma iguaria.

Mas há momentos de rupturas, de rebeldias, de chutes no balde. São os momentos que temperam a existência. Se é só arroz com feijão o tempo inteiro, ficamos aborrecidos. Se é só tempero forte, vomitamos. Tudo questão de equilíbrio, de acionar as diferentes alavancas com sabedoria.

O colunista sabe que entregou, dias atrás, um prato de arroz com feijão. Agora ele quer dar umas cambalhotas. Ele quer mostrar que aqui tem café no bule. Ele quer escrever um texto útil e reflexivo. Útil: que as pessoas sigam o que ele sugere. Reflexivo: que processos mentais complexos apareçam em seu texto.

Ele tem uma tese. E ele sabe que os textos argumentativos devem ter uma tese bem resolvida. Se assim não for, não é texto: é gelatina. Ele, o colunista, não brinca com essas coisas. Ele não quer que o seu ofício seja marcado por lampejos, por golpes de sorte, por sacadas. Ele não é leviano.

E ele tem uma tese: os dias de folga do mês de janeiro são adequados ao exercício da leitura intensiva. Vários são os alicerces que sustentam sua tese. Primeiro: folga significa horas livres; horas livres podem ser atravessadas de muitas maneiras; o colunista não quer esmiuçar essas maneiras; mas ele não pode deixar de constatar que algumas dessas maneiras são boas e que outras dessas maneiras são ruins; e ele acha que a leitura está no grupo das boas maneiras. Segundo: muitos estão gozando de suas férias; muitos aguardam freneticamente pelos dias de ócio; e esses dias chegam; e o ócio vira tédio; e esse tédio tem várias caras (confraternizações regadas a bebidas entorpecentes; conversas perigosas acerca de política; pessoas que não podem ver uma piscina e resolvem jogar outras pessoas, com roupa e tudo, na dita piscina; músicas que fazem alguns constatarem que a surdez pode ser uma benção; chinelos fazendo barulhos enervantes); a leitura é uma das ferramentas para se livrar do tédio, da raiva, da angústia, dos desejos homicidas. (O colunista acaba de cometer um grave erro em sua argumentação. Ele iniciou este parágrafo dizendo que vários alicerces sustentam sua tese. Ele, o colunista, se deu conta, agora, que são apenas dois alicerces. Mas não tem problema: eles dão conta da estrutura.)

O colunista olha, com desespero, o final do texto chegando. E ele, o colunista, sabe que falta mencionar as leituras que julga adequadas para o mês de janeiro. (Ele interrompe o trabalho por alguns segundos; ele coça o queixo; vê um passarinho passar perto de sua janela; ele respira fundo; ele é um clichê.) Ele sabe que não pode enrolar muito agora. A hora decisiva está chegando. Ele precisa de um desfecho mágico. Lá vamos nós.

Leiam Tolstói. Leiam Stendhal. Leiam Thomas Mann. Leiam Balzac. Leiam Tanizaki. Leiam Dickens. Leiam Machado de Assis.
Leiam e sejam felizes. Começando o ano de mãos dadas com essa gente, as coisas tendem a ser menos malvadas.

Bom 2017!

Livros para todos os gostos




Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com



Promessa é dívida. Puxa vida, olha só quem fala. Vivo dando o cano em vocês, não é verdade? Mas de vez em quando a gente toma vergonha na cara. Na semana passada, prometi escrever algumas dicas de bons livros que podem ser lidos nas semanas modorrentas de fim de ano e de começo de 2017.
Antes de começar o jogo para valer, preciso explicar o critério das dicas que vocês lerão a seguir. É muito simples: o critério é o do ecletismo. Nunca fui, nem quero ser, um acadêmico tradicional, capaz de mergulhar fundo nas minúcias de um assunto marginal. Sou um leitor borboleteante. Gosto de literatura, mas não deixo de lado os livros de história. Sou viciado em grandes reportagens. Uma boa biografia sempre cai bem.
A listinha que segue reflete a minha volúpia leitora. Sem mais enrolações, as dicas.
A primeira sugestão tem a ver com o belo casamento da literatura com o jornalismo. Trata-se de um casamento raro. E quando ocorre, é extremamente feliz. É absurdo esperar que todos os textos de jornais e revistas sejam obras-primas. Se jornalistas ficassem muito tempo penteando a boneca, não teríamos jornalismo diário. Assim, valorizamos os textos mais urgentes; mas também tenhamos os olhos atentos para textos escritos com maior tempo de elaboração. São textos de jornalismo literário. Compromisso com a verdade, técnicas narrativas puxadas da literatura. Uma reportagem longa ganha tintas de bom romance. Uma reportagem breve fica cortante como um conto. Muita gente boa promoveu e promove o casamento do jornalismo literário nas últimas décadas. Tem de tudo um pouco, mas o nome incontornável é o de Gay Talese. Seus textos breves estão reunidos no volume Fama & anonimato. Honra teu pai é um clássico do jornalismo de longo fôlego. Parece um romance, mas é tudo verdade.
A segunda sugestão trata de um assunto interessante. Vocês sabem que as literaturas de todos os países têm seus clássicos. Claro que é bom ler os clássicos, mas e os grandes livros menos badalados? Toda literatura tem os seus. No Brasil não é diferente. A lista é vasta, mas fiquemos com um caso: Caminhos cruzados, de Erico Verissimo. Erico, o pai do Luís Fernando, é apontado como um dos principais ficcionistas brasileiros do século 20. Muito de sua fama passa pela monumental saga O tempo e o vento. São milhares de páginas, destinos que se cruzam, retrato magistral de uma sociedade. Infelizmente, a monumentalidade da saga eclipsa Caminhos cruzados, obra mais modesta. Temos, aqui, um retrato agudo da sociedade de Porto Alegre da década de 1930. Some-se a isso a linguagem ágil, repleta de frases curtas. E, por fim, mas não menos importante, a técnica cinematográfica das mudanças de cena. Preciso confessar: acho Caminhos cruzados a grande obra de Erico Verissimo. Por favor, não atirem pedras.
A terceira recomendação une jornalismo e memória. Aqui, o grande mestre é o polonês Ryszard Kapuscinski. Ele foi um dos grandes correspondentes internacionais de todos os tempos. Incansável, percorreu o mundo. Cobriu golpes militares na América Latina. Viu a desintegração da União Soviética. Passou anos percorrendo o continente africano. Viu de tudo um pouco. Mas não é mera testemunha. Seu texto seco fura nossa resistência. Seu didatismo na hora de explicar questões emaranhadas é digno de um grande professor. Seu humor ácido torna inesquecíveis seus textos. Vale muito a pena ler Ébano, Minhas viagens com Heródoto e Imperium. Boas pedidas para os que não se contentam com o noticiário raso.
A quarta recomendação vem de um susto que levei tempos atrás. Parece inacreditável, mas é verdade: vi, no Facebook, algumas pessoas glamourizando o stalinismo. Mau gosto? Burrice? Vontade de pendurar uma melancia no pescoço? Um pouco de tudo isso. Essas firulas passam rapidinho com a leitura de Chalámov (Contos de Kolimá) e Vassili Grossman (Vida e destino).
A quinta recomendação é para quem procura texto que informa e faz rir ao mesmo tempo. Estou falando do livro Bandido raça pura, do jornalista Fred Melo Paiva. Belo exemplo de como colocar o dedo na ferida sem perder a ginga. Sim, dá para amar e ser feliz ao mesmo tempo. Fred Melo Paiva fala de tudo um pouco. De Niemeyer a um cachorro feroz que tornou-se bonzinho. De Dorival Caymmi a um ex-carcereiro do Carinduru. Do horror da Daslu ao horror do minhocão. Uma aula de como se deve olhar para a cidade.
A sexta recomendação é para quem já percebeu que futebol não é só futebol. Existem livros que são declarações de amor ao esporte (exemplo: a autobiografia do Tostão); existem livros que estabelecem as conexões entre futebol e sociedade (exemplo: Veneno remédio, de José Miguel Wisnick); e existem livros que são obras de arte de primeira grandeza (todos os livros de Mário Filho).
A sétima recomendação é para quem gosta de narrativas gráficas. São as famosas HQ. Garanto que algumas dessas obras nada têm de imaturas. Will Eisner, por exemplo, foi um dos grandes artistas do século 20. Maus, de Art Spiegelman, é uma dos grandes narrativas sobre o Holocausto.
A oitava recomendação é para quem adora biografias. Com o perdão da obviedade, há biografias e biografias. Livros sobre pessoas desinteressantes. Livros centrados em fofocas bestas. Livros maravilhosos. Livros reveladores. Leiam a biografia de Getúlio Vargas, escrita pelo jornalista Lira Neto. James Kaplan, ao escrever sobre Sinatra, mostrou que biografia pode ser arte.
Ufa, cumpri minha promessa!

Útil




Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com




Na semana passada, eu havia prometido escrever, para hoje, um texto engraçado. Juro que ele estava no gatilho. Seria tão fácil. Sou um iludido nato. E a culpa é de vocês. Sim, vocês dificultaram o meu trabalho.

Eu estava empolgado com o texto engraçado. Ele estava redondinho na minha cabeça. Bastaria sentar, bater no teclado do computador por mais ou menos uma hora, e pronto! Missão cumprida e viva o Brasil!

Só que eu sou meio neurótico. Desconfio das coisas simples. Sou mestre na arte de achar chifre na cabeça do pobre cavalo. Vou tentar lembrar do contexto da caraminhola que impediu a coluna engraçada que eu havia prometido na semana passada.

Era noite. Eu estava dirigindo de volta para casa. Sei lá como, o maldito espinho fincou-se no meu cérebro: Neto, será que todos seus leitores e leitoras gostam dos seus textos supostamente engraçados? Será que eles não sentem falta de textos mais instrutivos? Você quer ser conhecido como o mico de circo sorocabano?

Quando eu falo, ninguém acredita: sou uma espécie de Woody Allen gorducho. Sem o talento do original, mas tão neurótico quanto. Enquanto voltava para casa, foram surgindo cenários tristes na minha cabeça. Será que falam de mim? Será que acham que sou ridículo? Será que não estão telefonando para o Fineis e para a Juliana pedindo a minha cabeça numa bandeja de prata? Soltei uma bufada a fim de livrar-me dos pensamentos tóxicos.

Decidi adotar uma postura mais, argh!, resiliente. Passei a imaginar nos meios para sair da enrascada. Defini que o texto engraçado seria descartado. Sou neurótico e volúvel. Fico empolgado rapidinho. Fui pensando nas alternativas.

Primeira delas: texto recheado de erudição. Rapidamente descartado. Não sou erudito.

Segunda delas: texto político. Rapidamente descartado também. Não quero mexer no vespeiro.

Terceira delas: texto dramático. Descartado. Qual drama? A odisseia de pagar o boleto no caixa eletrônico? A história monumental do sujeito que leva um susto na padaria, ao saber quanto custa duzentos gramas de presunto de Parma?

Quarta delas: texto de utilidade pública. Pronto, achei!

Sim, minha gente, utilidade pública. Seriedade sem pedantismo. Sensação de dever cumprido. Essas coisas.

Achei, digamos, o grande tema. Como é bom ser útil! Como é bom não ser um parasita do sistema! Enquanto dirigia, júbilo deste que escreve.

Só que este que escreve é neurótico, volúvel e dominado por um espírito de porco. Posso falar para vocês: pensei num monte de abobrinhas.

Primeiro pensamento supostamente útil: escrever um guia para a pessoa que é obrigada a frequentar a festa de amigo secreto da firma. Eu começaria desenhando o cenário tétrico dos barzinhos e restaurantes nesta época do ano. Eu esmiuçaria as relações pitorescas de poder de uma empresa. Tudo muito sombrio. Em seguida, eu daria algumas dicas de como não afundar num pesadelo. Sorte que o meu senso crítico manifestou-se. O texto ficaria azedo. Seria água no chope gourmet.

Segundo pensamento supostamente útil: escrever um pequenino tratado que ajudasse a pessoa a não perder a sanidade mental nas festas de fim de ano. Seria um texto influenciado pelas comédias italianas dos anos 1960. Sorte que puxei o freio de mão, metaforicamente falando, claro. Poderia soar ofensivo. Não quero ofender. Sou um cordeiro.

Terceiro pensamento supostamente útil: escrever algumas orientações para a pessoa que precisa enfrentar um shopping center a poucos dias do Natal. Descartei: muito consumista.

Quarto pensamento supostamente útil: escrever um roteiro de viagens. Ainda bem que lembrei que não gosto muito de viajar. Na melhor das hipóteses, sairia um guia de como aproveitar as delícias de Campos do Jordão. Eu não escreveria sobre praias. Chinelo é uma das minhas fobias. Sem contar a aflição que sempre sentirei ao ver aquelas pessoas vendendo queijo no palito, vestidas com aquelas roupas de pelúcia.

Quinto pensamento supostamente útil: escrever um tratado sobre a arte de presentear com fineza e requinte. Segundos depois, lembrei que não sou o prefeito de São Paulo.

Sexto pensamento supostamente útil: dicas de bons livros para os dias de folga. Em vez de Roberto Carlos, Tolstói. Legal, né?

É o que farei para a próxima semana, juro. Será uma lista eclética. Abrirei minha caixa de ferramentas. Mostrarei que não gasto meu tempo só fazendo palhaçadas.

E, agora percebi, é até melhor que as dicas de livros apareçam na próxima semana. Fica mais perto da segunda parcela do décimo terceiro salário.

Agora respiro aliviado.

Nossa tragédia



Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com




Estou escrevendo este texto deitado. O Word do celular permite. A Patrícia está dormindo ao meu lado.
Quase meia-noite. Dia 29/11. A televisão está ligada sem som. De vez em quando, tiro os olhos do celular e vejo o que está passando. São imagens do estádio da Chapecoense. Estou deitado de costas.
Minha ideia era escrever o texto para o jornal na quarta de manhã. As últimas semanas de novembro sempre oferecem brechas. Eu iria escrever algo engraçado. Seria uma história real, acontecida há muitos anos. Tudo estava fresco na minha cabeça. Acho que meus leitores e minhas leitoras dariam risada. Acho. Vai saber.
Só que eu não consigo escrever o texto engraçado. Hoje foi um dia triste.
Acordei cedo. Costumo tomar um iogurte. Depois vou ao banheiro. Quem não medita no banheiro? Sempre levo o celular. Verifico e-mails e outras mensagens. Dou uma passadinha no Facebook. Entro em alguns sites de jornais. Nada que leve muito tempo. É mais para acordar mesmo. Seria estranho ficar olhando para o azulejo. Ainda não evoluí a este ponto.
Hoje, passando pelo Facebook, vi a notícia da queda do avião que transportava os jogadores da Chapecoense, sua comissão técnica, dirigentes e jornalistas que cobririam o jogo na Colômbia. Claro que levei um susto.
Para variar, as informações, nas primeiras horas, eram confusas. Mencionaram, num primeiro momento, vários sobreviventes. Mas já havia gente dizendo que eram poucos sobreviventes.
Enquanto isso, dei algumas aulas. Escola, nesta época do ano, é uma tristeza. Boa parte dos alunos já está desfrutando as férias. Escola vazia machuca a gente. Mas não é disso que eu quero falar.
Conversei com alguns professores. Vários deles são fanáticos por futebol. Claro que falamos sobre a queda do avião. E então começou uma coisa meio doida. Doida e bonita.
Não somos amigos das pessoas que morreram no desastre. Mas parecia que sim, que eram nossos amigos. Mencionamos o nome de vários jogadores. Concordamos no seguinte: o técnico da Chapecoense, o Caio Júnior, era um cara muito gente fina. E assim a coisa foi rolando.
Depois falamos sobre alguns dos jornalistas que morreram. Tudo ficou mais difícil. É que os amantes do futebol sempre arrumam um tempinho para ver um desses debates esportivos. A abundância da TV a cabo permitiu que esses debates aconteçam nos mais diferentes horários. É o paraíso dos devotos do futebol. Tem debate cedinho, tem debate na hora do almoço, tem debate no fim da tarde, tem debate no meio da noite, tem debate de madrugada. É uma festa.
Impossível ver todos. Há que se ganhar o pão nosso de cada dia. Impossível, para mim, acompanhar a programação da manhã. Do meio da tarde em diante, também. Sobram os horários da noite e sobre um intervalo logo depois do almoço. Nem sempre vejo os debates da noite. É que a Patrícia e eu estamos viciados no melhor seriado de todos os tempos: Seinfeld. Só antes de dormir é que eu sou uma bicadinha nesses programas.
Sobra, então, o sagrado intervalo logo depois do almoço. Algum cientista disse que um cochilo depois do almoço é fundamental para que a sociedade caminhe a contento. Se não disse, deveria dizer. Faz um bem danado. E viva a cultura espanhola!
Com o quarto escuro, ligo a televisão e ponho num dos canais de esporte. Dou risada, torço por uma boa treta entre os jornalistas. Sempre tem treta. Nada de grave: típica conversa de bar. O maluco disso tudo é que você meio que acaba ficando amigo dos caras. É um ritual. O descanso da tarde tem que ter a voz dos caras ao fundo.
E, hoje, perdi a voz de alguns dos caras que velam o meu descanso da tarde: Vitorino Chermont, Paulo Júlio Clement e Mário Sergio. Morreram no acidente. Hoje, o descanso da tarde não foi descanso: foi tortura. Por que esconder? Chorei.
Paulo Júlio Clement conseguia ser, ao mesmo tempo, bonachão e afiado. Vitorino Chermont trazia informações quentes e ainda tirava onda com todos. Mário Sergio era um gênio.
E agora eles foram embora. Foram embora junto com outros jornalistas. Junto com o time mais legal dos últimos tempos. Deixaram familiares. Deixaram amigos. Deixaram pessoas que se viam como seus amigos, mesmo longe, longe.
Hoje à noite, o Mauro Cesar Pereira, jornalista de uma outra emissora, chorou ao falar do Clement e do Chermont. Olha que o Mauro é um cara durão. Chorei junto. Não tinha como ser de outra forma.
E assim vou tentando lidar com o maldito dia de hoje.
A Patrícia dorme ao meu lado. O sino da igreja deu meia-noite. Cheguei ao fim do texto.
E nunca se esqueçam: futebol não é apenas futebol.
Semana que vem, conto a história engraçada.