ARTIGOS


Schweitzer




Aldo Vannucchi

O nome é difícil, mas a personalidade fascina. Esse filósofo, teólogo, concertista especializado em Bach, pastor, missionário e médico, Albert Schweitzer, meio francês, meio alemão, nasceu em 14 de janeiro de 1875, na Alsácia, da Alemanha ontem e depois da França. Faria aniversário amanhã, mas já morreu faz tempo, com 90 anos de idade. Nestes dias em que o cenário do mundo se obscurece com tipos discutíveis como Trump e Kim Jong-un, e no Brasil, Temer, Bolsonaro, Lula, Gilmar Mendes e tantos outros, acho quase terapêutico relembrar paradigmas de humanidade, como esse apóstolo do bem e da vida.

Aos trinta anos, Schweitzer, cristão militante, que já tinha presença respeitada na sociedade parisiense, tomou um dia a decisão definitiva de sua vida: resolveu ir com a esposa trabalhar como médico no Gabão, colônia francesa na África, com imensos problemas de saúde dos nativos. Lá, ao se deparar com os acanhados recursos iniciais, improvisou um consultório num antigo galinheiro, para atender seus pacientes. Enfrentou muitos obstáculos, como o clima hostil, a falta de higiene, os idiomas tribais que não entendia, a carência de remédios e do instrumental necessário, mas não desanimou. Progressivamente, foi ganhando confiança e veneração da população.

Perspicaz e competente, logo se entregou a construir um espaço para melhor cuidar dos atingidos pela malária e outras doenças tropicais e também pela hanseníase. Foi uma intensa atividade médica e missionária que se prolongou mais que o previsto, porque, no início da Grande Guerra (1914-1917), ele e a esposa foram levados para a França, como prisioneiros de guerra. Libertado, Schweitzer saíu atrás de recursos para o seu hospital em construção, recorrendo a conferências, concertos de órgão e dividendos resultantes da venda dos livros de sua autoria. Após sete anos de permanência na Europa, volta a Gabão, acompanhado agora de médicos e enfermeiras dispostos a ajudá-lo no hopital dos seus sonhos, onde veio a falecer, em 1965, devido a problemas circulatórios.

Muita coisa se pode aprender com esse cristão exemplar, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz, gigante defensor da vida, considerado, com razão, um dos precursores da Bioética, porque, na sua atividade missionária na África, privilegiou o respeito, o desenvolvimento e a preservação da vida, no seu conceito mais amplo. Toda a fundamentação religiosa, filosófica e científica de sua atuação médica foi viver e propor uma ética não apenas referente à humanidade, mas a todos os seres vivos, uma "ética universal que nos obriga a cuidar de todos os seres e nos põe de verdade em contato com o universo e a vontade nele manifestada."

Para Schweitzer, ninguém será realmente ético, senão quando cumprir a obrigação de respeitar e ajudar a preservar e desenvolver toda e qualquer criatura viva. A vida como tal lhe foi sempre um dom sagrado. Não arrancava folhas de árvores, nem cortava flores e cuidava até de não pisar em nenhum bicho.

Fico pensando como estamos longe desses gênios do bem, um Francisco de Assis, no século 13; um São Vicente de Paulo, no século 16 e um Albert Schweitzer, do século 20. E há tanta gente entre nós pisando na própria vida, pelo fumo, pelo álcool e até mesmo pelo próprio dinheiro!

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) - aldo.vannucchi@uniso.br


Da adversidade à vitória




Geraldo Bonadio
No início da Segunda Guerra Mundial, o exército alemão, com suas novas e rápidas divisões de veículos blindados, venceu com facilidade as forças francesas e britânicas. De recuo em recuo elas foram cercadas em Dunquerque e só não caíram prisioneiras graças a uma dramática e gigantesca operação -- há pouco recordada pelo cinema -- que as transportou, por mar, até a Inglaterra. 

Derrotada e invadida, a França se rendeu. Esperava-se que os ingleses fizessem o mesmo. Nunca nos renderemos -- anunciou Winston Churchill, num discurso radiofônico que ficou famoso. Com isso, uniu os ingleses em torno de uma causa e se afirmou como um líder capaz de confrontar Hitler.

Lidar com a adversidade é sempre desagradável. Perder a batalha, a eleição, o negócio ou um relacionamento importante deixa na boca do vencido o gosto amargo do insucesso. Mas -- estranhamente -- o desfecho que implode alguns, física e emocionalmente, é suportado e superado por outros. Estes driblam o desespero e forjam, em meio ao vendaval que sobre eles se abate, a decisão de fazer daquele momento o início de uma jornada que os levará à vitória.

Certos, pois, parecem estar os que dizem ser a nossa reação ao desastre mais importante que os danos por ele diretamente ocasionados. O impacto destroça muitos; outros, entretanto, fazem dele alavanca, que os ajuda a se reerguer e principiar um novo momento na vida.

Ante a adversidade de nada adianta enterrar a cabeça na areia, à moda do avestruz, e negar "a dor que deveras sente". No entanto, quem vive na fé deve lembrar, nesse momento difícil, que o Deus Eterno encaminha as coisas de tal forma que tudo concorre para o bem daqueles a quem ele ama. Até sob os escombros do desastre que os machuca existe, pois, uma bênção em potencial.

Busque, com a ajuda dele e daqueles que o amam, curar as feridas, sem nunca perder a esperança.

"(...) os olhos do Eterno estão sobre aqueles que o respeitam, aqueles que procuram o seu amor. Ele está disposto a resgatá-los nos tempos maus, a prestar todo o auxílio necessário nos tempos difíceis."

Salmo 33:18-19 A Mensagem - Bíblia em Linguagem Contemporânea
Geraldo Bonadio é jornalista. geraldo.bonadio@gmail.com