ARTIGOS


Cara de bebê




Churchill foi endeusado como o salvador da pátria, com razão, mas os eleitores ingleses decidiram rebaixá-lo, de fazedor de História a herói necessário, no fim da guerra
 
Luis Fernando Verissimo
 
Dizem que todos os bebês do mundo nascem com a cara do Winston Churchill. A cara de bebê garantiu a Churchill uma simpatia nem sempre merecida, por toda a sua vida. Antes de ser o herói da resistência a Hitler na Segunda Guerra Mundial, Churchill foi um típico servidor do que o império britânico tinha de mais retrogrado e arrogante e um apologista do uso de gás venenoso contra seus inimigos, incluindo nativos revoltados nas suas colônias.
 
Churchill nunca mudou, mudou a sua circunstância. Hitler e a ameaça alemã providenciaram seu encontro com a História, a História criou o mito e o mito liquidou a biografia pouco enternecedora do cara de bebê até então.
 
Nem os historiadores mais revisionistas discutem que foi Churchill, com sua liderança e, principalmente, sua retórica que salvaram a Inglaterra na Segunda Guerra. No caso de Churchill não cabe nem desenterrar a velha questão da importância relativa de homens que fazem a História e da História que produz os heróis necessários. Não há duvida de que Churchill inspirou a nação com a cadência dramática das suas falas, prometendo combater os alemães de rua em rua, no caso de invasão, e resistir aos ataques aéreos que castigavam Londres diariamente. Valeu-se de outro mito, o da Inglaterra como uma ilha abençoada, descrita assim por Shakespeare (quem mais?) num solilóquio da sua peça "Ricardo II" : "Esta terra majestosa", "Este outro Éden, semiparaiso", "Esta fortaleza construída para ela pela Natureza", "Esta feliz raça de homens, este pequeno mundo". Quem Hitler pensava que era, atacando este outro Éden?
 
Pequeno parêntese: o solilóquio de Shakespeare, uma lista de tudo que faz da Inglaterra um refúgio num mundo imperfeito, é dito por um nobre agonizante desencantado, pois descreve o que a Inglaterra já foi mas não é mais. O que não impediu que o texto seja sempre repetido como um rol de virtudes inglesas, omitida a última estrofe, que revela o desencanto do nobre.
 
Churchill foi endeusado como o salvador da pátria, com razão, mas os eleitores ingleses decidiram rebaixá-lo, de fazedor de História a herói necessário, no fim da guerra. Despacharam-no. Não se sabe se saiu de Downing Street desencantado.
 
Luis Fernando Verissimo é jornalista da Agência O Globo e escreve neste espaço aos domingos e quintas-feiras.
 


Tudo e todos têm um nome




Geraldo Bonadio

Vivemos um vale-tudo ético. Facilmente encontramos quem se autoinclui entre os seguidores de Jesus e rejeita, em sua vida, tudo quanto ele ensinou: despreza o indefeso; nega pão ao faminto, teto ao desabrigado, remédio ao doente, roupa ao entanguido pelo frio, misericórdia a quem se degradou ou foi degradado pela vida.

Você -- assim como qualquer um -- tem o direito de se sentir 100% corintiano, palmeirense ou são-paulino porque, em dia de jogo decisivo, sai às ruas vestindo, orgulhoso, a camisa do time. Vestir amarelo ou vermelho, carregar no peito o nome do Moro, do Lula ou do Bolsonaro é suficiente testemunho de adesão a um partido ou candidato. Seguir a Jesus exige mais. Reclama sintonia com a Palavra; mudança no sentir, pensar e agir.

Tornar-se seguidor de Jesus é escolha sua. Você -- a exemplo das demais pessoas -- está entre os destinatários da mensagem dele.

Engana-se a si mesmo quem se imagina acima ou além do alcance do amor e do perdão de Deus. Ainda que seus erros tenham sido enormes; suas trilhas tortuosas e seu coração duríssimo isso não lhe retira a condição de beneficiário da misericórdia. As dimensões do perdão divino suplantam o valor de sua dívida, o número de seus erros, a gravidade de seus crimes e podem, sim, romper as correntes que o aprisionam e permitir que dê novo rumo à sua vida.

Só que a ninguém é possível ter um pé no caminho do amor e outro na trilha do ódio; alternar, sempre indeciso, entre o bem e o mal; alegrar-se porque o Senhor rasgou sua conta, sem olhar o montante e exigir até o último centavo do minúsculo débito do outro para consigo.

A fé não impede tropeços nem diminui a dor do tombo. Dá força para reconhecer a queda, recolocar-se em pé e prosseguir. Concede e exige transparência. E chama, tudo e todos, pelo nome certo.

"Ninguém mais vai chamar de nobre ao corrupto nem ao ladrão de excelência."

Isaías 32:5 Tradução CNBB
Geraldo Bonadio é jornalista. geraldo.bonadio@gmail.com