ARTIGOS


Só os insistentes geram mudança




Geraldo Bonadio

Pessoas que desistem de seus projetos porque toparam com uma dificuldade imprevista, na verdade não têm projetos e sim aspirações vagas, das quais facilmente abrem mão. Desanimam e batem em retirada porque elas próprias não se deixaram penetrar pela ideia que timidamente defendiam, não se apaixonaram por ela.

A lei que resultou na libertação dos escravos de origem africana em todas as colônias inglesas -- e também deu origem a muitos movimentos abolicionistas ao redor do mundo, inclusive no Brasil --, resultou da teimosia do político e pastor inglês William Wilberforce.

Em sucessivas reuniões anuais, o Parlamento britânico rejeitou o projeto por ele apresentado, com a sustentação de abaixo-assinados subscritos por milhares de cidadãos. Ele, porém, jamais se deixou vencer e, a cada ano, voltou a mobilizar os cidadãos de seu país, gerando novos pedidos populares para reapresentar a proposta. Quando sua saúde já fraquejara, obrigando-o a afastar-se da política, o projeto obteve aprovação. Foi transformado em lei três dias antes de sua morte.

A lição de Wilberforce é que, apesar das dificuldades e resistência, nunca devemos desistir de nossos sonhos, enrolar a bandeira e ir para casa acompanhar a vida na tela do televisor. Ainda que a mudança chegue tarde demais para você, o importante é produzir a transformação almejada e lançar as bases de um mundo melhor para seus filhos e os filhos de seus filhos.

Deus, que está fora dos condicionamentos temporais, testemunhará a sua luta e dar-lhe-á a recompensa que você fez por merecer.

Até por isso, nunca se acanhe de bater à porta dele, através da oração, e pedir que lhe conceda, na dose necessária, o dom da persistência.

"Pedi e vos será dado; procurai e encontrareis; batei [à porta] e ela vos será aberta. Pois todo aquele que pede, recebe; e quem procura, encontra; e a quem bater [à porta], ela lhe será aberta."

Evangelho de Lucas 11:9-10 Frederico Lourenço
Geraldo Bonadio é jornalista. geraldo.bonadio@gmail.com


Mudanças em 2018!




Adriana Alves de Lima

Esta é uma época do ano que a palavra mudança entra no discurso de muita gente, às vezes repetida de modo até displicente. É inegável que, sob o ponto de vista dos ritos culturais, ao se encerrar um ano tem início o outro, renovando expectativas e esperanças. Novas energias são convocadas e se aplicadas ao trabalho necessário para realizar as mudanças desejadas, podem sim, dar um revigorante impulso na conquista de novos objetivos. Inseridos numa cultura que condiciona os desejos e comportamentos a objetivos como o que vestir, comer, ser, comprar, sempre as pessoas estão voltadas a atender os interesses econômicos de outros. Em meio ao turbilhão de estímulos provocativos de condutas esperadas, é difícil ter a mente livre para raciocinar sobre as mudanças realmente essenciais para uma existência em liberdade.

Importantes teorias psicológicas, como as de profundidade, ou a Psicologia Racional e a Psicanálise, podem ajudar o indivíduo a crescer, a evoluir mentalmente, a superar pontos de fixação infantil e regressivos, levando a uma existência psiquicamente adulta a maior capacidade de resolver os problemas com menos sofrimento. De fato, pela aparência física é fácil diferenciar uma criança de um adulto, entretanto, psicologicamente não é bem assim, pois o indivíduo tem um corpo físico de adulto mas, pode se comportar ainda de modo predominantemente infantil.

Como reconhecer aspectos da criança no adulto? Pelos comportamentos. Quais? Existem muitos dependendo da própria história, ou de bloqueios fixados na personalidade de cada um, porém, de modo geral, é possível identificar os mais frequentes, que expressam medo excessivo, dependência e instabilidade emocional. Nunca é demais esclarecer que esses sentimentos que se expressam nos comportamentos, em certas situações são esperados e até saudáveis: por exemplo, o medo que exige ação protetora de certos perigos. O que se discute aqui é a predominância e a frequência desses comportamentos, em momentos não compatíveis e na personalidade que mantém o indivíduo numa regressão psíquica.

Primeiro, medo. Toda criança tem muito medo: do escuro, de ficar sozinha, de separar-se da mãe, entre outros. Tais são etapas necessárias e naturais no desenvolvimento infantil. No "adulto", é possível observar, por exemplo, a reação de uma mãe quando seu filho adulto lhe comunica que vai à praia, e ela diz: "na praia? As praias estão poluídas, você vai pegar uma virose, pode morrer afogado ou até mesmo ser atingido por um raio, como tantos casos dados pelos noticiários! Eu acho melhor você ir ao cinema, que é muito mais seguro." Mesmo este filho assegurando a essa mãe que tomará todos os cuidados, ela não terá sossego enquanto ele estiver na praia; irá telefonar muitas vezes, mandar mensagens a toda hora, será tomada pela ansiedade, pelo sentimento de medo de que algo de ruim possa acontecer ao seu filho.

Segundo, dependência. A criança evolui de uma dependência absoluta dos pais, enquanto bebê, para uma dependência relativa até o final da infância. A aquisição de habilidades como falar, andar, alimentar-se e higienizar-se sozinha, constitui um longo processo necessário para a conquista de sua autonomia, no qual é muito ou totalmente dependente dos adultos, conforme sua idade. No "adulto", é possível identificar esta dependência de muitos modos, como exemplos: na casa, há um problema na TV a cabo, todos reclamam mas, ninguém toma as providências, e os "adultos", a esposa e filhos esperam o pai chegar do trabalho para que ele resolva; tem o rapaz ou moça, que mesmo na faculdade, quer ser carregado pelos colegas e se está em um grupo de trabalho, não faz nada, e ainda acha normal que os colegas de grupo incluam o seu nome nos trabalhos, para obter a mesma nota dos que se esforçaram para dar conta da tarefa; tem "adultos" que continuam, durante muito tempo, dependendo dos pais financeiramente; tem os que casam ou geram descendentes, mas ainda resistem a assumir as responsabilidades de adultos.

Terceiro, instabilidade emocional. A criança muda de humor muito bruscamente: uma hora está feliz, daqui a pouco se irrita, fica raivosa, ressentida, emburrada, e isto porque foi contrariada em seus desejos de controlar e manipular. É fácil perceber esses fenômenos em muitos "adultos": tudo vai bem no relacionamento com eles, até que alguém o contrarie ou não satisfaça seus desejos egoístas com a finalidade de colocar limites em seus comportamentos abusivos, que vão da expressão do amor ao ódio, em um instante.

Uma observação atenta sobre estes comportamentos infantis, imaturos, permite identificar muitas pessoas que já viveram boa parte da existência, como adultos fisicamente mas predominantemente imaturos, psiquicamente. Pouco ou quase nada evoluíram da criança para o adulto psiquicamente. Isso acontece normalmente, pelo estado de grande inconsciência (ignorância) sobre si mesmo. Ou seja, ainda não se comprometeram de modo consciente e voluntário, com esta mudança que é essencial. Ainda bem que um ano novo está começando! Sempre há tempo!

Adriana Alves de Lima - Psicóloga Clínica e Hospitalar Professora de Psicologia Racional do NUPEP Núcleo de Pesquisas Psíquicas lima_adriana@bol.com.br