ARTIGOS


A hora e a vez dos negócios saudáveis




Paulo Skaf

Definitivamente, 2018 começou diferente, trazendo mais oportunidades, confiança e otimismo. Agora sim dá para começar o ano debatendo assuntos novos, trazendo histórias inspiradoras, mostrando tendências.

No ano passado, quase 1,2 milhão de empresas optaram pelo Simples, um número 20,5% maior que em 2016; no Estado de São Paulo a expansão foi ainda mais expressiva (23,2%), com 320 mil pequenos negócios registrados. Com esses índices, o Brasil interrompeu uma trajetória de 24 meses de queda no registro de empresas.

Além disso, o ano passado marcou o início da recuperação da receita dos micro e pequenos empreendimentos paulistas. De acordo com Sebrae-SP, o faturamento desses negócios cresceu pelo nono mês consecutivo em novembro (2,2%), validando nossa projeção de crescimento entre 5,5% e 6% para 2017. Os microempreendedores individuais (MEIs) também recuperaram o fôlego em 2017, totalizando aumento de 10,5% em novembro. É o quinto mês consecutivo de alta de faturamento dessa parcela de empreendedores, demonstrando que a recuperação da economia está chegando à base do setor produtivo.

A trajetória de restauração econômica impactou fortemente nas expectativas dos empresários. Segundo pesquisa Indicadores Sebrae-SP, em dezembro/17, quase 40% acreditavam na melhora do faturamento para o 1º semestre de 2018 (eram 33% em dezembro de 2016) e 44% apostavam na manutenção da receita nos patamares de dezembro; 35% aguardavam melhora na economia brasileira (contra 26% em dezembro/16) e 43% confiavam na manutenção dos índices macroeconômicos.

No Sebrae-SP sentimos a retomada da confiança, com o aumento substancial de procura por nossos produtos e serviços. Foram mais de 2,4 milhões de atendimentos, 21% a mais que em 2016, a um milhão de clientes distintos, sendo realizados 500 mil diagnósticos e 450 mil cursos, oficinas e consultorias. Mais importante que o volume de atendimento foram os resultados relatados pelos empreendedores: 81% dos clientes que aplicaram os conhecimentos recebidos em gestão, marketing, inovação tiveram retorno favorável em seus negócios, seja em produtividade, em lucro e geração de novos empregos. À título de exemplo, somente no programa Setor Segmento, foi apurado entre os participantes o aumento médio de 16% do faturamento real, bem acima dos 6% previstos.

Ao buscar apoio de nossos especialistas para fazer a empresa engrenar em tempos difíceis, os empreendedores também registravam suas reivindicações com relação ao ambiente macroeconômico. Diziam que não bastava melhorar a gestão e produção da empresa; era preciso que o Brasil (re)encontrasse os trilhos do crescimento. É certo que avançamos com a aprovação da reforma trabalhista, a redução dos juros básicos, o controle dos gastos públicos e da inflação. Mas não o suficiente.

Ainda há buracos a fechar, como a equalização das contas públicas, a diminuição do desemprego, a aprovação da reforma da previdência, ampliação e barateamento do crédito produtivo e a diminuição do custo Brasil reflexo, entre outras coisas, da alta carga tributária e da complexidade burocrática.

Meu compromisso para 2018 continua sendo trabalhar junto aos governantes, legisladores e lideranças, na promoção de políticas públicas que tirem esse peso das costas do setor produtivo, em especial dos pequenos negócios, deixando o caminho livre para investir no aumento da competitividade, dentro e fora do País.

É a nossa contribuição para que os empreendedores, sem as amarras, continuem sendo protagonistas da retomada da economia, conduzindo negócios saudáveis e lucrativos e, sobretudo, gerando emprego e renda para toda sociedade.

Paulo Skaf é presidente do Sebrae-SP


A memória também inventa




Geraldo Bonadio

Um amigo de muitos anos, ao reencontrá-lo, relembrou, especificando pessoas, datas e lugares, situações cômicas ou dramáticas que partilharam e pediu, para cada uma delas, sua confirmação. Surpreendido, você teve de fazer sucessivas escolhas entre ser agradável e carimbá-las como reais ou, fiel às próprias memórias, desmenti-las. Na verdade, nada daquilo ocorreu.

As "lembranças" não prejudicavam ninguém e, por isso, optou pelo assentimento desenxabido. Agora, sua consciência insiste em regurgitar o episódio mal digerido. Ela rejeita sua transformação em personagem de "fatos" somente ocorridos na imaginação do outro.

Fique na paz. Descompassos entre realidade e lembrança são comuns. Você não foi o primeiro nem será o último a ser afetado pelo o desassossego que produzem.

A amizade entre os jornalistas Jânio de Freitas e Carlos Heitor Cony, principiada há mais de 50 anos, durou até a morte deste, há poucos dias. Relembrando o amigo, Jânio conta que ele, em crônica recente, lembrou, os tempos em que os dois, mais Antonio Callado e Luiz Alberto Bahia, saiam juntos, tarde da noite, do "Correio da Manhã", em que trabalhavam. E identifica, no texto, um problema: "nunca trabalhei com Callado e Bahia".

Esclarece que, em Cony, a eventual dissintonia entre o real e a lembrança nunca brotou da má-fé. "O fictício lhe ocorria, jorrava (...) e ganhava sua certeza com uma convicção capaz até de provocar atritos e mágoas". "Nunca o vi aceitar com naturalidade uma observação, de quem quer que fosse, sobre divergências suas com a memória alheia" -- remata.

Há uma lição a extrair de situações assim: jamais crer cegamente no que a memória diz, mesmo em relato cheio de cores e pormenores. Se estão em jogo honra, patrimônio e liberdade de alguém, confira a exatidão das lembranças, antes de jurar por elas.

"(...) Não se associem com o perverso para prestar falso testemunho. Não (...) deem testemunho mentiroso numa disputa apenas para agradar a multidão."

Êxodo 23:1-3
A Mensagem. Bíblia em Linguagem Contemporânea