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D. Querência - a velhinha irada




José Milton Castan Jr.

Há alguns meses...
--- Alô! Vovó? Tudo bem com a senhora?
--- Oi Pri! Tô te ligando porque preciso falar com você! - a voz da vovó Querência no telefone parecia alegre, mas apesar disso...
--- Aconteceu algo? - se preocupou a neta Priscila.
--- Não! Mas preciso que venha aqui em casa.
--- Tá bom vovó... irei à noite depois da faculdade.
Mais tarde na casa de D. Querência:
--- Fiquei preocupada vovó! O que aconteceu?
--- Na verdade quero te dar um presente Priscila! - falou D. Querência com um ar de suspense.
--- E qual presente vovó? - Perguntou a neta meio ressabiada, pois a avó nos últimos meses vinha tendo uns comportamentos meio extravagantes.
--- Você não falou que queria ir no Rock in Rio?
--- Ôoo! - Priscila com um sorriso no rosto.
--- Quero te dar isso, na verdade já comprei ingresso, passagem de avião e reservei hotel... - falava D. Querência toda alegre.
--- Como assim vovó? - Priscila bem surpresa.
--- Pra nós duas...vou com você! - falou D. Querência.
Priscila não sabia se ficava alegre, preocupada ou sabia lá o quê! A avó e ela no Rock in Rio, no meio daquela multidão...
A avó sabendo da reação da neta falou:
--- Já armei um plano, vou de cadeira de rodas e você entra me empurrando! - falou decidida - viajamos na quinta-feira e na sexta vamos assistir Bon Jovi!
Priscila ficou sem o que falar. E nisto entra na sala Seu Salvador, avô de Priscila e o esposo bravo de D. Querência.
--- Escutei direito Querência? - falou irritado - você de novo com essas ideias malucas. Semana retrasada você pulou de paraquedas...
D. Querência não se abalou:
--- E agora vou andar de tirolesa no Rock in Rio, e depois vamos assistir o show!
Foi um rebu daqueles na casa dos Mirandas. Seu Salvador Miranda chamou a filha Martinha, mãe de Priscila e decretou:
--- Sua mãe tá ficando lelé! De novo com essas ideias... agora quer ir no Rock in Rio. Não vai não!
Martinha foi ter com a mãe, D. Querência:
--- Mamãe larga mão, por favor, lá tem muita gente, nem dá para ir no banheiro. E o show é bem tarde! Isso é coisa pra gente jovem!
D. Querência resoluta:
--- Isso mesmo! Estou me sentindo muito jovem...e se você veio aqui para ser porta-voz de seu pai, desista. Eu e Priscila iremos para o Rio.
A coisa foi esquentando. Martinha foi falar com o marido e pediu para ele convencer a filha Priscila para desistir dessa loucura.
--- Papai - falou Priscila - não tenho o que fazer, a vovó já comprou tudo, e no fundo quero muito ir também. Vai ser irado estar lá com a vovó!
O clima na casa ficou ruim. Seu Salvador dizendo que irá sair de casa se ela for. D. Querência insistindo em ir. Martinha tentando amenizar. Priscila querendo ir. Até que... Seu Salvador decidiu chamar o D. Adson - o geriatra de D. Querência. Reunião em família. Na sala todos envolvidos.
Discussão intensa, e o Dr. Adson atento a tudo.
--- Doutor - falou Seu Salvador - a Querência depois que passou a tomar aqueles remédios, começou a ficar assim toda serelepe.
--- Pouco importa - falou D. Querência - estou feliz e com muita energia, e se bobear eu é que saio de casa!
Doutor Adson sabia que Seu Raimundo tinha razão. Aliás D. Querência estava diferente mesmo. Deu até para usar gírias... Depois de muito refletir o médico falou:
--- Vai sim D. Querência! Não era todo mundo que reclamava que a senhora tava depressiva, não saia de casa e que seu nome fazia jus à sua vida? Vai mesmo, seja feliz e aproveite a vida... e se der vou com a senhora!
Um ""ohhhh"" ecou pela sala.
D. Querência e Priscila sorrindo.
--- E que banda a senhora vai assistir? - perguntou Dr. Adson.
--- Aquela coisa maravilhosa do Bon Jovi - falou toda faceira D. Querência.
--- O quê? - interpelou Seu Raimundo - assistir um ""bom jovem?"" Eu que não quero ficar aqui parado ""dando uma"" de ""mau veio"". Pronto mudei de ideia: também vou!
Não sei se você leitor viu na tv, mas que uma velhinha passou voando na tirolesa, isso passou. E logo atrás um velhinho de boné virado pra trás. Eu vi!!


José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br

A semente estéril e o cio da terra




Geraldo Bonadio

A fecundidade da Terra e das sementes que o homem lança sobre ela, ano após ano, a fim de prover o sustento dos que a habitam, é uma das maiores dádivas de Deus.

É ela quem cria a amorosa relação, descrita por Chico Buarque, na qual o lavrador, após afagá-la e conhecer-lhe os desejos, fecunda o chão. Dessa convivência resulta a serenidade pós-colheita, assim exposta por José Fortuna: "Sob o chão de folhas mortas / a terra dorme segura / que nos trará para o ano / novo parto de fartura".

Esse ponto essencial do plano de Deus é afrontado, neste momento, por uns poucos grupos -- seis ao todo -- empenhados em difundir sementes que, estéreis, não irão gerar novas plantas, tornando os povos reféns dos que especulam com os fundamentos da vida. O Brasil -- triste é dizê-lo -- tende a se tornar o primeiro país a curvar-se ante essa empreitada sinistra, capaz, até, de extinguir nossos maiores biomas, como a Floresta Amazônica.

Os seguidores de Jesus, que prontamente reagem a ameaças na área dos costumes, mostram pouca sensibilidade frente a abominações como as sementes estéreis, desfiguradoras da natureza, nascida das mãos de Deus, e assim compõem uma horrenda blasfêmia contra o Criador.

É tempo de voltarmos à Palavra e reaprendermos o perene ensinamento sobre as incindíveis relações entre a Terra, a vida de todo ser vivo e a sorte da humanidade.

"Deus disse: "Eis que eu vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirvam de alimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus, a tudo o que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, eu dou toda a erva verde por alimento. E assim se fez. Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom. (...)"

Gênesis 1:29-31 Bíblia Ave Maria