Pequenos Milagres


O poder da gratidão como prática espiritual




Por Nilson Ribeiro
 
 
Um dos meus mestres me ensinou aquele que considero meu mais poderoso mantra: "Obrigado". Me pediu para lembrar de agradecer a tudo, sempre que possível. Assim, há algum tempo, venho praticando esse mantra. De início me pareceu um tanto mecânico. Mas com o tempo, seu profundo sentido foi a mim sendo revelado. Quando caminho pela manhã, agradeço ao sol, à neblina, à terra que piso, aos pássaros, minhas pernas, meu coração bombeando sangue pelo corpo.
 
E assim vou. Durante o dia, sempre que me lembro, agradeço meu alimento, o ar que me alenta, algum trabalho que me sustente, a música que ouço. Aprendi, assim, a agradecer tudo que me trouxe até aqui. As pessoas que me amaram, as que me magoaram, os beijos e os tapas, os voos e os tropeços.
 
Fui entendendo o ditado zen que anuncia: "nenhum floco de neve pode cair em algum lugar errado". O ensinamento da perfeição em todas as coisas. "Por que é impossível existir uma flor perfeita?", desafia o Koan praticado pelos samurais. Lá no fundo eu penso: eu sei a resposta. E repito internamente. "Porque todas são perfeitas". E me lembro das palavras do escritor Walt Whitman: "Quanto a mim, só conheço milagres". E do mestre Tchit Nhat Han: "Milagre é andar sobre a terra". 
 
Quando o mesmo mestre me disse "está sempre tudo bem", achei o ensinamento duvidoso. Pensava com meus botões: "Mesmo quando estamos tristes e confusos? Mesmo doentes? Mesmo quando alguém que amamos se vai? Mesmo com esse mundo como está? Com tanto preconceito, mesquinhez, obtusidade, ganância desenfreada?". Mas aos poucos também fui aprendendo que toda confusão, medo, mesquinharia, raiva, ressentimento, mágoa, dor pertencem ao território da mente, e suas sutis impressões na memória do corpo, nosso passado condensado.
 
Quando avançamos para além da identificação da mente/corpo, para aquilo a que damos muitos nomes (Ser, Graça, Mente Búdica, Reino dos Céus), tudo está em sua total perfeição. Por isso, a gratidão é um diálogo sagrado. Agradecer é dar graças a. Quando agradecemos, nossa "Graça" dá graças à própria "Graça". É um diálogo silencioso que pertence ao território do sagrado, para além de nossas identificações. É quando nos entregamos aos braços de Deus. Com gratidão e confiança.
 
Se, no meu último momento nesta passagem pelo mundo, quando este corpo de água e terra estiver sendo devolvido junto com minha mente de memórias e ilusões, em meio ao medo e confusão dos meus pensamentos e sentimentos, se eu puder encontrar, para além desse caos, essa profunda gratidão no meu coração, eu saberei que valeu a pena essa jornada.
 
Minha prece final: que no meu último alento nesta terra eu possa me lembrar do poderoso mantra ensinado pelo meu mestre, e que no meu suspiro final eu possa dizer: "OBRIGADO!"
Bom dia, Vida!
 
Nilson Ribeiro é jornalista, escritor, compositor, professor e pesquisador
nilribeiro63@hotmail.com





Um papo inesperado com Deus



Por Nilson Ribeiro

 

Então, meu bom amigo programou sua viagem romântica dos sonhos por 22 longos anos. Nos últimos três anos apenas aguardava a “pessoa certa” para a jornada. Finalmente encontrou. Preparou tudo para a tal viagem.

 

Poucos dias antes, o imprevisto. A relação foi rompida, por uma série de fatores que não vale a pena comentar. Ele pensou em cancelar a viagem, já com passagem comprada e hotel reservado. Na última hora, decidiu ir sozinho. Coração partido no peito e uma mochila pequena nas costas, lá se foi ele, não sem uma boa dose de mági, tristeza e frustração.

 

Aconteceu então que, durante uma caminhada, lá, no meio do nada (e no meio de tudo), lagos turquesas, florestas douradas, vento frio cortante, montanhas com o pico coberto de neve, ele encontrou uma outra coisa. Me relatou que teve uma epifania... Um papo breve e poderoso com Deus. O vento forte nas costas jogava sua angústia na profundeza das águas do lago. E a brisa no rosto trazia da superfície dançante do mesmo lago uma nova luz para o coração.

 

Voltou agradecido e leve. Queria apenas uma viagem romântica. Teve uma inesquecível e transformadora jornada de Amor.

 

Bom dia, Vida!

 

Nilson Ribeiro é jornalista, escritor, músico, compositor, professor e pesquisador

nilribeiro63@hotmail.com

 

 





As crianças sempre nos ensinam a viver




Por Nilson Ribeiro
 
Por quase todas as manhãs tenho o privilégio de ficar sozinho algumas horas com Arthur, meu filho. Esta história aconteceu quando ele tinha ainda apenas um ano e meio. Hoje ele está com quatro anos. Ainda temos nosso tempo. Só eu e ele. Mônica dá suas aulas nesse período e é meu "turno" com Arthur.
 
Isso é bom de várias maneiras. Primeiro, posso sentir como é verdadeiramente desafiante tomar conta de um garoto dessa idade, saudável e com tanto espaço. A maravilha é que consigo uma melhor aproximação com ele que, nesta idade, está grudado na mãe o resto do tempo.Mas passar algum tempo com Arthur é privilégio para qualquer um, tamanha a criatividade e disponibilidade para a vida que esse garoto tem.
 
Numa dessas manhãs, a brincadeira escolhida por ele foi "puxar trator". Arthur sempre foi apaixonado por tratores, caminhões, ferramentas, mato. Graças à mãe, também apaixonada por tudo que lembra sítio ou fazenda. Pois bem. Arthur escolheu seu trator e ficou me olhando. Saí andando. Nada dele me seguir. "Vamos, Arthur!" Nada. Arthur me olha e solta: "Tratoi... papai..." Demorei um segundo para entender que ele queria que eu também puxasse um trator. Coisa muito simples que a lógica adulta demora a perceber. Brincadeira de um é chato pra caramba! Então, encontrei o outro trator e saímos pelo campo.
 
Arthur puxa o trator dele como se andasse pelas estradas do mundo todo. Escolhe os caminhos com pedras, mato alto, pequenas saliências, buracos. E eu, os caminhos menos complicados. Arthur para, recolhe algumas pedras na caçamba. Para de novo e despeja as pedras no buraco. Olha para mim e sorri. E recomeça a brincadeira. De repente percebi: ao ser convidado para o universo dele, e aceitando o convite, redescubro a minha própria criança, muito viva e certamente cansada de esperar para poder brincar novamente.
 
Então, já não escolho mais os caminhos fáceis. Meu trator anda junto ao dele, pelas pedras e buracos. Capota, fica de pneus para o ar. Arthur ri alto do acidente. Sento na terra e rimos juntos. Agora sim é uma brincadeira de crianças. E eu não quero estar em outro lugar - ou tempo -  no mundo. O perfeito milagre da vida acontece aqui e agora, com a ajuda do meu pequeno Arthur.
 
Bom Dia, Vida!
 
Nilson Ribeiro é jornalista, músico, compositor, escritor e pesquisador
nilribeiro63@hotmail.com