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O lado sombrio da humanidade



"Roda Gigante" (Wonder Whell, 2017), o mais recente filme de Woody Allen, tem seu charme e dá margem a muitas interpretações. A história se passa em Coney Island, região de Nova York localizada no bairro do Brooklyn, cuja maior atração é o famoso parque de diversões. Kate Winslet vive Ginny, mulher sofrida que trabalha como garçonete no parque, casada com o operador de carrossel Humpty (James Belushi), este grosseirão, que se torna violento quando bebe uma cerveja ou duas.

Ginny, carente, acaba se apaixonando pelo salva-vidas Mickey (Justin Timberlake), que fala todas as palavras que ela quer ouvir, se interessa por suas leituras e diz enxergar nela a estrela que ela gostaria de ser. Ou seja, ele a transporta para o mundo de sonhos, tirando-a do cotidiano modorrento no qual tem que aturar o marido simplório.

Quando à equação se junta Carolina (Juno Temple), filha de Humpty ¿ portanto enteada de Ginny ¿, a coisa se complica. A moça acaba atraindo os olhares de Mickey e também se interessa pelo rapaz.

Sob a luz incrível criada pelo diretor de fotografia Vittorio Storaro, a trama segue seu curso oferecendo a Winslet palco para mostrar todo o talento. Como sabemos, Allen tem o dom de tirar das atrizes seu melhor, a exemplo de Diane Keaton em "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" (1978) a Cate Blanchett em "Blue Jasmine" (2013) ¿ para ficar apenas em duas ganhadoras do Oscar pela atuação.

O teor supostamente autobiográfico do roteiro incita o debate. Como todos que acompanham o noticiário lembram, Woody Allen deixou Mia Farrow nos anos de 1990 para ficar com Soon-Yi Previn, filha adotiva de Mia e do seu marido anterior, André Previn. A revelação enfureceu Mia à época e chocou muita gente mundo afora. Mas o casal está junto até hoje, 25 anos depois. Uma relação estável, portanto.

Em 1992, logo depois da separação, teria ocorrido o abuso sexual de Dylan Farrow, então com sete anos de idade. A moça veio a público mais uma vez, recentemente, para reafirmar que foi abusada pelo pai adotivo. Podemos questionar alguns pontos desse imbróglio. Um deles é por que voltar a falar no assunto neste momento, pegando carona na divulgação dos diversos casos de assédio sexual cometidos por poderosos de Hollywood? O caso, em si, não teria força suficiente para se sustentar sozinho?

Outro ponto: à época foi noticiado que a unidade especial de abuso de crianças de Connecticut, que investigou o caso, concluiu categoricamente que Dylan não foi sexualmente abusada. As hipóteses apontadas estão entre invenção de uma criança emocionalmente instável ou influência pela mãe. Isso deixa muitas dúvidas no ar. Seria Mia Farrow louca o suficiente para incutir tal trauma na própria filha apenas para se vingar do ex-marido? Parece cruel demais.

Não podemos saber com certeza o que ocorreu. E não acredito que criador e criatura andem separadamente. Mas a condenação que se vem fazendo do filme de Allen por essa razão é questionável, já que nada foi provado de fato contra ele.

"Roda Gigante" aparece com 30% na cotação dos críticos no site Rotten Tomatoes; e 44% na avaliação do público. Compare: "Star Wars ¿ O Último Jedi" bate nos 90%. Quanto disso será em razão da crença na veracidade das denúncias?

Não que o novo filme seja dos melhores já feitos. Longe disso. É apenas razoável. Mesmo se levarmos em conta apenas as tragicomédias e não o seu melhor, que são os longas calcados no humor. O apreço de Allen por tramas sombrias já aparece em "Crimes e Pecados" (1989). E ele não esconde que Doistoiévski é uma grande fonte de inspiração, principalmente o livro "Crime e Castigo". No ótimo "Match Point - Ponto Final" (2005), Scarlett Johansson está em um dos seus melhores momentos, assim como Jonathan Rhys Meyers, mas é também pessimista. A frase "Eu prefiro ter sorte do que ser bom", proferida pelo jogador de tênis, pode ser considerada o mote da história.





Neste "Roda Gigante", ele enveredou pelo tom soturno sem fazer muitas concessões ao humor. Poderíamos interpretar como uma declaração de que humanidade não presta, a índole das pessoas é essencialmente egoísta e nada o que se pense ou se faça mudará isso. Para obter dinheiro ou sexo, os seres humanos estão dispostos a tudo, até matar. Será?

Lúcia Helena de Camargoé jornalista e cinéfila

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Assassinatos em série e DiCaprio no novo Tarantino




Sabe aqueles filmes que você já gosta antes de assistir? Aliás, antes mesmo de ser feito? Não é falta de critérios críticos, mas uma afeição ao modo de fazer cinema que já coloca a disposição no positivo. É o caso desse, que terá Leonardo DiCaprio no elenco, sob a direção de Quentin Tarantino. A última vez que eles trabalharam juntos foi em “Django Livre” (2012). E o resultado foi ótimo. 
 
Ainda sem título oficial e conhecido apenas por #9, o longa vai começar a ser filmado em breve.  O tema: os assassinatos cometidos pelo serial killer Charles Manson.
 
DiCaprio vai viver um ator decadente que deseja a todo custo ser famoso. Margot Robbie foi convidada a assumir o papel de Sharon Tate. A atriz estava grávida de oito meses quando foi morta por membros de uma seita liderada por Manson, em 1969. À época, ela era mulher do cineasta Roman Polanski. Tom Cruise também foi chamado para o filme, assim como Brad Pitt e Al Pacino. Mas por hora o único confirmado é DiCaprio. 
 
Com produção da Sony Pictures e orçamento estimado em US$ 100 milhões, a estreia mundial está prevista para agosto de 2019.
 
Claro, se Tarantino pisar na bola, a gente vai falar. Mas isso é pouco provável. 
 
 
 
 





A morte é uma festa




Falar sobre morte nunca é fácil. Nossa cultura não nos prepara para o afêmero. Abordar o assunto com crianças é ainda mais difícil. Os contos de fada terminam com a frase “E foram felizes para sempre”. O filme “Viva – A vida é uma Festa”, em cartaz, consegue falar diretamente sobre a finitude de maneira lúdica, sem dourar a pílula. Morte é morte. 
 
Criada pela Pixar, parte do conglomerado Disney, a animação foi buscar na cultura mexicana a inspiração. O dia dos mortos, celebrado no dia 2 de novembro, não é parecido com o Finados que conhecemos no Brasil. Aqui, a data é triste. Lá, é uma festa com muita música e dança.





Assim, “Viva – A vida é uma Festa” traz o menino Miguel, de 12 anos, que deseja ser músico profissional, mas sua família não permite, porque seu tataravô abandonou a família para ser músico. O dia dos mortos se aproxima e as casas e ruas estão enfeitadas com flores e retratos dos antepassados. 
 
O visual é exuberante e detalhista como em todos filmes da Pixar. Conhecidos por incluir minúcias que escapam até aos olhos mais atentos (e vão sendo descobertas à medida que assistimos novamente aos filmes), aqui não é diferente. Repare nas texturas exatas das flores, nos ambientes, roupas, mobílias das residências. Nada ali está à toa ou é algo inventado.  
 
Enquanto fala sobre o culto à continuidade das relações familiares e de amizade, mesmo após a morte, “Viva” vai mostrando costumes mexicanos. A pesquisa foi bem feita, pois o filme está batendo recordes de bilheteria no México e se anuncia que será o filme mais visto da história no país, superando blockbusters em arrecadação. A bilheteria mundial já ultrapassa 591 milhões de dólares (aproximadamente 2,1 bilhões de reais). 
 
Com direção de Lee Unkrich, fica a impressão de que ter sido gerada pelo estúdio Pixar foi fundamental. Mais do que a exímia qualidade técnica do desenho, a trama acerta o tom para ser emocionante sem soar piegas ou lugar-comum, qualidades nem sempre presentes em produções Disney.  
 
Como em alguns dos bons filmes do estúdio – “Procurando Nemo” e “Monstros S.A.”, por exemplo – a história tem camadas para agradar às diferentes idades. Os mais pequenos ficarão com as cores, a festa e boa música. Aqueles um pouco maiores, talvez com dez ou 12 anos, como o protagonista Miguel, poderão fazer conexões com a vida cotidiana, lembrar de uma avó que já morreu e pensar sobre o assunto. E a trama também pode levar adultos às lágrimas. 
 
Uma curiosidade é que o título em português muda totalmente o original: Coco, que é o nome da matriarca da retratada, Mama Coco. A justificativa da Disney no Brasil foi que a mudança ocorreu para “evitar um incômodo jogo de palavras”. Não deram maiores explicações. Será que ficaram com medo de que alguém pronunciasse “cocô”? Temos a palavra “coco”, a fruta, em português. 
 
A questão dos idiomas é complicada. Evidentemente falado em inglês, traz alguns diálogos, expressões e canções em espanhol. O mexicano Gael Garcia Bernal é uma das vozes. No Brasil, a maioria verá mesmo dublado em português. Consegui ver o filme na versão original na semana da estreia, em são Paulo, aproveitando uma das poucas cópias distribuídas. Nesta segunda semana em cartaz, porém, só permaneceram em cartaz as cópias dubladas em português. De todo modo, se for acompanhar uma criança ao cinema, não tem mesmo jeito. Terá que ver dublada. Em Sorocaba, só estrearam cópias dubladas em português. 

 

Lúcia Helena de Camargo é jornalista e cinéfila

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