Blog do Simões


Festival de teatro na cidade de Salto fortalece as artes cênicas da região




FESTIVAL DE TEATRO CARPE DIEM - SALTO


Bate papo com Marcelo Sanntto um dos curadores (em conjunto com Fátima Martins) do IV FESTIVAL CARPE DIEM realizado na cidade de Salto


Os festivais de teatro que acontecem na região não são somente espaços de trocas artísticas e culturais, mas importantes espaços de visibilidade e fortalecimento das artes cênicas da região metropolitana de Sorocaba (RMS).
 
O festival de teatro acontece no período de 06 a 08 de abril e as inscrições para o festival ainda estão abertas até o dia 10 de fevereiro (no endereço eletronico http://festivalcarpediem.wixsite.com/festivalcarpediem). Conforme a curadoria do festival  esta edição terá o Professor Valderez Antonio Bergamo Silva como o homenageado.
 
É importante destacar (e valorizar) que a realização do festival  de teatro conta com o apoio e a produção do poder público do município, por meio da Secretaria Muncipal da Cultura do município de Salto (Secretário Sandro Bergamo/Prefeito Jose Geraldo Garcia).
 
Segue o bate papo:


JOSE SIMOES: Como surgiu a proposta desse festival de teatro na cidade de Salto?

MARCELO SANNTTO: A idéia foi amadurecendo após participarmos por quase 10 anos de festivais pelo Brasil ( com o grupo STCA produções). Depois dessa caminhada decidimos, por fim, criar o Festival Carpe Diem. Muitos sonhos dentre eles o de colaborar com o desenvolvimento do teatro da região. A primeira realização foi em 2015.


JOSE SIMOES: Por que a proposta de um festival nacional e não regional?

MARCELO SANNTTO: Tem uma história. Antes havíamos produzido o Festival Taperá de cenas curtas que era somente regional. Porém, na sua segunda edição, conseguimos o financiamento para o evento. Olha que beleza! Mas aconteceu quenão tinhamos inscritos da região. Diante dessa situação inusitada abrimos nacionalmente e vieram muitas inscrições. Depois disso seguimos sempre com projetos nacionais.
 

JOSE SIMOES: Como se organiza o festival e o que o diferencia?

MARCELO SANNTTO: o edital é divulgado quatro meses antes da sua realização (está aberto agora). Desse modo, ao longo do ano, buscamos parcerias com o setor publico e setor privado para a  sua realização. Escolhemos a data porque coincide com a criação do grupo STCA produções. No processo são selecionadas entre 7 a 10 peças para a programação. Dai temos um juri e premiação. Todo ele acontece num único final de semana. Uma das principais características do festival é possibilitar a troca artística. Os participantes (como consta do edital do festival) precisam estar presentes em todas as ações do evento.  Não se trata de vir,  apresentar, e ir embora. Além disso propiciamos outras situações no sentido de buscar criar espaços de troca durante o festival. Por exemplo o almoço é servido na minha casa. Isso segundo todos os participantes resulta num evento intimista e querido por todos que aqui passam. E assim por diante.
 
 





POLÍTICA CULTURAL: Como construir um centro vivo?




NA VITRINE - OPINIÃO

Como construir um centro vivo?
 

Hoje o Blog do Simoes convida Tulio Colombo Corrêa para escrever um post acerca da cultura e cidade. Como é sabido os centros urbanos são alvo de disputas de vários tipos e permeado de contradições. Eu, particularmente, acredito que o centro da cidade é um dos polos geradores e de produção do imaginário da cultura de uma comunidade. É bem por isso que quando tive oportunidade de trabalhar com políticas públicas elegi este como o foco prioritário do trabalho - VIVA O CENTRO. Precisamos de um centro vivo para se ter uma cidade viva.
Segue o texto do Tulio (ou textão como queiram) sobre o assunto.
Essa é justamente a vantagem de um blog em relação ao jornal impresso poder avançar nas linhas e na reflexão. Boa leitura.
Com a palavra Tulio Colombo Corrêa:
 
Comecemos com a seguinte questão: como construir um centro urbano vivo?
 
 
Essa pergunta tem inúmeros desdobramentos sociais, políticos e econômicos uma vez que tece desde imposições até resistências acerca da produção do espaço e, usualmente, dentro do sistema de políticas públicas, planos diretores e discussões institucionais (públicas e privadas) que são direcionadas à esse fim focam em produtos e não nos processos. Para que o espaço seja ocupado é necessário que as pessoas se sintam parte dele, sendo essencial a construção desse lugar junto com elas.

Fazendo uma análise em macro-escala, o centro da cidade de Sorocaba, diferentemente de tempos mais antigos onde havia clubes e propostas de recreação, tem atualmente apenas duas funções: o comércio, e a moradia. Se pensarmos essa dualidade nas funções, a única que tem impacto direto na ocupação coletiva do espaço é o comércio, uma vez que as moradias verticalizadas são ensimesmadas e trazem uma noção de propriedade individual muito bem delimitada e distante da convivência pública. A partir daí entendemos que das duas funções a primeira é a que incita algum tipo de circulação constante nas ruas, e essa tem hora para abrir e fechar! Tirando o horário de funcionamento, o centro fica órfão de atividades externas ao âmbito privado. Vejam, não estou colocando o comércio como principal opção plausível para aferir vivacidade ao centro, inclusive é perigoso colocá-lo dessa forma justamente porque o comércio é um espaço também privado (tem sua própria clientela e políticas internas) e, mesmo trazendo  fluxo de pessoas para uma área, a relação construída é transitória e, portanto, sem qualquer tipo de responsabilização pelo espaço afinal o que está estabelecido se expressa em consumo de bens e serviços. É justamente essa relação de clientelismo que caracteriza a concepção do espaço público através dos processos propostos entre poder público e população.

A questão chave está aí - De que forma esses processos são feitos?

Nesse quesito posso trazer Paulo Freire para ilustrar um ponto chave a partir de seus conceitos de educação como prática de liberdade e educação como prática de dominação: se o processo é feito com e para a população que utiliza e habita o contexto à ser trabalhado, há  criação de empatia, empoderamento e emancipação em relação às decisões, cuidados e responsabilidades sobre aquele local. Ou seja, há a construção de uma relação de cooperação entre o poder público, que tem a obrigação legal/moral/ética de construir políticas PÚBLICAS para um determinado local, e a população, que passa a compreender seu contexto e pensar de maneira coletiva a produção do espaço e das relações sociais ali presentes. Para isso podemos aplicar princípios de uma educação como prática de liberdade já que educação não se restringe à escola, mas pode se ampliar para a construção de saberes conjuntos e populares acerca de algo. O que ocorre é que quando tratamos de concepção de espaço público, temos entraves estruturais do sistema como,por exemplo, parcerias público-privadas (que por aceitarem dinheiro privado e pelas fragilidades judiciárias acabam terceirizando a gestão do espaço) e falta de vontade política para a construção de plataformas de construção coletiva junto à população  extrapolando audiências públicas esvaziadas, que buscam o selo de "participação" em divulgações pífias descuidadas e apresentações com linguagens técnicas/tecnicistas distantes do saber da maioria da população. Isso afasta das pessoas  a gestão e a possibilidade de se fazer algo sobre aquele local, assim a autonomia não é construída e também se torna proibida, seja pela complexidade burocrática ou por leis abusivas. Aí compreendemos indícios de uma educação como prática de dominação, cada vez mais presente na era do capitalismo neoliberal.
  
Como pensar então em possibilidades para a construção de um centro vivo?

Por parte do poder público a primeira coisa é vontade política e ética em relação aos gastos públicos, uma vez que produção do espaço implica em educação, saúde, infraestrutura, segurança... todas  questões previstas em lei e constituindo parte das responsabilidades do estado, pela constituição (que talvez esteja em vigor na atual conjuntura), com possibilidades de dispositivos e análises específicas para políticas urbanas criadas pelo Estatuto da Cidade, por exemplo. Por parte da população cabe a organização e mobilização para defesa de seus interesses comuns através de associações, coletivos, movimentos, da arte, de fóruns, de brincadeiras¿ atividades feitas autonomamente e/ou financiadas/fomentadas pelo poder público que consigam recriar as relações sociais nos lugares, o que gera novas proposições espaciais! Bem sabemos que, principalmente hoje, o que temos é um Estado-Capital que não se importa com a vivacidade dos espaços públicos, inclusive isso impõe problemas como insegurança e violência justificando um ciclo que gera medo e por consequência descaso da população com o local. Portando a solução principal que podemos compreender é ocupar o espaço público, construindo perspectivas que partam da população e que sejam atendidas pelo poder e recurso público que, hoje mais do que nunca, estão em disputa entre os interesses populares e os interesses das empresas privadas.

A construção de um centro urbano vivo deve vir de baixo para cima, advinda de novas relações sociais que permitam as diversidades, a não discriminação e a permanência de pessoas nos espaços para que possamos trocar mais entre nós. Devemos parar de nos comportar como robôs e passar a observar melhor os lugares, tentar criar algum tipo de relação com o espaço em que estamos, seja afetiva, crítica¿ enfim, ser afetado por algo te coloca em posição de fazer alguma coisa sobre aquilo. As pessoas correm em fluxo nas ruas como se fossem carros ou mercadorias, e se quer se olham ou se reconhecem nos outros - para ser sincero, ou passamos a entender que a cidade também é um bem compartilhado e coletivo ou continuaremos a construir e reiterar centros residuais e transitórios que não permitem trocas, permanência e afetações.

Tulio Colombo Corrêa
(Jovem sorocabano, Ativista das Cidades, Diversidade e Culturas. Cidadão do e no mundo)





Por que não uma cooperativa de teatro na Região Metropolitana de Sorocaba?




NA VITRINE - Opinião

Por que não uma cooperativa de teatro na Região Metropolitana de Sorocaba?

Essa não é uma questão de fácil resposta.
Mas vamos "colocar a colher no caldo" e movimentar o assunto.

O grupo de teatro (um coletivo, uma associação, um indivíduo ou outra denominação qualquer) é aquele que busca viabilizar e ofertar ao público um espetáculo teatral ou algo que se possa denominar de um produto artístico e cênico.
Este produto artístico não é igual a um produto ou serviço "não artístico". Tal como uma cadeira, uma mesa, um sofá, etc.
O espetáculo teatral tem características e modos de produção que lhe são próprios. Muitas vezes é difícil compreender como são produzidos estes produtos para aqueles que não fazem parte do sistema de produção artística.
Uma  das características da produçao cênica é a importância  da crença (ou fé ou envolvimento) de todos os seus integrantes na realização da cena. Há uma mística no processo. Não é a toa que muitas das teorias do teatro dialogam profundamente com as questões do sagrado.

Acreditar é muito importante no processo artístico.  Por isso muitos dos trabalhos no teatro se organizam a partir das redes de contato dos próprios artistas. São pessoas que de algum modo estabecem uma relação de crença com o artista. 

Assim no produto cênico sempre habitam várias crenças. Dentre elas a de que ele "será bom e é arte".

Ao assistirmos um espetáculo de teatro estamos diante um produto singular, único. Já que durante o processo de criação daquele espetáculo estão amalgamados conceitos de arte, de crença dos envolvidos,etc ; entre tantas subjetividades e abstrações . Todavia somente esta crença não é o suficiente para se fazer teatro.

Acreditar que se faz  teatro pode não resultar em  teatro/produto nem para quem faz, nem para quem assiste .  Por exemplo, temos aquele ator (como certa vez descreveu minha amiga Ruth Elizabeth) com um pequeno problema de voz, que não estuda o texto, indisciplinado no horário e para completar o quadro acredita que é um grande ator. Ela conversou com ele (com delicadeza) que lhe explicou que são necessários estudo, fono e corpo. Mas ele (o ator) não escuta  e acredita que o que vale é somente a  sua crença (de que é ator).  Sofre porque não é reconhecido. OK. Pode continuar nesse caminho mas sem o trabalho árduo não vai avançar. Não vai encontrar parceiros para a sua aventura e que acreditem nele. A lógica do trabalho teatral esta vinculada ao reconhecimento do trabalho do outro. O teatro é cruel com quem não se permite aprender sempre.
Ou, noutro exemplo, aquele grupo de teatro  que estuda um tema a exaustão. Acredita no tema escolhido. Os artistas envolvidos  também acreditam e trabalham, trabalham. Crença.Ao final, após a montagem, se verifica que ela não funcionou. Muitas  são as variáveis que podem ser utilizadas para essa análise. Porém "não funcionar" é não funcionar mesmo naquele tempo e naquele espaço para o público. Esta experiencia poderá vir a ser marcante para o percurso do grupo? SIM.  Mas é outra história. Do mesmo modo o sucesso de uma montagem do grupo não é garantia que o proximo espetáculo do grupo também terá o mesmo sucesso.

A crença por si só não funciona.

Porém ao mesmo tempo  que a crença sozinha não funciona, sem a crença também não há produto artístico. É necessária a crença ou motivação no processo de criação cênica. 

Outra característica do produto teatral é a sua incompletude. Sim. O produto teatro é inacabado e somente se completa com a presença da plateia. 

E quem é a plateia? Um grupo de pessoas, na maioria das vezes desconhecidas, com pensamentos e desejos distintos, que por algumas horas se reúnem, numa espécie de contrato social, numa sala, rua, etc, para assistir o produto teatro.

Os artistas de teatro trabalham ( MUITO mesmo.São horas de ensaio) motivados (crença)  para produzir algo  que acreditam ser bom e artístico, porém, que somente irá se completar na presença de um outro desconhecido - a plateia. Dificil? Sim.

Mas não é dificil para quem faz teatro. Pois cada apresentação é  única. Uma aventura para o artista. Realmente é emocionante e ao mesmo tempo terrível não poder reter a emoção da cena para sempre. É esta a paixão que arrebata os que decidem fazer do teatro a sua profissão.

Mesmo ao se repetir o texto e as cenas todas as noites é diferente. É por isso que os verdadeiros artistas são preciosos e necessários para a sociedade.

Retomando.

O produto artístico teatro, portanto, tem caraterísticas singulares e modos de produção diferenciados. Ele necessita, também, de condições para reunir a plateia, de espaços para se apresentar,  circular e ser visto.

Assim me pergunto se seria possivel uma estrutura na qual pudessemos articular as atividades teatrais, considerando as especificidades do produto cênico  a produção material e  a circulação do Teatro, Dança, Circo, Performance na RMS (Região Metropolitana de Sorocaba). Foco na produção e circulação dos espetáculos.

Por que não criar uma cooperativa de teatro da Região Metropolitana de Sorocaba para este fim?

Um único CNPJ para participar dos editais, para assinar contratos e convênios, para dar condições individuais e coletivas de viabilização dos projetos. Emitir notas ficais para os cooperados em trabalhos eventuais. Reunir as informações dos editais de fomento da RMS e fora dela. Ampliar as oportunidades de produção. Realizar seminários, curso de formação, etc.  Valorizar e dar condições de trabalho aos artistas do interior.  A cooperativa paulista de teatro poderia ser um exemplo.

A legislação envolvida no caso da criação de uma cooperativa é a Lei 5.764/71. Um dos principais fundamentos do cooperativismo é que todos são "donos do negócio". Isso é importante! É preciso participar ativamente.
Ja temos na cidade de Sorocaba um movimento de artistas que se organizou de modo ativo para a criação do Conselho Municipal de Cultura. Muitas foram as conquistas e outras tantas virão desse grupo. Especificamente para as artes cênicas temos a sub sede do SATED- SP  em funcionamento na cidade. A nova gestão eleita do sindicato tem apresentado novas propostas e várias delas voltadas para o interior. Vamos acompanhar.
Por fim tivemos, em 2003, a fundação da ATS por Tom Barros, Fernando Lomardo, Sandra Costa e mais outros artistas da cidade. (Desculpem-me não me lembro de todos os nomes. Me mandem no email  do blog que eu adiciono para o registro). A ATS produziu festivais, encontros e muitas outras ações no campo das artes cênicas.
(Foi pensando na associação de teatro de sorocaba (ATS) que me senti estimulado a escrever este post.)
 
Por que não uma cooperativa de teatro da RMS Envolvendo todos os artistas que trabalham com as artes cênicas da Região Metropolitana de Sorocaba?
 
Eis a provocação para os fazedores/produtores desse produto tão nobre que são as artes da cena